Sublinhando…

21 12 2023

Menina lendo, 1954

Tatiana Jablonska (Ucrânia, 1917-2005)

[Tatiana Yablonskaya]

óleo sobre tela

 

 

 

“Todas as memórias do que passei na vida estão isoladas e seladas junto à minha língua materna, de forma inseparável. Quanto mais teimoso o isolamento, mais vívidas se tornam as memórias inesperadas. E o peso delas se torna ainda mais opressor. Assim, no verão passado parecia que, na verdade, o lugar para onde eu estava fugindo não era outra cidade, mas sim o interior de mim mesma.”

 

 

 

Em: O livro branco, Han Kang, tradução de Natália T. M. Okabayashi, São Paulo, Todavia: 2023, p. 21





Os melhores do ano do Papalivros

10 12 2023
Reunião de Final de Ano do Grupo Papalivros

 

Desde 2003, ou seja há vinte anos, o grupo de leitura Papalivros se encontra mensalmente para um papo e discussão do livro do mês.  Hoje comemoramos nosso último encontro do ano. Conversamos, brincamos com as crianças, falamos sobre Noites Brancas de Dostoiévski, livro do mês, votamos nos três melhores livros do ano, e tivemos o prazer de estarmos envolvidas, como espectadoras, no acender da quarta vela da cerimônia de Chanucá, a festividade que comemora a vitória da luz contra a escuridão, a preservação do espírito de Israel e a liberdade religiosa. Não poderia ter sido um momento mais apropriado para nos lembrarmos desse significado.  Foi uma reunião memorável. Algumas de nós estamos juntas desde o primeiro encontro. Envelhecemos juntas. Mas mesmo a mais recente participante está no grupo há muitos anos. Nem todas puderam vir hoje: de dezesseis, doze estavam presentes.

 

 

 

Houve muitos pontos altos nesta reunião. Entre eles, é claro, a votação dos melhores do ano. Aqui vão os candidatos, ou melhor, os 12 livros lidos durante o ano de 2023.

 

Lições, Ian McEwan

Ninféias negras, Michel Bussi

A tenda vermelha, Anita Diamant

O mistério de Henri Pick, David Foenkinos

Hotel Portofino, J. P. O’Connell

Orgulho e preconceito, Jane Austen

A última livraria de Londres, Madeline Martin

Uma mulher singular, Vivian Gornick

Caderno proibido, Alba de Cespedes

O sol também se levanta, Ernest Hemingway

Véspera, Carla Madeira

Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski

 

 

Como são computados os votos.  Cada participante recebe um cédula com a lista dos livros livros.  Ao lado do título colocará a classificação de acordo com seu gosto.  Só os três primeiros colocados.  Cada número 1 recebe 3 pontos; cada segundo lugar, recebe 2 pontos e 1 ponto os que ficaram em terceiro lugar.  Ao final somamos os pontos e temos a classificação.

 

 

1º lugar em 2023:

A última livraria de Londres, de Madeline Martin

 
 
2º lugar em 2023

Orgulho e preconceito, Jane Austen

 
 
3ª lugar em 2023 deu empate:

Caderno Proibido, Alba de Céspedes  e Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski





Curiosidade literária

13 11 2023

O desenho, 1879

David Oyens (Holanda, 1842-1902)

óleo sobre tela, 71 x 54 cm

 

 

Louisa May Alcott, a celebrada autora de Mulherzinhas (1868) morou em Concord, Massachusetts, mesma cidade em que  Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau eram residentes.  Louisa os conheceu.  Com Thoreau, o naturalista, teve os primeiros ensinamentos sobre a natureza, com poéticas descrições dos insetos aos cantos de pássaros.  Thoreau foi o primeiro amor de Louisa quando ainda criança. 

Já Emerson foi para Louisa, uma paixão adolescente.  Ela recebeu de presente do filósofo americano o livro Correspondência com uma Criança, de Goethe, coletânea de cartas escritas entre 1807-1808, para Bettina Brentano, quando esta tinha doze anos de idade e Goethe, sessenta.  É possível que Emerson estivesse mandando uma mensagem para Louisa, talvez ciente da paixonite de sua discípula por ele.  No entanto, isso não foi suficiente para deter Alcott que passou horas intermináveis escrevendo cartas apaixonadas para Emerson. No entanto, ela nunca as enviou.

 





Pomares de limoeiros na Itália, texto de Barbara Pym

29 10 2023

Coleção cítrica dos Medici, 1715

Espécies de limões e laranjas [DETALHE]

Bartolomeu Bimbi (Itália, 1648-1723)

Óleo sobre tela

Hoje, Palácio Pitti, Florença

 

 

 

“Ianthe ficou aliviada quando a levaram para o seu quarto e a deixaram sozinha para desfazer as malas. Saiu para a varandinha um tanto nervosa, achando que não parecia muito segura,e olhou para baixo para bosques de limoeiros. As árvores eram todas emaranhadas, deixando os frutos quase escondidos, mas Ianthe pode sentir que havia centenas, talvez milhares de limões pendendo entre as folhas. Todos aqueles limões, pensou, a enfermeira Dew diria que eles quase lhe davam arrepios. Para além dos bosques de limoeiros, pode enxergar o mar, o que a reconfortou, pois além do mar ficavam a Inglaterra, a sua casinha, a biblioteca e John.”

 

 

Em: Uma relação imprópria, Barbara Pym, tradução de Isabel Paquet de Araripe, Rio de Janeiro, Editora Record: 1982, p. 143

 

 

 

 





Uma sinopse intragável de editora brasileira de prestígio

20 10 2023

Moça de amarelo, 1936

Hilda Campofiorito (Brasil, 1901-1997)

óleo sobre tela

Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

 

Foi com grande choque que li esta semana a sinopse do livro Nana, de Émile Zola, publicado pela Editora Civilização Brasileira, nos dias de hoje parte do grupo Grupo Editorial Record, publicado em 2013, com tradução de Marcela Vieira.   ISBN: 978-85-200-1121-8

Nana é um clássico da literatura francesa, uma das grandes obras do escritor Émile Zola.  Esta obra não merece a sinopse escrita e publicada no site da editora, que reproduzo aqui, abaixo.  É um desserviço  aos leitores brasileiros e foge à  minha capacidade de compreensão como uma editora  de peso no Brasil deixa passar essa descrição.    Os grifos são meus.

“Sinopse

Naná é um dos romances mais conhecidos de Émile Zola. A personagem-título é a primeira periguete dos palcos, a grande vagabunda que alcança o maior sucesso na ribalta social, apesar de – ou talvez justamente por – ser desprovida de qualquer talento artístico. Filha de pai alcoólatra e de uma lavadeira, Naná é uma atriz de teatro medíocre, mas com um corpo de Vênus e uma sexualidade à flor da pele. É o tipo perfeito da prostituta de luxo, uma cortesã da alta sociedade francesa dos tempos do Segundo Império que enriquece à custa do comércio carnal.”

 

 

A intenção dessa descrição é uma das coisas que não consigo entender.  Quem aprovou isso?  Era empregado pago pela editora?  Porque evidentemente não sabia o que estava fazendo.  Teve a aprovação de quem?  E por quê?  Coloco abaixo duas outras sinopses do mesmo livro que, estando em domínio público, tem um maior número de edições.

 

Sinopse da Editora Nova Cultural, livro publicado em 2011:

 

“Integrante de um ciclo de vinte romances, Naná descreve a trajetória da filha de uma lavadeira que, corrompida na adolescência, transforma-se na mais poderosa cortesã do Segundo Império francês. Escrito em 1880, provavelmente este seja o romance mais popular de Émile Zola, e um dos perfis de mulher mais explorados pelo cinema e pela literatura.”

 

Sinopse da editora LEBOOKS, aqui abaixo:

 

“Naná é um romance escrito pelo autor naturalista francês, Émile Zola. Finalizado em 1880, Naná é o nono volume da série: “Os Rougon-Macquart” (Les Rougon-Macquart), cujo objetivo era descrever a “História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império”.  Naná, a protagonista título, pode ser considerada uma das primeiras vilãs da literatura, bem como a primeira “Femme Fatale”. Medíocre artista de teatro, mas com um corpo de Vênus e uma sexualidade desequilibrada e vulcânica, ela torna-se o tipo perfeito da prostituta de luxo, uma cortesã da sociedade francesa. Naná é um clássico da literatura e presença constante nas listas das melhores obras literárias, como é caso da famosa coletânea: “1001 Livros para ler antes de morrer”

 

E para contrastar, a sinopse da Editora Bertrand de Portugal, selo Relógio d’Água, edição de 2019

 

“Nana é um dos principais romances de Émile Zola. Nascida no meio operário, filha de um pai alcoólico e de uma lavadeira, Nana precisa de dinheiro para criar o filho que teve aos dezasseis anos de um pai desconhecido. Medíocre artista de teatro, prostitui-se para compor o ordenado ao fim do mês. A sua ascensão social começa com o papel de Vénus, que vai interpretar num teatro parisiense. Não sabe cantar, mas as suas roupas impudicas e a sexualidade intensa atraem os homens e permitem-lhe viver num apartamento luxuoso, onde foi instalada por um rico comerciante de Moscovo.

Nana vai tornar-se um exemplo de prostituta de luxo, da cortesã francesa do Segundo Império. Alcança a riqueza, afirma-se nos meios da aristocracia e da finança, reinando no seu palacete da avenida de Villiers, assumindo a mais completa liberdade entre móveis de laca branca e perfumes perturbadores. É assim que Nana dissipa heranças e mergulha famílias no desespero, exercendo o seu poder sobre os homens, desferindo golpes devastadores numa sociedade corrupta que despreza e de que acabará por ser vítima.”

 

Definitivamente estão trabalhando contra a cultura no Brasil. Quando comparo as sinopse, sinto vergonha do descaso do Grupo Editorial Record para com leitores brasileiros.  Que vergonha”

 

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2023

 





Curiosidade literária

9 10 2023

A leitura, c. 1760

Pierre Antoine Baudouin (França, 1723-1769)

guache sobre papel

Museu de Artes Decorativas, Paris

 

 

 

Em sua noite de núpcias, Tolstoy, aos trinta e quatro anos, forçou sua noiva de dezoito anos, a ler seu diário com detalhadas descrições de suas aventuras sexuais com outras mulheres, inclusive com mulheres serviçais. Aparentemente essa era sua ideia de abertura e honestidade, mas foi informação demais, de acordo com Sonya.  No dia seguinte, ela escreveu em seu diário sobre o nojo que sentiu ao ser submetida a tanta imundície.

 

Tradução: Ladyce West

 

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On their wedding night, thirty-four-year-old Tolstoy forced his eighteen-year-old bride to read his diary accounts detailing his sexual escapades with other women, including female serfs. Apparently, that was his idea of openness and honesty, but it was “T.M.I.” as far as Sonya was concerned. The next day, she wrote in her diary of the disgust she felt at being subjected to such “filth.”

 


Secret Lives of Great Authors: What Your Teachers Never Told You about Famous Novelists, Poets, and Playwrights, Robert Schnakenberg, Quirk Books: 2008

 

 

 





A chegada da primavera, texto de Olga Tokarczuk

30 08 2023

Pessoa lendo na paisagem, 2005

Erni Kwast (Holanda, 1959)

 

 

 

“Os primeiros indícios da primavera ainda não tinham chegado à cidade. Ela deveria ter se acomodado nos arredores, nas hortas das chácaras, nos vales dos riachos, como as tropas inimigas antigamente. Sobre os paralelepípedos, o inverno deixou um monte de areia usada para cobrir as calçadas escorregadias, e agora, ao sol, empoeirava tudo e sujava os sapatos primaveris recém-tirados do armário. Os canteiros municipais estavam debilitados e os gramados sujos de fezes de cães. Nas ruas passavam pessoas com um aspecto acinzentado e olhos semicerrados. Pareciam grogues. Formavam filas em frente aos caixas eletrônicos, para tirar de lá um valor de vinte zlotys, exatamente o valor necessário para se alimentar durante um dia. Estavam com pressa para chegar ao posto de saúde, pois tinham uma consulta marcada para as 13h35, ou estavam a caminho do cemitério para trocar as flores de plástico do inverno pelos narcisos naturais da primavera.”

Em: Sobre os ossos dos mortos, Olga Tokarczuk, tradução de Olga Baginska-Shinzato,  São Paulo, Todavia: 2020, p.118





Inverno: Charles Dickens

19 08 2023

 

 

“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice. Foi a época da fé, foi a época da incredulidade. Foi a estação da luz, foi a estação das trevas. Foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero. Tínhamos tudo diante de nós, não havia nada antes de nós. Todos íamos direto para o céu, todos íamos direto para o outro lado.”

 

Charles Dickens

 





Nova York, texto de Vivian Gornick

14 08 2023

Cena de rua em Nova York, 1990

Matthew Popielarz (EUA, 1926-2012)

óleo sobre tela,  76 x 121 cm

 

 

 

“Estou subindo a Quinta Avenida ao meio-dia diretamente ao encontro da luz solar fria e crua de uma manhã de novembro. Hordas de pessoas vêm na minha direção. Antes essas hordas eram compostas predominantemente de brancos, agora são de negros e outras origens. Antes se vestiam de azul e colarinho branco; agora, de roupas informais. Antes respeitavam a lei, agora não. A língua mudou, mas o espírito se mantém estável. De vez em quando vejo um rosto e um personagem perdido em meio aos jeans e jaquetas de praxe — alguém de rosto estreito e cútis alva vestindo peles lustrosas (Paris, 1938); alguém trigueiro e perigoso falando espanhol da ilha (Cuba, 1952); alguém com olhos de ameixa e além do tempo (Egito, 4000 a.C.) — e sou lembrada da natureza persistente da multidão. Nova York me pertence tanto quanto pertence a todos eles: não mais a mim do que a eles. Estamos todos aqui na Quinta Avenida pela mesma razão e em virtude do mesmo direito. Todos nós percorremos incessantemente as ruas das capitais do mundo: atores, caixeiros, bandidos; dissidentes, fugitivos, clandestinos; gays de Nebrasca, intelectuais poloneses, mulheres à margem do tempo. Metade dessas pessoas vai ser engolida pelo brilho e pelo crime — desaparecendo em Wall Street, escondendo-se no Queens —, mas metade delas será eu: uma caminhante na cidade; aqui para alimentar a torrente incessante de multidão incessante que certamente está ficando impressa na criatividade de alguém.”

 

 

Em: Uma mulher singular, Vivian Gornick, tradução Heloísa Jahn, São Paulo, Editora Todavia: 2023, Edição Kindle.





Curiosidade Literária

7 08 2023

Charles Dickens foi um dos grandes fenômenos da literatura inglesa.  Poucos sabem, no entanto, que nos dias de hoje talvez ele fosse considerado com um leve caso de TOC, transtorno obsessivo compulsivo.  Porque seu comportamento quanto à arrumação de mobiliário era fora da norma.

Dickens se recusava a escrever em qualquer cômodo se mesas e cadeiras não estivessem organizadas de maneira específica. Se, porventura, ele estivesse visitando uma pessoa amiga, ou passando alguns dias em um hotel, providenciava, de imediato, que tudo naquele quarto fosse re-arrumado a seu gosto.  Não bastasse isso, ele também era obsessivo com sua própria aparência, escovando seus cabelos dezenas de vezes em um dia, mesmo depois que começou a perdê-los.  Era capaz de passar o pente nos cabelos, mesmo durante um jantar formal, se sentisse que havia uma mecha fora do lugar.

Além disso Dickens era muito supersticioso.  Tocava três vezes em tudo, para dar sorte, considerava sexta-feira seu dia de sorte e curiosamente, sempre saía de Londres, no dia em que o último capítulo de seus livros publicados em série nos jornais, saía impresso e distribuído a seus leitores.

E, ainda sem explicação: Dickens insistia em dormir com sua cabeça de frente para o Polo Norte.

 

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Texto traduzido do livro:

Secret Lives of Great Authors: What Your Teachers Never Told You about Famous Novelists, Poets, and Playwrights, de Robert Schnakenberg, Kindle Edition, 2008