LIVRO CURTO QUE FAZ A DIFERENÇA
O ÚLTIMO AMIGO
Tahar Ben Jelloun
Editora Bertrand Brasil
Publicado em 2006 – 128 páginas
O que ela lê, 2001
Francine Van Hove (França 1942)
óleo sobre tela
“A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não é felicidade.
A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. O êxtase é um estado excepcional cuja permanência nos mataria, e a natureza inteira depressa se eclipsaria sob a influência desse estado delirante.”
George Sand
Coroação de Ricardo III da Inglaterra
Iluminura anônima, manuscrito do século XIII
Governou o país de 1216 a 1272
Uma de minhas distrações é ler sobre a Idade Média. Hábito reforçado, quando meu marido e eu tivemos a oportunidade de passar uma temporada na França, na Gasconha. Naquela estadia, sem televisão, a leitura foi nossa principal diversão nas noites de final de verão-outono-inicio de inverno. Nesta época li duas biografias de Leonor de Aquitânia. Além de cair de amores por ela, minha curiosidade sobre a intrincada história das relações França-Inglaterra-França, da história do Rei Artur à Invasão Normanda em 1066 até o século XVIII, todo esse puxa-empurra entre Inglaterra e França, aos poucos trouxeram nomes que foram se tornando personagens familiares e por causa disso, esses reis, ingleses e franceses são parte do meu descanso.
Com a queda da temperatura ontem, aqui no Rio de Janeiro, a leitura foi a distração óbvia. Voltei minha atenção para o livro The Two Eleanors of Henry III: The Lives of Eleanor of Provence and Eleanor de Montfort, [As Duas Leonors de Henrique III: A vida de Leonor da Provença e Leonor de Montfort] do historiador Darren Baker, [Pen & Sword History: 2019] que conta a vida dessas duas cunhadas, a primeira, casada com Henrique III e a segunda, irmã dele, casada com Simon de Montford, duas figuras importantíssimas nos acontecimentos do século XIII na Inglaterra.
Já estou chegando à metade do livro. Mas o início, os primeiros parágrafos, é o que coloco aqui em tradução livre, que me levaram a pensar: “vale uma nota no blog”. Muitas vezes quando dou minhas aulas de história da arte, quando sempre falo dos reis e rainhas (eram eles que mantinham os artistas trabalhando, comendo e vivendo), meus alunos se surpreendem com o número de herdeiros das cortes que morriam antes mesmo de chegarem à idade madura. Aqui, a descrição que abre esse livro, surpreende. Hoje, muitos séculos mais tarde, às vezes esquecemos de como era difícil a vida mesmo daquelas senhoras ricas, membros das famílias mais nobres europeias do século XIII.
“Três rainhas na Inglaterra foram chamadas Leonor. A primeira e mais famosa foi Leonor de Aquitânia. Ela teve dois maridos, ambos reis, dez filhos e participou de uma cruzada. A terceira foi Leonor de Castela, que teve só um marido, mas dezesseis filhos e também foi a uma cruzada. Depois de sua morte foi imortalizada com cruzes erguidas em sua memória. Entre as duas estava Leonor da Provença. Ela teve só cinco filhos, não participou de cruzadas e seu marido não podia se comparar aos maridos das outras duas Leonors. Pior ainda, foi considerada culpada por parecer ser uma monarca fraca e incompetente.”
(tradução Ladyce West)
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Essas jovens, e eram muito jovens, se casavam assim que chegavam à puberdade, com homens que não conheciam, prometidas por seus familiares, para garantir terras, tratados de paz e de não invasão e ainda tinham que ficar de sobreaviso, porque havia intriga, perigo de envenenamento, traição e muita gente querendo suas terras, seus domínios, o dote que permitira o casamento. Eram levadas para longe da casa natal, em geral para nunca mais voltarem, nem mesmo a ver seus familiares mais próximos, longe de todos com quem cresceram, frequentemente colocadas em lados opostos a irmãos, a parentes que consideravam família. A responsabilidade dessas meninas era grande. Com elas estavam as regras de muitos tratados de paz, as pequenas decisões que mostram poder. Jogavam, junto com seus maridos, e às vezes até mesmo contra eles, mas sempre pela sobrevivência, um grande jogo de xadrez político. E mais frequente do que imaginamos, essas rainhas consortes não foram destacadas por sua coragem. Suas biografias esquecidas, não registradas, porque afinal eram apenas mulheres. Até dias recentes só as conhecemos por anotações superficiais, marginália ou notas de rodapé, uma ou outra carta, uma ou outra nota em um diário, observações de seus padres confessores ou textos em geral repletos de inverdades. Por isso tem sido tão interessante ver no final do século passado e no primeiro quarto do século XXI, o esforço de muitos historiadores para refazerem as vidas dessas mulheres importantes na própria geografia econômica europeia.
Este livro abre com o casamento de Henrique III, rei da Inglaterra, também conhecido como Henrique de Winchester, (1207-1272) que subiu ao trono, aos nove anos de idade, após o falecimento de seu pai. Aos vinte e sete anos, ele se casa com Leonor da Provença, de doze anos de idade, em 20 de janeiro de 1236, na Catedral de Canterbury. Foi um casamento feliz. Diferente de muitos nessas circunstâncias. Trouxe cinco filhos e garantiu a subida de seu filho Eduardo I, também chamado de Eduardo Pernas Longas, ao trono quando Henrique morreu. Os Plantagenets garantiam assim, ainda por mais dois séculos, sua permanência o poder.
No cabeleireiro,1958
Bela de Kristo (Hungria, 1920-2006)
guache sobre madeira, 70 x 51cm
Thomas A. Kempis
(1380-1471)
Josien
Arjan van Gent (Holanda 1970)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
Meu grupo de leitura Ao Pé da Letra, já havia escolhido Não é um rio, de Selva Almada, com tradução de Samuel Titan, Jr, como leitura para o mês de abril, antes mesmo do livro ter sido anunciado como finalista do prêmio Booker Internacional deste ano. Há, além disso, a curiosidade deste livro estar competindo com o livro Torto Arado do escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior, também finalista para o mesmo prêmio. O grupo leu o livro brasileiro em fevereiro de 2021. Ainda brincamos, no nosso encontro de sábado, que mais uma vez estamos diante de uma competição Brasil x Argentina, já que a autora é natural da Argentina. Mas dessa vez a rixa não é no futebol.
Todos do grupo gostaram do livro. Ainda que alguns sentissem a necessidade de mais conteúdo de alguns personagens, mais complexidade na trama. O livro é pequeno, há aproximadas cem páginas de texto, e características de alguns personagens poderiam ser aprofundadas, fazendo o texto mais rico, mais tridimensional. Há personagens fortes e herméticos. As personagens mulheres parecem tão enigmáticas quanto o olhar masculino as julga.
Confesso que gostei do livro como está. Sem necessidade de aprofundamento dos personagens. Gosto de textos curtos, impactantes, que marcam pela elipse, por tudo que não dizem. É uma maneira de engajar o leitor que dá de si ao preencher as lacunas, ao entender o que foi sugerido. Selva Almada tem uma maneira de escrever lacônica. Não há uma palavra extra, nenhuma palavra extra para ênfase. A narrativa mistura passado e presente, e por isso requer atenção. Há muitos personagens. Há os personagens humanos e há pelo menos dois personagens não humanos: a floresta tropical, e o rio. Há um tantinho de realismo mágico, na dose certa. Para mim, fiz algumas notas para manter cada personagem no seu lugar, com sua história, algo raro em texto tão curto. Mas talvez isso tenha sido porque não li o livro de uma só vez, ainda que ele possa ser lido em duas horas.
Mas há uma característica dessa narrativa que me cativou e a colocou à frente de muitos livros; Esta é uma história que mostra a violência de pessoas comuns. Exibe o desprezo de muitos pela vida. A vida é algo barato. Dispensável, Todos morremos e sofremos. E revela o lugar deprimente das mulheres nesse enclave a que somos apresentados. É o retrato da bestialidade humana, das atrocidades cometidas no cotidiano de um grupo que se reserva um mínimo civilizatório. Apesar disso, a narrativa é tão precisa, tão pontual e hábil que aceitamos tudo sem espanto, sem choque. Nesse aspecto, Selva Almada se mostra uma mestre, sem igual. Não me surpreende que hoje seja conhecida como uma das grandes escritoras argentinas. Recomendo a leitura.
No café
Monica Castanys (Espanha, 1973)
óleo sobre tela
Marguerite Yourcenar
Escritório de advogados, 1545
Marinus van Reymerswaele (Flandres, 1490-1546)
óleo sobre madeira, 102 x 124 cm
“Quantas coisas aprendi no exercício da minha função! Vi um pai morrer num celeiro, sem um tostão, abandonado por duas filhas a quem havia doado quarenta mil libras de renda! Vi testamentos serem queimados; vi mães despojarem seus filhos, maridos roubarem suas mulheres, mulheres matarem seus maridos valendo-se do amor que lhes inspiravam para torná-los loucos ou imbecis, a fim de viver em paz com um amante. Vi mulheres darem ao filho de um primeiro leito gotas que acarretariam sua morte, a fim de enriquecer o filho do amor. Não posso lhe contar tudo o que vi, porque vi crimes contra os quais a Justiça é impotente. Enfim, todos os horrores que os romancistas creem inventar ficam sempre aquém da verdade. O senhor vai conhecer todas essas belas coisas, deixo-as ao senhor; quanto a mim, vou viver no campo com minha mulher, Paris me horroriza.“
(Trecho, que se refere à novela de Honoré de Balzac, titulada Coronel Chabert)
Em: Os enamoramentos, Javier Marías, Rio de Janeiro, Cia das Letras: 2012
Nesta ilustração vemos o castelo da Bela Adormecida rodeado pelas rosas silvestres, cheias de espinhos. Arthur Rackham ficou conhecido por suas inúmeras ilustrações de livros para crianças além dos contos de fadas dos irmãos Grimm, mas também ilustrou obras para adultos como Sonhos de Uma Noite de Verão de Shakespeare, contos de Edgar Allan Poe, entre outros.
A descrição original do Castelo da Bela Adormecida retratava um palácio na Europa Central, com inúmeros aposentos, escadas em espiral e torres. O encantamento da Bela Adormecida, veio no Século XVIII, quando a princesa Rosamunda nasceu. Para celebrar seu nascimentos doze feiticeiras foram chamadas pelos pais para dar proteção à menina recém-nascida, no entanto uma importante feiticeira foi esquecida na lista de convidados. Ciumenta, raivosa ela prometeu vingança. Assim, no dia em que Rosamunda fez quinze anos, feriu seu dedo no fuso da roca, caindo imediatamente em sono profundo. Cem anos se passariam até que a princesa acordasse. O castelo nesse meio tempo foi completamente coberto por um emaranhado de roseiras silvestres, o que aumentava ainda mais a dificuldade de se chegar ao castelo.
Uma nota de interesse: o castelo do rei Ludwig da Bavária, foi construído inspirado no conto da Bela Adormecida dos irmãos Grimm. Este por sua vez serviu de modelo para o castelo do desenho animado de Walt Disney.
Fígado e Cebolas é a principal cidade de Rutabaga. Também é sua capital. Para chegar lá usamos o trem mais rápido: Flecha de Ouro Limitada. Fígado e Cebolas fica entre pradarias ondulantes. É o centro da vida agrícola do país. Sabemos das histórias dos habitantes da cidade através de seu habitante mais ilustre, o Cego com Cara de Batata, que toca acordeão nas calçadas dos Correios.
Todas as histórias de Figado e Cebolas estão incluídas na obra infantil do escritor e poeta americano Carl Sandburg (1878-1967), Rootabaga Stories, um grupo de histórias inter-relacionadas que ele escreveu para suas filhas, Margaret, Janet e Helga, livro publicado em 1922. Ainda que traduzidas pata muitas línguas este livro nunca foi publicado no Brasil. Há três outros volumes de histórias de Rutabaga: Rootabaga Pigeons (1923), Potato Face (1930) e a obra póstuma More Rootabagas (1997).
Carl Sandburg teve a intenção de criar histórias para crianças que fossem mais chegadas à realidade americana, do que as histórias de fadas com reis e príncipes. Neste ponto sua intenção foi semelhante à de Monteiro Lobato com as Histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo.