Famílias reais medievais…

26 08 2024

Coroação de Ricardo III da Inglaterra

Iluminura anônima,  manuscrito do século XIII

Governou o país de 1216 a 1272

 

 

Uma de minhas distrações é ler sobre a Idade Média. Hábito reforçado, quando meu marido e eu tivemos a oportunidade de passar uma temporada na França, na Gasconha. Naquela estadia, sem televisão, a leitura foi nossa principal diversão nas noites de final de verão-outono-inicio de inverno. Nesta época li duas biografias de Leonor de Aquitânia.  Além de cair de amores por ela, minha curiosidade sobre a intrincada história das relações França-Inglaterra-França, da história do Rei Artur à Invasão Normanda em 1066 até o século XVIII, todo esse puxa-empurra entre Inglaterra e França, aos poucos trouxeram nomes que foram se tornando personagens familiares e por causa disso, esses reis, ingleses e franceses são parte do meu descanso. 

Com a queda da temperatura ontem, aqui no Rio de Janeiro, a leitura foi a distração óbvia. Voltei minha atenção para o livro The Two Eleanors of Henry III: The Lives of Eleanor of Provence and Eleanor de Montfort, [As Duas Leonors de Henrique III: A vida de Leonor da Provença e Leonor de Montfort] do historiador Darren Baker, [Pen & Sword History: 2019] que conta a vida dessas duas cunhadas,  a primeira, casada com Henrique III e a segunda,  irmã dele, casada com Simon de Montford, duas figuras importantíssimas nos acontecimentos do século XIII na Inglaterra.

Já estou chegando à metade do livro.  Mas o início, os primeiros parágrafos, é o que coloco aqui em tradução livre, que me levaram a pensar: “vale uma nota no blog”.  Muitas vezes quando dou minhas aulas de história da arte, quando sempre falo dos reis e rainhas (eram eles que mantinham os artistas trabalhando, comendo e vivendo), meus alunos se surpreendem com o número de herdeiros das cortes que morriam antes mesmo de chegarem à idade madura.  Aqui, a descrição que abre esse livro, surpreende. Hoje, muitos séculos mais tarde, às vezes esquecemos de como era difícil a vida mesmo daquelas senhoras ricas, membros das famílias mais nobres europeias do século XIII.

 

 

 

“Três rainhas na Inglaterra foram chamadas Leonor.  A primeira e mais famosa foi Leonor de Aquitânia. Ela teve dois maridos, ambos reis, dez filhos e participou de uma cruzada. A terceira foi Leonor de Castela, que teve só um marido, mas dezesseis filhos e também foi a uma cruzada. Depois de sua morte foi imortalizada com cruzes erguidas em sua memória.  Entre as duas estava Leonor da Provença.  Ela teve só cinco filhos, não participou de cruzadas e seu marido não podia se comparar aos maridos das outras duas Leonors. Pior ainda, foi considerada culpada por parecer ser uma monarca fraca e incompetente.”

 

(tradução Ladyce West)

 

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There have been three queens of England named Eleanor. The first and most famous of them was Eleanor of Aquitaine. She had two husbands, both of them kings, ten children, and went on crusade. The third was Eleanor of Castile. She had only one husband, but sixteen children and she too went on crusade. After her death, she was immortalised with memorial crosses erected in her memory. In between them was Eleanor of Provence. She had only five children, no crusade to her credit, and her husband could not compare to the husbands of the other two Eleanors. Worse, she was blamed for him being a seemingly weak and incompetent monarch.

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Essas jovens, e eram muito jovens, se casavam assim que chegavam à puberdade, com homens que não conheciam, prometidas por seus familiares, para garantir terras, tratados de paz e de não invasão e ainda tinham que ficar de sobreaviso, porque havia intriga, perigo de envenenamento, traição e muita gente querendo suas terras, seus domínios, o dote que permitira o casamento. Eram levadas para longe da casa natal, em geral para nunca mais voltarem, nem mesmo a ver seus familiares mais próximos, longe de todos com quem cresceram, frequentemente colocadas em lados opostos a irmãos, a parentes que consideravam família. A responsabilidade dessas meninas era grande. Com elas estavam as regras de muitos tratados de paz, as pequenas decisões que mostram poder. Jogavam, junto com seus maridos, e às vezes até mesmo contra eles, mas sempre pela sobrevivência, um grande jogo de xadrez político. E mais frequente do que imaginamos, essas rainhas consortes não foram destacadas por sua coragem. Suas biografias esquecidas, não registradas, porque afinal eram apenas mulheres. Até dias recentes só as conhecemos por anotações superficiais, marginália ou notas de rodapé, uma ou outra carta, uma ou outra nota em um diário, observações de seus padres confessores ou textos em geral repletos de inverdades. Por isso tem sido tão interessante ver no final do século passado e no primeiro quarto do século XXI, o esforço de muitos historiadores para refazerem as vidas dessas mulheres importantes na própria geografia econômica europeia.

Este livro abre com o casamento de Henrique III, rei da Inglaterra, também conhecido como Henrique de Winchester, (1207-1272) que subiu ao trono, aos nove anos de idade, após o falecimento de seu pai. Aos vinte e sete anos, ele se casa com Leonor da Provença, de doze anos de idade, em 20 de janeiro de 1236, na Catedral de Canterbury. Foi um casamento feliz. Diferente de muitos nessas circunstâncias. Trouxe cinco filhos e garantiu a subida de seu filho Eduardo I, também chamado de Eduardo Pernas Longas, ao trono quando Henrique morreu. Os Plantagenets garantiam assim, ainda por mais dois séculos, sua permanência o poder.

Árvore genealógica do século XIII na Inglaterra.  Estão representados Henrique II e seu filhos, da esquerda para a direita: Guilherme, Henrique, Ricardo, Matilde, Godofredo, Leonor, Joana e João.





Palavras para lembrar: Thomas A. Kempis

23 06 2024

No cabeleireiro,1958

Bela de Kristo (Hungria, 1920-2006)

guache sobre madeira, 70 x 51cm

 

 

“Busquei tranquilidade em todos os lugares, mas só a encontrei sentado sozinho em um canto com um pequeno livro.”

 

Thomas A. Kempis

(1380-1471)





Resenha, “Não é um rio” de Selva Almada

29 04 2024

Josien

Arjan van Gent (Holanda 1970)

óleo sobre  tela, 50 x 65 cm

 

 

 

Meu grupo de leitura Ao Pé da Letra, já havia escolhido Não é um rio, de Selva Almada, com tradução de Samuel Titan, Jr, como leitura para o mês de abril, antes mesmo do livro ter sido anunciado como finalista do prêmio Booker Internacional deste ano.  Há, além disso,  a curiosidade deste livro estar competindo com o livro Torto Arado do escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior, também finalista para o mesmo prêmio. O grupo leu o livro brasileiro em fevereiro de 2021. Ainda brincamos, no nosso encontro de sábado, que mais uma vez estamos diante de uma competição Brasil x Argentina, já que a autora é natural da Argentina. Mas dessa vez  a rixa não é no futebol.

Todos do grupo gostaram do livro.  Ainda que alguns sentissem a necessidade de mais conteúdo de alguns personagens, mais complexidade na trama. O livro é pequeno, há aproximadas cem páginas de texto, e características de alguns personagens poderiam ser aprofundadas, fazendo o texto mais rico,  mais tridimensional.  Há personagens fortes e herméticos.   As personagens mulheres parecem tão enigmáticas quanto o olhar masculino as julga.

 

 

 

 

 

 

Confesso que gostei do livro como está.  Sem necessidade de aprofundamento dos personagens.  Gosto de textos curtos, impactantes, que marcam pela elipse, por tudo que não dizem.  É uma maneira de engajar o leitor que dá de si ao preencher as lacunas, ao entender o que foi sugerido.  Selva Almada tem uma maneira de escrever lacônica.  Não há uma palavra extra, nenhuma palavra extra para ênfase.  A narrativa mistura passado e presente, e por isso requer atenção. Há muitos personagens.  Há os personagens humanos e há pelo menos dois personagens não humanos: a floresta tropical, e o rio.  Há um tantinho de realismo mágico, na dose certa. Para mim, fiz algumas notas para manter cada personagem no seu lugar, com sua história, algo raro em texto tão curto.  Mas talvez isso tenha sido porque não li o livro de uma só vez, ainda que ele possa ser lido em duas horas. 

 

 

 

Selva Almada

 

 

Mas há uma característica dessa narrativa que me cativou e a colocou à frente de muitos livros;  Esta é uma história que mostra a violência de pessoas comuns.  Exibe o desprezo de muitos pela vida.  A vida é algo barato.  Dispensável,  Todos morremos e sofremos.  E revela o lugar deprimente das mulheres nesse enclave a que somos apresentados. É o retrato da bestialidade humana, das atrocidades cometidas no cotidiano de um grupo que se reserva um mínimo civilizatório.  Apesar disso, a narrativa é tão precisa, tão pontual e hábil que aceitamos tudo sem espanto, sem choque.  Nesse aspecto, Selva Almada se mostra uma mestre, sem igual.  Não me surpreende que hoje seja conhecida como uma das grandes escritoras argentinas. Recomendo a leitura.





Minutos de sabedoria: Marguerite Yourcenar

25 04 2024

No café

Monica Castanys (Espanha, 1973)

óleo sobre tela

 

 

 

 

“Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana.”

 

Marguerite Yourcenar

 

 

 

 

Marguerite Yourcenar (1903-1987)




Sobre advogados…

13 04 2024

Escritório de advogados, 1545

Marinus van Reymerswaele (Flandres, 1490-1546)

óleo sobre madeira, 102 x 124 cm

 

 

 

Quantas coisas aprendi no exercício da minha função! Vi um pai morrer num celeiro, sem um tostão, abandonado por duas filhas a quem havia doado quarenta mil libras de renda! Vi testamentos serem queimados; vi mães despojarem seus filhos, maridos roubarem suas mulheres, mulheres matarem seus maridos valendo-se do amor que lhes inspiravam para torná-los loucos ou imbecis, a fim de viver em paz com um amante. Vi mulheres darem ao filho de um primeiro leito gotas que acarretariam sua morte, a fim de enriquecer o filho do amor. Não posso lhe contar tudo o que vi, porque vi crimes contra os quais a Justiça é impotente. Enfim, todos os horrores que os romancistas creem inventar ficam sempre aquém da verdade. O senhor vai conhecer todas essas belas coisas, deixo-as ao senhor; quanto a mim, vou viver no campo com minha mulher, Paris me horroriza.

 

 

(Trecho, que se refere à novela de Honoré de Balzac, titulada Coronel Chabert)

 

 

 

Em: Os enamoramentos, Javier Marías, Rio de Janeiro, Cia das Letras: 2012





Lugares imaginários: Castelo da Bela Adormecida

3 04 2024
Ilustração de Arthur Rackham (Inglaterra, 1867-1939). Edição de 1925.

 

Nesta ilustração vemos o castelo da Bela Adormecida rodeado pelas rosas silvestres, cheias de espinhos. Arthur Rackham ficou conhecido por suas inúmeras ilustrações de livros para crianças além dos contos de fadas dos irmãos Grimm, mas também ilustrou obras para adultos como Sonhos de Uma Noite de Verão de Shakespeare, contos de Edgar Allan Poe, entre outros.

A descrição original do Castelo da Bela Adormecida retratava um palácio na Europa Central, com inúmeros aposentos, escadas em espiral e torres.  O encantamento da Bela Adormecida, veio no Século XVIII, quando a princesa Rosamunda nasceu.  Para celebrar seu nascimentos doze feiticeiras foram chamadas pelos pais para dar proteção à menina recém-nascida, no entanto uma importante feiticeira foi esquecida na lista de convidados.  Ciumenta, raivosa ela prometeu vingança.  Assim, no dia em que Rosamunda fez quinze anos, feriu seu dedo no fuso da roca, caindo imediatamente em sono profundo.  Cem anos se passariam até que a princesa acordasse.  O castelo nesse meio tempo foi completamente coberto por um emaranhado de roseiras silvestres, o que aumentava ainda mais a dificuldade de se chegar ao castelo.

Uma nota de interesse: o castelo do rei Ludwig da Bavária, foi construído inspirado no conto da Bela Adormecida dos irmãos Grimm. Este por sua vez serviu de modelo para o castelo do desenho animado de Walt Disney.





Lugares imaginários: Fígado e Cebolas

15 03 2024
Ilustração de Fígado e Cebolas, capital de Rutabaga, ilustração da edição oirginal de 1922, por Maud & Miska Petersham.

 

 

 

Fígado e Cebolas é a principal cidade de Rutabaga.  Também é sua capital. Para chegar lá usamos o trem mais rápido: Flecha de Ouro Limitada. Fígado e Cebolas fica entre pradarias ondulantes.  É o centro da vida agrícola do país.  Sabemos das histórias dos habitantes da cidade através de seu habitante mais ilustre, o Cego com Cara de Batata, que toca acordeão nas calçadas dos Correios. 

Todas as histórias de Figado e Cebolas estão incluídas na obra infantil do escritor e poeta americano Carl Sandburg (1878-1967), Rootabaga Stories, um grupo de histórias inter-relacionadas que ele escreveu para suas filhas, Margaret, Janet e Helga, livro publicado em 1922.   Ainda que traduzidas pata muitas línguas este livro nunca foi publicado no Brasil. Há três outros volumes de histórias de Rutabaga: Rootabaga Pigeons (1923), Potato Face (1930) e a obra póstuma More Rootabagas (1997). 

Carl Sandburg teve a intenção de criar histórias para crianças que fossem mais chegadas à realidade americana, do que as histórias de fadas com reis e príncipes.  Neste ponto sua intenção foi semelhante à de Monteiro Lobato com as Histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo.





Lista dos TREZE finalistas do Prêmio Booker Internacional

11 03 2024
Foto dos treze livros finalistas para o Prêmio Booker Internacional.

 

 

 

 

A grande surpresa é ver o autor brasileiro Itamar Vieira Júnior entre os finalistas.  Não porque não mereça, mas porque a competição é muito grande, com autores do mundo inteiro.

Sempre acompanho os prêmios Booker.  Tenho mais afinidade com as seleções tanto dos prêmios internacionais como daqueles publicados originalmente em língua inglesa. 

Aqui está a lista dos treze autores e seus livros.  Destes só conheço três, dois por outros livros que não os selecionados e claro Itamar Vieira Júnior por Torto Arado.

  • Not a River by Selva Almada, translated by Annie McDermott    PUBLICADO NO BRASIL em 2021, como Não é um rio, pela Todavia

  • Simpatía by Rodrigo Blanco Calderón, translated by Noel Hernández González and Daniel Hahn   

  • Kairos by Jenny Erpenbeck, translated by Michael Hofmann    OUTRA OBRA PUBLICADA EM PORTUGUÊS em 2018, Eu vou, tu vais, ele vai, pela Relógio D’água (Portugal)

  • The Details by Ia Genberg, translated by Kira Josefsson 

  • White Nights by Urszula Honek, translated by Kate Webster   

  • Mater 2-10 by Hwang Sok-yong, translated by Sora Kim-Russell and Youngjae Josephine Bae   

  • A Dictator Calls by Ismail Kadare, translated by John Hodgson   MUITAS OUTRAS OBRAS PUBLICADAS NO BRASIL, pela Cia das Letras, mas não achei esta.

  • The Silver Bone by Andrey Kurkov, translated by Boris Dralyuk    MUITAS OUTRAS OBRAS PUBLICADAS EM PORTUGUÊS (Portugal), mas não achei esta.

  • What I’d Rather Not Think About by Jente Posthuma, translated by Sarah Timmer Harvey   

  • Lost on Me by Veronica Raimo, translated by Leah Janeczko   

  • The House on Via Gemito by Domenico Starnone, translated by Oonagh Stransky   OUTRAS OBRAS PUBLICADAS NO BRASIL, pela Todavia.  Laços, 2017; Assombrações, 2018; Segredos, 2020, Dentes, 2022

  • Crooked Plow by Itamar Vieira Junior, translated by Johnny Lorenz   PUBLICADO NO BRASIL, Torto Arado, 2019, pela Todavia

  • Undiscovered by Gabriela Wiener, translated by Julia Sanches   OUTRA OBRA PUBLICADA NO BRASIL, em 2023, Exploração, pela Todavia.

 

Estas treze obras foram selecionadas como finalistas depois de terem sido julgadas entre a 149  obras recebidas para consideração.

 

O vencedor do Prêmio Booker Internacional será anunciado no dia 21 de maio de 2024, em Londres.





Cara Paz, de Lisa Ginzburg, resenha

12 02 2024

Vestido de flores

Franco Bresciani (Itália, contemporâneo)

acrílica e colagem sobre tela, 50 x 50 cm

 

 

Cara Paz  de Lisa Ginzburg, tradução de Francesca Criscelli é um romance italiano, finalista do Prêmio Strega de 2021 (Itália). Foi a escolha de um dos meus grupos de leitura para o mês de fevereiro. Trata-se da história de duas irmãs.  São interdependentes, quatorze meses as separam e, no entanto, Madalena e Nina são muito diferentes, e se veem como “irmã sol, irmã lua” [159].  Filhas de um casal divorciado, elas sofrem na infância e na adolescência com a separação dos pais, principalmente porque circunstâncias legais não as deixam morar com nenhum dos progenitores.  Moram sozinhas com uma governanta numa casa grande.  Pouco veem a mãe, Glória, que sai deste casamento infeliz e veem o pai, a cada quinze dias, que, fotógrafo profissional, trabalha,  a maior parte do tempo, a mais de seiscentos quilômetros de distância, em Milão. As referências todas remetem à década de 70 do século passado e a ênfase dada à narrativa da separação traz um gosto passado, de questão social ultrapassada, narrativa estereótipa e banal.  Quantas e quantas histórias já lemos sobre crianças sem pais próximos, e quantas mais precisaremos ler?  Há de haver algum outro tema, outro enfoque ou perspectiva.   O processo do contar da história também me pareceu antigo, sem objetividade e repetitivo.

 

 

 

 

O que me fez achar anacrônica essa narrativa? Primeiro, todos os personagens têm nome, sobrenome, ocasionalmente apelidos, mesmo aqueles que mais tarde vemos serem de menor importância.  Isso taxa e dificulta o leitor atento que imediatamente se põe a memorizar detalhes que se mostrarão irrelevantes para a conclusão da história. Segundo, passeamos por Roma suas ruas, famosas lojas de Gucci a sorveteria e café Giolitti;  sabemos por que rua ou estação do metrô precisamos andar para chegar à Prima Porta ou se pegamos ou não a linha do metrô Leonardo Express.  Marcamos também lagos, praias, ilhas em que as meninas passam férias, visitam, sem falarmos dos bairros em que, mais tarde, já adultas,vivem, uma no Brooklyn, NY outra em Paris. Basta virar algumas páginas e lá estamos com uma sequência de pontos referenciais de Roma, Paris e Nova York, sem sabermos exatamente a razão de sermos apresentados a esses lugares. Não me surpreenderia se alguma promoção de turismo romano não tivesse patrocinando a publicação.  No fundo, no final mesmo da história, fica aquela sensação de que é uma obra direcionada às socialites, àqueles que precisam saber a marca do sorvete que tomam, a marca do carro comprado, a loja de moda em que alguém trabalha.  As mulheres são marcadas por sua beleza, elegância. Não se pode falar de Gloria sem mencionar sua beleza, nem da filha Nina sem mencionar seus olhos verdes. Pouco se sabe da beleza de Maddi, mas ao final um amante casual, nos diz que ela é bela.

As irmãs crescem e vivem vidas mais glamourosas do que seria de se esperar, um marido trabalhando na UNESCO, outro proprietário de mais de uma galeria de arte de sucesso.  É um mundo irreal, que tenta se enraizar no mundo real pela menção de todos os lugares pelos quais os personagens passam.  A atenção de leitor é sempre direcionada à Nina, que tem um temperamento difícil e se comporta com rebeldia;  Madalena passa a juventude contornando os problemas de Nina, mas pouco sabemos do que sente.  Casa-se com um francês, tem filhos, leva a vida de uma mulher mantida pelo marido, sem trabalhar, sem profissão, um papel que de novo me leva a achar o tema obsoleto, com ranço de uma sociedade que já acabou, que já passou. De repente, nos capítulos finais do livro, ela nos surpreende, com um encontro extraconjugal, com rapaz muito mais jovem, desconhecido.  Ficaram confirmadas minhas suspeitas de que estava diante de um conto de fadas para mulheres ociosas.

 

 

Lisa Ginzburg

 

 

Vim a este livro com grande expectativa.  Há tempos li A família Manzoni de Natalia Ginzburg, avó de Lisa, e esposa do conhecido editor, escritor e jornalista Leone Ginzburg.  A família GInzburg está por algumas gerações ligada ao mundo cultural italiano. Infelizmente fiquei decepcionada com o resultado desta leitura. Sei que Lisa Ginzburgo é autora de outras obras.  Infelizmente esta não me cativou.   Muito longa, poderia ter menos umas cinquenta páginas, rasa, repetitiva.  Três características que me levam a não recomendar a leitura.

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Uma observação sobre a tradução do título.  Li que o título, Cara Paz, que não faz o menor sentido em português, foi mantido ao pé da letra para honrar o trocadilho que existe em italiano, carapaça e cara paz.  Mas francamente, não há como em português darmos esse salto para o entendimento.  Temos, há muito tempo,  o hábito de trocar nomes de filmes e de livros no Brasil, pensando em como melhor chegar ao leitor ou espectador de um filme.  Porque não fazer isso com esse livro?  Honrou-se o literal em prejuízo da compreensão. Não faz sentido.  Como mostrar ao leitor do que se trata?  E mais, este título não faz o menor sentido no marketing pata o livro.  Má escolha editorial.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





A Peregrina escolhe os melhores livros do ano!

28 12 2023

Interior com senhora lendo

Albert André (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 50 x 65 cm

Musée de Belas Artes de Lyon, Coleção Tomaselli

 

 

Este foi um ano irregular de leituras.  Ou seja:  muitos livros começados.  Muitos livros sem terminar.  Muitos livros terminados aos trancos e barrancos.  Muitos livros relidos.  Muitos livros lidos exclusivamente para aulas.  E alguns meses sem qualquer vontade de ler.  Dizem que o vai e volta é típico de quem passa pelo processo de luto.  Termino este ano consciente que faz um pouco mais de um ano e meio que me encontro viúva; o luto realmente mexe com a cabeça da gente.  Mas daqueles que li tenho alguns que achei MUITO BONS.  Como sempre, posto aqui a lista dos que li para depois colocar meus favoritos. 

 

Lições, Ian McEwan

Ninféias negras, Michel Bussi

A tenda vermelha, Anita Diamant

O mistério de Henri Pick, David Foenkinos

Hotel Portofino, J. P. O’Connell

Orgulho e preconceito, Jane Austen — RELIDO desta vez em português

A última livraria de Londres, Madeline Martin

Uma mulher singular, Vivian Gornick

Caderno proibido, Alba de Cespedes

O sol também se levanta, Ernest Hemingway 

Véspera, Carla Madeira

Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski

Berta Isla, Javier Marías  — RELIDO

Garota, mulher, outras, Bernardine Evaristo

A vida peculiar de um carteiro solitário, Denis Thériault — RELIDO

Casas Vazias, Brenda Navarro

A boa sorte, Rosa Montero

As vitoriosas, Laetitia Colombani

O peso do pássaro morto, Aline Bei

Vermelho amargo, Bartolomeu Campos de Queirós  RELIDO

Confissões, Kanae Minato

A arte da rivalidade, Sebastian Smee

Autobiografia, Agatha Christie  RELIDO

A cidade e as serras, Eça de Queiroz  RELIDO

Laços, Domenico Starnone

A elegância do ouriço, Muriel Barbery  RELIDO

Violeta, Isabel Allende

O apartamento de Paris, Lucy Foley

O hotel na Place Vendôme: Vida, morte e traição no Ritz de Paris, Tilar J. Mazzeo

Ficções, de Jorge Luís Borges

Uma relação Imprópria, Barbara Pym  RELIDO, desta vez em português

2030: Como as Maiores Tendências de Hoje Vão Colidir com o Futuro de Todas as Coisas e Remodelá-las, Mauro F. Guillén

Incidente em Antares, Érico Veríssimo

 

Ao todo foram trinta e três livros.  Entre eles oito relidos.  Quase um quarto deles. Seis escolhidos como os melhores do ano.

 

 

 

 

Em primeiríssimo lugar:

Uma mulher singular, de Vivian Gornick.  Uma autobiografia  de uma mulher moderna, intelectual, que mantém o ritmo sincopado da cidade de Nova York,  onde vive.  Não é linear.  Não é a história completa de uma vida. Tampouco é um livro para todo leitor.  Mas é fascinante, revela uma era, uma mente curiosa e desvenda um conhecimento literário muito maior do que o de grande parte dos leitores.  É um livro que eu gostaria de um dia poder escrever, mas acredito que só esta autora poderia fazê-lo.

Em segundo lugar:

Ficções de Jorge Luis Borges. Que desafio!  Que brincadeira com a mente dos leitores.  Extraordinário.  Este livro terei que reler ainda algumas vezes. Mas é tudo o que haviam anunciado e muito mais. Que passeio entre a realidade (ela existe?) e o sonho.  Definitivamente um livro que não pode deixar de ser lido. Labiríntico.

Em terceiro lugar:

Incidente em Antares, Érico Veríssimo.  Ah, que prazer!  Uma comédia, uma crítica social, um retrato em que ainda nos reconhecemos!  Um prazer esta leitura, um divertimento que me fez refletir, sobre a nossa cultura, o nosso momento, sem amargor.  Muito bom.         

 

      

 Os outros três, também excelentes leituras: Laços, de Domenico Starnone; Lições de Ian McEwan e Caderno proibido de Alba de Céspedes.  Recomendo todos três (dois italianos e um inglês, que ano diferente!) para quem queira ler obras reflexivas com qualidade literária de primeira!