Uma visita à galeria do Sr. Walter em Bel-Ami de Guy de Maupassant

9 08 2010

 

Conde Ludovico Lepic e senhoras vendo uma exposição, s/d

Julius LeBlanc Stewart ( EUA, 1855-1919)

Óleo sobre tela, 39 x 28 cm

Coleção Particular

Há uma passagem no romance de Guy de Maupassant, Bel-Ami, que se tornou extremamente  sedutora para mim.  Ela conta da visita que o personagem principal, Duroy, faz a um conhecido, e do prazer e orgulho que o dono da casa tem em mostrar a Duroy sua coleção de quadros.   Li e reli o trecho, várias vezes.  Os pintores são todos conhecidos, ativos em Paris no final do século XIX.   Só os quadros mencionados, esses sim, parecem ser produtos da imaginação de Guy de Maupassant.  No entanto, o escritor mostra grande familiaridade com o mundo artístico da época:  todos os títulos e  descrições das cenas representadas na coleção do Senhor Walter, que visitamos juntamente com Duroy, se encaixam perfeitamente com os temas e os  títulos e, digamos assim, preocupações estéticas de cada pintor mencionado.  A minha curiosidade venceu e contra qualquer aspiração que eu poderia ter de mostrar bom senso resolvi a todo custo achar representações de quadros equivalentes aos da suposta coleção de arte do Sr. Walter.  Como não poderia deixar de ser, não há caçada que se preze sem mostra das presas, assim, coloco aqui não só a passagem do livro mas sobretudo as telas que encontrei que seriam equivalentes — na maneira do possível — as que formariam o acervo do colecionador retratado por Maupassant. 

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Duroy havia levantado os olhos para as paredes, à falta de outra ocupação, e o Senhor Walter lhe gritou de longe, num visível desejo de fazer valer seus objetos: — Está olhando meus quadros? — O meus destacou-se. — Vou mostrá-los. — E apanhou um candelabro para que ficassem visíveis todos os detalhes.

— Aqui, as paisagens — disse ele.

No centro da parede, via-se uma grande tela de Guillemet, uma praia na Normandia, sob um céu de borrasca.  Por baixo, um bosque, de Harpignies, depois uma planície da Argélia por Guillemet, com um camelo no horizonte, um grande camelo de pernas longas, semelhante a um estranho monumento.

Paisagem costeira com figuras, s/d

Jean Baptiste Antoine Guillemet (França, 1843-1918)

óleo sobre tela

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Paisagem, s/d

Henri-Joseph Harpignies ( França, 1819-1916)

Óleo sobre tela

Walter passou à parede seguinte e anunciou com um tom sério, de mestre-de-cerimônias:  — A grande pintura. — Eram quatro telas:  Uma visita ao hospital, de Gervex.  A ceifeira, por Bastien-Lepage; Uma viúva, por Bouguereau, e Execução, por Jean-Paul Laurens.  Esta última obra representava um padre sendo fuzilado na parede de sua igreja, por um destacamento de azuis.

A colheita, 1880

Bastien Lepage (França, 1848-1884)

Óleo sobre tela

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O dia dos mortos, 1859

William Adolphe Bouguereau ( França, 1825-1905)

Óleo sobre tela

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A execução do Duque d’Enghien, s/d

Jean-Paul Laurens (França, 1838-1921)

Um sorriso passou pela figura grave de Walter ao indicar a parede seguinte: — Aqui os fantasistas, — Via-se em primeiro lugar uma pequena tela de Jean Béraud, intitulada O alto e o baixo.  Era uma parisiense bonita subindo a escada dum bonde em marcha.  Sua cabeça parecia no nível do tejadilho, e os senhores sentados nos bancos descobriam, com satisfação ávida, o rosto jovem que vinha ao encontro deles, enquanto os homens, de pé na plataforma de baixo, olhavam as pernas da moça, com expressões diferentes de despeito e desejo.

Jovem mulher atravessando a rua, s/d

Jean Béraud (França, 1849-1936)

óleo sobre tela

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Walter segurava a lâmpada no alto e repetia rindo, com um trejeito maroto: — Hein?  não é engraçado?  não é engraçãdo?

Depois iluminou um Salvamento de Lambert.

No meio de uma mesa vazia, um gatinho sentado sobre o traseiro, examinava com espanto e perplexidade uma mosca afogando-se num copo d’água.  Tinha uma pata levantada, pronta a apanhar o inseto com um golpe rápido.  Mas não estava completamente decidido.  Hesitava.  Que Faria?

Depois do jantar, s/d

Louis Eugène Lambert ( França, 1825-1900)

óleo sobre tela

O patrão mostrou depois um Detaille: A lição, que representava um soldado na caserna, ensinando a um cãozinho a tocar tambor, e declarou: — Aqui há espírito!

Duroy ria com um riso aprovador e extasiava-se: — Como é encantador, como é encantador, encan… — Parou bruscamente, ao ouvir, por trás dele, a voz da Senhora de Marelle, que acabava de entrar.

1806: Ponto avançado da cavalaria,  sem data

Jean-Baptiste Edouard Detaille ( França 1848-1912)

óleo sobre tela.

O diretor continuava a iluminar as telas e explicá-las. 

Mostrava agora uma aquarela de Maurice Leloir: O obstáculo.  Era uma cadeirinha parada, por se achar a rua obstruída por uma luta entre dois homens do povo, dois valentões, brigando como Hércules.  E pela janela da cadeirinha, via-se um lindo rosto de mulher que olhava… que olhava… sem impaciência, sem medo, e com certa admiração, o combate dos dois brutos.

A última visita de Voltaire a Paris, s/d

Maurice Leloir ( França, 1853-1940)

Walter continuava dizendo sempre: — tenho outros nas outras peças seguintes, mas são de gente menos conhecida, menos classificada.  Aqui é o meu salão.  Compro dos jovens do momento, dos mais jovens, e ponho-os de reserva nos quartos mais internos, esperando os autores tornarem-se célebres.  — Depois disse, muito baixo: — É a hora de comprar quadros.  Os pintores morrem de fome.  Não têm dinheiro, não têm dinheiro…

Em: Bel-Ami, Guy de Maupassant, São Paulo, Editora Abril:1981, tradução de Clóvis Ramalhete, pp: 111-113





Descobrindo a esposa através dos livros — um trecho de Os Diários de Pedra, de Carol Shields

3 08 2010

Homem lendo, 1881

Vincent van Gogh ( Holanda 1853-1890)

técnica mista: aquarela e carvão

Museu Kröller-Müller, Otterlo, Holanda

Uma passagem das mais interessantes do livro Os diários de pedra de Carol Shields, cuja resenha publiquei recentemente aqui mesmo no blog, mostra a descoberta que um homem faz da mulher que o abandonou, subitamente, sem nada dizer.  A cena se passa no Canadá nos anos 20 do século XX.  É simultaneamente delicada, enternecedora, engraçada.  E fala da solidão, da inabilidade de se demonstrar o amor.  Realmente fascinante.

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Fazia um ano que ela tinha ido embora quando ele resolveu fazer uma faxina na sala – tapete, cadeiras, tirar o pó e botar tudo para arejar, e no fundo da caixa de costura dela ele encontrou quatro livros pequenos.  Livros românticos, ele achava que se chamava esse tipo, livros femininos, com capa de papel macio.  Nove centavos cada um, o preço estava carimbado nas costas: Livraria dos Nove Centavos.  Não sabia ao certo como ela arranjara aqueles livros, mas imaginava que os tinha comprado do caixeiro-viajante judeu, comprado e lido em segredo, como se ele algum dia fosse negar-lhe esse prazer tão insignificante.

Ele mesmo começou a ler aqueles livros nas noites de inverno.  Era melhor do que ficar olhando o relógio, ouvindo o seu tique-taque, ou escutando o gelo caindo dos ramos sobre o telhado.  A essa altura ele tinha instalado um pequeno e potente aquecedor a lenha na sala, para esquentar o ambiente, coisa que a esposa vivia pedindo.  Lia, devagar, pois, verdade seja dita, ele nunca em sua vida tinha lido um livro inteiro, da capa à contracapa.  Achava agradável pensar que conseguia decifrar a maioria das palavras, virando as páginas uma por uma, prestando atenção: Lutar por um coração, de Laura Jean Libby, O que o ouro não compra, por uma tal de Sra. Alexander, À mercê do mundo, por Florence Warden e Jane Eyre, de Charlotte Brontë.  Esse último era o seu predileto; havia episódios na história que lhe traziam à garganta uma sensação doce e dolorosa, e nesses momentos ele sentia a esposa perto, separada por algumas batidas do coração, tão perto que ele quase podia estender a mão e acariciar a carne do interior de suas coxas.  Ficava pasmo com a quantidade de pessoas que recheavam aqueles livros.  Cada um era um mundinho, povoado e mobiliado.  E como falava aquela gente dos livros!  Falar, falar, viviam pela língua.  Muito do que diziam era tolice, mas também razoável.  Falar afastava a raiva.  As palavras eram trocadas como se troca dinheiro por mercadoria.  Algumas das frases pareciam poemas, nada do jeito como as pessoas falam na realidade, mas mesmo assim ele as pronunciava em voz alta e as decorava, de modo que, se por algum acaso a esposa resolvesse voltar para casa e retomar o seu lugar, ele estaria pronto.  Se essa bobagem de falar difícil era a maior necessidade dela, ele estaria preparado para satisfazê-la – um vulcão de palavras cheias de doçura e sentimento.  Ó lindos olhos, Ó rosto precioso, Ó pele mais bela.  Ou frases que falavam de coração transbordante, desejo crescendo no peito, súbitas centelhas de um corpo acolhendo outro, ou mesmo a simples declaração de amor: Eu te amo, sussurrou ao ouvido expectante dela.  Adoro-te por inteiro.

Ou, se essas declarações lhe fossem demasiado difíceis, como suspeitava que seriam, iria simplesmente olhá-la nos olhos e pronunciar o nome dela: Clarentine.  Falando a princípio com delicadeza, como se faz para acalmar uma criança arisca, forçando a voz a permanecer suave, falando diretamente para aquele rosto que pertencia para sempre ao Clube Feminino de Ritmo e Movimento mas não a ele, aquele rosto querido e imóvel.  Clarentine.  Clarentine.

Em:  Os diários de pedra, Carol Shields,  tradução de Eliana Sabino, Rio de Janeiro, Editora Record: 1996, páginas 111 e 112.

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NOTA:  Todas as autoras mencionadas nesse texto existiram de verdade.





Para ler: Os diários de pedra, de Carol Shields

31 07 2010
Jardim com lago, ilustração de revista de 1923.

Tenho  muito prazer em ler biografias, memórias, diários de pessoas comuns.  Cito a propósito de ilustração dois exemplos deste tipo de leitura:  The memoirs of Gluckel of Hameln, Schocken Books:1977 [ As memórias de Gluckel de Hameln – não traduzido para o português–] – um diário começado em 1690 por uma mulher alemã, judia, que retrata suas preocupações diárias e A família de Guizos: história e memórias, de Ivna Thaumaturgo, [Civilização Brasileira: 1997] composto das memórias de uma carioca sobre a vida no Rio de Janeiro da 1ª metade do século XX.  Diferentes em proposta e em desenlace, esses dois livros me enriqueceram, tanto quanto muitos outros no gênero que fui coletando ao longo dos anos.

O que todos têm em comum é a preservação de um momento passageiro, de uma idéia, preocupação ou emoção que em geral achamos difícil associar ao legado material que nos resta de outras gerações.  Quem, por exemplo, subindo os degraus para o átrio de alguma igreja antiga, vendo na pedra o desnível em lugares específicos  que estabelecem os milhares de pés que se apoiaram exatamente no mesmo lugar ao subir aquela escadaria,  não pensou nessas pessoas invisíveis cuja única recordação de que existiram está justamente na corrosão de um pedaço de pedra?  Esta observação chega a ser lugar comum para quem costuma visitar sítios históricos, no entanto ela demonstra a nossa realização da grandeza de um passado evanescente. 

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Para mim, a leitura de diários de pessoas comuns, de um passado próximo ou distante, me faz testemunha de uma era que não vivi.  Ao longo do caminho, tenho a oportunidade de apreciar aqueles cujas vidas nos trouxeram aos nossos dias e saber como pensavam e com que se preocupavam.  Mesmo que o anotado sejam questões corriqueiras, que se apliquem, por exemplo, à quantidade de farinha necessária para assar mais broas numa taverna ou onde melhor esconder dos bandidos de estrada, numa viagem entre cidades, a cavalo, a única moeda de prata que se traz na algibeira?  A leitura desses diários, dessas memórias, me presenteia e enriquece porque eles fazem o passado mais rico e inteligível.  Mais presente.  E trazem consigo a sabedoria de séculos, a sabedoria popular que pode e, com freqüência,  é esquecida nas gerações seguintes.  E como sabemos: quem não conhece a história está condenado a repetir seus erros.

É justamente isso que o romance da escritora canadense Carol Shields (1935-2003), explora em  Os diários de pedra, [Record: 1996], trabalho que recebeu dois grandes prêmios de literatura, tanto o Pulitzer como o National Book Critics Circle em 1995.  E por minha conta parecem prêmios muito merecidos.  Esse romance é uma testemunha do poder da imaginação, porque conta a história de uma mulher comum de classe média — como milhões de outras pessoas que conhecemos e que nos precederam —  cujas vidas parecem não ter nenhum grande evento ou nenhuma grande manifestação além daquela de ter, criar e educar filhos e acima de tudo sobreviver com dignidade até os últimos dias.

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Carol Shields

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Ora narrado na primeira pessoa, ora por outro narrador, cuja escolha às vezes parece deixada ao acaso, limitada talvez, pela falta de testemunhas num passado comum, Os diários de pedra, contam a vida de Daisy Stone Goodwill, uma dona de casa — filha, mãe e avó — que “fazia um delicioso bolo de carne, que sabia como replantar uma figueira-da-Índia,  que sabia o que fazer com uma carta de trunfo”.  Seguimos Daisy do nascimento em 1905 nos Estados Unidos à sua vida no Canadá e finalmente à sua morte na Flórida, com mais de 80 anos.  Carol Shields faz mágica com esse texto.  Ela reconstrói a vida de Daisy  com diários, relatos de testemunhas desse ou daquele evento em que Daisy era uma participante.  Ela traz à tona bilhetes deixados por amigas, uma lista de enxoval, uma carta dobrada na gaveta de uma cômoda e até mesmo uma seleção de fotografias que representam alguns dos membros da família.  Com um punhado de “provas” da existência desse personagem, ela constrói uma colcha de retalhos encantadora, sensível e espessa.  E ao longo do caminho ela também desvenda a vida de alguns de seus companheiros de viagem, do pai às amigas e aos filhos, mostrando  também seus motivos e até suas excentricidades, perfeitamente naturais e em sintonia com os tempos.

O resultado é fascinante: ao juntar todos esses pequenos documentos que testemunham, muitas vezes obliquamente, a existência de um personagem e fazem-no real, parecendo ter existido além dos limites da imaginação da autora, Carol Shields deixa ao longo do caminho espaço suficiente para pequenas considerações sobre o magnífico milagre que é a sobrevivência de cada um; que é a superação das tragédias corriqueiras, das perdas e ganhos, que podem até parecer pequenos mas que para cada um de nós podem vir a ser gigantescas batalhas. Esse livro é um hino de alegria, um elogio ao ser humano que na sua pequenice, na sua vida comum, sem medalhas de mérito, sem prêmios de interpretação, consegue se superar e manter uma dignidade condizente com sua personalidade.  Esse romance está impregnado  com o maravilhoso prazer de viver, com o contentamento, o júbilo de uma vida imperfeita, frustrante e ainda assim significativa.   É leitura obrigatória para o enriquecimento da alma. 





O Folies-Bergère, uma passagem de Guy de Maupassant

29 07 2010

Moulin Rouge, 1893

Louis Anquetin (França, 1861- 1932)

óleo sobre tela

Estou lendo Bel-Ami de Guy de Maupassant.  E as imagens dos quadros de pintores franceses do final do século XIX, não param de vir à minha mente.  Resolvi então, à medida que estas passagens aparecem durante a minha leitura, colocá-las aqui, lado a lado.  Uma ilustrando a outra e vice-versa.

 

A fumaça dos cigarros velava um pouco, como um nevoeiro muito fino, os lugares mais distante, o palco e o outro lado do teatro.  Elevando-se sem cessar, em pequenos filetes esbranquiçados,  de todos os charutos e de todos os cigarros que toda esta gente fumava, a bruma ligeira subia sempre, acumulavase no teto e formava em torno do lustre, sob a cúpula, acima da galeria do primeiro andar, cheia de espectadores, um céu enevoado de fumaça.

 

No vasto corredor de entrada que leva  ao passeio circular, onde vagueava a tribo bem vestida das prostitutas,  misturada à multidão sombria dos homens, um grupo de mulheres esperava os que chegavam, diante de um dos três balcões, onde dominavam, pintadas e gastas, três mercadoras de bebida e de amor.

 

Os altos espelhos, atrás delas, refletiam suas costas e os rostos dos passantes.

 

[Uma visita ao Folies-Bergère].

 

Em: Bel-Ami, de Guy de Maupassant, tradução de Clóvis Ramalhete, São Paulo, Editora Abril: 1981, página 16.





Clara Hoyt, um perfil de mulher: a prosa deliciosa de Louis Auchincloss

15 07 2010

Coquetel, ilustração de 1944, assinada Eric.

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Em janeiro deste ano a nota de falecimento de Louis Auchincloss não chegou a fazer manchetes no Brasil, onde o autor é pouco conhecido. Mas, para mim e milhares de outros fãs do escritor americano, ficou o vazio de se saber que não mais poderíamos contar com a sutileza, a crítica elegante e mordaz, assim como a prosa límpida que preenchia, sempre sem exageros, as páginas de seus romances: ia embora  um dos grandes e mais tenazes observadores da sociedade americana, um autor que reinou  ímpar por grande parte  do século XX. 

Foi com a intenção de despedida, com o aceno do adeus, que me dediquei à leitura de um dos pouquíssimos livros do autor, dentre suas mais de 50 publicações, traduzidos e publicados no Brasil:  A infinita variedade dessa mulher, São Paulo, Editora A Girafa: 2004.  O romance se passa entre 1937 e 1963 – trinta e poucos anos que remodelaram o mundo, as economias americana e mundial; período em que a vitória das forças aliadas na guerra leva os Estados Unidos a um papel ainda mais central no mundo ocidental, como potência econômica, militar e cultural.   Mas ainda que este seja o horizonte em que a vida de Clarabel Hoyt – principal personagem do romance – se aprume, ainda que esta seja a paisagem contra a qual as oportunidades que lhe aparecem são possíveis, o retrato que estudamos nas 280 páginas do livro é aquele de uma mulher em busca de sua razão de vida.

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Louis Auchincloss foi o autor que, no século XX, melhor retratou a sociedade rica e poderosa dos Estados Unidos, o grupo social que age nos bastidores da política americana.  É daí que invariavelmente políticos de qualquer partido são escolhidos,  vice-presidentes ou executivos de grandes corporações.  Esse é o grupo social que frequenta as escolas particulares aos moldes ingleses, as universidades de maior prestígio [Ivy League Schools], os clubes fechadíssimos na cidade e no campo. Seus membros são dificilmente visíveis em lugares públicos e nunca chamam atenção para si mesmos.  Este é o grupo que age há séculos, como eminência parda do poder, num país que se diz uma gigantesca sociedade de classe média.  Sem entender que é desse grupo social que vêm as grandes reformas políticas, sociais e econômicas daquela sociedade — de direita ou de esquerda — é não compreender completamente as forças econômicas e sociais que fazem o país tão dinâmico.    Direto em estilo e refinado na linguagem, como Henry James o era, Auchincloss lembra, no retrato da sociedade nova-iorquina de poder, a herança cultural recebida por aquele autor.  E nesse simples retrato de mulher essa semelhança com o seu antecessor não deixa de ser lembrada.

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Louis Auchincloss

 

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Perfis de mulher estão entre os assuntos mais revisitados na obra de Auchincloss, ao retratar a nata da sociedade nova-iorquina.  E Clara Longcope Hoyt Tyler é mais uma delas.  No início do romance, vemos uma jovem frequentando as melhores escolas, e demonstrando mais personalidade do que suas colegas.  Ao se apaixonar  por um rapaz sem a ambição necessária ao sucesso, segue os conselhos de sua mãe, uma mulher bem-nascida mas frustrada com o resultado do casamento que fizera —  e não se casa com ele.   Nossa simpatia começa com Clara.  Mas, aos poucos, à medida que ela dá largas a sua ambição, vamos nos distanciando dessa mulher.  Nós e o escritor, que através de uma narrativa de grande destreza se encarrega de nos separar gradativamente da heroína.  Até a mãe de Clara, que no início nos parece fria e calculista, de quem resguardamos nossos corações, aos poucos vai também desacreditando dos meneios de sua filha para chegar onde quer.  Clara é o retrato da mulher fria e calculista, que se atreve a usar de sua influência como mulher e intelectual para chegar ao poder.  Com ela Auchincloss faz um excelente retrato das atitudes femininas de meio-século, distintas nas décadas de antes e depois da guerra: nos anos 40 fica claro que as mulheres tinham de usar seus atrativos femininos para atingir ao seu potencial intelectual.  Já depois da guerra a atitude passa a ser diferente, e como Clara descobre é necessário jogar de igual para igual com os homens para conseguir o que deseja. —-

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A leitura desse romance é rápida; sua narrativa é cristalina, amplamente dignificada com a tradução de Sérgio Viotti.  A poderosa e pequena sociedade fechada nova-iorquina é sutilmente retratada.  E a manipulação para chegar ao poder precisamente crível.  Leia.  É uma ótima maneira de preencher um final de semana de inverno.





Mariette em êxtase, de Ron Hansen

2 05 2010

 

 

Santa Teresa em êxtase, 1645-1652       [DETALHE]

Gian Lorenzo Bernini ( Itália, 1598-1680)

Escultura em mármore

Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma.

Não sei exatamente porque escolhi recentemente a leitura  de Mariette em êxtase, [Editora Objetiva: 1996] romance do escritor americano Ron Hansen, um livro que já fazia moradia na minha estante há alguns anos.  Não sei tampouco como esse livro  “apareceu aqui em casa” tendo um perfil tão diferente do que costumo comprar.  Mas estou grata às circunstâncias que me levaram a ele, pois essa foi uma leitura cativante, rica e inesperadamente marcante.

A história se passa no início do século XX, no convento das  freiras Irmãs da Crucificação, no interior do estado de Nova York.  Mariette, uma bela jovem de dezessete anos, filha de um médico local, decide entrar para esse convento, o mesmo escolhido anos antes por sua irmã mais velha, também chamada para a vida monástica.  Mariette é uma jovem devota, extremamente espiritual, dada a sonhos e transes, que se realiza na vida doméstica e regrada das religiosas.  Com essa abertura, seria difícil imaginar que o cotidiano de um convento, com rotinas de orações, horas para meditação, jantares em silêncio seria evocado de tal maneira que ler o texto até o final poderia tornar-se uma obsessão tão aguda quanto se essa história fosse um conto de espionagem.

E é.  Foi assim que me senti.  Acho que esta é de fato uma história de quase espionagem, uma história de mistério.  Não da espionagem como a entendemos entre nações rivais, companhias multinacionais roubando novas idéias umas das outras.  Nem mesmo uma história de mistério com algum crime por resolver.  Mas há  semelhanças com a espionagem porque depois de seis meses de vida conventual Mariette recebe sinais de que suas preces e sua devoção são respondidas.  Sua fé talvez esteja sendo agraciada por poderes espirituais desconhecidos por meros mortais.   Agraciada por quem?  Como ela conseguiu esse canal de comunicação com o mundo espiritual?  Porque não qualquer outra freira do convento?  Fervorosa nas suas orações, zelosa ao manter suas penitências, obstinadamente dedicada à sua crença, Mariette é arrebatada por eventos fora de seu controle:  estigmas que aparecem em suas mãos, sangue que jorra de feridas no seu corpo.   Esse é o mistério que a abraça, que a faz diferente das outras irmãs. 

 

A natureza da diferença de Mariette em  relação às suas companheiras é o fator de divisão nessa pequena comunidade.  Devemos acreditar ou não nos sinais de fé da Mariette?  São verdadeiros ou forjados?   Logo, logo o convento se divide.  O mistério invocado pelos estigmas é onipresente,  devastador.  Nesse aspecto, o romance chegou a me lembrar do filme O anjo exterminador de Luís Buñuel (1962).  Não que haja perigo de morte para os habitantes do convento, mas a presença do mistério, do indescritível poder de uma força diferente, exterior, alienígena leva a revelações íntimas sobre as próprias freiras.  As conseqüências são as dúvidas sobre o próprio mistério, são a inveja, são as inseguranças de cada membro afloradas.  Tudo isso me lembrou forçosamente da parede invisível que condena os convidados de um jantar a uma clausura indefinível do filme mexicano.

O sucesso dessa narrativa deve-se principalmente à magnífica prosa de Ron Hansen, — em grande parte deixada intacta pela excelente tradução de Marcos Santarrita —  que não usa uma palavra a mais do que o necessário; que mantém até o final o enigma dos mistérios testemunhados pelos personagens e pelo leitor.  O ritmo da narrativa é fundamental nesse romance.  Determinado a não se acomodar a soluções fáceis e a dar ao leitor a opção de solucionar o que se passa por si mesmo, Ron Hansen consegue produzir uma pequena obra prima que nos leva a considerar a natureza da fé e do milagroso.  Esse é um livro fascinante.  De leitura rápida e bem ritmada, sua história fica na nossa imaginação sendo revivida de diversas formas, sendo aludida com freqüência.  Uma ótima leitura.

Ron Hansen





As 10 melhores histórias de amor, lista da escritora Esther Freud

28 04 2010
 Ilustração Bob Jones

O jornal britânico The Guardian publicou recentemente a lista das dez melhores histórias de amor compiladas pela escritora britânica Esther Freud, que, em 1993,  foi considerada uma das 20 melhores escritoras britânicas pela revista Granta.  Sua obra não está publicada no Brasil e em português só encontrei o romance Um verão em Siena, publicado em Portugal pela editora ASA.

A autora de romances recheados de boas histórias de amor justifica suas escolhas da seguinte maneira:  “ As histórias de amor que permaneceram na minha imaginação foram as que quebraram o meu coração.  Romances que criaram um desejo, uma nostalgia, uma saudade entre duas pessoas; além de verdadeiros conflitos, desencantamentos e desesperança quando o amor não chega a se concretizar”.

 

Aqui está sua lista:

E o vento levou… de Margaret Mitchell

Este foi o primeiro livro que eu li e que me levou numa viagem espiritual.  A dedicação contida e sistemática de Rhett Butler à Scarlett pela maior parte do romance, o momento horrível em que ele deixa de amá-la, e ela finalmente admite que o ama, me fizeram querer mudar o destino ou que Margaret Mitchell  interviesse.  O meu volume estava ensebado e molhado de lágrimas quando acabei de lê-lo.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Margaret Mitchell, E o Vento levou, em sua 43ª edição.  Editora Villa Rica.  São 968 páginas.]

Jane Eyre  de Charlotte Brontë

Jane Eyre foi responsável por minha crença no poder dos romances, algo que me perturbou durante os meus anos de adolescência.  A suposição de que você poderia se reclinar à janela e sussurrar o nome de seu amado, e que ele poderia de fato lhe ouvir, era por demais sedutora para mim.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Charlotte Brontë, Jane Eyre, Editora Itatiaia:2008, 285 páginas.]

Tess  de Thomas Hardy

 

Quem consegue se esquecer do momento em que Tess não acha a carta que foi enfiada por debaixo de sua porta?  Esta cena está cravada nos milhões de corações dos leitores do romance no mundo inteiro.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Thomas Hardy, Tess, Editora Itatiaia:442 páginas.]

Anna Kariênina de Liev Tolstoy

Provavelmente o melhor romance já escrito.  Tolstoi retrata os altos e baixos da paixão de Anna por Vronsky, e nos mostra a impossibilidade de seu amor poder ser equivalente ao que ela perde.  As cenas entre ela e seu filhinho – a quem precisa abandonar – são de cortar o coração por seu controle, e são desses momentos que nos lembramos, quando o ardor de Vronsky começa a esvanecer.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Liev Tolstoy, Anna Kariênina, Editora Cosac Naify: 816 páginas.]

Doutor Jivago de Boris Pasternak

É difícil superar uma história de amor russa, especialmente este romance épico, com a guerra como pano de fundo, mas a história de amor de Jivago por Lara e o momento inesperado que eles têm de reavivar sua paixão quando o destino os junta de novo no exílio, é difícil de resistir.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Boris Pasternak, Doutor Jivago, Editora Record: 630 páginas.]

A procura do amor de Nancy Mitford

 

É como consumir um delicioso quitute.  Um romance muito engraçado do ponto de vista de Fanny, cuja mãe “A fugitiva”, a deixou para trás para ser educada por uma tia.  Ela passa a maior parte do tempo com seus primos, os excêntricos e glamorosos Radletts, e é Linda Ratlett – um composto de Mitford e suas irmãs – procurando  pelo companheiro perfeito, que é a figura  central  deste romance.

[Não encontrei nenhuma tradução do livro: The pursuit of love, de Nancy Mitford, no Brasil.  Há uma edição portuguesa]

O tempo nas ruas de Rosamond Lehmann

 

Publicado originalmente em 1936, este livro estava muito avançado para o seu tempo na descrição de um caso de uma jovem mulher com um homem casado.  Lehmann nos leva com ela – na espera, nos momentos brilhantes de esperança – sem que percamos a simpatia por qualquer um dos personagens.  Cheio de paixão e de uma honestidade brutal ao retratar como o amor pode tomar conta de toda uma vida. 

I

Ilustração, Bob Jones

Terra descansada de Jhumpa Lahiri

 

Nessa coleção de contos, Lahiri nos dá três histórias conectadas.  Hema e Kaushik são dois Americanos de origem indiana cujos pais eram amigos quando eles eram jovens e que se encontram por acaso em Roma.  Eles são irresistivelmente atraídos um pelo outro, mesmo Hema estando de casamento marcado.  A medida que seus sentimentos se intensificam, nós ficamos absorvidos com o desejo que sentem e a vontade de que eles tenham coragem para alterar o curso de suas vidas.  Mas aí o destino – ou a natureza – intervém, e a dor no final me deixou doída fisicamente.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Jhumpa Lahiri, Terra descansada, Cia das Letras:2009, 384 páginas.]

 A história do amor de Nicole Krauss

Uma história de muitas facetas sobre a solidão e oportunidades perdidas.  Alma, uma menina de 15 anos, tenta ver o sentido da vida, depois que seu pai morre, ao se concentrar na trama do romance que sua mãe está traduzindo.  A bela, engraçada e misteriosa história junta seus  personagens de uma maneira completamente inesperada mas bem-vinda.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Nicole Krauss, A história do amor, Cia das Letras:2006, 320 páginas.]

Um dia de David Nicholls

Seguimos a vida de Emma e Dexter por 20 anos de amizade, fascinação, oportunidades perdidas, casamentos mal feitos e eventual união eles;  este é um romance com uma estrutura brilhante, engraçado e fundamentalmente agonizante.

[Não encontramos tradução deste romance para o português.]

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Fonte: The Guardian, 27/04/2010





Papa-livros: O tigre branco de Aravind Adiga

19 04 2010

Andando de riquixá, 2003

J. Hossain

aquarela em preto e branco  — 35 x 55 cm

http://www.bengalartgallery.com

Passamos a semana em discussões sobre a possibilidade de os países do grupo BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China  — formarem um acordo para juntos negociarem com os gigantes do primeiro mundo.  Isso me lembrou que em fevereiro deste ano, o meu grupo de leitura se dedicou ao romance vencedor do prêmio Man Booker em 2008:   O tigre branco de Aravind Adiga.  Como emprestei o livro imediatamente após a leitura, com forte recomendação, retardei sua resenha por dois meses, até poder reler algumas passagens.

Esse é um romance que se esbalda no humor negro e sarcasmo.  Retratada de início ao fim  está a história de Balram Halwai, que toma para si a incumbência de explicar através de longas cartas e com muita ironia —  para o Primeiro Ministro da China, que está com visita à Índia marcada para uma data próxima — “o mundo como ele é”, na Índia.  Não é nada bonita a realidade que Balram nos passa e da qual se intitula justo representante.  Esse homem, que fez de tudo, incluindo assassinar sem empregador para poder subir na vida, se apresenta como o verdadeiro indiano, produto de um sistema social arcaico, extremamente injusto e feito mais corrupto ainda depois da ocidentalização do país através do colonialismo inglês.  Nascido nas camadas sociais mais carentes – habitando um mundo quase invisível para os dirigentes do país, um lugar a que ele chama Escuridão–  ele explica como desde o dia em que veio ao mundo estava, assim como milhões de outros exatamente como ele, predestinado ao fracasso, subordinado às máfias locais, à corrupção dos dirigentes.

O grande trunfo desse romance, seu motor, está na narrativa.  O uso da primeira pessoa permite que desde o início os leitores se identifiquem com Balram, afinal, vemos o mundo através de seus olhos e mesmo que as ações, os valores descritos se mostrem desprezíveis, seu tom, a ingenuidade, a candura com que mostra seus mais deploráveis sentimentos, no deixa presos entre a simpatia e o desprezo.   No final, a narrativa é cativante:  ela seduz pela solidariedade. Não podemos evitá-la ao contemplarmos as sórdidas condições de vida de Balram; mas é uma narrativa que nos diverte também quando sua visão simplória do mundo nos mostra um outro ângulo: aquele das necessidades da sobrevivência.  Com essa mistura de pontos de vista somos obrigados a perpetuamente reconsiderar o que sabemos, não só sobre a realidade da Índia, mas temos que checar os nossos valores morais.  Há razão para assumirmos que eles são ou devem ser universais?

A ironia é mestra nessa narrativa.  A imensa pobreza incomoda e a naturalidade com que somos obrigados a aceitá-la machuca.   Mas é uma história de vitória, de sobrevivência, em termos diferentes daqueles que estamos acostumados a considerar, a ver, a aplaudir por exemplo no cinema americano.  Somos colocados diante dos mesmos paradigmas das histórias de menino pobre que chega a mega empresário apesar de todas as dificuldades que lhes são impostas. Mas o protótipo dessas histórias não é válido para essa realidade, a história de Balram é diferente, e temos que julgá-la e julgar os nossos preceitos, os nossos preconceitos e valores, apesar de, no final, os resultados serem muito semelhantes aos que conhecemos dos heróis cinematográficos. 

Aravind Adiga

Esse é um livro para ler e pensar.  Recomendo sem restrições.  Um dos melhores livros lidos recentemente.  Não perca tempo, abra suas páginas e garanto que a  leitura será inesquecível.





Chuva dourada, de Gina B. Nahai

26 02 2010

Sócios no aprendizado, s/d

Elia Benzaquen ( Escócia, 1965)

Quando eu ainda morava nos Estados Unidos, fiz amizade com um casal judeu iraniano. Quando os conheci, a minha ignorância sobre o Irã e sua população era tão grande que não pude esconder a minha surpresa ao aprender que no Irã da época do Xá, havia uma grande comunidade judaica, a maior no Oriente Médio fora de Israel.  Naqueles anos, o  Aiatolá Khomeini já havia se cansado de requisitar a cabeça do escritor Salman Rushdie pelo livro Versos Satânicos!  Levando isso em conta, simplesmente assumi que a maioria dos judeus persas houvesse emigrado.  No entanto, para escrever a resenha do livro que acabo de ler, busquei informações na rede e me surpreendi, uma vez mais, ao  saber que ainda há uma pequena e devota comunidade judia na capital, Teerã.  A mim, parecia improvável que houvesse tolerância no mundo xiita aos judeus, principalmente no Irã, que nas últimas décadas não tem sido visto como um país particularmente aberto a opiniões que diferem do conservadorismo xiita.  Abordo esse assunto porque as famílias dos personagens centrais do livro  Chuva dourada, de Gina B. Nahai [Ediouro: 2007],  pertencem a famílias judias, residentes no Teerã, e suas histórias se passam nos anos imediatamente anteriores à revolução que depôs o Xá da Pérsia.

Este foi um romance me deixou silenciosa e pensativa.  Acabei de ler suas 332 páginas em dois dias  e passei a tarde e a noite do último dia, após fechar o último parágrafo,  tendo que considerar a potência dos preconceitos contra mulheres, que também afetam os homens.  Preconceitos  arraigados por religiões e  culturas milenares limitam, cerceiam, podam e contorcem os espíritos ricos, as mentes empreendedoras, os gritos rebeldes das almas que precisam se expressar.  De particular amargor é ver mais uma vez o retrato da discriminação contra a mulher.  Este é um assunto que me cala.  Mas ainda é difícil imaginar o rancor que mulheres como Bahar [nome que em farsi significa Primavera ], personagem principal da trama, trazem dentro de si, encobrindo como um manto todos os desejos de crescimento emocional e educacional a que aspiram e que preconceitos variados lhes tolhem, a todo momento, o simples ato de viver bem ou dignamente.  Inadvertidamente, essas mulheres, passam para suas filhas, para a próxima geração,  os mesmos traumas com que cresceram, repetindo numa cadeia infinita, as pragas de se ter uma filha mulher, a tristeza de não se ter um filho homem.  Perpetuam assim a injustiça que sofreram e da qual não conseguiram se libertar.

A história de Bahar, tenho certeza, não é única.  Nem é simplesmente um excesso da imaginação de uma iraniana que se libertou e emigrou para os EUA, como aconteceu com a autora.  Aos 17 anos Bahar encontra Omid [ cujo nome em farsi significa Esperança]. Ela é de uma família judia pobre.  Ele de uma família judia rica.  Eles se casam contra a vontade da família dele.  E o que deveria ter-se tornado um conto de amor, passa a ser uma história de abuso, de preconceito, de tortura, não dos agentes que poderíamos esperar, mas da sociedade, da cultura, do círculo familiar.  Omid logo encontra o amor de sua vida, uma mulher muçulmana, livre, amante de um outro homem.  E por sua própria inabilidade de administrar a vida, os sentimentos e o mundo em que vive, só piora a situação em casa, em seu próprio casamento.  Mais uma calamidade aflige  o casal, e principalmente Bahar, eles têm uma filha com surdez progressiva.  A já depauperada, oprimida Bahar, agora sofre duplamente, não só é mulher e teve uma única filha, também mulher, mas esta filha não preenche todos os requerimentos necessários, pois não é “perfeita”.

Chuva Dourada não é um romance leve, cheio de momentos bucólicos.  Muito pelo contrário.  É uma história triste e fascinante, de um mundo que – aqui no ocidente, numa cultura de inclusão como a nossa – parece pertencer a um tempo cravado nos primeiros séculos da Idade Média, cuja realidade custamos a acreditar co-habite com a nossa, dia a dia, ano a ano.   Muito bem narrada, a autora  não poupa ao leitor o sofrimento de Bahar e de todas as mulheres nela representadas.  Este é um romance sobre expectativas nunca alcançadas.

Gina B. Nahai

Recomendo esse livro.  Com todas as cinco estreles que me dão.  Estou emprestando meu volume a todos os amigos que gostam de boa literatura.  E também porque não posso deixar de tentar abrir os olhos, sempre que possível, para o problema da discriminação contra a mulher.  Vá ler Chuva Dourada.  Não é leve.  Mas vale todas as palavras nele escritas.

***

NOTA:

Há horas em que tenho a impressão de que não há ninguém no comando das nossas editoras.  É impressionante a falta de cuidado com os livros aqui impressos.  No caso deste livro, de Gina B. Nahai a pergunta que não cala é:  Quem foi que deu a este romance o título de Chuva Dourada?  Procure pelo título na internet e verá o que qualquer pessoa com um pouco mais de conhecimento percebe:  esta é a expressão usada para  a urofilia, ou seja para a prática sexual em que a urina está envolvida.  Alguém dormiu no volante… É simplesmente inacreditável!   O título no original em inglês é Caspian Rain. Caspian se refere ao Mar Cáspio.  No romance a palavra Caspian está associada à cor do Mar Cáspio… Por que então não evitar a infeliz conotação implicada no título em português?  Ei,  onde estava o editor?  Onde estavam as cabeças pensantes da Ediouro?  O livro não chegou às livrarias com esse título sem a aprovação de alguém…





Eu a amava, de Anna Gavalda

17 02 2010

Nunca cheguei a ser uma boa jogadora de Bridge, apesar de gostar do jogo.  Mas joguei o suficiente para aprender a respeitar qualquer adversário capaz de finesse sua mão.  Esta expressão, vinda do francês, mas usada no mundo inteiro no jogo de Bridge,  se refere à maneira como um jogador consegue se livrar de cartas perigosas sem que seus parceiros o percebam.  Depois que aprendi a expressão e entendi a combinação de destreza e sutileza imbuídas no vocábulo, já a usei tantas vezes, em contextos tão diferentes, que acho inacreditável que não exista em português um verbo que expresse no todo a astúcia e finura de gesto, que combinadas dão peso à palavra.

É natural então que essa expressão francesa seja a que me vem à mente no fim da leitura do livro Eu a amava, da autora Anna Gavalda [Record:2002], nascida em Boulogne-Billancourt, em Île de France.  Isso porque sua prosa demonstra uma habilidade de escrever carregada de grande sutileza, que consegue retratar o mais corriqueiro dos temas – histórias de amor que não deram certo – com astúcia e perícia.  Seu retrato dos sentimentos mais corriqueiros, mundanos, pequenos, acabrunhantes,  que nos afligem na hora da perda de um amor é composta de maneira tão singular, bem humorada e livre de sentimentalismos, que merece grande admiração.  E mais, seu romance oferece um penso para almas feridas, um curativo para a emoção exposta do amor não correspondido. 

O enredo é tão simples quanto a linguagem usada: uma mulher, abandonada pelo marido, vai com suas duas filhas e o sogro, Pierre Dippel, para a casa de campo deste.  Traída, sofrida, com o coração em pedaços, Chloé deixa à mostra toda sua infelicidade e revolta.  Seu estado de espírito pode ser resumido na frase: O perigo é pensar que temos o direito de ser felizes.   Pierre Dippel que até então havia se mostrado um homem reservado, aparentemente insensível, revela, para surpresa da nora, uma grande história de amor na qual foi um dos personagens principais.  E com essa lembrança de um amor perdido, Pierre Dippel acalenta a nora e a si próprio, tranqüiliza-a sobre o futuro, consola-a com o exemplo, serena seus sentimentos, nutre suas esperanças, alimenta sua alma.  No todo são 170 páginas, quase todas de diálogos que formam esta leitura comovente, às vezes irônica, bastante sutil.  Não é a toa que, com esse romance, Anna Gavalda tenha conquistado os leitores franceses; surpresa é que sua obra não tenha ainda sido “descoberta” pelos leitores brasileiros, que ainda não a abraçaram na proporção gigantesca com que foi recebida e aplaudida na França.

Anna Gavalda

Este não é o primeiro livro de Anna Gavalda que leio.  Há uns poucos anos li  Enfim, juntos [Rocco: 2006], um volume que corrobora a insinuante prosa da autora.  Há, no entanto, uma característica entre esses dois romances: a troca de experiências entre diferentes gerações, que me parece um motivo, um padrão freqüente nas criações francesas mais recentes.  Essa troca de experiências entre pessoas e gerações distintas está presente também nos filmes:  Um lugar na platéia, 2006, [Fauteuils d’orchestre] de Danièle Thompson; O fabuloso destino de Amélie Poulain, 2001, [Le fabuleux destin d’Amélie Poulain] de Jean-Pierre Jeunet; e também no romance, A elegância do ouriço [Cia das Letras: 2008] de Muriel Barbery.  É claro que a minha mostra é pequena e provavelmente irrelevante, no entanto fica aqui o registro de que além da apurada sensibilidade que se estende por muitos dos romances franceses atuais, — e aqui ainda posso adicionar Casas de família de Denis Tillinac [A Girafa: 2005] e  Um toque na estrela de Benoîte Groult [Record: 2008]–  há um tema ímpar, único e inexistente nos romances de outros países: o retrato benfazejo da comunicação entre diferentes gerações, o relacionamento positivo entre jovens e pessoas de uma ou duas gerações mais velhas.  Esse tema parece trazer uma nova perspectiva na produção literária e cinematográfica da França atual.  Um tema bem-vindo, positivo, confiante, útil, que muito enriquece textos e leitores.  Uma atitude diametralmente oposta ao eterno conflito de gerações, representado com grande minúcia nas literaturas norte-americana e brasileira, entre outras, que chega às vezes a um retrato narcisista e vaidoso de jovem escritores.  Essa troca de experiências, no romance de Anna Gavalda, é apurada e escrupulosa, retratada com vigor e entusiasmo. Vale a leitura de Eu a amava.

 

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Nota sobre a edição brasileira:  Li este livro novo.  Nenhum outro leitor havia ainda manuseado o volume.  No entanto, ao final da leitura, tive em mãos um livro cujas páginas se soltaram, cujo dorso teimou em querer se descolar e cujos pontos de alinhavo pareceram feitos em linha muito grossa, incompatível com o peso do papel em que foi impresso.  As páginas mostraram o desejo de voarem para fora do volume, sendo picotadas pelo cordão que as segurava ao dorso.   O livro foi  composto na tipologia Aldine 721 em corpo 12/26 e impresso em papel off-set 90g/m² no Sistema Cameron da Divisão Gráfica da Distribuidora Record.  Tive que colar de volta diversas páginas do livro.  É inacreditável que uma editora, tão grande como a Record, não tenha se esforçado para manter um mínimo de controle de qualidade.  Fica aqui o meu protesto pelo desprezo que a companhia demonstrou pelo leitor e pela autora.