Numas palhinhas deitado, poesia de João Saraiva

24 12 2010

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Natal, década  1960-70

Di Cavalcanti (Brasil 1897 – 1976)

óleo sobre tela

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Numas palhinhas deitado

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                              João Saraiva

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Numas palhinhas deitado,

abrindo os olhos à luz,

loiro, gordinho, rosado,

nasce o Menino Jesus.

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Uma vaquinha bafeja

seu lindo corpo divino,

de mansinho, que a não veja

e não se assuste o Menino.

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Meia-noite. Canta o galo.

Por essa Judéia além

dormem os que hão de matá-lo

quando for homem também.

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E, pensativa, a Mãe Pura

ouve, fitando Jesus,

os rouxinóis na espessura

de um cedro que há de ser cruz!…

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Extraído de “O Natal na Poesia”, artigo de Dom Marcos Barbosa publicado no Jornal do Brasil de 24/12/81

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João Baptista Pinto Saraiva (1866-1948), pseudôniomo: Belonaria, poeta português, nascido na cidade do Porto.

Obras:

Serenatas: primeiros versos, poesia, 1886

Sátiras, poesia, 1905

Líricas e sátiras, poesia, 1916

Máscaras: tríptico em versos, poesia, 1925

O grêmio literário: figuras e episódios de outros tempos, prosa, 1934

Sinfaníadas, poesia, 1938





Os dois leões, fábula de Florian

18 10 2010
Ilustração do livro de Nicholas Barnaud Delphinas, O livro de Lambspring, de 1625.

OS DOIS LEÕES

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Um dia dois leões, sob um sol muito forte, chegaram a um grande lago morrendo de sede.  Este era um lago enorme, com muita água, o bastante para saciar a sede de muitos animais. Mas, apesar de sentirem muita sede, motivo que os levara a procurar por uma fonte de água, quando chegaram à beira do lago, nenhum dos dois quis a companhia do outro.  O orgulho e a vaidade falaram mais alto.  Cada um queria ser o primeiro a beber da água, sem dar chance ao outro.  Eles se olharam com muita maldade.  Encresparam as jubas para a luta, e seus corpos se encurvaram de maneira ameaçadora, prontos.  Cada qual se preparou para um bote mortal.  Altercaram-se com rugidos aterradores, alertando toda a vizinhança.  Engalfinharam-se numa luta sem igual.  Os dois, igualmente fortes e ferozes, atracaram-se rolando pelo chão.  Machucaram-se um ao outro, cada um ferindo o inimigo sem piedade.  Ao final, caíram exaustos lado a lado.  Cada qual com o corpo coberto de feridas e sangrando, com muitas  marcas deixadas pelo rival.  Cada um se arrastou devagarinho  até as margens do lago.  Os dois beberam da água cristalina ao mesmo tempo, e também caíram mortos no mesmo lugar.  Acabaram, lado a lado, juntos na morte tal como não o haviam sido na vida.   

Jean-Pierre Claris de Florian (França,1755 — 1794) foi um poeta, teatrólogo e escritor francês. Entrou para a Académie Française em 1788.  Foi preso durante a Revolução Francesa, mas sua vida foi poupada graças a intervenção de Robespierre.  Hoje é mais conhecido por suas fábulas do que por seus romances e peças teatrais que, no entanto, foram o que lhe fizeram conhecido e apreciado em seu tempo.   Além de suas popularíssimas fábulas, recontadas até hoje, na maioria dos países de cultura ocidental, Florian foi também responsável por alguns bons adágios que passaram a ser moeda corrente de linguagem na França e até no exterior.  Entre eles está o que conhecemos no Brasil:  Ri melhor quem ri por último.





A costureira e o cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles

1 10 2010

 

O Cangaceiro, 1988

Aldemir Martins ( Brasil, 1922-2006)

Acrílica sobre tela, 55 x 46 cm

Este ano, pelas minhas contas, li 39 livros de ficção tanto brasileira quanto estrangeira, e acho que acabei de ler o melhor de 2010.  Se não for o melhor ficarei surpresa.  Isso me levará a considerar  o ano extraordinário pela riqueza de bons textos: significa que ainda vou ter surpresas mais espetaculares do que tive com o livro de Frances de Pontes Peebles, intitulado A Costureira e o Cangaceiro [Nova Fronteira: 2009].  Foram 616 páginas que virei com prazer, curiosidade, ansiedade pelo desfecho e ainda fiquei com o gosto de “quero-mais”.

Este é um romance enraizado no estado de Pernambuco, que segue a vida de duas irmãs nascidas no início do século XX numa pequena cidade do interior do estado.  Emília só pensa em sair dali.  Faz de tudo para o conseguir.  Luzia que, ainda criança sofreu um acidente que a deixou com uma deficiência física, se vê sem futuro.  Mas a vida traz surpresas para ambas.  Cada qual persegue e procura um sonho, uma maneira de se realizar.  Seus caminhos são muito diversos, mas mesmo assim há uma forte conexão entre elas, que sem se falarem conseguem se manter “em contato” uma com a outra.  Nesse ínterim, a história do Brasil,  que no início do século parecia uma simples continuação do século XIX, dá uma guinada e Vargas sobe ao poder.  A vida de cada uma é inesperadamente virada pelo avesso com essa mudança feita lá no sudeste do país, por um gaúcho.   Ao longo do caminho, aprendemos muito sobre o Brasil, sobre a política regional de Pernambuco, sobre a oligarquia brasileira.  Ao fechar o volume, compreendemos que além de seguirmos as peripécias dessas duas mulheres fortes e corajosas, seguimos também os caminhos do país e em particular do estado de Pernambuco.  Finalmente compreende-se  a duplicidade das vidas urbana e do sertão em Pernambuco, que como irmãs gêmeas xifópagas, não podem ou conseguem viver separadamente.

Raramente temos um romance brasileiro – um romance histórico – com a precisão de detalhes dados de forma interessante sobre um específico período.  O que Frances de Pontes Peebles faz, é criar duas personagens críveis, na base de “gente como a gente”, e colocá-las interagindo com a sociedade brasileira já estabelecida.  As duas irmãs encontram por si só os caminhos que as levam a viver e sobreviver num mundo que só tem horizontes muito limitados para cada uma delas.  E nessa luta, nessa garra de não sucumbir às demandas sociais, nessa ânsia que ambas demonstram de sair do patamar em que ficariam, caso permanecessem na pequenina Taquaritinga do Norte, aprendemos sobre o Brasil, sobre a sociedade brasileira de uma época em que mal se votava e que nem as mulheres tinham direito ao voto. 

O que faz esse romance tão especial?  São muitas as razões: a voz narrativa, forte, sedutora.  Mas há mais: personagens interessantes e complexos: não nos encontramos com os típicos estereótipos nordestinos quer nos personagens, quer na paisagem; cada detalhe descrito encontra sua razão de ser ao longo da narrativa, até mesmo os que parecem estar lá para dar uma ambientação; na falta de outra documentação, a reconstituição histórica é maravilhosamente baseada nos trajes de época—que marcam a vida da costureira e nos levam através das décadas em questão.  Não há excessos.  Os detalhes fazem a história e seus personagens tridimensionais, o roteiro se mostra bem amarrado, e parece incrível dizer-se isso de um romance de mais de 600 páginas: mas é sucinto.  Como uma boa costureira, Frances de Pontes Peebles não dá ponto sem nó. 

Frances de Pontes Peebles

É necessário ressaltar a excelente tradução de Maria Helena Rouanet, cujo texto em português é riquíssimo em vocabulário e flui com uma destreza de mestre.  Uma das melhores traduções que encontrei recentemente de romances estrangeiros.   Frances de Pontes Peebles nasceu no Brasil,  mas passou grande parte de sua vida nos Estados Unidos.  Filha de mãe brasileira e de pai americano ela se sente mais à vontade no uso da língua inglesa.  E antes deste romance – que é o seu primeiro,  já havia publicado contos nos Estados Unidos.  Hoje ela mora no Brasil e quem quiser pode seguir suas aventuras aqui: http://francesdepontespeebles.com/

Não perca essa leitura.  Você vai adorar!   O meu grupo de leitura aprovou este romance por unanimidade.  É realmente muito bom.





Uma visita à galeria do Sr. Walter em Bel-Ami de Guy de Maupassant

9 08 2010

 

Conde Ludovico Lepic e senhoras vendo uma exposição, s/d

Julius LeBlanc Stewart ( EUA, 1855-1919)

Óleo sobre tela, 39 x 28 cm

Coleção Particular

Há uma passagem no romance de Guy de Maupassant, Bel-Ami, que se tornou extremamente  sedutora para mim.  Ela conta da visita que o personagem principal, Duroy, faz a um conhecido, e do prazer e orgulho que o dono da casa tem em mostrar a Duroy sua coleção de quadros.   Li e reli o trecho, várias vezes.  Os pintores são todos conhecidos, ativos em Paris no final do século XIX.   Só os quadros mencionados, esses sim, parecem ser produtos da imaginação de Guy de Maupassant.  No entanto, o escritor mostra grande familiaridade com o mundo artístico da época:  todos os títulos e  descrições das cenas representadas na coleção do Senhor Walter, que visitamos juntamente com Duroy, se encaixam perfeitamente com os temas e os  títulos e, digamos assim, preocupações estéticas de cada pintor mencionado.  A minha curiosidade venceu e contra qualquer aspiração que eu poderia ter de mostrar bom senso resolvi a todo custo achar representações de quadros equivalentes aos da suposta coleção de arte do Sr. Walter.  Como não poderia deixar de ser, não há caçada que se preze sem mostra das presas, assim, coloco aqui não só a passagem do livro mas sobretudo as telas que encontrei que seriam equivalentes — na maneira do possível — as que formariam o acervo do colecionador retratado por Maupassant. 

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Duroy havia levantado os olhos para as paredes, à falta de outra ocupação, e o Senhor Walter lhe gritou de longe, num visível desejo de fazer valer seus objetos: — Está olhando meus quadros? — O meus destacou-se. — Vou mostrá-los. — E apanhou um candelabro para que ficassem visíveis todos os detalhes.

— Aqui, as paisagens — disse ele.

No centro da parede, via-se uma grande tela de Guillemet, uma praia na Normandia, sob um céu de borrasca.  Por baixo, um bosque, de Harpignies, depois uma planície da Argélia por Guillemet, com um camelo no horizonte, um grande camelo de pernas longas, semelhante a um estranho monumento.

Paisagem costeira com figuras, s/d

Jean Baptiste Antoine Guillemet (França, 1843-1918)

óleo sobre tela

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Paisagem, s/d

Henri-Joseph Harpignies ( França, 1819-1916)

Óleo sobre tela

Walter passou à parede seguinte e anunciou com um tom sério, de mestre-de-cerimônias:  — A grande pintura. — Eram quatro telas:  Uma visita ao hospital, de Gervex.  A ceifeira, por Bastien-Lepage; Uma viúva, por Bouguereau, e Execução, por Jean-Paul Laurens.  Esta última obra representava um padre sendo fuzilado na parede de sua igreja, por um destacamento de azuis.

A colheita, 1880

Bastien Lepage (França, 1848-1884)

Óleo sobre tela

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O dia dos mortos, 1859

William Adolphe Bouguereau ( França, 1825-1905)

Óleo sobre tela

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A execução do Duque d’Enghien, s/d

Jean-Paul Laurens (França, 1838-1921)

Um sorriso passou pela figura grave de Walter ao indicar a parede seguinte: — Aqui os fantasistas, — Via-se em primeiro lugar uma pequena tela de Jean Béraud, intitulada O alto e o baixo.  Era uma parisiense bonita subindo a escada dum bonde em marcha.  Sua cabeça parecia no nível do tejadilho, e os senhores sentados nos bancos descobriam, com satisfação ávida, o rosto jovem que vinha ao encontro deles, enquanto os homens, de pé na plataforma de baixo, olhavam as pernas da moça, com expressões diferentes de despeito e desejo.

Jovem mulher atravessando a rua, s/d

Jean Béraud (França, 1849-1936)

óleo sobre tela

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Walter segurava a lâmpada no alto e repetia rindo, com um trejeito maroto: — Hein?  não é engraçado?  não é engraçãdo?

Depois iluminou um Salvamento de Lambert.

No meio de uma mesa vazia, um gatinho sentado sobre o traseiro, examinava com espanto e perplexidade uma mosca afogando-se num copo d’água.  Tinha uma pata levantada, pronta a apanhar o inseto com um golpe rápido.  Mas não estava completamente decidido.  Hesitava.  Que Faria?

Depois do jantar, s/d

Louis Eugène Lambert ( França, 1825-1900)

óleo sobre tela

O patrão mostrou depois um Detaille: A lição, que representava um soldado na caserna, ensinando a um cãozinho a tocar tambor, e declarou: — Aqui há espírito!

Duroy ria com um riso aprovador e extasiava-se: — Como é encantador, como é encantador, encan… — Parou bruscamente, ao ouvir, por trás dele, a voz da Senhora de Marelle, que acabava de entrar.

1806: Ponto avançado da cavalaria,  sem data

Jean-Baptiste Edouard Detaille ( França 1848-1912)

óleo sobre tela.

O diretor continuava a iluminar as telas e explicá-las. 

Mostrava agora uma aquarela de Maurice Leloir: O obstáculo.  Era uma cadeirinha parada, por se achar a rua obstruída por uma luta entre dois homens do povo, dois valentões, brigando como Hércules.  E pela janela da cadeirinha, via-se um lindo rosto de mulher que olhava… que olhava… sem impaciência, sem medo, e com certa admiração, o combate dos dois brutos.

A última visita de Voltaire a Paris, s/d

Maurice Leloir ( França, 1853-1940)

Walter continuava dizendo sempre: — tenho outros nas outras peças seguintes, mas são de gente menos conhecida, menos classificada.  Aqui é o meu salão.  Compro dos jovens do momento, dos mais jovens, e ponho-os de reserva nos quartos mais internos, esperando os autores tornarem-se célebres.  — Depois disse, muito baixo: — É a hora de comprar quadros.  Os pintores morrem de fome.  Não têm dinheiro, não têm dinheiro…

Em: Bel-Ami, Guy de Maupassant, São Paulo, Editora Abril:1981, tradução de Clóvis Ramalhete, pp: 111-113





Descobrindo a esposa através dos livros — um trecho de Os Diários de Pedra, de Carol Shields

3 08 2010

Homem lendo, 1881

Vincent van Gogh ( Holanda 1853-1890)

técnica mista: aquarela e carvão

Museu Kröller-Müller, Otterlo, Holanda

Uma passagem das mais interessantes do livro Os diários de pedra de Carol Shields, cuja resenha publiquei recentemente aqui mesmo no blog, mostra a descoberta que um homem faz da mulher que o abandonou, subitamente, sem nada dizer.  A cena se passa no Canadá nos anos 20 do século XX.  É simultaneamente delicada, enternecedora, engraçada.  E fala da solidão, da inabilidade de se demonstrar o amor.  Realmente fascinante.

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Fazia um ano que ela tinha ido embora quando ele resolveu fazer uma faxina na sala – tapete, cadeiras, tirar o pó e botar tudo para arejar, e no fundo da caixa de costura dela ele encontrou quatro livros pequenos.  Livros românticos, ele achava que se chamava esse tipo, livros femininos, com capa de papel macio.  Nove centavos cada um, o preço estava carimbado nas costas: Livraria dos Nove Centavos.  Não sabia ao certo como ela arranjara aqueles livros, mas imaginava que os tinha comprado do caixeiro-viajante judeu, comprado e lido em segredo, como se ele algum dia fosse negar-lhe esse prazer tão insignificante.

Ele mesmo começou a ler aqueles livros nas noites de inverno.  Era melhor do que ficar olhando o relógio, ouvindo o seu tique-taque, ou escutando o gelo caindo dos ramos sobre o telhado.  A essa altura ele tinha instalado um pequeno e potente aquecedor a lenha na sala, para esquentar o ambiente, coisa que a esposa vivia pedindo.  Lia, devagar, pois, verdade seja dita, ele nunca em sua vida tinha lido um livro inteiro, da capa à contracapa.  Achava agradável pensar que conseguia decifrar a maioria das palavras, virando as páginas uma por uma, prestando atenção: Lutar por um coração, de Laura Jean Libby, O que o ouro não compra, por uma tal de Sra. Alexander, À mercê do mundo, por Florence Warden e Jane Eyre, de Charlotte Brontë.  Esse último era o seu predileto; havia episódios na história que lhe traziam à garganta uma sensação doce e dolorosa, e nesses momentos ele sentia a esposa perto, separada por algumas batidas do coração, tão perto que ele quase podia estender a mão e acariciar a carne do interior de suas coxas.  Ficava pasmo com a quantidade de pessoas que recheavam aqueles livros.  Cada um era um mundinho, povoado e mobiliado.  E como falava aquela gente dos livros!  Falar, falar, viviam pela língua.  Muito do que diziam era tolice, mas também razoável.  Falar afastava a raiva.  As palavras eram trocadas como se troca dinheiro por mercadoria.  Algumas das frases pareciam poemas, nada do jeito como as pessoas falam na realidade, mas mesmo assim ele as pronunciava em voz alta e as decorava, de modo que, se por algum acaso a esposa resolvesse voltar para casa e retomar o seu lugar, ele estaria pronto.  Se essa bobagem de falar difícil era a maior necessidade dela, ele estaria preparado para satisfazê-la – um vulcão de palavras cheias de doçura e sentimento.  Ó lindos olhos, Ó rosto precioso, Ó pele mais bela.  Ou frases que falavam de coração transbordante, desejo crescendo no peito, súbitas centelhas de um corpo acolhendo outro, ou mesmo a simples declaração de amor: Eu te amo, sussurrou ao ouvido expectante dela.  Adoro-te por inteiro.

Ou, se essas declarações lhe fossem demasiado difíceis, como suspeitava que seriam, iria simplesmente olhá-la nos olhos e pronunciar o nome dela: Clarentine.  Falando a princípio com delicadeza, como se faz para acalmar uma criança arisca, forçando a voz a permanecer suave, falando diretamente para aquele rosto que pertencia para sempre ao Clube Feminino de Ritmo e Movimento mas não a ele, aquele rosto querido e imóvel.  Clarentine.  Clarentine.

Em:  Os diários de pedra, Carol Shields,  tradução de Eliana Sabino, Rio de Janeiro, Editora Record: 1996, páginas 111 e 112.

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NOTA:  Todas as autoras mencionadas nesse texto existiram de verdade.





Para ler: Os diários de pedra, de Carol Shields

31 07 2010
Jardim com lago, ilustração de revista de 1923.

Tenho  muito prazer em ler biografias, memórias, diários de pessoas comuns.  Cito a propósito de ilustração dois exemplos deste tipo de leitura:  The memoirs of Gluckel of Hameln, Schocken Books:1977 [ As memórias de Gluckel de Hameln – não traduzido para o português–] – um diário começado em 1690 por uma mulher alemã, judia, que retrata suas preocupações diárias e A família de Guizos: história e memórias, de Ivna Thaumaturgo, [Civilização Brasileira: 1997] composto das memórias de uma carioca sobre a vida no Rio de Janeiro da 1ª metade do século XX.  Diferentes em proposta e em desenlace, esses dois livros me enriqueceram, tanto quanto muitos outros no gênero que fui coletando ao longo dos anos.

O que todos têm em comum é a preservação de um momento passageiro, de uma idéia, preocupação ou emoção que em geral achamos difícil associar ao legado material que nos resta de outras gerações.  Quem, por exemplo, subindo os degraus para o átrio de alguma igreja antiga, vendo na pedra o desnível em lugares específicos  que estabelecem os milhares de pés que se apoiaram exatamente no mesmo lugar ao subir aquela escadaria,  não pensou nessas pessoas invisíveis cuja única recordação de que existiram está justamente na corrosão de um pedaço de pedra?  Esta observação chega a ser lugar comum para quem costuma visitar sítios históricos, no entanto ela demonstra a nossa realização da grandeza de um passado evanescente. 

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Para mim, a leitura de diários de pessoas comuns, de um passado próximo ou distante, me faz testemunha de uma era que não vivi.  Ao longo do caminho, tenho a oportunidade de apreciar aqueles cujas vidas nos trouxeram aos nossos dias e saber como pensavam e com que se preocupavam.  Mesmo que o anotado sejam questões corriqueiras, que se apliquem, por exemplo, à quantidade de farinha necessária para assar mais broas numa taverna ou onde melhor esconder dos bandidos de estrada, numa viagem entre cidades, a cavalo, a única moeda de prata que se traz na algibeira?  A leitura desses diários, dessas memórias, me presenteia e enriquece porque eles fazem o passado mais rico e inteligível.  Mais presente.  E trazem consigo a sabedoria de séculos, a sabedoria popular que pode e, com freqüência,  é esquecida nas gerações seguintes.  E como sabemos: quem não conhece a história está condenado a repetir seus erros.

É justamente isso que o romance da escritora canadense Carol Shields (1935-2003), explora em  Os diários de pedra, [Record: 1996], trabalho que recebeu dois grandes prêmios de literatura, tanto o Pulitzer como o National Book Critics Circle em 1995.  E por minha conta parecem prêmios muito merecidos.  Esse romance é uma testemunha do poder da imaginação, porque conta a história de uma mulher comum de classe média — como milhões de outras pessoas que conhecemos e que nos precederam —  cujas vidas parecem não ter nenhum grande evento ou nenhuma grande manifestação além daquela de ter, criar e educar filhos e acima de tudo sobreviver com dignidade até os últimos dias.

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Carol Shields

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Ora narrado na primeira pessoa, ora por outro narrador, cuja escolha às vezes parece deixada ao acaso, limitada talvez, pela falta de testemunhas num passado comum, Os diários de pedra, contam a vida de Daisy Stone Goodwill, uma dona de casa — filha, mãe e avó — que “fazia um delicioso bolo de carne, que sabia como replantar uma figueira-da-Índia,  que sabia o que fazer com uma carta de trunfo”.  Seguimos Daisy do nascimento em 1905 nos Estados Unidos à sua vida no Canadá e finalmente à sua morte na Flórida, com mais de 80 anos.  Carol Shields faz mágica com esse texto.  Ela reconstrói a vida de Daisy  com diários, relatos de testemunhas desse ou daquele evento em que Daisy era uma participante.  Ela traz à tona bilhetes deixados por amigas, uma lista de enxoval, uma carta dobrada na gaveta de uma cômoda e até mesmo uma seleção de fotografias que representam alguns dos membros da família.  Com um punhado de “provas” da existência desse personagem, ela constrói uma colcha de retalhos encantadora, sensível e espessa.  E ao longo do caminho ela também desvenda a vida de alguns de seus companheiros de viagem, do pai às amigas e aos filhos, mostrando  também seus motivos e até suas excentricidades, perfeitamente naturais e em sintonia com os tempos.

O resultado é fascinante: ao juntar todos esses pequenos documentos que testemunham, muitas vezes obliquamente, a existência de um personagem e fazem-no real, parecendo ter existido além dos limites da imaginação da autora, Carol Shields deixa ao longo do caminho espaço suficiente para pequenas considerações sobre o magnífico milagre que é a sobrevivência de cada um; que é a superação das tragédias corriqueiras, das perdas e ganhos, que podem até parecer pequenos mas que para cada um de nós podem vir a ser gigantescas batalhas. Esse livro é um hino de alegria, um elogio ao ser humano que na sua pequenice, na sua vida comum, sem medalhas de mérito, sem prêmios de interpretação, consegue se superar e manter uma dignidade condizente com sua personalidade.  Esse romance está impregnado  com o maravilhoso prazer de viver, com o contentamento, o júbilo de uma vida imperfeita, frustrante e ainda assim significativa.   É leitura obrigatória para o enriquecimento da alma. 





O Folies-Bergère, uma passagem de Guy de Maupassant

29 07 2010

Moulin Rouge, 1893

Louis Anquetin (França, 1861- 1932)

óleo sobre tela

Estou lendo Bel-Ami de Guy de Maupassant.  E as imagens dos quadros de pintores franceses do final do século XIX, não param de vir à minha mente.  Resolvi então, à medida que estas passagens aparecem durante a minha leitura, colocá-las aqui, lado a lado.  Uma ilustrando a outra e vice-versa.

 

A fumaça dos cigarros velava um pouco, como um nevoeiro muito fino, os lugares mais distante, o palco e o outro lado do teatro.  Elevando-se sem cessar, em pequenos filetes esbranquiçados,  de todos os charutos e de todos os cigarros que toda esta gente fumava, a bruma ligeira subia sempre, acumulavase no teto e formava em torno do lustre, sob a cúpula, acima da galeria do primeiro andar, cheia de espectadores, um céu enevoado de fumaça.

 

No vasto corredor de entrada que leva  ao passeio circular, onde vagueava a tribo bem vestida das prostitutas,  misturada à multidão sombria dos homens, um grupo de mulheres esperava os que chegavam, diante de um dos três balcões, onde dominavam, pintadas e gastas, três mercadoras de bebida e de amor.

 

Os altos espelhos, atrás delas, refletiam suas costas e os rostos dos passantes.

 

[Uma visita ao Folies-Bergère].

 

Em: Bel-Ami, de Guy de Maupassant, tradução de Clóvis Ramalhete, São Paulo, Editora Abril: 1981, página 16.





Clara Hoyt, um perfil de mulher: a prosa deliciosa de Louis Auchincloss

15 07 2010

Coquetel, ilustração de 1944, assinada Eric.

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Em janeiro deste ano a nota de falecimento de Louis Auchincloss não chegou a fazer manchetes no Brasil, onde o autor é pouco conhecido. Mas, para mim e milhares de outros fãs do escritor americano, ficou o vazio de se saber que não mais poderíamos contar com a sutileza, a crítica elegante e mordaz, assim como a prosa límpida que preenchia, sempre sem exageros, as páginas de seus romances: ia embora  um dos grandes e mais tenazes observadores da sociedade americana, um autor que reinou  ímpar por grande parte  do século XX. 

Foi com a intenção de despedida, com o aceno do adeus, que me dediquei à leitura de um dos pouquíssimos livros do autor, dentre suas mais de 50 publicações, traduzidos e publicados no Brasil:  A infinita variedade dessa mulher, São Paulo, Editora A Girafa: 2004.  O romance se passa entre 1937 e 1963 – trinta e poucos anos que remodelaram o mundo, as economias americana e mundial; período em que a vitória das forças aliadas na guerra leva os Estados Unidos a um papel ainda mais central no mundo ocidental, como potência econômica, militar e cultural.   Mas ainda que este seja o horizonte em que a vida de Clarabel Hoyt – principal personagem do romance – se aprume, ainda que esta seja a paisagem contra a qual as oportunidades que lhe aparecem são possíveis, o retrato que estudamos nas 280 páginas do livro é aquele de uma mulher em busca de sua razão de vida.

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Louis Auchincloss foi o autor que, no século XX, melhor retratou a sociedade rica e poderosa dos Estados Unidos, o grupo social que age nos bastidores da política americana.  É daí que invariavelmente políticos de qualquer partido são escolhidos,  vice-presidentes ou executivos de grandes corporações.  Esse é o grupo social que frequenta as escolas particulares aos moldes ingleses, as universidades de maior prestígio [Ivy League Schools], os clubes fechadíssimos na cidade e no campo. Seus membros são dificilmente visíveis em lugares públicos e nunca chamam atenção para si mesmos.  Este é o grupo que age há séculos, como eminência parda do poder, num país que se diz uma gigantesca sociedade de classe média.  Sem entender que é desse grupo social que vêm as grandes reformas políticas, sociais e econômicas daquela sociedade — de direita ou de esquerda — é não compreender completamente as forças econômicas e sociais que fazem o país tão dinâmico.    Direto em estilo e refinado na linguagem, como Henry James o era, Auchincloss lembra, no retrato da sociedade nova-iorquina de poder, a herança cultural recebida por aquele autor.  E nesse simples retrato de mulher essa semelhança com o seu antecessor não deixa de ser lembrada.

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Louis Auchincloss

 

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Perfis de mulher estão entre os assuntos mais revisitados na obra de Auchincloss, ao retratar a nata da sociedade nova-iorquina.  E Clara Longcope Hoyt Tyler é mais uma delas.  No início do romance, vemos uma jovem frequentando as melhores escolas, e demonstrando mais personalidade do que suas colegas.  Ao se apaixonar  por um rapaz sem a ambição necessária ao sucesso, segue os conselhos de sua mãe, uma mulher bem-nascida mas frustrada com o resultado do casamento que fizera —  e não se casa com ele.   Nossa simpatia começa com Clara.  Mas, aos poucos, à medida que ela dá largas a sua ambição, vamos nos distanciando dessa mulher.  Nós e o escritor, que através de uma narrativa de grande destreza se encarrega de nos separar gradativamente da heroína.  Até a mãe de Clara, que no início nos parece fria e calculista, de quem resguardamos nossos corações, aos poucos vai também desacreditando dos meneios de sua filha para chegar onde quer.  Clara é o retrato da mulher fria e calculista, que se atreve a usar de sua influência como mulher e intelectual para chegar ao poder.  Com ela Auchincloss faz um excelente retrato das atitudes femininas de meio-século, distintas nas décadas de antes e depois da guerra: nos anos 40 fica claro que as mulheres tinham de usar seus atrativos femininos para atingir ao seu potencial intelectual.  Já depois da guerra a atitude passa a ser diferente, e como Clara descobre é necessário jogar de igual para igual com os homens para conseguir o que deseja. —-

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A leitura desse romance é rápida; sua narrativa é cristalina, amplamente dignificada com a tradução de Sérgio Viotti.  A poderosa e pequena sociedade fechada nova-iorquina é sutilmente retratada.  E a manipulação para chegar ao poder precisamente crível.  Leia.  É uma ótima maneira de preencher um final de semana de inverno.





Mariette em êxtase, de Ron Hansen

2 05 2010

 

 

Santa Teresa em êxtase, 1645-1652       [DETALHE]

Gian Lorenzo Bernini ( Itália, 1598-1680)

Escultura em mármore

Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma.

Não sei exatamente porque escolhi recentemente a leitura  de Mariette em êxtase, [Editora Objetiva: 1996] romance do escritor americano Ron Hansen, um livro que já fazia moradia na minha estante há alguns anos.  Não sei tampouco como esse livro  “apareceu aqui em casa” tendo um perfil tão diferente do que costumo comprar.  Mas estou grata às circunstâncias que me levaram a ele, pois essa foi uma leitura cativante, rica e inesperadamente marcante.

A história se passa no início do século XX, no convento das  freiras Irmãs da Crucificação, no interior do estado de Nova York.  Mariette, uma bela jovem de dezessete anos, filha de um médico local, decide entrar para esse convento, o mesmo escolhido anos antes por sua irmã mais velha, também chamada para a vida monástica.  Mariette é uma jovem devota, extremamente espiritual, dada a sonhos e transes, que se realiza na vida doméstica e regrada das religiosas.  Com essa abertura, seria difícil imaginar que o cotidiano de um convento, com rotinas de orações, horas para meditação, jantares em silêncio seria evocado de tal maneira que ler o texto até o final poderia tornar-se uma obsessão tão aguda quanto se essa história fosse um conto de espionagem.

E é.  Foi assim que me senti.  Acho que esta é de fato uma história de quase espionagem, uma história de mistério.  Não da espionagem como a entendemos entre nações rivais, companhias multinacionais roubando novas idéias umas das outras.  Nem mesmo uma história de mistério com algum crime por resolver.  Mas há  semelhanças com a espionagem porque depois de seis meses de vida conventual Mariette recebe sinais de que suas preces e sua devoção são respondidas.  Sua fé talvez esteja sendo agraciada por poderes espirituais desconhecidos por meros mortais.   Agraciada por quem?  Como ela conseguiu esse canal de comunicação com o mundo espiritual?  Porque não qualquer outra freira do convento?  Fervorosa nas suas orações, zelosa ao manter suas penitências, obstinadamente dedicada à sua crença, Mariette é arrebatada por eventos fora de seu controle:  estigmas que aparecem em suas mãos, sangue que jorra de feridas no seu corpo.   Esse é o mistério que a abraça, que a faz diferente das outras irmãs. 

 

A natureza da diferença de Mariette em  relação às suas companheiras é o fator de divisão nessa pequena comunidade.  Devemos acreditar ou não nos sinais de fé da Mariette?  São verdadeiros ou forjados?   Logo, logo o convento se divide.  O mistério invocado pelos estigmas é onipresente,  devastador.  Nesse aspecto, o romance chegou a me lembrar do filme O anjo exterminador de Luís Buñuel (1962).  Não que haja perigo de morte para os habitantes do convento, mas a presença do mistério, do indescritível poder de uma força diferente, exterior, alienígena leva a revelações íntimas sobre as próprias freiras.  As conseqüências são as dúvidas sobre o próprio mistério, são a inveja, são as inseguranças de cada membro afloradas.  Tudo isso me lembrou forçosamente da parede invisível que condena os convidados de um jantar a uma clausura indefinível do filme mexicano.

O sucesso dessa narrativa deve-se principalmente à magnífica prosa de Ron Hansen, — em grande parte deixada intacta pela excelente tradução de Marcos Santarrita —  que não usa uma palavra a mais do que o necessário; que mantém até o final o enigma dos mistérios testemunhados pelos personagens e pelo leitor.  O ritmo da narrativa é fundamental nesse romance.  Determinado a não se acomodar a soluções fáceis e a dar ao leitor a opção de solucionar o que se passa por si mesmo, Ron Hansen consegue produzir uma pequena obra prima que nos leva a considerar a natureza da fé e do milagroso.  Esse é um livro fascinante.  De leitura rápida e bem ritmada, sua história fica na nossa imaginação sendo revivida de diversas formas, sendo aludida com freqüência.  Uma ótima leitura.

Ron Hansen





As 10 melhores histórias de amor, lista da escritora Esther Freud

28 04 2010
 Ilustração Bob Jones

O jornal britânico The Guardian publicou recentemente a lista das dez melhores histórias de amor compiladas pela escritora britânica Esther Freud, que, em 1993,  foi considerada uma das 20 melhores escritoras britânicas pela revista Granta.  Sua obra não está publicada no Brasil e em português só encontrei o romance Um verão em Siena, publicado em Portugal pela editora ASA.

A autora de romances recheados de boas histórias de amor justifica suas escolhas da seguinte maneira:  “ As histórias de amor que permaneceram na minha imaginação foram as que quebraram o meu coração.  Romances que criaram um desejo, uma nostalgia, uma saudade entre duas pessoas; além de verdadeiros conflitos, desencantamentos e desesperança quando o amor não chega a se concretizar”.

 

Aqui está sua lista:

E o vento levou… de Margaret Mitchell

Este foi o primeiro livro que eu li e que me levou numa viagem espiritual.  A dedicação contida e sistemática de Rhett Butler à Scarlett pela maior parte do romance, o momento horrível em que ele deixa de amá-la, e ela finalmente admite que o ama, me fizeram querer mudar o destino ou que Margaret Mitchell  interviesse.  O meu volume estava ensebado e molhado de lágrimas quando acabei de lê-lo.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Margaret Mitchell, E o Vento levou, em sua 43ª edição.  Editora Villa Rica.  São 968 páginas.]

Jane Eyre  de Charlotte Brontë

Jane Eyre foi responsável por minha crença no poder dos romances, algo que me perturbou durante os meus anos de adolescência.  A suposição de que você poderia se reclinar à janela e sussurrar o nome de seu amado, e que ele poderia de fato lhe ouvir, era por demais sedutora para mim.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Charlotte Brontë, Jane Eyre, Editora Itatiaia:2008, 285 páginas.]

Tess  de Thomas Hardy

 

Quem consegue se esquecer do momento em que Tess não acha a carta que foi enfiada por debaixo de sua porta?  Esta cena está cravada nos milhões de corações dos leitores do romance no mundo inteiro.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Thomas Hardy, Tess, Editora Itatiaia:442 páginas.]

Anna Kariênina de Liev Tolstoy

Provavelmente o melhor romance já escrito.  Tolstoi retrata os altos e baixos da paixão de Anna por Vronsky, e nos mostra a impossibilidade de seu amor poder ser equivalente ao que ela perde.  As cenas entre ela e seu filhinho – a quem precisa abandonar – são de cortar o coração por seu controle, e são desses momentos que nos lembramos, quando o ardor de Vronsky começa a esvanecer.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Liev Tolstoy, Anna Kariênina, Editora Cosac Naify: 816 páginas.]

Doutor Jivago de Boris Pasternak

É difícil superar uma história de amor russa, especialmente este romance épico, com a guerra como pano de fundo, mas a história de amor de Jivago por Lara e o momento inesperado que eles têm de reavivar sua paixão quando o destino os junta de novo no exílio, é difícil de resistir.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Boris Pasternak, Doutor Jivago, Editora Record: 630 páginas.]

A procura do amor de Nancy Mitford

 

É como consumir um delicioso quitute.  Um romance muito engraçado do ponto de vista de Fanny, cuja mãe “A fugitiva”, a deixou para trás para ser educada por uma tia.  Ela passa a maior parte do tempo com seus primos, os excêntricos e glamorosos Radletts, e é Linda Ratlett – um composto de Mitford e suas irmãs – procurando  pelo companheiro perfeito, que é a figura  central  deste romance.

[Não encontrei nenhuma tradução do livro: The pursuit of love, de Nancy Mitford, no Brasil.  Há uma edição portuguesa]

O tempo nas ruas de Rosamond Lehmann

 

Publicado originalmente em 1936, este livro estava muito avançado para o seu tempo na descrição de um caso de uma jovem mulher com um homem casado.  Lehmann nos leva com ela – na espera, nos momentos brilhantes de esperança – sem que percamos a simpatia por qualquer um dos personagens.  Cheio de paixão e de uma honestidade brutal ao retratar como o amor pode tomar conta de toda uma vida. 

I

Ilustração, Bob Jones

Terra descansada de Jhumpa Lahiri

 

Nessa coleção de contos, Lahiri nos dá três histórias conectadas.  Hema e Kaushik são dois Americanos de origem indiana cujos pais eram amigos quando eles eram jovens e que se encontram por acaso em Roma.  Eles são irresistivelmente atraídos um pelo outro, mesmo Hema estando de casamento marcado.  A medida que seus sentimentos se intensificam, nós ficamos absorvidos com o desejo que sentem e a vontade de que eles tenham coragem para alterar o curso de suas vidas.  Mas aí o destino – ou a natureza – intervém, e a dor no final me deixou doída fisicamente.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Jhumpa Lahiri, Terra descansada, Cia das Letras:2009, 384 páginas.]

 A história do amor de Nicole Krauss

Uma história de muitas facetas sobre a solidão e oportunidades perdidas.  Alma, uma menina de 15 anos, tenta ver o sentido da vida, depois que seu pai morre, ao se concentrar na trama do romance que sua mãe está traduzindo.  A bela, engraçada e misteriosa história junta seus  personagens de uma maneira completamente inesperada mas bem-vinda.

[No Brasil, o romance encontra-se à venda —  Nicole Krauss, A história do amor, Cia das Letras:2006, 320 páginas.]

Um dia de David Nicholls

Seguimos a vida de Emma e Dexter por 20 anos de amizade, fascinação, oportunidades perdidas, casamentos mal feitos e eventual união eles;  este é um romance com uma estrutura brilhante, engraçado e fundamentalmente agonizante.

[Não encontramos tradução deste romance para o português.]

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Fonte: The Guardian, 27/04/2010