Amigos e inimigos, texto de Benjamin Tammuz

23 07 2015

 

 

MarktJaffaGustavBauernfeind1887Porto de Jafa, 1888

Gustav Bauernfeind (Alemanha, 1848-1904)

óleo sobre tela, 148 x 281 cm

 

 

“Aqueles árabes que eu, na prática, maltrato, porque caíram nas minhas mãos algemados e derrotados, quem são eles se não aqueles árabes que foram trabalhadores no pátio de nossa casa, aqueles mesmos árabes com os quais persegui lebres; aqueles árabes cujas mães trabalhadoras me seguravam secretamente sob a sombra do galpão e cobriam o meu rosto de beijos; as primeiras mulheres de quem ouvi, quando estava com cinco anos, que eu era bonito, que queriam me raptar e me levar para casa delas. E agora eu coloco os filhos delas sentados sob uma lâmpada elétrica e, em troca das alegrias da infância que conheci com elas e do amor de suas mães, os retribuo com medos mortais.

Não estou pedindo desculpa. Eles nos odeiam mortalmente e eu faço exatamente o que é possível e é preciso fazer. Mas isso não altera o fato de que, pela amizade de um árabe, eu daria dez amigos norte-americanos, ingleses ou franceses. Com um homem europeu eu posso tomar uísque, fazer negócios e chegar a um acordo de que o Estado de Israel é na prática uma extensão da Europa no Oriente. Mas com um árabe posso voltar a rolar na poeira no meio da plantação, respirar o cheiro de esterco queimado de bodes, colher e mascar segurelha, correr em direção ao horizonte e encontrar ali a minha infância e talvez encontrar também um sentido na vida — que agora quase não tem propósito — no local em que se encontra também a colina dos dias da minha infância.”

 

Em: Minotauro, Benjamin Tammuz, tradução de Nancy Rozenchan, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2015, pp, 179-180.

 





Assim é se lhe parece, “Estação Atocha”, de Ben Lerner, resenha

19 07 2015

 

salado, madriPlaza Carmen, Madri, c. 1962

Juan Bayon Salado (Espanha, 1903-1995)

óleo sobre tela,  60 x 73 cm

 

 

Sem citar Assim é se lhe parece, de Pirandello, Ben Lerner evoca a trama teatral do autor italiano em Estação Atocha, quando tudo à nossa volta pode ou não ser o que parece. Nesse livro seguimos as aventuras de um possível poeta americano [será que ele é mesmo um poeta?] se embrenhando nas complicações da vida na Espanha, onde reside graças a uma bolsa de estudos, para a qual havia inventado um tema de pesquisa que não tinha intenção de levar avante. Esse não é o único logro da história, nem o primeiro, mas um de uma série de desonestidades, cometidas por todos os personagens num desfilar de pequenas fraudes sem fim.

 

atocha

 

Aventuras de viagem não são tema raro na literatura, nem recorrentes dúvidas de uma pessoa criativa sobre sua própria criatividade. Tampouco é novidade a sensação de se andar em pantanal, de afundamento a qualquer momento, quando usamos uma língua que não dominamos. Mas todo o resto dessa narrativa é diferente nesse pequeno romance. Porque estamos diante de um manifesto sobre as incongruências da nossa percepção, da percepção dos outros e como exploramos a maleabilidade e a diversidade de pontos de vista, das muitas possíveis verdades, para nosso próprio benefício. As referências às artes plásticas, o sentar e observar um quadro por horas até que saia de foco, são claros indicadores dessa preocupação do autor, senão, qual seria a razão de termos algumas fotografias ilustrando um romance? Ben Lerner mostra que somos todos poliedros. Que temos muitas faces. Que face nossa mostramos ao mundo? Vai depender da nossa vontade. Vai depender da nossa audiência. Que face nossa o mundo vê? Também vai depender de como eles querem nos perceber. Por que não ajustar a história pessoal, a narrativa de vida, de acordo com cada situação? É justamente nessa linha entre o que se acredita ser verdadeiro e o que poderia ser, entre as diversas opções de realidade, entre os mitos que criamos a nosso respeito, nossa história pessoal, que trafega o personagem principal, numa viagem mercurial, entrando e saindo do submundo dos sonhos ao mundo da realidade, tudo incrementado pela névoa perpétua que domina sua mente permanentemente drogada.

 

ben lernerBen Lerner

Ben Lerner não poderia ter levado o romance ao fim não fosse sua intrigante e sedutora voz narrativa: uma combinação de Virginia Woolf e monólogos humorísticos como os recitados na comédia em pé. Por vezes cômico, outras mais filosófico, o texto faz uma afinadíssima crítica aos intelectuais, aos poetas, aos apreciadores das obras de arte, aos demonstradores políticos profissionais, todos encontrados em qualquer grande cidade do mundo, em qualquer Meca da cultura. A fina ironia aparece autodirecionada e simultaneamente reveladora como crítica de costumes.

A narrativa é feita pelos olhos do jovem poeta americano Adam Gordon em busca de experiências novas. Seus poemas usam o pastiche de poemas de outros poetas. Larápio de palavras que traduz, modifica e reusa; punguista de ideias, usa as reticências do silêncio para ser percebido como profundo pensador. Questiona-se sempre sobre sua fraude. E não perde a habilidade de perceber, ou de questionar a possível desonestidade dos outros. E assim, mais cedo ou mais tarde, aprende que o comunista filho de pais ricos que vai à Estação Atocha demonstrar às vésperas da eleição, não vota no partido comunista, com a desculpa de que quer que as coisas fiquem ainda piores. Recebe um email de fundação que o financia, agradecendo sua participação em um debate, cujo convite não havia aceitado. Quando sugere que quadros em uma galeria sejam cobertos em pano preto em sinal de luto pelos mortos em um atentado terrorista, observa que os visitantes da galeria, olham para os quadros cobertos com grande intensidade, encontrando neles significado além do intencionado. Em todo canto, a toda hora, não só o nosso poeta anti-herói engana a si mesmo e a outros, mas também percebe a trapaça ou burla dos outros. Este é um romance divertido, com grande voz narrativa, que leva a uma ponderação sobre temas psicológicos e de comportamento social com a leveza do humor. Recomendo.





As Garças, fábula de Leonardo da Vinci

20 06 2015

 

 

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Lyse Anthony (EUA, contemporânea)

aquarela, 24 x 16 cm

Lyse Anthony

 

 

 

Mais uma fábula de Leonardo da Vinci.  Quem  segue este blog  já sabe que além de grande pintor, arquiteto e cientista, o gênio da Renascença italiana também ficou conhecido por sua arte de conversar, e também de contar histórias.  Leonardo escreveu e anotou fábulas e contos populares, lendas e anedotas, organizando-as em volumes diversos.   Algumas dessas lendas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972.  Transcrevo aqui a fábula  As Garças do volume de Leonardo chamado: Lendas, H. 9r.)  Em: Fábulas e lendas, Leonardo da Vinci, São Paulo, Círculo do Livro: 1972, p. 42

 

 

As Garças

 

O rei era um bom rei, porém tinha muitos inimigos. As garças, leais e fiéis, estavam preocupadas. Havia sempre a possibilidade, principalmente à noite, dos inimigos cercarem o palácio e aprisionarem o rei.

— Que devemos fazer? pensaram elas. — Os soldados, que deveriam estar de guarda, estão dormindo. Não podemos confiar nos cães, pois estão sempre caçando e sempre cansados.  Nós é que temos que guardar o palácio e deixar nosso rei dormir em paz.

Então as garças decidiram tornarem-se sentinelas. Dividiram-se em grupos,  cada grupo zelava por uma área, com mudanças de guarda em horas determinadas.

O grupo maior postou-se no prado que cercava o palácio. Outro grupo colocou-se do lado de fora de todas as portas. E o terceiro decidiu ficar no quarto do rei, a fim de vigiá-lo o tempo todo.

— E se nós adormecermos? perguntaram algumas garças.

— Temos um modo de evitar adormercermos, respondeu a mais velha de todas. — Cada uma de nós vai ficar segurando uma pedra com o pé que estiver levantado enquanto permanecermos paradas. Se uma de nós dormir, a pedra cairá no chão e o barulho a acordará.

Todas as noites, desde então, as garças vigiam o palácio, mudando a guarda de duas em duas horas. E nenhuma, ainda, deixou cair a pedra.





Mais uma sugestão de leitura: Sofi Oksanen

19 04 2015

 

Fran Peppers, jovem lendo, ost,20x24nchsJovem lendo

Fran Peppers (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

www.franpeppers-art.com

 

 

Cá pelo Rio de Janeiro, temos 9 dias de folga em pleno mês de abril. Amigos me pedem dicas de leitura.  Todos sabem que vou sempre preferir algo um pouquinho menos conhecido. Como a volta ao trabalho só está programada para segunda-feira, dia 27, há tempo de sobra para se ler bons livros.

Hoje, li a entrevista de Sofi Oksanen no jornal inglês The Guardian, e me lembrei que a autora está representada no Brasil, por pelo menos dois títulos.  Com ela conhecemos melhor as histórias de colonialismo soviético, que como o The Guardian lembra, é assunto pouco abordado. E sabê-lo pelo olhos de uma escritora finlandesa, uma raridade no nosso horizonte, parece interessante pois sugere um distanciamento político raramente preservado nos meios intelectuais brasileiros em relação à antiga União Soviética.  Estes livros são de leitura empolgante, thrillers, daqueles que não se quer deixar de lado para nada.  Perfeitos para férias.

 

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SINOPSE — Em 1992, uma velha senhora que vive solitária em uma floresta da Estônia, Aliide, acolhe em sua casa uma jovem russa, Zara. Apesar das desconfianças e precauções iniciais, as duas começam a se conhecer melhor e desenvolvem uma relação de amizade. Zara era uma escrava sexual na Rússia, e depois que fugiu passou a ser caçada por dois mafiosos russos que estão envolvidos no mercado sexual. Já Aliide vê na nova amiga uma oportunidade de contar sua trajetória e suas experiências pela União Soviética, tentando se livrar dos próprios fantasmas.

Expurgo, de Sofi Oksanen, Editora Record: 2012, 350 páginas

 

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SINOPSE — Este é um poderoso romance, épico, único, que ao contar a história de Sofia, Katariina e Anna — avó, mãe e filha — perpassa todo o século 20 até chegar na atualidade. Desde a fome durante a guerra aos distúrbios alimentares para alcançar uma magreza ideal típica dos nossos tempos: está tudo aqui escrito com a visceralidade de uma das autoras contemporâneas mais aclamadas.

Na década de 1970, Katariina deixou a Estônia soviética em busca da promessa de felicidade ocidental que a Finlândia, país vizinho porém com realidade distante, representava. Sua mãe Sofia vivera desde o início os terrores da repressão soviética e assim que pôde incentivou a filha a ir embora mas agora é Anna, justamente a neta nascida na Finlândia e de hábitos ocidentais, que precisa de salvação: desde a doentia relação com seu corpo à estranha relação que tem com o sexo e com as pessoas.

 

As vacas de Stalin, Sofi Oksanen, Record: 2013, 420 páginas

 





Duas sugestões de leitura por Nick Hornby

16 04 2015

Agnes Goodsir (Australia1864-1939) ~ A saia chinesa, 1933A saia chinesa, 1933

Agnes Goodsir (Austrália, 1864-1939)

óleo sobre tela, 90 x 71 cm

Art Gallery New South Wales, Austrália

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Estou sempre à procura de recomendações de leitura.  Hoje encontrei  um artigo do ano passado em que o escritor Nick Hornby recomendava a leitura entre outros de  5 livros de ficção.  Comparando a lista dele com livros já publicados no Brasil,  encontrei dois títulos traduzidos. Passo adiante, então, as recomendações de Nick Hornby.

A vida financeira dos poetas, Jess Walter, Ed. Benvirá: 2013, 352 páginas

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SINOPSE— Matt Prior, jornalista, 46 anos, larga um emprego seguro para investir num negócio próprio na internet, e falha miseravelmente. A ideia de criar um portal de notícias econômicas escritas em forma de poesia mal consegue sair do papel. Agora, ele está desempregado e sem dinheiro, corre o risco de perder sua casa e teme, mais que tudo, perder a mulher, cada vez mais intolerante às dificuldades financeiras do casal (e interessada em flertar com um ex-namorado da adolescência). A vida dele se torna uma sucessão de crises: financeira, da meia-idade, do amor desfeito, a crise de confundir bens materiais com segurança e segurança com felicidade. Com dois filhos pequenos e responsável também por cuidar do pai, cuja memória se deteriora sem parar, Matt é um sujeito de humor inabalável que precisa arranjar uma forma de ganhar a vida. E ele arranja, mas de maneira nada convencional…

Uma bondade complicada, Miriam Toews, Relume Dumará: 2005, 220 páginas.

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SINOPSE — Uma bondade complicada – Esse romance é o que há de mais interessante na ficção contemporânea em língua inglesa. Nomi, uma menina de 16 anos, de uma comunidade menonita, é abandonada pela irmã e pela mãe da noite para o dia. Quando sua vida na cidade se torna insuportável, é surpreendida pela partida do pai. Decidida a se liberar, ela descobre que a mãe foi vítima da chantagem de um professor. Uma leitura ao mesmo tempo comovente e engraçada sobre a busca de uma adolescente dos anos 70.

Ficam aqui as sugestões de um escritor que já escreveu muitas críticas literárias. Boa pedida para a sequência enorme de feriados neste final de abril.

O artigo completo, com outras sugestões de livros que ainda não foram traduzidos para o português, encontra-se no LINK





Karin Altenberg e a paisagem em seus romances

14 04 2015

 

 

Cecilia Rosslee (AfricadoSul) eminutosdepaz,ost,ColPartUns minutos de paz

Cecília Rosslee (África do Sul, contemporânea)

óleo sobre tela

www.ceciliarosslee.com

 

 

Achei interessante a descrição do valor da paisagem para Karilan Altenberg, escritora britânica, nascida na Suécia, que explicou no  artigo, Karin Altenberg: ‘landscape in my novels is not just backdrop – it is both stage and actor’ no jornal The Irish Times, a importância da localização em suas histórias. Para ela, a paisagem é muito mais que o simples ambiente em que a trama se desenvolve, ela é parte intrínseca da história.

“A localização do romance para mim é tão importante quanto a trama.  O lugar é um conceito existencial, intimamente ligado ao nosso estar no mundo.  Experimentamos nossa identidade, de maneira significativa, através do lugar e da comunidade a qual sentimos que pertencemos: uma espécie de lar arquétipo do qual  podemos sempre escapar e para o qual podemos regressar. E todos nós somos, até certo ponto, socializados através de paisagens, nomeando os lugares que nos são conhecidos familiares – é assim que existimos, através de uma cartografia da linguagem e de lugar. E isto é, em grande parte,  o que a arte tenta fazer: a classificação e o mapeamento de um lugar de existência.”

Para ela é necessário se infiltrar no ambiente em que sabe que colocará sua história, e só depois de ter assimilado e armazenado as informações do local, ela consegue ver seus personagens interagindo e tomando vida nas histórias que cria.

“Acho que o local que um escritor escolhe para sua narrativa está relacionado à sua sensibilidade. Sou sintonizada – e já observava de perto – o espaço ao ar livre, desde que era criança. Outros escritores podem ser mais conscientes da arquitetura, de interiores ou de paisagens urbanas. Também gosto de olhar para trás e sentir que a paisagem do passado é ao mesmo tempo terrivelmente real e totalmente de outro mundo – uma ficção maravilhosa.”

 

(tradução minha)





A popularidade inabalável de Jane Austen

5 04 2015

Paul Gustave Fischer, esposa do pintor lendo em Sofievej, 1916Musse, a esposa do pintor, na casa em Sofievij, 1916

Paul Gustave Fisher (Dinamarca, 1860-1934)

óleo sobre tela

Fomos presenteados pelo Wall Street Journal, com um delicioso ensaio sobre o sucesso póstumo de Jane Austen. Sucesso não só póstumo, mas sobretudo póstumo-tardio, se me permitem, já que 200 anos se passaram desde a publicação em 1813 de Orgulho e Preconceito, a obra mais popular da autora inglesa, e hoje um dos livros mais lidos no mundo inteiro. O artigo é assinado por Alexander McCall Smith, que por sua vez é seguido por milhares de leitores, desde que se tornou popular com Agência número 1 de mulheres detetives, [no Brasil publicado pela Cia das Letras em 2003]. Seus livros relatando as aventuras de deliciosos personagens de Mma Ramotswe, Mma Makutsi a Mma Potokwane, em Botswana, também foram, para espanto de muitos, sucessos de venda no mundo inteiro. No Brasil, As lágrimas da Girafa, O clube filosófico dominical, Amigos amantes e chocolate, entre outros conquistaram fieis seguidores.

McCall Smith, que portanto não é estranho à popularidade, considera com a doce ironia que o fez famoso, tudo que está envolvido nessa Austen-mania, que fez a autora inglesa ser mais lida que Tolstoy, Dickens e Proust.  Uma popularidade que surpreende, ele nos lembra, porque apesar desses autores continuarem a ser lidos em grande número, nenhum deles tem milhares de fãs que leem e releem suas obras, que participam de numerosas convenções vestidos a caráter ou que esperam com ansiedade a mais recente adaptação para o cinema, teatro ou televisão dos romances deixados por esses escritores.

310px-Jane_Austen_coloured_versionRetrato de Jane Austen, 1875, autor desconhecido, baseado em aquarela feita pela irmã da escritora, em 1810.

Além disso, a escritora inglesa tem seguidores entre escritores que se interessam em completar suas obras escrevendo ou uma sequência, ou uma visão por um ângulo diferente da mesma história e ainda romances que contam o “pré-romance”. Orgulho e Preconceito, de longe a obra mais popular de Austen bate recordes nesse nicho literário. As sombras de Longbourn, escrito por Jo Baker [Cia das Letras: 2014], conta a história vista pelos empregados da casa de Elizabeth Bennet. P.D. James, celebrada autora de histórias de mistério, se sentiu impulsionada a levar suas maquinações detetivescas para o mundo de Hertfordshire, no livro Morte em Pemberley, [Cia das Letras: 2013]. Há também algumas publicações que fogem ao esperado, como o romance de Seth Grahame-Smith Orgulho e preconceito e zumbis [Intrínseca: 2009]e livros no nicho do romance erótico

Por que? Por que Jane Austen é tão popular? Deve haver algo mais do que a eterna sedução, e retrato de uma paixão que o leitor vê desabrochar diante de seus olhos antes mesmo dos protagonistas se darem conta do que acontece. Afinal, este enredo é o básico para quase todos os romances “para senhoras” do século XIX. Lembramos de dezenas de títulos nessa linha romântica mesmo aqui no Brasil, A moreninha de Joaquim Manuel de Macedo [1844]; O tronco do ipê, José de Alencar [1871]; A mão e a luva de Machado de Assis [1874]. O que diferencia, certamente, Jane Austen de outros escritores do gênero é um fino senso de humor e um retrato detalhado das restrições impostas aos personagens da época. Além disso, é uma voz feminina, que percebe o mundo pelo ângulo da mulher inteligente que questiona. Austen ao mesmo tempo que descreve analisa com humor e engaja o leitor a ver o mundo como ela o faz. Mesmo o leitor moderno consegue entender a ironia das situações descritas e a diversão está completa.

Para ilustrar essa popularidade, Alexander McCall Smith lembra ao leitor que versões contemporâneas das obras de Austen estão sendo publicadas pelo Austen Project Series: Razão e sentimento, escrito por Joanna Trollope; A abadia de Northanger, por Val McDermid; e em abril sairá sua própria versão de Emma, para o mesmo projeto. Julgando a prosa que conheço do autor, fico ansiosa para ver o resultado. McCall Smith  afirma que ao ser convidado para o projeto levou 45 segundos para aceitar e que se divertiu imensamente com o processo. Deve nos divertir também.

E você, é fã de Jane Austen? De todas as suas obras? Ou só das versões cinematográficas? Já leu algum dos livros relacionados à  obra da autora?

Artigo: The Secret of Jane Austen Industry





Sinuosamente sedutor, resenha: “A linha da beleza”, de Alan Hollinghurst

2 03 2015

 

Beer-street-and-Gin-laneBeer Street, 1751

[Uma de um par: Gin Lane, 1751 é a outra gravura]

William Hogarth (Inglaterra, 1697-1764)

gravura

 

A Linha da beleza é uma linha curva, em forma de esse [S], ou de serpentina, batizada pelo pintor, escritor e poeta inglês William Hogarth, em seu livro teórico, Análise da Beleza, de 1753. Hogarth defendia que essa linha, que vai e volta, teria a capacidade de ativar a atenção do espectador, de mostrar vivacidade e movimento sedutores, inigualáveis, principalmente quando comparada à linha reta, ou às linhas paralelas e até mesmo às linhas cruzadas. Essas outras estariam associadas a objetos inanimados e à morte. Alan Hollinghurst menciona essa linha, no título, e mais tarde a meio caminho da narrativa: “O arco duplo era a ‘linha da beleza’ de Hogarth, a tremulação de um instinto, de duas compulsões mantidas em um movimento não desdobrado (190). O título emprestado de Hogarth explica a trajetória de vida do personagem principal. Como em uma peça teatral, o romance é divido em três atos: primeiro Nick Guest no início de sua estadia como convidado [guest] na casa de um membro do Parlamento inglês; depois seu desempenho pós-graduação em Oxford e primeiras aventuras amorosas; por último, o momento em que se desliga daquela mansão, quatro anos mais tarde. Esses três tempos, seguem o movimento sinuoso que Hogarth considerava atraente: começa de um ponto zero, ganha volume e consistência na segunda parte e se fecha à saída de Nick Guest do convívio da família politicamente poderosa, já em outro estágio de maturidade emocional.

Semelhante sinuosidade é demonstrada pelo próprio Nick Guest que desliza sedutoramente por entre personagens do livro aliciando membros da família com quem vive. Loquaz, ágil, habilidoso na maneira se colocar, de dar apoio quando necessário, preocupa-se em agradar para não perder privilégios, à procura sempre da palavra certa. A impetuosidade não é uma de suas características. Ele é calculista. Procura compreender qualquer situação para dela tirar maior proveito; é um mestre da esperteza social, ciente do efeito que seus gestos, palavras ou ações podem ter entre aqueles com quem se relaciona. É o exemplo da vivacidade, do movimento sedutor e da atitude cativante com o fim de obter conquistas de âmbito pessoal. É o personagem principal, não chega a ser um anti-herói, mas está longe de ser um homem de caráter exemplar ou um ser humano confiável e idôneo. No entanto, talvez por conhecer sua maneira singular de pensar e seus motivos, somos seduzidos a saber o que acontece com ele do início ao fim da leitura.

 

Sign-painter-Beer_StreetDETALHE, o pintor de letreiros, na gravura de Hogarth que abre esta postagem.

 

Esta é a história de Nick Guest, que ao terminar os estudos em Oxford e decidir fazer o doutoramento em literatura, dá início a uma nova fase em sua vida. Não só ele se debruçará sobre a obra de Henry James, mas irá explorar sua homossexualidade até então confinada a sonhos e devaneios. Ambicioso, Nick não perde oportunidade para parecer aquilo que não é: membro da elite social e financeira do país. Confiando na sua habilidade de conversar, no seu conhecimento de música e literatura, na disciplina de prestar atenção aos detalhes de luxo e de estilo, e na curiosidade de observar aqueles à sua volta, Nick consegue negociar uma estadia por tempo indeterminado, na residência de uma família rica e influente na política. Com o conhecimento de antiguidades adquirido através de seu pai, um comerciante no ramo, Nick julga de longe o valor dos objetos que encontra nas casas que frequenta e considera seus donos pelo que possuem. Por isso mesmo, não tem um debate emocional interno ou qualquer crise de consciência ao aceitar presentes finos e luxuosos por favores sexuais, agindo como qualquer amante em relações às escondidas. Também fica longe de se considerar em dívida de fidelidade para com os membros da família que o acolheu. Nick observa as pessoas como objetos, mesmo aqueles que diz amar. Há um distanciamento palpável entre o que diz sentir e o que faz. Dar-se, abrir-se ao outro sem restrições, não faz parte de seu caráter. Nick é egoísta e tem um único objetivo: ser bem sucedido no amor.

 

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Hollinghurst mostra seus personagens sem exageros, de maneira realista e usa a ironia sutil, como base sólida para a análise do que retrata. Mesmo assim, não se pode deixar de lembrar que se trata de uma sátira da vida na Grã-Bretanha, na década de 1980. A narrativa é de grande precisão e distanciamento. Cenas difíceis de sexo, de promiscuidade e traições, todas são narradas com rigor e clareza. O extenso uso de drogas é claramente delineado. A procura obsessiva e indiscriminada por amor e aceitação, feita através do sexo, é necessidade do personagem principal e parte de sua angústia e de sua carência. No entanto, tudo é retratado de maneira tão exata e rigorosa que nos distanciamos e não somos capazes de sentir nem compaixão, nem ojeriza. Nick Guest não é melhor nem pior do que aqueles que o cercam, mas não consegue se identificar com grupo nenhum. Tampouco com homens ou mulheres. “Agora talvez ele realmente pudesse ir lá para cima e gozar a liberdade de ser o convidado avulso. Não se encaixava em nenhum dos ambientes “(145). Mais do que um convidado, Nick é um intruso em qualquer ambiente que habite. Ele não se encontra em lugar nenhum. Ao visitar sua cidade natal, sente-se um forasteiro, na Londres a que anseia pertencer não tem a credibilidade de nascimento ou dinheiro para entrar. Talvez por isso mesmo suas relações amorosas mais significativas sejam com imigrantes estrangeiros. O primeiro, que lhe dá o fora quando descobre que ele não tem dinheiro. E o segundo para quem se transforma em amante teúdo e manteúdo. Nick poderia até ser um personagem merecedor da nossa simpatia e compreensão. Mas não há nesse romance nenhum personagem merecedor desses sentimentos. Todos, sem exceção, são desprezíveis.

 

Alan-HollinghurstAlan Hollinghurst

 

A narrativa de Alan Hollinghurst é extraordinária. Ímpar. Referências à obra de Henry James são numerosas com o propósito de ilustrar o assunto da tese de doutoramento de Nick Guest. Mas é evidente que a mágica narrativa de James tem influência neste romance, se não pelo estilo, pelo menos pela ambientação. Aqui, como em James, os personagens são caracterizados por seu comportamento de encontro às expectativas que se tem deles. Temos uma visão de um grupo social – a classe da alta burguesia inglesa – de seus amores ilícitos e da ruptura dos códigos sociais em exercício e até mesmo de sua moralidade. As preocupações de Nick Guest com sua posição social, a vida amorosa de seus pares, o desejo de ascensão social interpretadas por ele muitas vezes com ironia colocam este romance em contexto semelhante ao encontrado no teatro, nas comédias de costume. O tom é por vezes cômico, satírico, espirituoso, repleto de diálogos vivos e contemporâneos. Hollinghurst tem ciência da posição que assume na história da literatura inglesa. E mais, suas constantes referências a escritores assumidamente homossexuais ou aos que, hoje, consideramos como homossexuais revelam que ele sabe exatamente onde sua obra deve se inserir na linha histórica da literatura gay inglesa: Shakespeare, Oscar Wilde, E. M. Forster, Henry James são apenas alguns dos parâmetros entre os quais sua obra se encerra. Mas considerar essa obra primeiramente um romance gay é extremamente redutivo e um desserviço ao mundo literário. Em questão está um romance cujo personagem principal tem características e personalidade universais: gosto pela luxo, beleza, posição social. Ele é egoísta, sinuoso, traiçoeiro. Superficial. E ele também é gay. Fazer de A linha da beleza uma obra, sobretudo gay é contribuir para a perpetuação de um preconceito. Este é um romance, um drama universal, pronto para uma série televisiva daquelas em que os ingleses se esmeram.

 

Este livro foi recipiente do Prêmio Man-Booker em 2004, o maior prêmio de literatura para os países da Commonwealth.

 

NOTA, 2/3/2015 — Acabo de ser informada que, de fato, o romance resenhado acima tornou-se uma série televisiva da BBC2, levada ao ar em 2006, com Dan Stevens [conhecido no Brasil como Mathew Crawley, da série Downton Abbey] no papel principal de Nick Guest.

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Um mundo esquecido, resenha de Reze pelas mulheres roubadas

23 02 2015

 

Lazar, Ghelman (1887-1976) LecturaGhelman Lazăr born 1887 in Galați, Romania died February 2, 1976Leitura, s.d.

Ghelman Lazar (Romênia, 1887-1976)

óleo sobre tela

 

 

Você percebeu que as palavras do dia não são as mesmas palavras da noite?” (209) pergunta uma personagem do romance de Jennifer Clement, Reze pelas mulheres roubadas. A autora certamente tem o dom da boa escolha de palavras, quer de dia ou de noite. Sua prosa é poética e consegue manter um tom onírico na narrativa.Toda a força deste livro está na narrativa: tom e ritmo são perfeitos. E mesmo que não haja uma trama segue-se a leitura até o fim, embalada pelas belas figuras de linguagem e pelos pensamentos criativos de seus personagens, que pertencem à uma realidade quase paralela. “A noite pertence aos traficantes, ao exército, à polícia do mesmo modo que pertence aos escorpiões…”(62).

Sou conhecida por abandonar leituras que não me agradam, quero, portanto, enfatizar a voz narrativa de Jennifer Clement. No entanto este livro não chega a ser um romance. É um relato poético, ficcional, uma descrição, um testemunho do que acontece com as pequenas cidades mexicanas, quando os homens emigram e as mulheres ficam à mercê dos cartéis de drogas. Reze pelas mulheres roubadas não traz em si os típicos componentes de um romance, com uma linha condutora, com trama e soluções de conflitos. Ele relata a vida de um grupo de está em conflito com a sociedade como um todo, pessoas cuja realidade parece a de um bote largado ao mar, sem rumo e sem capitão, que acaba soçobrando qualquer esperança de um porto seguro.

 

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Este é um testemunho poético de uma realidade horrível e sem nome. Abandono seria um nome melhor para a cidade de Guerrero, onde Ladydi, sua mãe e suas amigas vivem. Jennifer Clement é a jornalista poética que através dessa obra relata a vida das mulheres sobreviventes dos abusos dos cartéis de drogas. Ela escolhe retratar esse mundo, como em um sonho o que faz com que possa ser mais bem degustado pelo leitor. Mas não oferece soluções nem no mundo real, nem para seus personagens fictícios. Todos simplesmente se acomodam às situações bárbaras que lhes são apresentadas na vida.

A distância entre esse mundo e o resto do país é muito grande. Os personagens só se descobrem, só se veem patéticos, sem esperança, quando um novo professor chega à escola. Professores mudam a cada ano, já que ninguém quer ficar em um lugar tão distante quanto Guerrero. Eles vêm para completar sua obrigação de serviço social. Mas é quando o Prof. José Rosa chega à cidade, repleto do conhecimento e das maneiras citadinas, que os alunos conseguem perceber quem eles são: “Quando olhamos para ele, olhamos para nós. Cada imperfeição, nossa pele, cicatrizes, coisas que nunca nem tínhamos notado, nós vimos nele” (57). No entanto nada é feito a partir desse conhecimento.

 

184170_clement_jenniferJennifer Clement

 

Só a televisão com seus programas da National Geographic, com seus documentários, traz a civilização a esse cantinho perdido do mundo. “Minha mãe assistia à televisão porque era a única forma de sair da nossa montanha” (97). E talvez seja por isso que ao final, emigrar, correr o risco da emigração ilegal, para os Estados Unidos seja de fato o único sonho que lhes resta, já que ninguém se preocupa com os habitantes em lugares remotos do México.





A prateleira dos especiais

17 02 2015

 

Paul Herman (EUA, 1962) Bookshelf III, Books with Bronze Torso, Oil painting on panel 21 x 25 cmPrateleira III, Livros com torso de bronze

Paul Herman (EUA, 1962)

óleo sobre placa, 21 x 25 cm

www.hermanstudios.com

 

Hoje me inspirei no blog The Bookshelf of Emily em parte porque passo no momento por um momento de limpeza, de desvencilhar-me de muitos livros, imaginando que eles poderão, a partir de agora, servir a outros donos. Passei por esse processo duas outras vezes nos últimos doze anos: primeiro quando me mudei do exterior para o Brasil. Depois quando me mudei para uma residência mais eficiente, menos ampla.

Somos dois em casa a trabalhar com livros. Trabalhar a vida inteira. Meu marido ainda é um pouco mais apegado a eles, porque afinal de contas ensinou por muitos anos literatura americana.  Quem ensina literatura não podia até recentemente ter uma biblioteca magrinha.  Afinal, texto era a sua alimentação diária.

Eu, por outro lado, tinha dois amores: a palavra escrita (a historiadora e leitora) e a imagem (conhece o peso dos livros de arte?), sim a minha parte era muito mais pesada do que a dele, mas menos livros.

A vinda para o Brasil fez com que dois escritórios, anteriormente separados, cobertos de livros, fossem somados e transformados numa única biblioteca.  Isso foi em 2002.  Em 2010, com nova mudança, a biblioteca original foi reduzida à metade menos um pouco.  E agora, estamos colocando-a em um sério regime para emagrecer.

 

BOOKS Gala apple with antique books Christopher StottMaçã Gala com livros antigos

Christopher Stott (Canada, 1976)

óleo sobre tela

www.chrisstott.com

 

Tem sido uma grande surpresa perceber que podemos viver com muito menos livros do que imaginávamos.  Nós dois nos adaptamos muito bem à palavra eletrônica.  Mas aviso que já compramos livros que lemos eletronicamente e de que gostamos muito, para os ter em casa… Vai entender esse  comportamento?!

Nesse processo, assim como a Emily do blog mencionado acima, eu também estou com uma prateleira de livros favoritos. Mas estão ficando conosco só os absolutamente favoritos e os que não lemos… Ah, sim, somos compradores inveterados, temos pilhas e pilhas, um corredor inteiro com prateleiras dos não lidos…

Mas neste Carnaval — sim o processo de emagrecer a biblioteca não reconhece feriados — arrumei um cantinho muito especial para os meus favoritos.

Aqui estão os 15 primeiros,sem ordem nenhuma, só na prateleira especial:

 

1 —  Nadando de volta para casa, Deborah Levy

2 —  1Q84, Haruki Murakami, a trilogia

3 —  Nihonjin, Oscar Nakasato

4 — Traduzindo Hannah, Ronaldo Wrobel

5 —  A história do rei transparente, Rosa Montero

6 —  Concerto Campestre, Luiz Antônio de Assis Brasil

7 —  Cabine para mulheres, Anita Nair

8 —  A trégua, Mário Benedetti

9 —  As Brasas, Sándor Márai

10 – Divórcio em Buda, Sándor Márai

11 – A louca da casa, Rosa Montero

12 – A lebre com olhos de âmbar, Edmund de Waal

13 – A costureira e o cangaceiro, Frances de Pontes Peebles

14 – Este é o meu corpo, Filipa Melo

15 – Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Fal Azevedo

 

Estes são só os primeiros 15.  Voltarei a colocar mais, na lista, no momento tenho 44.  Daqui a um mês mais ou menos coloco outros 15.  Todos esses têm a minha recomendação é claro!