5ª leitura do ano: Madame Bovary, Gustave Flaubert

29 01 2026

 

 

Finalmente li Madame Bovary, de Gustave Flaubert, (1857), um clássico, considerado uma das três obras mais influentes na história literária do mundo ocidental.  As outras são: Don Quixote, de Cervantes (1605) por ser considerado o primeiro romance moderno, e Ulisses de James Joyce (1922) por ter revolucionado a narrativa, incluindo o fluxo de consciência, entre outras novidades.  Nesse meio, Madame Bovary se salienta na literatura ao introduzir o realismo na narrativa literária; pela excelência na precisão das palavras; por trazer pela primeira vez uma anti-heroína, entre outros “primeiros” que esse romance introduz, incluindo a crítica social. Essa era uma falha na minha formação que me orgulho de tê-la superado. Confesso que estava um tanto intimidada ao abrir esse livro.  Tanto se fala dele.  Foi fonte de inspiração para Ana Karênina, de Tolstói publicado vinte anos mais tarde, e foi fonte de inspiração para um grande número de escritores.  Mas depois de ler O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, há uns poucos anos, que me encantou, percebi que precisava a qualquer custo me dedicar a Madame Bovary.  A conta havia chegado. Fui auxiliada também pelo grupo de leitura Papalivros que escolheu essa como primeira leitura de 2026.

Não consigo imaginar algo que eu possa dizer que já não tenha sido dito sobre essa obra. Surpreendente  foi a mágica da linguagem encontrada, momentos de pura poesia em prosa, descrições de ambientes, de cenários que conseguem acender a imaginação do leitor sem esforço.  Flaubert trabalhou nesse livro por cinco anos, e se sente.  Seus personagens são tridimensionais, inteiros, cheios das idiossincrasias naturais dos seres humanos.  São desprezíveis, vis, mesquinhos, indiferentes, cobiçosos, idiotas, gananciosos, tolos, parvos, simplórios, interesseiros.  Mas ninguém supera Ema Bovary. Fui instigada a detestá-la. Não suscitou em mim, qualquer simpatia. Viveu e  morreu como quis, numa volúpia de quereres sem fim, ousadia sem limites, sôfrega por satisfazer-se e só a si mesma. Mesmo assim vale a pena conhecê-la.  

Flaubert e sua casa editorial La Revue de Paris foram processados por essa publicação por ofender a moral e os bons costumes. O julgamento criou grande curiosidade no público e o romance se tornou um best-seller imediatamente após ganharam a causa.  Publicado em 1857, mas passado nos anos de 1830, durante o reinado de Napoleão III, Flaubert usa o contexto histórico para retratar aquilo que não aprovava naquele reinado.

É uma história completa.  Retrata os locais, a era, os hábitos e costumes, e seus personagens são ricos, completos, com anseios e desejos, faltas morais, ciúmes, indiferenças e cobiça, tal qual o mundo que nos rodeia.  A leitura é vagarosa para ser, de fato, saboreada. É preciso imersão.  Mas o resultado dessa experiência deve ser para sempre.  Fiquei com vontade de reler quase imediatamente.  Provavelmente o farei muitas vezes. 

 





4ª leitura do ano: Maigret e o finado Sr. Gallet, de Simenon

22 01 2026

Talvez vocês não saibam, provavelmente porque não sou muito boa em meu próprio marketing, que tenho uma pífia conta no Instagram [@escritora.ladycewest], recomendação de especialista que contratei há uns três anos. Um pouco antes de enviuvar, eu havia lançado um livro de poemas [À meia voz], resultado de anos de escrita não sistemática, e de uma oficina para escritores que fiz, aqui no Rio de Janeiro, com o escritor e poeta Luís Pimentel.  Passado o primeiro ano de luto (francamente tenho poucas memórias desse período) engajei um serviço de marketing digital para saber o que deveria fazer para impulsionar vendas do livro, já que eu havia perdido a “época quente” do marketing, antes e depois do lançamento.  E poesia, eu soube durante esse período, não é item quente nas vendas.

Minha dificuldade, disse a analista, era que eu “estava mudando de profissão”.  Que sou mais conhecida como historiadora da arte, que sempre fui, galerista, que fui por muitos anos, e que ninguém esperava que eu também escrevesse. Como se as pessoas pudessem ter só um perfil, só um amor! Era preciso que eu me estabelecesse como “intelectual” (palavras dela), como conhecedora de literatura brasileira e de poesia em especial.   Com muita resistência, abri conta no Instagram.  Não sou da geração Tik Tok, e esse negócio de botar a cara lá, para me “estabelecer” era um conceito muito além da minha zona de conforto.  Mas fiz.  E como me estabelecer?  Mostrando que eu sabia do babado.  Que conhecia literatura.  Comecei, então, a postar uma poesia por dia, de segunda a sábado. É exaustivo e limitante, porque o escolhido precisa ser lido em noventa segundos ou menos. Precisa ser entendido por todos, quer a pessoa tenha completado o ensino médio ou não. E realmente, as poesias de mais sucesso são as infantis ou infanto-juvenis. Grande parte do que é escrito não cabe nesses limites.  Além disso os poemas têm que ser “família”, não podem ter palavrões, não podem falar de sexo, nem de temas controversos, nem de religião (fiz duas longas séries sobre Natal, mas o Natal abraça mais do que o religioso), têm que ter um vocabulário acessível, ideias claras.  De fato, qualquer referência à mitologia greco-romana, por exemplo, se torna ininteligível.  Recentemente li um poema que mencionava Penelope.  Pequenino, Direto.  Uma pequena joia. E percebi que a audiência não tinha ideia de quem era Penelope, aquela que tricotava e desfazia o tricô à espera de Ulisses.  Enfim, fomos em frente.  Tenho uma adolescente que faz o vídeo para mim. Comecei em out/novembro de 2023.  E sim, tenho alguns seguidores.  Mas não foi nenhuma avalanche.

Levo uma vida comum.  Não sou dada a expor nada do que faço, porque na verdade não faço nada além do que todos fazem.  Mas uma coisa ficou clara: quando posto no Instagram  fotos com esse ou aquele amigo, num local incomum para minhas postagens, o pessoal nota.  E quando mostro algo sobre minhas leituras, aquele vídeo, mesmo que feito por mim, sem grande profissionalismo, ou talvez por isso mesmo, tem pelo menos o dobro das visualizações que recebo em outras circunstâncias.  Uma de minhas decisões de 2026 foi postar mais sobre o que leio. Desde que o que eu leia seja em português, porque pode ser considerado “esnobismo” postar alguma leitura em outra língua.  Aliás as regras do marketing vieram em grande detalhe: muitas mas simples, entre elas: aparecer sempre de preto, para não distrair o espectador, ou, as pessoas prestarão atenção na sua roupa, nos seus brincos, no seu relógio.   É entrar numa espécie de  mundo paralelo, com códigos esdrúxulos, o que aumenta minha resistência.  Mas estou focando no resultado.  Principalmente porque me preparo para o lançamento de mais um livro.

Minha postagem no Instagram da semana passada, sobre essa quarta leitura do ano, trouxe mais pessoas do que o esperado.  E ao que parece foi porque mencionei não só uma leitura popular, mas a informação de uma segunda veia artística de Simenon, que pouca gente conhece, mas sobre a qual eu já havia me referido aqui no blog: seus “romances  duros”.  Talvez valha lembrar que Simenon foi um dos escritores mais prolíficos de todos os tempos tendo publicado entre 400 a 500 livros, não se sabe exatamente o número, porque publicou sob muitos pseudônimos. Com a ajuda da IA, posso dividir em alguns segmentos: 75 livros do detetive Maigret, fora os 28 contos em que o personagem aparece. 130 “romances duros”, que são romances psicológicos.  20 volumes de memórias.  Mais 200 romances escritos sob pseudônimo.  Vendeu acima de 600 milhões de livros, no mundo inteiro.  Ao contrário do que se imagina, Maigret não é francês.  É belga, mas muito respeitado pelo público francês e também por escritores daquele país, entre eles André Gide, (Nobel de 1947).  Ele foi um dos primeiros grandes intelectuais a reconhecer o valor literário de Simenon, indo além do rótulo de “autor policial”, dizendo que Simenon “talvez fosse o maior e o mais genuíno romancista que tivemos na literatura francesa contemporânea”.  A amizade de Gide e Simenon era genuína, como testemunham as inúmeras cartas trocadas entre eles. 

Há alguns “romances duros” de Simenon, não sei exatamente quantos, publicados no Brasil. A Cia das Letras fez um esforço na primeira década deste século em publicá-los. Deles li O quarto azul e O círculo dos Mahé, ambos já resenhados no blog. Mas este ano me dei de presente dois volumes das obras de Simenon, publicados pela UNESP, que trazem oito dos romances duros. Há dois outros volumes dedicados às obras com o inspetor Maigret, qua comprarei mais tarde. 

Descobri esses romances duros por acaso.  E me tornei fã.  Veremos o que acho desses outros publicados pela UNESP.  Nesses dois romances que li, ainda tenho outro em casa, A neve estava suja, a temática é completamente diferente daquela encontrada nos casos do inspetor Maigret.  Tanto O quarto azul quanto O círculo dos Mahé tratam de situações emocionais que levam a desfechos inesperados, mas em absoluta fidelidade às características dos personagens.  Simenon, conhecido por não gostar de textos elaborados, bonitos, com adjetivos e floreios, fortalece as emoções suscitadas na leitor justamente por ser lacônico, deixando espaço para que o leitor preencha com imaginação as reticências, o vácuo dos diálogos breves ou inacabados. 

Quanto as leituras de 2026:  Maigret e o finado Sr. Gallet foi ótima.  Final que me surpreendeu e, no entanto, completamente plausível. Adoro um livro de mistério, principalmente os mais tradicionais. Podem ler.  Vale a pena.  E a título de curiosidade: gosto de Agatha Christie (aliás sua autobiografia, que não tem mistério, é uma excelente leitura), Dorothy Sayers, Margery Allingham, Colin Dexter, P.D. James, Ruth Rendell, Louise Penny e muitos outros estão na minha lista de favoritos. Verão, para mim, também é um período de leituras rápidas, leves, em que problemas podem ser solucionados.  Nada melhor do que isso, não é mesmo?





O “influencer” do passado, texto de Marcel Proust

21 01 2026

Músicos

Ricardo Medeiros (Brasil, 1955)

acrílica sobre tela

 

 

“Pois Saint-Loup pertencia a essa classe de rapazes aristocratas colocados numa altura onde é possível que brotem essas expressões: “É o que tem de bom, esse é o seu lado bom”, sementes assaz preciosas que logo determinam uma maneira de conceber as coisas, na qual não se vale nada e o “povo” vale tudo, quer dizer, exatamente o contrário do orgulho plebeu. Pelo que me contava Robert, não era possível imaginar como o seu tio, quando jovem, dava o tom e ditava a lei a todo mundo.

— Ele, da sua parte, fazia sempre o que lhe parecia mais agradável e cômodo, mas logo o imitavam os esnobes. Se lhe acontecia ter sede quando no teatro e mandava que lhe trouxessem alguma bebida ao camarote, já se sabia que na semana seguinte haveria refrescos em todos os corredores. Num verão muito chuvoso, sentiu-se um pouco reumático, e encomendou um sobretudo de vicunha muito fina, mas bastante quente, que só se emprega para mantas de viagem e respeitou o padrão do tecido, de listras azuis e laranja. Os grandes alfaiates receberam imediatamente encomendas de casacos de listras e bastante quentes. Se por qualquer motivo queria tirar toda solenidade a uma refeição em casa de campo onde estava passando o dia, e, para indicar esse matiz, não vestia casaca e sentava-se à mesa de jaqueta, ficava em moda jantar de jaqueta nas casas de campo. Se comia um doce e, em vez de colher, usava garfo ou um talher de sua invenção que havia encomendado a um ourives, ou o pegava com os dedos, já não era lícito fazer de outra maneira. Sentiu desejos de ouvir de novo certos quartetos de Beethoven, pois, com todas as suas ideias absurdas, não é nenhum bruto e tem talento, e encarregou uns músicos que fossem à sua casa um dia por semana, para executar aquelas obras, que ouvia com alguns amigos. E naquele ano considerou-se como suprema elegância dar reuniões íntimas em que se executava música de câmara. Parece-me que não deve ter-se aborrecido neste mundo! Com o seu belo tipo, não lhe devem ter faltado mulheres! Apenas não se sabe quais, pois é muito discreto. Bem sei que enganou bastante à minha pobre tia. O que não impediu que fosse muito bom com ela, que ela o adorasse, e que ele a tenha chorado por muitos anos. Quando está em Paris, vai quase diariamente ao cemitério.”

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana





A infância de Charles Bovary, trecho

2 01 2026

A vaca que escapou, 1885

Julien Dupré (França, 1851-1910)

óleo sobre tela, 100 x 139 cm 

Museu D’Orsay, Paris

 

 

 

“…e a criança vagabundeava pela aldeia. Ele acompanhava os lavradores e espantava, atirando torrões, os corvos que alçavam voo. Comia amoras ao longo das valetas, guardava os perus com uma vara, revolvia o feno na ceifa, corria pelos bosques, jogava amarelinha no pórtico da igreja nos dias de chuva e, nas grandes festas, suplicava ao sacristão que lhe deixasse bater os sinos, para se dependurar com todo o corpo à grande corda e sentir-se levar por ela no balanço.

Assim, ele cresceu como um carvalho.”

 

Em: Madame Bovary, Gustave Flaubert, Tradução de Mário Laranjeira: Penguin Classicos





O vaso chinês, texto de Marcel Proust

12 11 2025

O colecionador de porcelanas, 1922

Adolf Reich (Áustria, 1887-1963)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

“Meus pais não me davam bastante dinheiro para comprar coisas caras. Pensei num vaso chinês antigo que me dera a tia Léonie; mamãe pressagiava todos os dias que Françoise ia dizer-lhe: “Caiu…”, e que o vaso deixaria de existir. De modo que o mais prudente era vendê-lo, vendê-lo para poder obsequiar a Gilberte como eu quisera. Imaginava que arranjaria no mínimo uns mil francos. Mandei que embrulhassem o vaso, em que na verdade, por força do hábito, nunca havia reparado; de modo que o separar-me dele teve pelo menos uma vantagem, a de me dar a conhecê-lo. Eu mesmo o carreguei antes de ir à casa de Gilberte, e dei ao cocheiro a direção dos Swann, mas recomendando-lhe que fosse pelos Campos Elísios; ali estava a loja de um comerciante de antiguidades chinesas conhecido de meu pai. Com grande surpresa minha ofereceu-me imediatamente dez mil francos, e não mil como eu esperava. Apanhei as notas arrebatado de prazer; durante um ano poderia cumular Gilberte de rosas e lilases.”

 

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana

 

 

 





As amizades comuns, Michel de Montaigne

18 09 2025

Apollinaire e seus amigos, 1909

Marie Laurencin (França, 1883-1956)

óleo sobre  tela

Centre Pompidou, Paris

 

As Amizades Comuns

 

O que habitualmente chamamos amigos e amizades não são senão conhecimentos e familiaridades contraídos quer por alguma circunstância fortuita quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mantêm em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que só o posso exprimir respondendo: «Porque era ele; porque era eu».

(…) Não me venham meter ao mesmo nível essas outras amizades comuns! Conheço-as tão bem como qualquer outro, e até algumas das mais perfeitas do gênero, mas não aconselho ninguém a confundir as suas regras: laboraria num erro. Em tais amizades deve-se andar de rédeas na mão, com prudência e cautela – o nó não está atado de maneira que, acerca dele, não se tenha de nutrir alguma desconfiança. «Amai o vosso amigo», dizia Quílon, «como se algum dia tiverdes que o odiar; odiai-o como se tiverdes que o amar.» Este preceito, tão abominável se aplicada à soberana e superna amizade, é salutar a respeito das amizades comuns e habituais, em relação às quais se deve empregar este dito tão ao gosto de Aristóteles: «Ó amigos meus, não há nenhum amigo!»

 

Michel de Montaigne,  em Ensaios





O escritor no museu: Stéphane Mallarmé

11 07 2025

Stéphane Mallarmé, 1876

Édouard Manet (França, 1832-1883)

óleo sobre tela, 27 x 36 cm 

Museu d’Orsay, Paris





A morte de Roland, ou a Canção de Roland

10 06 2025

Batalha de Roncesvales, em 778: morte de Roland. c. 1455-1460

Jean Fouquet (França, ? – 1481)

Iluminura das Grandes Crônicas da França

Biblioteca Nacional da França, Paris

 

 

A Canção de Roland é um poema do século XI, talvez a mais antiga canção épica, que dá início à literatura francesa, mesmo tendo sido, na sua forma original, escrita em uma língua românica.  A obra inspirou muitas outras criações sobre a França e circulou por toda a Europa.  Ela narra a morte heroica de Roland, no campo de batalha de Roncesvales.  A batalha aconteceu no dia 15 de agosto de 778, e Roland, que era sobrinho de Carlos Magno, comandava o exército da retaguarda, formado pelos Doze Pares de França, um grupo lendário de cavaleiros associados a Carlos Magno.  Na tropa liderada por Roland os cavaleiros são: Roland, Olivier, Gérin, Gérier, Bérenger, Otto, Samson, Engelier, Ivon, Ivory, Anséïs e Girart de Roussillon.  Mas em outros poemas e lendas da época, esses cavaleiros poderiam ser outros.  Como há muitas versões da Canção de Roland, todas em manuscritos que deram por sua vez origem a outras tantas lendas, é difícil de precisar exatamente quem fazia parte desse exército ou aqueles cuja existência são pura lenda. 

Roland morreu numa batalha na região basca da França.  A tropa vinha da Península Ibérica onde lutava contra os sarracenos.  Dependendo da versão os autores do massacre de Roncesvales, podem ser tanto bascos quanto muçulmanos.  Sabe-se que essa batalha realmente ocorreu, está historicamente comprovada e em espírito pertence ao contexto das Cruzadas e da Reconquista cristã da Península Ibérica. 

 

A morte de Roland, 1462

Iluminura em de manuscrito

Autor desconhecido

Bruges, Flandres [Bélgica]

 

 

Uma coisa interessante é que a Canção de Roland teve grande popularidade no Brasil no século XIX. Isso graças a um livro de um médico português, Jerónimo de Moreira Carvalho, que escreveu em 1737, portanto no século XVIII, uma continuação da Canção de Roland: Segunda parte da História do Imperador Carlos Magno e dos doze pares de França. Esse romance de cavalaria se tornou leitura de grande sucesso no Brasil do século XIX.  Aliás, esse é um de dois portugueses que escreveram uma continuação de história de Carlos Magno.  O outro,  História nova do Imperador Carlos Magno, e dos doze pares de França de José Alberto Rodrigues, impressa em Lisboa em 1742.  Essa no entanto, não foi popular no Brasil. 

 

 





Monóculos, texto de Marcel Proust

8 05 2025

O homem com monóculo, 1918

Amedeo Modigliani (Itália, 1884-1920)

óleo sobre tela, 45 x 29 cm

Coleção Particular

 

O monóculo do marquês de Forestelle era minúsculo, não tinha aro e, obrigando a uma crispação incessante e dolorosa o olho onde se incrustava como uma cartilagem supérflua cuja presença é inexplicável e a matéria rara, dava ao rosto do marquês uma delicadeza melancólica e fazia com que as mulheres o julgassem capaz de grandes penas de amor. Mas o do sr. de Saint-Candé, cercado de um gigantesco anel, como Saturno, era o centro de gravidade de um rosto que se ordenava a todo instante em relação a ele, cujo nariz fremente e rubro e o lábio carnudo e sarcástico procuravam, com os seus trejeitos, pôr-se à altura dos mutáveis reflexos de espírito com que fulgurava o disco de vidro, e era preferido aos mais belos olhares do mundo por mulheres esnobes e depravadas, a quem fazia sonhar com encantos artificiais e refinadas volúpias; enquanto, atrás do seu monóculo, o sr. de Palancy que, com a sua grossa cabeça de carpa, de olhos redondos, se deslocava lentamente no meio da festa, descerrando de instante a instante as mandíbulas como para procurar orientação, tinha o ar de apenas transportar consigo um fragmento acidental, e talvez puramente simbólico, do vidro do seu aquário, parte destinada a figurar o todo, que lembrou a Swann, grande admirador dos Vícios e das Virtudes de Giotto em Pádua, aquele Injusto ao lado do qual um ramo folhudo evoca as florestas onde se oculta o seu covil. 

 

Em: No caminho de Swann, volume I da obra Em busca do tempo perdido, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana.





Minutos de sabedoria: Julie de Lespinasse

30 01 2025
Ilustração, Marcella Cooper
 
 
“A calúnia é como azeite caído no pano; quanto mais se esfrega, para que ele saia, mais a mancha se estende.”

 

Mlle De Lespinasse

Julie de Lespinasse

Mlle de Lespinasse

(1732-1778)