Beijo, ilustração Lynn Buckham (EUA, 1918-1982, década de 50.
Um filósofo de peso
é desta sentença o autor:
o beijo é fósforo aceso
na palha seca do amor.
(Bastos Tigre, 1882-1957)
Um filósofo de peso
é desta sentença o autor:
o beijo é fósforo aceso
na palha seca do amor.
(Bastos Tigre, 1882-1957)
Na rotunda
Francine van Hove (França, 1942)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
XXVII
Tite de Lemos
Nem tomes por virtude o que é defeito,
floreios de poetas amestrados,
nem tenhas por humano o que é perfeito,
coisa de heróis e deuses aplicados.
Deve ser que não levo muito jeito
ou quando pense certo faça errado
e ande torto julgando andar direito,
sujeito cego atrás do objeto amado.
Persigo a brevidade de um instante
que toda eternidade contivesse:
nisso me acho e nisso estou perdido
com desvelo tão quieto e tão constante
que vivê-lo, mais nada, me envaidece
e até nem cuido ser correspondido.
Em: Caderno de sonetos, Tite de Lemos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1988. p. 63
Paulo Mendes Campos
O gato pensa um bocado!
Pensa de frente e de lado!
Esticado ou enrolado!
Satisfeito ou chateado!
Brincalhão ou preocupado!
Sem jantar ou já jantado!
Com saúde ou constipado!
O gato pensa um bocado!
Pensa no império chinês!…
Pensa no irmão siamês!…
Mas um gato sem talento
só tem um pensamento:
CAMUNDONGO! CAMUNDONGO!
Se te pego, te viro assim: OGANODNUMAC!…
Recentemente me perguntaram como vejo a influência dos mais de trinta anos, passados fora do Brasil. Influenciaram minha escrita? Estávamos num podcast e eu não havia me preparado para essa pergunta. Não soube responder de pronto, principalmente porque eu nunca havia considerado a questão.
A poesia me acompanha desde criança. Para mim, ler poesia é um prazer, mas não leio livros inteiros. Leio um poema aqui, outro acolá. Sou leitora promíscua e constante. Tenho poetas preferidos. Nos Estados Unidos, depois que me casei com um professor universitário de literatura americana, fui me familiarizando com a poesia do país, e em paralelo com os poetas ingleses, para além dos grandes nomes. Tive sorte de também conhecer dezenas de poetas vivos, contemporâneos., com quem convivi em encontros de escritores. Nos EUA, morei fora do eixo cultural centralizado em Nova York — mas sempre na costa leste, que por sua própria história mantém mais elos culturais com a Grã-Bretanha do que o resto do país. E a vida cultural no RTP [Research Triangle Park] foi rica, graças às várias e respeitáveis universidades ali concentradas [N.C. State, North Carolina, Duke, Wake Forest, Shaw, Saint Augustine, William Peace, Campbell e outras].
A carta de amor, 1911
George Lawrence Bulleid (Inglaterra,1858-1933)
aquarela sobre papel
Nunca pensei que meu primeiro livro fosse de poemas. O que me atrai nessa escrita? Ser sucinta, expressar pensamentos, estados d’alma, ponderações. Aquilo que me intriga e fascina. Isso é poesia para mim. Seu valor está na brevidade, chamando o leitor ou o ouvinte para reflexão. E tem que ter cadência, ritmo. Rimas ocasionalmente bem-vindas, mas não necessárias.
Desde que retornei ao Brasil, ampliei meu contato com os nossos poetas, com a poesia contemporânea. Desconhecia muitos. O que herdei do meu contato com a poesia anglo-americana, talvez seja a preferência pela ordem direta, pela simplicidade da imagem. Guardo, sim, sinais das dezenas de anos de imersão total no inglês. Anos sem uma palavra em português: lendo e escrevendo nessa língua. Publicando nos jornais. Sinto falta às vezes da precisão da língua inglesa. Mantenho a escrita intimista, típica de muitos dos meus poetas favoritos. No inglês são, de fato, os líricos, tanto antigos quanto os da segunda metade do século XX, que mais me tocam: Frost, St. Vincent Milay, Sexton, Lowell, T. Hughes, W.C. Williams, Wallace Stevens, Dunbar. No Brasil, ah, são muitos, conhecidos e não tão conhecidos: Drummond, Bandeira, Quintana, Murilo Mendes, Meireles.
Somos o resultado das nossas preferências; esponjas absorvendo sempre aquilo que nos fascina, agrada, intriga. Como não ter um influência estrangeira nessas circunstâncias? Mas é de perspectiva. A língua em uso é bem brasileira, culta, mas brasileira.
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2025
Para quem não conhece, acima meu primeiro livro À meia voz. em breve Casa Vazia estará nas livrarias, ainda sem data. Mas À meia voz, o livro com que me lancei com poesias variadas, está na Amazon tanto em papel quanto em ebook. Será um prazer conversar com você sobre a obra.
O manuscrito, 1921
Francis Ernest Jackson (Inglaterra, 1872 – 1945)
Ashmolean Museum, Oxford
Cecília Meireles
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
No livro Viagem (1939)
Somente agora é que vejo
que tens razão, meu amor…
Quem paga beijo com beijo
tem sempre saldo a favor.
(Narciso Nery)
O quarto dela, 1963
Andrew Wyeth (EUA, 1917 -2009)
têmpera sobre placa
Coleção Particular
Alberto de Oliveira
“Deixa-me entrar, – dizia o sol – suspende
A cortina, soabre-te! Preciso
O íris trêmulo ver que o sonho acende
Em seu sereno virginal sorriso.
Dá-me uma fresta só do paraíso
Vedado, se o ser nele inteiro ofende…
E eu, como o eunuco, estúpido, indeciso,
Ver-lhe-ei o rosto que na sombra esplende.”
E, fechando-se mais, zelosa e firme,
Respondia a janela: “Tem-te, ousado!
Não te deixo passar! Eu, néscia, abrir-me!
E esta que dorme, sol, que não diria
Ao ver-te o olhar por trás do cortinado,
E ao ver-se a um tempo desnudada e fria?!”
Publicado em 1886. no livro Sonetos e poemas
Eduardo Pitta
Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.
No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.
Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.
Devo-te oitenta! Mas quero
pagar-te em nota de cem…
– Me empresta mais vinte! Espero
devolver no mês que vem!
(Renato Alves)