A flor e a fonte, poesia de Vicente de Carvalho

4 08 2025

Jovem grega próximo à fonte, 1850

Jean-Baptiste Camille Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela, 55 x 39 cm

Louvre

 

A flor e a fonte

 

Vicente de Carvalho

 

“Deixa-me, fonte!” Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

“Deixa-me, deixa-me, fonte!”
Dizia a flor a chorar:
“Eu fui nascida no monte…
“Não me leves para o mar.”

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

“Ai, balanços do meu galho,
“Balanços do berço meu;
“Ai, claras gotas de orvalho
“Caídas do azul do céu!…”

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

“Adeus, sombra das ramadas,
“Cantigas do rouxinol;
“Ai, festa das madrugadas,
“Doçuras do pôr do sol;

“Carícias das brisas leves
“Que abrem rasgões de luar…
“Fonte, fonte, não me leves,
“Não me leves para o mar!”

*

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor….

 

Em: Rosa, Rosa de Amor, 1902

         





Trova do pai

3 08 2025
Ilustração de  George L. Rapp (1878-1942)

 

 

Num retrato amarelado,

a saudade em mim se deu.

Ontem tinha o pai ao lado

Sem ele, hoje, o pai sou eu.

 

(José Feldman)





Trova do pai brincando

2 08 2025

 

Toda criança constrói

um mundo feliz, sem medo.

Foste, pai, o meu herói

do meu mundo de brinquedo.

 

(Nilci Guimarães)





Trova do pai

1 08 2025
“Só nós dois1” ilustração de Harry Anderson (1906 – 1996)

 

 

Amigo está sempre a fim

de amparar, se a gente cai;

eu tive um amigo assim:

– esse amigo era meu pai!

 

(Albertina Moreira Pedro)





Trova do orgulho do pai

28 07 2025
Ilustração, Jessie Willcox Smith.

 

 

Discreta, naturalmente,

minha ternura se trai,

ante um tiquinho de gente

que me chama de “Papai”!

 

(Cesídio Ambrogi)





Menina passarinho, poesia infantil, Ferreira Gullar

7 07 2025
 
 
Menina passarinho

 

     Ferreira Gullar

 

    Menina passarinho,

    que tão de mansinho

    me pousas na mão

    Donde é que vens?

    De alguma floresta?

    De alguma canção?

    Ah, tu és a festa

    de que precisava

    este coração!

    Sei que já me deixas

    e é quase certo

    que não voltas, não.

    Mas fica a alegria

    de que houve um dia

    em que um passarinho

    me pousou na mão.





Trova do tempo

23 06 2025
Xilogravura poli-cromada japonesa, por Utagawa Hiroshige.

 

Os anos entram e saem,

o tempo leva-os a fio,

como essas folhas que caem

na correnteza do rio…

 

(Gomes Leite)





Trova dos namorados

12 06 2025
Ilustração anos 50

 

 

Em teus braços aninhada,

tenho, ao alcance da mão,

toda uma noite estrelada,

todo o sol no coração.

 

(Colombina)

 





Aurora Boreal, poema de Antonio Gedeão

10 06 2025
Ilustração, Thomas Crane

 

 

Aurora boreal

 

Antonio Gedeão

 

Tenho quarenta janelas

nas paredes do meu quarto.

Sem vidros nem bambinelas

posso ver através delas

o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,

por outra a luz do luar,

por outra a luz das estrelas

que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea

como um vapor de algodão,

por aquela a luz dos homens,

pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,

pela menor a certeza,

pela da frente a beleza

que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança

de quatro lados iguais,

quatro arestas, quatro vértices,

quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,

que as vigias são redondas,

e o sonho afaga e embala

à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,

por aquela entra a saudade,

e o desejo, e a humildade,

e o silêncio, e a surpresa,

e o amor dos homens, e o tédio,

e o medo, e a melancolia,

e essa fome sem remédio

a que se chama poesia,

e a inocência, e a bondade,

e a dor própria, e a dor alheia,

e a paixão que se incendeia,

e a viuvez, e a piedade,

e o grande pássaro branco,

e o grande pássaro negro

que se olham obliquamente,

arrepiados de medo,

todos os risos e choros,

todas as fomes e sedes,

tudo alonga a sua sombra

nas minhas quatro paredes.

 

Oh janelas do meu quarto,

quem vos pudesse rasgar!

Com tanta janela aberta

falta-me a luz e o ar.

 

 

 

António Gedeão, Obra Poética, Edições João Sá da Costa, Lisboa, 2001





Ladyce, poesia de Gessner Pompêo de Barros

5 06 2025
Ilustração de Maud Tousey Fangel.
 
 
Ladyce *

 

Gessner Pompêo de Barros

 

Pediu-me sua Mãe que, em versos, dedicasse 

este Álbum a você, minha querida,

onde o seu progredir se registrasse,

ou se fotografasse,

mês a mês, ano a ano, toda vida.

.. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 

Pediu-me versos ternos a um bebê…

Mas dois bebês eu vejo: ela e você!

Isto porque, 

entre a filha e a netinha há pouca diferença 

— não há distância imensa…

Bem pouca distinção entre ambas faz

o coração dos seus avós e pais.

.. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 

Ela é também bebê, que já cresceu,

que já sofreu, 

Que agora é Mãe e assim, vai realizando

o sublime destino da Mulher!

Você, novo bebê, que está iniciando, 

os passos para idêntico mister…

                   * * *

Você há de ter na vida o doce encanto

que ela oferece às nobres criaturas:

— o riso alegre, que afugenta o pranto,

— a graça com que Deus, lá das alturas,

— bênção divina —

o caminho dos bons sempre ilumina…

 

 

Em: Revista O Malho, volume XI, página 7

  • Poema escrito por meu avô materno, Gessner Pompêo de Barros. Vovô era advogado, mas também exerceu a profissão de escritor. Teve por algum tempo, não sei quanto tempo, uma coluna semanal no antigo jornal Última Hora, coluna sindicalizada que aparecia em muitos jornais do interior do país. Sendo mato-grossense, da época em que aquele era um só estado, suas colunas certamente ficaram conhecidas por lá. Minha sobrinha, que recentemente descobriu que seu bisavô era, como ela, advogado, hoje me mandou a foto da página da revista em que esse poema aparece. O poema eu tenho no meu álbum de bebê. Na primeira página.

Também neste álbum aparece um poema que meu pai, um cientista, químico industrial e professor de física, escreveu na mesma ocasião. Conta a lenda que enciumado pela poesia de vovô, ele também resolveu meter as mãos na poesia, para não ficar para trás. Papai não era um mau escritor. Tenho alguns de seus escritos publicados nos jornais das escolas que frequentou. Ele cresceu na época em que se decorava Os Lusíadas na escola (que ele frequentemente, chegada a hora apropriada, declamava — para embaraço total dessa filha, rs…) Um dia acho nas caixas que deixarei para os sobrinhos destrincharem, o álbum em questão e passo para o blog, e para o julgamento de vocês, meus leitores, a resposta do genro enciumado. Rs…rs…

Uma nota sobre meu nome: Ladyce (pronunciado Lêidice) é um nome americano, parece até que mamãe havia vislumbrado meu destino para assim me chamar, já que passei a maior parte de minha vida adulta nos Estados Unidos, eventualmente casando com um americano. Nunca foi um nome comum. É um nome antigo, e mais comum no final do século XIX e início do século XX. Mamãe tirou-o de um romance. E bateu o pé para que eu assim me chamasse, porque papai insistia que eu levasse o nome de sua avó materna, um nome de que minha mãe não gostava: Leopoldina.