As máscaras, poema de Menotti del Picchia

15 02 2015

 

 

George Barbier, 1919Pierrot, Colombina e Arlequim, 1919

[ilustração para o Balé Carnaval)

George Barbier (França, 1882-1932)

Litogravura policromada

 

As Máscaras

 

 

Menotti del Picchia

 

— O teu beijo é tão quente, Arlequim
— O teu sonho é tão manso, Pierrot

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo…
e a Pierrot a minh’alma!

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrot tristonho,
pois um dá-me o prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
um me fala do céu… outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar,
e em verdade, toda a razão do amor
está na variedade…

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente.

Porque a história do amor
só pode escrever-se assim:
um sonho de Pierrot…
e um beijo de Arlequim!

 

 

Este poema é baseado na fala final de Colombina em Máscaras, (1920)de Menotti del Picchia.





O cisne, poema de Geir Campos

6 02 2015

cisnes brancos, alice haversCisnes Brancos

Alice Havers (Inglaterra, 1850-1890)

O Cisne

Geir Campos

Pluma e silêncio, vinha pela vida

aceita com resignação, conquanto

talvez em hora alguma pretendida.

Pressente no ar o aviso da partida

— urge tentar o eterno: um voo, um canto,

um gesto nunca ousado, alguma prece…

Canta, e se vai. O canto permanece.

Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, selecionado por Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro:1961,p. 86.

 

 

 

 

 

 

 

 

 





Trova da conquista difícil

3 02 2015

 

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Êta mulher jogo duro!

Por mais que eu implore e tente,

não me garante o futuro…

Só quer saber de … presente!

 

(João Costa)





Trova do crédito duvidoso

27 01 2015

 

loja homemIlustração Roger Wilkerson.

 

Nas lojas sempre envolvido,

não tem crédito jamais…

– ou por ser desconhecido,

ou conhecido demais !…

 

 

(Rodolpho Abbud)





Sob o esplendor do céu da Guanabara, poema de Rômulo C. Wanderley

20 01 2015

 

ARAUJO LIMA - Baia da Guanabara, vista do Morro Dona Marta óleo sobre tela, 32X44cmBaía de Guanabara vista do Morro D. Marta, s/d

Araújo Lima (Portugal/Brasil, 1883-1958)

óleo sobre tela, 32 x 44 cm

 

 

Sob o esplendor do céu da Guanabara

 

Rômulo C. Wanderley

 

 

Seria para mim uma aventura rara

se o Destino, ficando mais amigo,

deixasse contigo

viver, tranquilamente, o nosso amor,

sob o edênico esplendor

do céu da Guanabara.

 

Céu azul, que recorda o Norte do Brasil,

e, às vezes, a manhãs da fria Escandinávia…

E como um artista apaixonado, eu traçaria

o teu gracioso perfil

junto à Pedra da Gávea.

 

Depois,

bem felizes os dois,

inebriados diante da paisagem,

e ardendo ao calor desse profundo amor,

cairíamos febris, em frente ao mar,

para amar…

para amar…

 

Rio – Novembro 1950

 

Em: Panorama da Poesia Norte- Rio-Grandense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, p. 83





A pedidos, poesia de Flora Figueiredo

18 01 2015

 

Sidney Neuwirth, jovem ruiva escrevendo, aquarela 75 x 60 cmJovem ruiva escrevendo

Sydney Anne Neuwirth (EUA, contemporânea)

aquarela sobre papel, 75 x 60 cm

www.sydneyneuwirth.com

 

 

A pedidos

 

Flora Figueiredo

 

 

Querem um verso,

mas não sou capaz.

Vejo a palavra fraturar

as entrelinhas,

tento soldá-las,

ma não são minhas.

Rompeu-se o verbo

e me deixou para trás.

 

 

Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 49

 





Precisa-se de uma bola de cristal, poesia de Roseana Murray

10 01 2015

 

waterhouse_the_crystal_ball_skullA bola de cristal, 1902

John William Waterhouse (Inglaterra, 1849-1917)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Precisa-se de uma bola de cristal

que mostre um futuro grávido de paz:

que a paz brilhe no escuro

com o brilho especial que algumas

palavras possuem

mas que seja mais do que a palavra,

mais do que promessa:

seja como uma chuva que sacia  a sede da terra.

 

 

Em: Classificados Poéticos, Roseana Murray, Belo Horizonte, Miguilim:1984, 17ª edição, p. 38





Viagem, poesia de Odylo Costa Filho

27 12 2014

 

 

Eduardo Cambuí Figueiredo Junior (Brasil, contemporâneo)Av. Paulista com Rua Pamplona, 2004, Óleo sobre tela - 150 x 60 cm - 2004Avenida Paulista com Rua Pamplona, 2004

Eduardo Cambuí Figueiredo Jr (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 150 x 60 cm

 

 

Viagem

 

Odylo Costa Filho

 

Mote:
Veste o terno mais velho, e vai-te embora.
Alphonsus de Guimarães Filho

 

 

Veste o terno mais velho, e vai-te embora.

Atravessa o quintal e pula o muro.

E entre morte do luar e a luz da aurora

parte na antemanhã, ainda no escuro.

 

Bebe as velhas fachadas, as cidades

que a água penetra, ameiga e acaricia;

e nelas o sinal de outras idades

gosto de vinho velho em novo dia.

 

Quando cessar a febre das viagens

e cansares de tudo — das paisagens,

de ignotas gentes e de virgens praias —

 

volta aos brejos natais. Arma tua rede

em pleno campo. E mata tua sede

de pureza nas grandes sapucaias.

 

 

Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 58

 

NB: na opinião leiga da Peregrina um dos mais belos sonetos do século XX.

 





Trova da despedida

22 12 2014

 

adeus. susan jaekel

Adeus, Ilustração de Susan Jaekel.

 

É comum nas despedidas

depois dos risos e abraços,

ficarem almas feridas

e corações em pedaços.

 

(Décio Valente)





Poema de Natal, Jorge de Lima

21 12 2014

 

Aldemir Martins, natividade, ost, 1969Natividade, 1969

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

óleo sobre tela

 

 

Poema de Natal

Jorge de Lima

 

 

ERA UM POEMA frequente,

repetido,

com o menino nos braços

de uma virgem.

Desse poema presente

e sempre ouvido,

os tempos e os espaços tinham origem,

 

pois à origem do poema

sempre havia

essa virgem e o infante

e a poesia.

E era o início e era a extrema

da criação,

era o eterno e era o instante

da canção.

 

Publicado em Rio, Rio de Janeiro, 1951

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. IV, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 58