Trova do acordar

6 02 2018

 

 

acordar John_Gannam, junho 1948, St Narys blankletsIlustração de John Gannam, 1948.

 

 

Entra o sol pela vidraça

e em teu leito empalidece,

deslumbrado pela graça

que teu corpo lhe oferece.

 

 

(Durval Mendonça)

 

 

 

 





“Lembrança do mundo antigo”, poema de Carlos Drummond de Andrade

5 02 2018

 

 

domingo claudio dantasDomingo

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela

 

 

Lembrança do mundo antigo

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Clara passeava no jardim com as crianças.

O céu era verde sobre o gramado,

a água era dourada sob as pontes,

outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,

o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,

a menina pisou na relva para pegar um pássaro.

O mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo ao redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu… Não era proibido!

A boca, o nariz, os olhos estavam abertos…

Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.

Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,

esperava cartas que custavam a chegar,

nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim pela manhã!!!

Havia jardins, havia manhãs, naquele tempo!!!

 

 

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 26-7





Soneto 18 de Shakespeare, tradução Bárbara Heliodora

26 01 2018

 

 

 

fragonardPastora, c. 1752

Jean-Honoré Fragonard (França, 1732–1806)

Óleo sobre tela, 118 × 160 cm

Milwaukee Art Museum, EUA

 

 

 

Soneto 18

 

William Shakespeare

 

 

Se te comparo a um dia de verão

És por certo mais belo e mais ameno

O vento espalha as folhas pelo chão

E o tempo do verão é bem pequeno.

 

Às vezes brilha o Sol em demasia

Outras vezes desmaia com frieza;

O que é belo declina num só dia,

Na terna mutação da natureza.

 

Mas em ti o verão será eterno,

E a beleza que tens não perderás;

Nem chegarás da morte ao triste inverno:

 

Nestas linhas com o tempo crescerás.

E enquanto nesta terra houver um ser,

Meus versos vivos te farão viver.

 

Tradução de Bárbara Heliodora

 

 

Em: Poemas de amor, William Shakespeare, Tradução de Barbara Heliodora, Editora Ediouro:2001





Trova do conselho do espelho

22 01 2018

 

 

espelho furball-once-upon-a-time Margaret Evans PriceIlustração Margaret Evans Price

 

 

Do espelho da tua sala,
procura o exemplo seguir:
ele reflete e não fala,
tu falas sem refletir…

 

(Carlos Guimarães)





Quadrinha da pesca

13 01 2018

 

pescaria de todos, John Newton Howitt (1885 – 1958)Pescaria, John Newton Howitt (1885 – 1958)

Para não faltar o peixe,

Na mesa do nosso lar,

O pescador bem cedinho,

Sua rede atira no mar.

 

 

Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965





Trova da boa mentira

7 01 2018

 

 

 

Genieten (1929)Ouça, cartão postal holandês, 1929.

 

 

 

Você mente quando diz

que me tem um grande amor;

mas isto me faz feliz:

— Minta sempre, por favor…

 

 

(Agmar Murgel Dutra)





Trova do Ano Novo

2 01 2018

 

 

527MiscBonneAnnee

 

 

“Ano Novo, vida nova”

– reza o dito popular.

Tal fato só se comprova

se você mesmo mudar.

 

 

(Sonia Regina Rocha Rodrigues )





“Chove. É Dia de Natal”, poema de Fernando Pessoa

4 12 2017

 

 

 

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Chove. É Dia de Natal

 

Fernando Pessoa

 

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

 

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

 

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

 

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

 

Em: Cancioneiro, Fernando Pessoa, Cyberfil: 2002 –  página 34





Trova de Natal

1 12 2017

 

 

papai noel, dan andreasenPapai Noel, ilustração de Dan Andreasen.

 

 

Minha maior alegria,

no Natal, era a emoção

do amor, que meu pai

trazia sob a barba… de algodão!

 

(Sérgio Ferreira da Silva)

 





Os mortos, poema de Ruy Espinheira Filho

2 11 2017

 

 

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Os mortos

 

Ruy Espinheira Filho

 

Há uma luz suave em que respiram.

Não mudaram nada e fingem não ver

como sou mais moço na fotografia.

 

Contam histórias, sempre, mesmo quando em silêncio

(e tanto quanto se contam, contam-me também de mim).

Não mais precisam beber, só se refletem no copo

 

que ergo e em que bebo, por eles e por mim,

trespassado ainda dos sonhos que compunham a alma

de que se iluminava o moço nas fotografias.

 

Em: Sob o céu de Samarcanda: poemas, Ruy Espinheira Filho, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil e Fundação da Biblioteca Nacional: 2009, página 152.