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Segredinhos, ilustração de Eloise Wilkin.
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Quer chova, quer brilhe o sol,
comentam-na os mexericos.
Não importa ao rouxinol
o pio dos tico-ticos!…
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(Sudra Vana)
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Segredinhos, ilustração de Eloise Wilkin.–
Quer chova, quer brilhe o sol,
comentam-na os mexericos.
Não importa ao rouxinol
o pio dos tico-ticos!…
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(Sudra Vana)
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“Da janela da sala, avalio a beleza da lagoa Rodrigo de Freitas, cuja estética depende da capacidade de cada qual misturar princípios, gostos, esquemas, de abrir-se para a voluptuosidade das ofertas que nos cercam. Assim, o espelho da água denuncia em que estágio estou. Se amadureci com lisura, elegância, para ser quem sou, se ainda há tempo pra me corrigir.
Mais adiante observo o morro Dois Irmãos, de aparência irreal ao se iluminar. À direita, no topo da montanha, o Cristo, de braços abertos, critica o ufanismo nacional. Ele contempla os excessos e se cala. Da casa, em linha reta, quase no rés do chão os clubes náuticos e as pistas verdes do Jockey Clube.
Despertei cedo e pus-me a escrever com a esperança de ser tocada pela graça. Para o trabalho que ora desenvolvo, qualquer hora e local servem. Só as palavras, com seus símbolos, me pautam. A escrita brota, então, das máscaras que peço emprestadas a quem não sei, com o intuito de me apresentar em público. A escrita, contudo, à minha revelia, anota o inconfessável, a matéria da cama e dos salões. Mas como ludibriar sem a verdade da criação? Se a ficção apresenta, no seu nascedouro, uma verdade feita de falsa coerência?
Sigo para o mercado, atraída pelo supérfluo. Congratulo-me com o bairro e os seres que perambulam pelas ruas. Sei conquanto a vida não me perpetue, insisto em ser trânsfuga, andarilha, falar o português. O que mais pedir ao Brasil?
Ao final da tarde, o crepúsculo da lagoa reafirma que a arte reconcilia os seres, aquece-os. O ano está prestes a acabar, há que prestar contas, fazer votos, pedir trégua aos desafetos, aos que se odeiam tanto que só o assassinato lhes abrandaria o coração. Solicitar, sobretudo, mesa farta para os humilhados, febre para os indiferentes, clemência amorosa.
Jogo as cartas sobre a mesa aguardando que o ás de ouros me indique o porvir”.
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Em: Livro das Horas, Nélida Piñon, Rio de Janeiro, Record: 2012, pp 129-130
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Nem escrito, nem falado,
porém fácil de entender,
é o silêncio do recado
que um olhar sabe dizer.
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(Sebas Sundfeld)
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Numa colcha de retalhos
costurei nossas lembranças
e alinhavei os atalhos
com a linha da esperança.
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(Alice Cristina Velho Brandão)
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Vaso com oleandro e livros, 1888
Vincent van Gogh (Holanda,1853-1890)
óleo sobre tela 60 x 73 cm
Metropolitan Museum, Nova York
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Afonso Louzada
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Talvez marcando o poema, em livro antigo,
encontrei uma flor já ressequida.
Velha história de amor… penso comigo,
pondo-me a ler a página esquecida.
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Quem à flor nesse livro deu abrigo,
quem sabe? procurou tê-la escondida –
do amor sentindo o grande abraço amigo,
para a própria saudade comovida.
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E o que ficou daquele amor profundo?
Talvez agora, já não resta nada
De tudo que era sonho e que era vida.
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Sob o silêncio lúgubre do mundo,
Apenas essa flor abandonada –
marcando a velha página esquecida.
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Em: Sonetos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição aumentada.
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Sem dar chance ao desatino,
quando a dor te atormentar,
tenta torcer o destino
cantando, em vez de chorar!
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(Ulysses de Carvalho Junior)
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No refulgir de uma estrela
há dois pontos principais:
do sonhador que quer vê-la
e do que não sonha mais.
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(José Augusto Fernandes)
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Ilustração publicada em 1918.–
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Tasso da Silveira
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A cantiga que cantavas
não tinha acompanhamento
nem de nenhum instrumento
nem de outra voz, nem de vento,
nem de água em murmúrio vão.
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Subia pura na noite.
Subia serenamente
fresca, simples, inocente,
para os astros, para a lua,
no seio da solidão.
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Afora o canto que entoavas,
tudo era recolhimento
no vasto e perdido mundo.
Tudo era êxtase profundo.
Ao teu canto claro e lento,
tudo era deslumbramento.
Não havia voz de vento,
nem água em murmúrio vão.
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Teu canto, no vasto mundo,
não tinha acompanhamento.
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Em: Antologia de poemas para a infância, vários autores, Rio de Janeiro, Ediouro:2004
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Tasso Azevedo da Silveira ( Brasil, 1895 – 1968) advogado e escritor. Um dos fundadores da Revista Fanal que circulou de 1911 a 1913. Pertenceu ao movimento de vanguarda literária no Paraná.
Obras:
A igreja silenciosa, 1911
Fio d’água, poesia, 1918
A alma heróica dos homens, poesia, 1924
Alegria criadora: 1922-1925, ensaios, 1928
As imagens acesas, poesia, 1928
Alegorias do homem novo
Canto do Cristo do Corcovado, poesia, 1931
Canto absoluto, 1940
Discurso ao povo infiel
Cantos do campo de batalha, poesia, 1945
Contemplação do eterno, poesia, 1952
Canções a Curitiba, poesia, 1955
Puro canto, poesia, 1956
Regresso à origem, poesia, 1960
Poemas de antes, poesia, s/d
As mãos e o espírito, teatro, 1957
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O vôo do pássaro, George Barbier (França,1882-1932)
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Coelho Neto
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Em rico estojo de veludo, pousado sobre uma mesa de charão, jazia uma flauta de prata. Justamente por cima da mesa, em riquíssima gaiola suspensa ao teto, morava um sabiá. Estando a sala em silêncio, e descendo um raio de sol sobre a gaiola, eis que o sabiá, contente, modula uma ária.
Logo a flauta escarninha põe-se a casquinar no estojo como a zombar do módulo cantor silvestre.
— De que te ris? indaga o pássaro.
E a flauta em resposta:
— Ora esta! pois tens coragem de lançar guinchos diante de mim?
— E tu quem és? ainda que mal pergunte.
— Quem sou? Bem se vê que és um selvagem. Sou a flauta. Meu inventor, Mársias, lutou com Apolo e venceu-o. Por isso o deus despeitado o imolou. Lê os clássicos.
— Muito prazer em conhecer… Eu sou um mísero sabiá da mata, pobre de mim! fui criado por Deus muito antes das invenções. Mas deixemos o que lá se foi. Dize-me: que fazes tu?
— Eu canto.
— O ofício rende pouco. Eu que o diga que não faço outra coisa. Deixarei, todavia, de cantar e antes nunca houvesse aberto o bico porque, talvez, sendo mudo, não houvessem escravizado se, ouvindo a tua voz, convencer-me de que és superior a mim. Canta! Que eu aprecie o teu gorjeio e farei como for de justiça.
— Que eu cante?!…
— Pois não te parece justo o meu pedido?
— Eu canto para regalo dos reis nos paços; a minha voz acompanha hinos sagrados nas igrejas. O meu canto é harmoniosa inspiração dos gênios ou a rapsódia sentimental do povo.
— Pois venha de lá esse primor. Aqui estou para ouvir-te e para proclamar-te, sem inveja, a rainha do canto.
— Isso agora não é possível.
— Não é possível! por quê?
— Não está cá o artista.
— Que artista?
— O meu senhor, de cujos lábios sai o sopro que transformo em melodia. Sem ele nada posso fazer.
— Ah! é assim?
— Pois como há de ser?
— Então, minha amiga modéstia à parte vivam os sabiás! Vivam os sabiás e todos os pássaros dos bosques, que cantam quando lhes apraz, tirando do próprio peito o alento com que fazem a melodia. Assim da tua vanglória há muitos que se ufanam. Nada valem se os não socorrem o favor de alguém; não se movem se os não amparam; não cantam se lhes não dão gorjeia porque tem voz. E sucede sempre serem os que vivem do prestígio alheio, os que mais alegam triunfos. Flautas, flautas… cantam nos paços e nas catedrais… pois venha daí um dueto comigo.
E, ironicamente, a toda voz, pôs-se a cantar o sabiá, e a flauta de prata, no estojo de veludo… moita.
Faltava-lhe o sopro.
***