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Ilustração Yan Nascimbene.
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Orvalha, e da flor molhada
brota uma lágrima, e corre.
– Silêncio!, que a madrugada
pranteia a noite que morre…
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(Elton Carvalho)
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Ilustração Yan Nascimbene.–
Orvalha, e da flor molhada
brota uma lágrima, e corre.
– Silêncio!, que a madrugada
pranteia a noite que morre…
–
(Elton Carvalho)
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Monge franciscano lendo, 1661
Rembrandt Harmenszoon van Rijn (Holanda, 1606- 1669)
Óleo sobre tela, 82 x 66 cm
Museu de Arte Sinebrychoff, Helsinque, Finlândia
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“A porta abriu-se sem ruído. Ele entrou, e a porta fechou-se de novo, silenciosamente.
O lugar em que o venerando religioso acabava de penetrar, era uma triste cela, sombria e espaçosa, com uma janela gradeada e fechada, e apenas frouxamente esclarecida por uma clarabóia do teto. As paredes, nuas de alto a baixo, tinham uma cor sinistra de osso velho. Em uma delas havia um grande nicho com a imagem da Virgem da Conceição, quase de tamanho natural; a um dos cantos, uma negra estante toscamente feita, pejada de grossos alfarrábios amarelecidos pelo tempo; no centro, uma mesa de madeira escura com um breviário em cima, ao lado de uma candeia de azeite, um pedaço de pão duro e um cilício cru; junto à mesa, um banco de pau”.
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Em: A mortalha de Alzira, Aluísio de Azevedo, publicado pela 1ª vez em 1892, primeiro capítulo, em domínio público.
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Ilustração Walter Crane.–
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Mário Quintana
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Em cima do telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.
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O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.
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E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin…
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Carlos Queiroz Telles
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Cabelos molhados,
sol encharcado,
pele salgada,
vento nos olhos,
areia nos pés.
O corpo sem peso
é nuvem à-toa.
O tempo inexiste.
a vida é uma boa!
Mergulho na água
azul deste céu.
Sou peixe de ar.
Sou ave de mar.
Mergulho em mim mesmo,
silêncio profundo.
Sou eu e sou Deus
de passagen no mundo,
nadando sem rumo
entre conchas e paz.
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Em: Sonhos, grilos e paixões, Carlos Queiroz Telles, São Paulo, Moderna: 1990
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Edwaert Collier (Holanda, 1642-1710)
óleo sobre madeira, 32 x 27 cm
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Aurélio Pinheiro
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O Dr. Elesbão recebeu-nos com um sorriso sereno, em sua fecunda biblioteca, de altas, solenes estantes de mogno. Era uma grande sala, branca, de espiritualizante claridade, com as janelas abertas para o nascente. Sobre a larga mesa de estudos havia livros esparsos, papéis, vários objetos e um tinteiro de prata com uma águia de asas distendidas na ânsia de um vôo fremente. Junto à mesa, num dunquerque de ébano, pousava uma caveira sobre um suporte niquelado. Pelos cantos, colunas de mármopore ostentavam estatuetas e jarrões, e atrás da cadeira do Mestre surgia o busto de Hipócrates, saliente e austero como o de um deus pensativo. Entre duas estantes um pêndulo alto e negro marcava as horas, antecedendo-as de um minuete do tempo do Rei-Sol. Nas paredes dois quadros a óleo: — uma cabeça de velha a sorrir com brandura e uma álacre marinha… Um sofá de molas envolvido em capa de linho branco e algumas cadeiras de jacarandá com espaldares em alto relevo, completavam o severo mobiliário.
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Em: Flor do Lácio,[antologia] Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 23.
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Aurélio Waldomiro Pinheiro (RN 1882 – RJ 1938) médico, jornalista, poeta, escritor.Formado em medicina , pela Faculdade de Medicina da Bahia, graduando-se em 1907. Retorna ao Rio Grande do Norte (Macau), onde além de clinicar colabora com o jornal O Mossoroense. Em 1910 muda-se para Parintins no Amazonas. Faleceu em Niterói, no Rio de Janeiro em 1932)
Obras:
Gleba tumultuária, prosa, 1927
O desterro de Umberto Saraiva, romance, 1928
Macau, romance, 1932-34
À margem do Amazonas, prosa, 1937
Em busca do ouro, prosa, 1938
Dicionário de sinônimos da língua nacional, s/d
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O vento, com seus gemidos,
que só a dor sabe tê-los,
gelado como a saudade,
vem me beijar os cabelos.
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(Manuel Lins Caldas) [pseud. Daslak]
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Ilustração de John Rae.–
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Bocage
——————-(tradução de La Fontaine)
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É fama que estava o corvo
Sobre uma árvore pousado
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.
Pelo faro, àquele sítio
Veio a raposa matreira,
A qual, pouco mais ou menos,
Lhe falou desta maneira:
– Bons dias, meu lindo corvo;
És glória desta espessura;
És outra fênix, se acaso
Tens a voz como a figura.
A tais palavras, o corvo,
Com louca, estranha afouteza,
Por mostrar que é bom solista
Abre o bico e solta a presa.
Lança-lhe a mestra o gadanho
E diz: – Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
À custa de quem o atende.
Esta lição vale um queijo;
Tem destas para teu uso.
Rosna então consigo o corvo
Envergonhado e confuso:
– Velhaca, deixou-me em branco;
Fui tolo em fiar-me dela;
Mas este logro me livra
De cair noutra esparrela.
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O pássaro e a cobra, s/d
Katsushika Hokusai ( Japão, 1760-1849)
Pintura sobre papel, 25,6 х 36,3 cm
Coleção Particular
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Coelho Neto
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O tempo era de grande esterilidade e os animais andavam esfomeados. Uma cobra, que se arrastava, todo o dia, ao sol, pelo areal abrasado, à procura de alguma cousa com que atendesse à fome que lhe roía as entranhas, perdida toda esperança, enroscou-se em uma pedra e ali deixou-se ficar à espera da morte. Iam-se lhe fechando os olhos de fraqueza, quando um passarinho se pôs a cantar num ramo seco, lançando tão alegres vozes, que a cobra, que era matreira, logo percebeu que tinha de avir-se com um novato, porque passarinho velho não seria tão indiferente a rolar gorjeios em tempo tão infeliz. Assim, instruída pela experiência, imaginou uma traça astuta e, espichando o pescoço, pôs-se a gemer com altos guaiados: — “Ai! de mim, que vou morrer sem alguém que me valha. Ai! de mim…” – Ouviu-a o gaturamo e, porque era curioso, voou do galho ao chão. Pondo-se diante da cobra, interrogou-a. “Que tendes senhora cobra? Por que assim gemeis tão aflita?” – “Ai! de mim! Fui ali acima à fonte, achei água tão fresca e pus-me a beber tão sôfrega, que engoli um diamante do tamanho de uma noz. Tenho-o atravessado na garganta e morrerei se não encontrar pessoa de caridade que mo queira tirar. Vale um reino a pedra e eu a darei por prêmio a quem me fizer o benefício de arrancar-ma da goela, onde se encravou.” — Tufou-se em agrado pretensioso o enfatuado gaturamo e, pensando no tesouro que ali tinha ao alcance do bico, redargüiu à cobra: “Não é pelo que vale o diamante, mas pelo alto preço em que vos tenho, que me ofereço para aliviar-vos. Abri a boca!” – Não se fez a cobra rogar e, tanto que sentiu o passarinho, foi um trago. Então, saciada e rindo – como riem as cobras, — enrodilhou-se de novo e adormeceu, contente.
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Mickey quer ser pintor, ilustração de Walt Disney.–
O bom pintor, quando pinta
para dar vida à aquarela,
põe mais amor do que tinta
no sentimento da tela.
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(José Lucas de Barros)
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Paisagem com casa de fazenda e animais, interior de MG, 1969
Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)
óleo sobre tela, 65 x 82 cm
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Virgílio Várzea
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Uma tênue mancha de claridade argêntea recorta em laca a linha ondulada das colinas verdes. Pouco a pouco, uma poeira de ocre transparente, que se esbate para o alto, cobre todo o horizonte e o sol aponta, deslumbradoramente, como uma gema de ovo flamante. Vapores diáfanos diluem-se lentamente, em meio dos listrões vivos que purpureiam o nascente. Fundem-se no ar tons delicados de azul e rosa; e eleva-se da floresta uma orquestração triunfal. Despertam de súbito, ao alagamento tépido da luz, as culturas adormecidas. Abrem-se as casas. Pelos terreiros, úmidos da serenada da noite, homens de cócoras, em camisa de canjirão na mão, brancos de frio, ordenham as grossas tetas das pacientes e mugidoras vacas, que criam amarradas aos finos paus das parreiras, e que, expelindo fumaça no ar frígido, ruminam ainda restos de grama numa mansidão ingênua de animal digno. Mulheres de xale pela cabeça chamam as galinhas, com um ruído seco de beiço tremido, fazendo burr e sacodindo-lhes mãos cheias de milho e pirão esfarelado. Um carro atopetado de mandioca, arrancadas de fresco, empoeiradas de areia, compridas, tortas, com o aspecto e a cor esquisita das plantas que se avolumam e vegetalizam enterradas, chia monotonamente, em direção ao engenho, solavancado pela aspereza do caminho… E pela compridão majestosa e verde dos alagados e das pastagens, o colorido movimentoso e variado das reses.
[Exemplo de vistas movimentadas]
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–Em: Flor do Lácio,[antologia] Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), páginas 59-60.
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Virgílio dos Reis Várzea (Brasil,1863 – 1941) escritor, jornalista e político brasileiro. Nasceu em Florianópolis, mas radicou-se no Rio de Janeiro a partir de 1896. A maioria de suas obras é ambientada em Santa Catarina. Com Cruz e Sousa publicou o livro Tropos e Fantasias (1885).
Obras:
Traços Azuis, 1884
Tropos e Fantasias,1885, com Cruz e Sousa
Mares e Campos, 1895
Rose Castle, 1895
Santa Catarina: A Ilha, 1900
George Marcial, 1901
O Brigue Flibusteiro, 1904
Nas Ondas