Trova dos meus olhos

9 06 2014

paquera, walter crane, 1877Onde está indo, minha linda menina? — ilustração de Walter Crane.

Marcados por desenganos,

na busca de um céu aberto,

meus olhos são quais ciganos,

nunca têm destino certo.

(Ilza Tostes)





Dia 8: Infância, desafio da escrita, #PHpoemaday

8 06 2014

 

 

velocípede, o corredor,O corredor de velocípede. Autor desconhecido, possivelmente russo.

 

Tema: infância

 

O corajoso

Com um chapéu de jornal
Em seu triciclo vermelho
Miguel comemora o Natal
Se esquecendo do conselho
De João, irmão mais velho:
“Preste muita atenção!
Há problemas no jardim,
Perto da antiga paineira
Tem desnível quase certo,
Um descuido e um belo tombo
Acabam com a brincadeira”.
Miguel não se preocupa
Pedala entregue ao seu sonho,
Corpo e alma em disparada,
Reproduzem a corrida
Que na sua imaginação
Lembra a da televisão.
Passeia pelo jardim
Faz curvas de um lado a outro,
Veloz, parece ter asas.
De repente, eis que surge,
O buraco da paineira.
Invés de se desviar,
Cuidadoso como urge,
Miguel se imagina voar
Acelera e sem olhar
Vai ao chão, ponta-cabeça.
Foi um “Deus nos acuda!”
A família surpreendida
Pelos gritos da criançada,
Veio correndo de casa.
Estatelado no chão
Mais surpreso que ferido
Miguel sem perder o estilo
Ainda contou vantagem!
O corte no joelho direito
Precisou de intervenção
Foram três pontos pequenos
E uma grande bandagem,
Que Miguel logo tornou
Em medalha de coragem!

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 





Dia 7: Um objeto inanimado, desafio da escrita, #PHpoemaday

7 06 2014

 

 

Good Housekeeping 1936-11Horace C. Gaffron m Ilustração de Horace C. Graffon, capa da revista americana Good Housekeeping, Novembro 1936

 

Tema: um objeto inanimado

 

 

Primeiro amor

Era um cachorro de pano. Chamava-se Tupi. Tinha longas orelhas marrom escuro e um focinho vermelho. O corpo azul-rei de bolinhas pretas contrastava com a coleira de couro enfeitada por estrelinhas de metal dourado. Não era muito fofo. Mas guardava meus sonhos, no macio do colchão, dormindo ao meu lado, naquele espaço estreito entre o meu travesseiro e a grade da cama. Tupi era o companheiro fiel de minhas travessuras. E eu o carregava de um canto ao outro de casa, pela orelha direita, que por isso mesmo já estava descosturando ou pelo rabo, um cotó emborrachado preto.

Na confusão da mudança de residência da família, dei por falta de Tupi e não sosseguei mais. Aqueles homens que empacotavam tudo, que colocavam pratos e copos em caixas, minhas roupas e os lençóis da minha cama em grandes caixas de papelão, deram cabo de Tupi, eu me convenci.

Durante a viagem de um canto a outro da cidade, por entre pacotes e sacolas da mudança, no carro de vovô, chorei. Chorei muito. Esperneei. Lágrimas quentes e soluços do fundo do peito pontuaram minhas falas. Berreiro. Papai dizia que se podia ouvir os meus gritos do Oiapoque ao Chuí. Eu não sabia o que era o Oiapoque, nem o Chuí, e não estava interessada em aprender. Escolhi ficar emburrada. Silenciosa. Ressentida. Não houve conversa dele, de minha mãe, de minhas tias que me contentasse. Passei aquela noite na casa de vovó, enquanto meus pais arrumavam a nova casa. Ninguém ouviu a minha voz. Eu não queria nada com ninguém. Nem mesmo a canja que vovó preparou, meu prato favorito às vésperas dos meus cinco anos, foi suficiente para me alegrar. Nem o jogo do burro, nem a pipoca fresquinha, com refresco de tamarindo. Só aceitei mesmo o colinho da vovó. Porque também ninguém é de ferro e ele era muito macio e quentinho.

Na manhã seguinte, papai veio me apanhar. No caminho me disse que estava tudo bem, que eu ia gostar da nova casa e que o meu quarto já estava arrumado. Disse também que tinha uma surpresa para mim. Quando chegamos, ainda segurando a mão de papai na porta do quarto, vi muitos animais de pelúcia sobre a minha cama, sobre o travesseiro, e no meio deles, escondido, havia um focinho vermelho, farejando o ar do novo quarto. Corri até a cama, me abracei com Tupi. E chorei. Chorei muito, silenciosamente. Papai veio conversar comigo. Acocorou-se, e numa voz baixa explicou como Tupi havia sido empacotado, com todo carinho… Continuei chorando em silêncio e um momento depois me dependurei no pescoço de papai, mantendo Tupi preso firmemente pela orelha. E sem mais demandas, fechei os olhos e dormi. Exausta. Segura. Protegida por meus dois guardiães.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 





Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 6— #PHpoemaday

6 06 2014

 

 

Mark Spain THE LOVE LETTER, Great Britain, Contemp.

A carta de amor

Mark Spain (Inglaterra, 1962)

óleo

 

Tema: Azul

 

Eu sei de cor

 

Silvia Nice

 

Eu sei de cor
Mar, luar, firmamento,
presentes já no paraíso,
cor primária e cor-pigmento
Adão e Eva já sabiam disso?
É cor de menino, é a cor de planetas,
está na bandeira, mas uso em caneta
é bebê, é petróleo, é turquesa, é marinho,
é safira, é viagra, é até ararinha
Se nos olhos, beleza
No sangue, nobreza
Dos quadrinhos pras lentes
é a cor mais quente
Na TV fez sucesso
mas já deu, tô de boa,
meu humor se perdeu
naquela tal Lagoa
Figurando no cine
pintou os sets
quis se destacar
com legenda, foi Jasmine
coloriu a Smurfette
e em 3D foi Avatar
Escravos libertos do plantio do algodão
aliviavam a dor de seus corpos nus
clamavam com a voz do coração
o olhar divino cantando Blues
Estimula mesmo a criatividade
olha só o pinguinho de tinta
no papel da Aquarela
Mas não posso negar a verdade
das sete cores do arco
eu prefiro a amarela.

 

Cores se igualam a amores

Nathalya Delgado

 

Cores se igualam a amores.
Cores se incluem a lugares.
Cores se espalham pelos mares.
Cores que alegram os lares.
Uma cor decora meus amores.
Uma cor se integra aos meus lugares
Uma cor encanta os meus mares.
Uma cor se destaca nos meus lares.





Anedota, “O Sonâmbulo”, texto de Humberto de Campos

6 06 2014

 

 

soneca 14Ilustração Walt Disney, quadrinho de uma revista Zé Carioca.

 

 

O Sonâmbulo

 

Humberto de Campos

 

Certo indivíduo, conhecido como vivedor, aboletou-se, no caminho de sua vida, no solar dum homem bonacheirão e abastado, que lhe abrira as portas para um descanso ligeiro. Nos primeiros dias, o dono suportou galhardamente o hóspede, oferecendo-lhe o melhor trato, fornecendo-lhe a melhor cama, o melhor vinho, os melhores charutos. Passada, porém, a primeira quinzena, começou a pensar em um meio, que não fosse grosseiro, de livrar-se do importuno, e achou-o. Tinham os dois acabado de almoçar e repousavam, lendo jornais e fumando “havanas”, à sombra das árvores. De repente, o hospedeiro recosta-se pesadamente na cadeira, cerra os olhos, deixa cair a folha e o charuto, simulando um sono profundo. E, como em sonho, principia a falar: “Vejam só: que maçada! Esse cavalheiro vem, aloja-se em minha casa, come, bebe, fuma, diverte-se, e nada de entender que sua presença já me está sendo desagradável! Será possível que ele não compreenda isso?” – E, soltando um suspiro, pulou da cadeira, esfregando os olhos: “Que diabo! É eu dormir depois do almoço, vêm-me logo os pesadelos. E que sonho mau tive eu! Parece até que falei alto, não?” – E o outro, que de cenho cerrado, prestava atenção a tudo: “É exato; você esteve por aí falando; e eu, como vi que se tratava de cousas de sonho, procurei não ouvir para não ser indiscreto. As palavras dos homens só têm valor, mesmo, quando eles as proferem acordados”. – E o hóspede continuou na casa por mais três anos e quatro meses, isto é, até a transferência da propriedade, comendo do melhor prato, dormindo na melhor cama, bebendo do melhor vinho, fumando os melhores charutos.

 

[Exemplo de narrativa humorística]

 

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário)p. 215





Dia 4: Sua paixão, desafio da escrita, #PHpoemaday

4 06 2014

 

 

 

1754277

 

Sua paixão

 

Sua paixão eram os relógios-cuco.
Tinha mais de oitenta espalhados pela casa.
Cantavam todos em coral ao meio dia.
Quando morreu levou consigo
a voz da passarada.

©Ladyce West, Rio de Janeiro:2014





Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 3 — #PHpoemaday

4 06 2014

 

 

estelles-bartual-rafael (Espanha)Minha filha Amparo, lendo, 1953

Rafael Estelles Bartual (Espanha, 1900-1985)

óleo sobre tela, 100 x 80 cm

www.estellesbartual.es

 

 

 

Tema: ESPELHO

 

Espelho

Victória Albuquerque

Mão direita,
Esquerda mão.
Cabeça nas nuvens,
Pé no chão.
Versificar,
Ver se está bem.
Cicatriz fina,
Aqui também.
Olhar brilhando,
As duas têm.
E o desconhecido
Habita o lado de cá também.

 

 

O Espelho

Ana Carolina Souza


Tantos espelhos
Um em cada canto
Tinha medo de perder
De perder-se
E perdeu
Tantos espelhos
Um em cada canto
Tinha medo de ser esquecida
De esquecer-se
E esqueceu
Esqueceu que era bela
Que era ela
Que era única…

 

 

De Enrique Coimbra outro tipo de contribuição:

 

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Dia 2: O céu de hoje, desafio da escrita, #PHpoemaday

2 06 2014

 

 

 

TúlioMugnaini (Brasil, 1895-1975), Ipanema, sd,Óleo sobre tela, 54x 72cmColeção ParticularIpanema, s.d.

Túlio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)

Óleo sobre tela, 54x 72 cm

Coleção Particular

 

O céu de hoje

 

Leblon. Fim de madrugada. Manhã escura de outono. O sol às minhas costas acorda preguiçoso. De onde estou não distingo nem mar, nem céu. Só escuridão. Diversos tons de cinza me envolvem. O horizonte se apaga na distância. Resta a sombra assustadora, enegrecida e fria, soturna e altaneira do penhasco Dois Irmãos. Será um belo dia, céu limpo. E, no entanto, quando a luz se faz brilhar, não consigo esquecer a impávida presença da pedra fria, fatídica, nefasta, molhada, sinistra e escarpada, guardiã eterna do meu paraíso.

Nem tudo é festa no Rio de Janeiro.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2014





Quadrinha do sol

31 05 2014

sol, dia de sol, primavera, dia lindo,Clotilde gosta de um dia de sol, ilustração Maurício de Sousa.

Estava chuvoso o dia,

e veio o sol de repente,

assim, como uma alegria

entrando na alma da gente.

(Augusta Campos)





Quadrinha da solidão

27 05 2014

tristeChico Bento está triste, ilustração de Maurício de Sousa.

Tudo passa nesse mundo,

tudo na vida tem fim,

só não terminam as horas

que vives longe de mim.

(Geraldo Alvim)