A mochila, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

30 06 2014

 

 

elizabeth beckerIlustração de Elizabeth Becker.

 

 

A mochila

Reynaldo Valinho Alvarez

 

Carrego na mochila, entre outros trastes,

três ou quatro verdades importantes.

O resto é de mentiras. São contrastes

que entrego às outras partes contrastantes.

A lira não me vale. São desastres

o que encontro nos outros caminhantes.

Na terra devastada, erguem-se as hastes

das lanças e dos canos fumegantes.

A mochila me pesa. As três verdades

ou quatro, já não sei, não pesam tanto,

mude-se o tempo e mudem-se as vontades.

O que me dói ou pesa, ou o que é um espanto

é que um modesto grama de inverdades

valha um tonel de torpe desengano.

 

 

Em: Galope do tempo, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro: 1997, p. 55





Milagres, poesia de Domingos Pellegrini

27 06 2014

Natureza morta, 2008

Florêncio [Carlos José dos Santos] (Brasil, 1947)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Milagres

Domingos Pellegrini

O milagre da uva

virar vinho

e o vinho virar

vinagre

O milagre da flor

virar semente

e a semente virar

uma baita árvore

O milagre das pedras

sua lenta vida

rocha virando areia

E o milagre dos astros

o universo tecido

de órbitas e estrelas.

Em: Gaiola aberta: 1964-2004, Domingos Pellegrini, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2005





Trova sobre a riqueza

26 06 2014

???????????????????????????????Ilustração de Walt Disney.

Rico e pobre, companheiro,

sempre fui, conforme explico:

sempre pobre de dinheiro,

de esperança — sempre rico.

(José Nogueira da Costa)

Salvar





Trova do livro da vida

23 06 2014

 

 

???????????????????????????????Cebolinha e Cascão esperam sua hora no consultório médico lendo gibis, ilustração Maurício de Sousa.

 

 

Se o livro a ler nos convida,

devemos reconhecer:

— no livro aberto da vida

é que se aprende a viver.

 

 

(Álvaro Faria)

Salvar





Trova do pobre

22 06 2014

col9924.1LCartão postal com pedinte em porta de igreja, cerca 1900. Alemanha.

Pobres, de bolsos vazios,

não é a vós que eu lamento!

Lastimo os pobres de espírito,

vazios de pensamento…

(Manuel de Araújo Peres)

Salvar





Dia 14: “tudo que eu gostaria de ter dito”, desafio da escrita, #PHpoemaday

14 06 2014

 

 

Edmund Charles Tarbell, (EUA 1862-1938), Mary lendo, 1933, ost, 31x27Mary lendo, 1933

Edmond Charles Tarbell (EUA, 1862-1938)

óleo sobre tela, 31 x 27 cm

 

Tema: Tudo que eu gostaria de ter dito 

 

É tempo de recomeçar

 

 

Faz hoje um ano.
Só agora sei o que deveria ter dito.
Por que sempre se pensa melhor
Quando as emoções já se abrandaram?
De que adianta agora saber a resposta perfeita?
De que adianta escrever todas as razões,
As pontuações? As causas e condições?
Se o tempo já passou, se a vida já mudou,
e o passado não volta mais?
Visão perfeita é sempre a do espelho retrovisor,
mas não andamos para trás, a não ser na sexta dimensão.
Assim, escrevo aqui tudo o que deveria ter dito, há um ano,
Pego um fósforo e torno em cinzas a mágoa pelo que não fiz.
É tempo de recomeçar.


©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 

 





Dia 11: O sertão, desafio da escrita, #PHpoemaday

11 06 2014

 

 

ROSÂNGELA MARASSI - Ipê amarelo - Óleo sobre telaIpê amarelo

Rosângela Marassi (Brasil, contemporânea)

Óleo sobre tela

 

 

Os ipês no sertão

 

Não me venha falar de tristeza
quando fala do sertão do Cariri.
Se você diz que a paisagem é cinza
é porque não conhece o sertão
patriótico na paisagem:
alegre, em flor, verde e amarelo.
É porque nunca viu o sertão de setembro;
o sertão dos ipês de puro ouro
salpicando felicidade na estação que se inicia.
Esses ipês renovam as esperanças no futuro
e alimentam a chama do amor à terra.
Quando vir as cores do sertão florado
Entenderá porque a bandeira do país
tremula no horizonte, lembrando o Cariri.

 

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014





O casamento de Aurélia: “Senhora” de José de Alencar

11 06 2014

Gari_Melchers_Marriage1Casamento, 1893

Gari Melchers (EUA, 1860-1932)

óleo sobre tela, 82 x 60 cm

Minneapolis Institute of Arts

 

 

“Reunira-se na casa das Laranjeiras, a convite de Aurélia, uma sociedade escolhida e não muito numerosa para assistir ao casamento.

A moça não aceitou a idéia de dar um baile por esse motivo; mas entendeu que devia cercar o ato da solenidade precisa, para tornar bem notória a espontaneidade de sua escolha e o prazer que sentia com esse enlace.

Não faltaram amigos e conhecidos, que sugerissem a Aurélia a lembrança de fazer o casamento à moda européia, com o romantismo da viagem logo depois da cerimônia, a lua-de-mel campestre, e o baile de estrondo na volta à Corte.

Ela, porém, recusou todos esses alvitres; resolveu casar-se ao costume da terra, à noite, em oratório particular, na presença de algumas senhoras e cavalheiros, que lhe fariam, a ela órfã e só no mundo, as vezes da família que não tinha.
Celebrara-se a cerimônia às oito horas. Lemos conseguira um barão para servir de contrapeso ao Ribeiro e um monsenhor para oficiar.

Quanto à madrinha, Aurélia escolhera D. Margarida Ferreira, respeitável senhora, que lhe mostraradesinteressada amizade, desde a primeira vez que a encontrou na sociedade.

No momento de ajoelhar aos pés do celebrante, e de pronunciar o voto perpétuo que a ligava ao destino do homem por ela escolhido, Aurélia com o decoro que revestia seus menores gestos e movimentos, curvara a fronte, envolvendo-se pudicamente nas sombras diáfanas dos cândidos véus de noiva.

Mau grado seu, porém, o contentamento que lhe enchia o coração e estava a borbotar nos olhos cintilantes e nos lábios aljofrados de sorriso, erigia-lhe aquela fronte gentil, cingida nesse instante por uma auréola de júbilo.

No altivo realce da cabeça e no enlevo das feições cuja formosura se toucava de lumes esplêndidos, estava-se debuxando a soberba expressão do triunfo, que exalta a mulher quando consegue a realidade de um desejo férvido e longamente ansiado.
Os convidados, que antes lhe admiravam a graça peregrina, essa noite a achavam deslumbrante, e compreendiam que o amor tinha colorido com as tintas de sua palheta inimitável, a já tão feiticeira beleza, envolvendo-a de irresistível fascinação.

– Como ela é feliz! diziam os homens.

– E tem razão! acrescentaram as senhoras volvendo os olhos ao noivo.

Também a fisionomia de Seixas se iluminava com o sorriso da felicidade. O orgulho de ser o escolhido daquela encantadora mulher ainda mais lhe ornava o aspecto já de si nobre e gentil. Efetivamente, no marido de Aurélia podia-se apreciar essa fina flor da suprema distinção, que não se anda assoalhando nos gestos pretensiosos e nos ademanes artísticos; mas reverte do íntimo com uma fragrância que a modéstia busca recatar, e não obstante exala-se dos seios d’alma.

Depois da cerimônia começaram os parabéns que é de estilo dirigir aos noivos e a seus parentes. Só então reparou-se na presença de uma senhora de idade, que ali estava desde o princípio da noite.

Era D. Camila, mãe de Seixas, que saíra de sua obscuridade para assistir ao casamento do seu Fernando, e sentindo-se deslocada no meio daquela sociedade, retirou-se com as filhas logo depois de concluído o ato.

Para animar a reunião as moças improvisaram quadrilhas, no intervalo das quais um insigne pianista, que fora mestre de Aurélia, executava os melhores trechos de óperas então em voga.

Por volta das dez horas despediram-se as famílias convidadas.”

Em: Senhora, José de Alencar, originalmente publicado em Capítulo XII, páginas 35-36, versão PDF, Biblioteca Nacional. Em domínio público.





Dia 10: O mar, desafio da escrita, #PHpoemaday

10 06 2014

 

 

 

CAROL KOSSAK - Mar bravio - Óleo sobre tela - 38 x 46Mar bravio

Carol Kossak (Brasil, 1895-1976)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm

 

 

Tema: O mar

 

O que há de mais selvagem em minha vida

 

 

Respeito o mar, sua força, sua paixão.
É profundo, imoderado, impetuoso e potente.
Cruel, enérgico, aniquilador e intenso.
Mar sereno não existe. É uma máscara.
Por trás da superfície calma há uma pujança brutal.
Ele hipnotiza e seduz. Mas é um mau amante.
É agressivo, destruidor, cruel. Feroz.
É o que há de mais selvagem em minha vida.

Suas ondas acarinham a areia para seduzir.
Molhe os pés, que belos tornozelos”, parece dizer.
“Venho beijar-te; não me canso de beijar-te.”
E no descuido, genioso e irritadiço, encapelado e bravio
Ele te leva, te ingere, te traga.
Ele te engole, te sorve, te consome e devora.
O mar, imenso, azul, verde, cinzento, faminto, enigmático e feroz
É o que há de mais selvagem em minha vida.


©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014.

 

 





Dia 9: Velhice, desafio da escrita, #PHpoemaday

9 06 2014

 

 

happy-new-year

 

Tema de hoje: Velhice

 

A velhice me disse…

 

A velhice me disse
Que iria chegar.
Achei cretinice
Cabelos grisalhos
Meu pai já os tinha
Sem mesmo trintar.

A velhice me disse
Que se aproximava.
Que grande tolice!
Óculos de perto
eu já os usava
em criança, é certo.

A velhice me disse
Que batia à porta,
Que grande chatice!
Doíam-me as juntas?
E os calos nos pés?
Por que me pergunta?

A velhice me disse
Que já me pegara
Mas que rabugice!
Abriu minha porta
Fechou-me a aorta
E deu-me por morta.

 

©Ladyce West,Rio Janeiro,2014