São meus ouvidos dois ninhos
onde guardo, ao meu sabor,
um bando de passarinhos!
– Tuas mentiras de amor.
(Lilinha Fernandes)
São meus ouvidos dois ninhos
onde guardo, ao meu sabor,
um bando de passarinhos!
– Tuas mentiras de amor.
(Lilinha Fernandes)
Sinos, 1934.
Carlos Pena Filho
— Sino, claro sino,
tocas para quem?
— Para o Deus menino
que de longe vem.
— Pois se o encontrares
traze-o ao meu amor.
— E que lhe ofereces
velho pecador?
— Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão,
meu silêncio limpo,
minha solidão.
Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição, p.36.
Estudantes de anatomia, década de 1880
Elena Polenova (Rússia, 1850-1898)
óleo sobre tela
Vasily Polenov Museu de Belas Artes e Parque Nacional, São Petersburgo
Só ontem me dei conta do movimento #LeiaMulheres, através de um artigo no jornal O Globo, no que restou de sua página literária, PROSA. Com o título Prêmios de 2015 são das mulheres, Leonardo Cazes demonstra o reconhecimento dado às nossas escritoras através de prêmios literários no Brasil. Já era tempo.
Em 1988, de volta aos EUA depois de dois anos de residência na Europa, decidi ler exclusivamente mulheres. Uma decisão um tanto radical, mas bastante enriquecedora. Tanto que prolonguei o experimento por um pouco mais de dez anos. A limitação de leitura não incluía os livros que eu precisasse ler para a crítica literária. Nessa época eu fazia crítica literária para o jornal da cidade e alguns regionais. Tampouco incluía autores ganhadores do prêmio inglês Booker, porque considero este, o mais importante prêmio literário do mundo. Nem circunscrevi a leitura profissional a autoras mulheres, pois como ferramentas de trabalho esse limite certamente colocaria à prova a minha postura profissional. Só essas exceções. Foi nesse período que descobri minha preferência por escritoras britânicas. Ainda hoje são elas as que mais prendem a minha atenção, que me dizem algo que vai além da palavra escrita. Quando finalmente voltei ao Brasil, em dezembro de 2002, tive a oportunidade de me familiarizar com a espanhola Rosa Montero, cuja obra me fascina, (ainda não traduzida nos EUA) e com algumas portuguesas. Desde então tratei de conhecer também algumas escritoras brasileiras.
Gosto não se discute. Minha preferência pelas inglesas não é lógica. Nunca morei naquele país, não estudei em escola inglesa no Brasil, não tenho família inglesa — exceto por antepassados escoceses que em 1810 emigraram para Portugal. Sou produto brasileiro mesmo, com forte sobreposição da cultura americana, resultado de muitos anos de estadia nos EUA, além de um consorte americano, professor universitário de literatura americana do século XIX. Eu tinha tudo para dar preferência às norte-americanas. Mas suas preocupações e tendência ao sentimental não tocam o nervo da sensibilidade que autoras britânicas parecem encontrar em mim, assiduamente, com seu leve humor, ironia e forte crítica social observada nas entrelinhas. O mesmo posso dizer sobre os escritores britânicos. Eles me atraem mais do que os de outras nacionalidades.
Annie Heckly (France (?), 1900- ?)
óleo sobre tela colado em cartão, 52 x 45 cm
Minha preferência por autoras britânicas começou quando descobri Barbara Pym. Soube que o poeta Philip Larkin, entre outros, havia julgado a escritora, finalista do Prêmio Booker em 1977 com a obra Quartet in Autumn [Quarteto de outono], “a escritora britânica mais subestimada da Inglaterra“. Nessa época eu morava em Coimbra e tinha fácil acesso à biblioteca do British Council, umas poucas quadras de casa. Tive então a oportunidade de ler esse livro. Fiquei encantada. Com a simplicidade do texto, da linha narrativa, Barbara Pym foi capaz de dizer muito mais sobre os seres humanos, sobre o relacionamento entre homens e mulheres, do que a aparente crônica de gênero da vida de um vilarejo inglês pode supor. Fui atrás do resto de sua obra e aos poucos mergulhei na produção de outras escritoras inglesas. Dessa feita familiarizei-me com as escritoras do século XX. Aqui estão algumas de minhas favoritas: Beryl Bainbridge, Elizabeth Bowen, Anita Brookner, A.S. Byatt, Margaret Drabble, Doris Lessing, Penelope Lively, Elizabeth Mackintosh, Nancy Mitford, Iris Murdock, Bernice Rubens, Dodie Smith, Muriel Spark, Fay Weldon. Tenho certeza que algumas autoras me escaparam… Mais recentemente adicionei à minha lista Kate Atkinson.
Se me perguntassem, no entanto, em qual delas eu gostaria de me espelhar, caso, um dia, eu tivesse a intenção de escrever, seria Penelope Lively, por quem nutro, até hoje, grande admiração e a quem eu teria dado o Booker Prize, não para Moon Tiger, com o qual ganhou esse prêmio em 1987, mas para The Road to Lichfield, com o qual foi finalista para o mesmo prêmio, dez anos antes em 1977.
Concordo que boa literatura não tem gênero. Mas discordo da posição politicamente correta de se dizer que não há diferença no texto entre autores homens ou mulheres. É verdade que tanto um quanto outro pode narrar com a persona do sexo oposto. Ficção é, afinal, imaginação. É criar naquele papel em branco, naquela tela de computador, algo que não existia e que por muito tempo só existe na imaginação do escritor. Conseguir moldar o texto para que outros o leiam e o imaginem é algo próximo a um pequeno milagre. Há no resultado final, no livro, no romance, no conto a prova de uma mágica, de um toque do divino em cada um de nós. Mas, considerar que não há diferença entre a maneira de focar um assunto, nas várias preocupações entre os sexos, considero uma repercussão de profunda misoginia. É o mesmo que achar que não há diferenças entre homens e mulheres. Elas existem. São óbvias. Que todos sejam tratados de igual maneira, com a mesma consideração é o que importa. Que as mesmas oportunidades de publicação estejam presentes para homens e mulheres. Mas não é uma má ideia passar algum tempo, um ano, dois, lendo autores mulheres. Afinal, mulheres são a grande maioria dos leitores no mundo inteiro. Por que não parar para observar, sentir e entender como veem o mundo?
Armand Rassenfosse (Bélgica, 1862-1934)
óleo sobre papelão
Ivete Cunha Ribeiro dos Santos (Brasil, 1887-?) en Certeza, Meus Versos, 1927.
Ilustração Ruth Eger, 1926.
Ao recruta João Leal
indaga o cirurgião:
– Onde é que te sentes mal?
Diz ele: – No batalhão!
(Severino Uchôa)
Desconheço a autoria da ilustração.
Do dia a dia na cena
a verdade não prefiras,
que a vida só vale a pena
por suas lindas mentiras.
(Gilka Machado)
Praça Paris, Rio de Janeiro, 2008
Sandra Nunes (Brasil, contemporânea)
óleo sobre tela, 40 x 90 cm
J. G. de Araújo Jorge
No mês de julho, todo ano, as amendoeiras da minha rua
mudam de roupa.
Despojam-se de repente das velhas folhas
enferrujadas
e abrem outras tão verdes como se o criador acabasse de
tocá-las…
Em: A outra face, J. G. de Araújo Jorge, Rio de Janeiro, Vecchi:1958, 2ª edição, p. 141
Holmes Neves (Brasil, 1925)
óleo sobre tela, 50 x 61 cm
Carlos Drummmond de Andrade
I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?
Fuga para o Egito, século XVIII
Azulejos portugueses
Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador
Wilson W. Rodrigues
Roubei azulejo antigo
de um convento na Bahia.
Tirei da vida de Cristo
a figura de Maria,
Para botar no oratório
de meu quarto de dormir,
e poder rezar feliz,
e sonhar sempre a sorrir…
Não passaram sete luas,
não passaram sete auroras,
o meu azulejo antigo,
devoção de minhas horas,
Do oratório foi roubado,
quem foi o ladrão não sei…
Fui rezar lá no convento
e meu azulejo achei…
Louvado seja o ladrão
Que fez Maria voltar
para junto de Jesus
no Calvário a caminhar…
Votei mais puro pra casa
rezei uma prece aos céus.
Nossa Senhora é mais bela
a chorar junto de Deus.
Em: Bahia Flor : poemas, Rio de Janeiro, Editora Publicitan:1949, pp: 107-108