Gustave-Jean Jacquet (França, 1846 -1909)
“Também as catedrais são sinfonias.”
Martins Fontes (1884-1927) poema: O espírito da matéria
Gustave-Jean Jacquet (França, 1846 -1909)
Martins Fontes (1884-1927) poema: O espírito da matéria
Chuva, ilustração de Tatsuro Kiuchi.
Wilson W. Rodrigues
Chuva — miçangas do céu
de um invisível colar
que na amplidão se partiu
veio na terra tombar.
Chuva — miçangas do céu
feita de pingos de luz;
cada pingo — estojo d’água
que um diamante conduz.
Chuva — miçangas do céu
do colar que se partiu;
miçanga — orvalho perdido
que no seu peito luziu.
Em: Bahia Flor – Poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: s/d, p. 127
Nota: Na publicação original a palavra miçangas encontra-se escrita com dois esses — missangas. Ambas as formas: miçangas e missangas estão corretas. No entanto, desde a publicação deste livro [acredito que tenha sido publicado nos anos 50 do século passado] convencionou-se que a forma missanga é a correta em Portugal enquanto que a forma miçanga é a correta no Brasil. Assim, ao postar este poema troquei a grafia para corresponder à forma correta no Brasil.
Ângelo Morbelli (Itália, 1853-1919)
óleo sobre tela
Francisco Tribuzi
Eu faço versos como quem
conserta sapatos
não como quem comanda uma empresa.
São tão simples os meus atos
como simples é a natureza.
Eu faço versos com pureza
não vou além da surpresa
que me inspiram os relatos
mas vou além do que sinto
eu faço versos não minto
e fazer versos é amar.
(Tempoema/inédito,s.d.)
Em: A Poesia Maranhense no Século XX, organização e ed. Assis Brasil, Rio de Janeiro, Sioge/Imago: 1994, p. 319.
Moça com passarinho, de Jocelyne Pache, 1969.
Não mais te quero esperar,
Que esperar é sofrimento…
Vou, desde já, começar
A esperar o esquecimento!…
(Maria Thereza de Andrade Cunha)
Rosina Becker do Valle (Brasil, 1914-2000)
óleo sobre tela, 50 x 62 cm
Sônia Carneiro Leão
Ouvi uma batucada
vindo da encruzilhada
de uma rua do Recife.
Parei para dar uma olhada
e vi uma frota armada
de alfafas e abes
num batuque alucinado
o tal do baque virado
batuque de endoidecer.
Não um baque arrumadinho
feito o pagode e o chorinho
que cantam devagarinho
coisas boas de dizer.
Não.
Era um baque puro corte
saudando a vida e a morte
indo fundo até doer.
E algo foi-me exibido
em pleno Recife antigo
que mexeu tanto comigo
como nunca aconteceu.
Minh’alma já desarmada
pelo baque seco e cru
viu descer do céu Xangô
e toda nação Nagô
pra dançar Maracatu.
Em: Remendando Trapos: poesias, Sônia Carneiro Leão, Olinda, PE, Babeco: 2010, p. 42-3.
Quinzinho e Magali ao final do dia, ilustração Maurício de Sousa.
Tem muito mais graça a vida
Quando a gente tem com quem
Repartir bem repartida
A graça que a vida tem.
(A. A. de Assis)
Ilustração por Hergé.
J. G. Araújo Jorge
Hoje
quando na minha rua de arranha-céus
passou um realejo trauteando a “viúva alegre”
as crianças correram alvoroçadas
para ver…
No meu tempo
era o avião.
Em: A outra face, J. G. de Araújo Jorge, Rio de Janeiro, Vecchi:1958, 2ª edição, p. 175.
[Tiragem póstuma por Reynal]
Oswaldo Goeldi (Brasil, 1895-1961)
Xilogravura policromada
Menotti del Picchia
Amanhã eu vou pescar.
Há um peixe fatalizado
que a Ritinha vai guisar
na panela de alumínio
que brilha mais que o luar.
Hoje ele está no seu líquido
e opaco mundo lunar,
pequena seta de prata
furando a carne do mar.
Qual será? O bagre flácido
de cabeça triangular?
O lambari que faísca
como uma mola a vibrar?
O feio e molengo polvo,
monstruoso, tentacular?
O peixe-espada, de níquel,
a viva espada do mar?
Hoje estão vivos e lépidos
os lindos peixes do mar.
Amanhã…
Nem pensem nisso!
Amanhã eu vou pescar…
Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 55.
Ilustração de Victor Tchetchet, década de 1930.
Morre a prece na garganta
como um travo de vinagre…
Vou procurar outra santa,
que a minha não faz milagre.
(Nair Starling)
Ilustração de Michael Silver.
Saudade, quase se explica
Nesta trova que te dou:
Saudade é tudo que fica
Daquilo que não ficou.
(Luís Otávio)