“Guardar”, poema de Antonio Cícero

12 07 2018

 

 

Illustration by Pierre BrissaudIlustração de Pierre Brissaud.

 

 

 

Guardar

 

Antonio Cícero

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

Por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

 

 

Em: Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2008, página 11

 





“O pranto da inocência”, poesia de José Joaquim Cândido de Macedo Júnior

2 07 2018

 

 

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O pranto da inocência

 

José Joaquim Cândido de Macedo Júnior (1842 – 1860)

 

Quando cismas, donzela, no teu rosto

Que linda per’la suspirando corre!

— Pranto dourado que não diz desgosto,

Que num sorriso no teu seio morre!

 

Mimo dos anjos que tua alma prende

Aos céus ridentes nesse doce encanto,

Lágrimas d’ouro que teu peito incende,

Que o amor celeste se traduz num pranto!

 

E a gota pura vem cantar um hino

Que os anjos n’alma te murmuram rindo,

Pérola branda diz um som divino

Que o peito entoa em murmurejo infindo!

 

Bela — do altar do teu virgíneo seio

Deixa esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse brando enleio,

Ai! vai por ele nos teus pés morrer!

 

Chora! a inocência te sorri no choro,

São risos virgens de infantis amores,

São doces hinos de um celeste coro,

Dizem — enleios — mas não dizem dores.

 

Teu pranto puro beberão os anjos

Num doce anseio de inocente medo,

Teu sol — ó virgem — só serão arcanjos

— Teu lábio os beije no infantil segredo.

 

Chora, donzela, de teu níveo seio

Deve esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse doce enleio,

Vai por teu pranto nos teus pés morrer!

 

 

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 2,  11 de setembro de 1859, p.12. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 32.





O grupo de leitura “Ao Pé da Letra” recebeu o escritor carioca Marco Machado

29 06 2018

 

IMG-20180624-WA0029Marco Machado se encontra com o Grupo de Leitura Ao Pé da Letra, junho 2018.

 

 

O encontro de junho de 2018 do grupo de leitura Ao Pé da Letra foi marcado pela visita do escritor Carioca Marco Machado, autor do livro Be Rio. Quando teve a oportunidade de expandir os horizontes do grupo sobre as lendas dos índios Tupinambás, os ensinamentos filosóficos da Índia e mostrar como estamos todos interligados na nossas lendas e que elas mostram o caminho para o autoconhecimento.

 

20180624_181929Marco Machado se encontra com o Grupo de Leitura Ao Pé da Letra, junho 2018.

 





Trova dos sinos

25 06 2018

 

igreja e cidadeCidade brasileira, ilustração, Norbim.

 

 

 

O sino é um ser sem razão,
que não tem razão de ser:
quando para um coração,
ele começa a bater…
(Hegel Pontes)

 





Trova da árvore florida

5 06 2018

 

 

The Pied Piper of Hamelin by Kate Greenaway (1910)Ilustração de Kate Greenaway, 1910, para o Flautista de Hamelin

 

 

 

Para dar cor aos matizes

da mais bela floração,

humildemente, as raízes

vivem ocultas no chão !

 

 

(Cipriano Ferreira Gomes)





Mário Quintana, “Destino atroz”

29 05 2018

 

 

 

c167b4bfcb26ded4807730aeef50f9c2Ilustração da revista Cosmolitan, Janeiro 1960.

 

 

Destino Atroz

 

Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

 

Em: Caderno H, (1945-1973), Mário Quintana, Porto Alegre: Editora Globo, 1973.





Trova da Terra

29 05 2018

 

 

 

agua poluidaIlustração Maurício de Sousa.

 

 

 

Ao sofrer uma agressão

a terra não choraminga

nem esboça reação,

mas… cedo ou tarde, se vinga…

 

(Adélia Victória Ferreira)





“Lápis coloridos” poesia de Maria da Gaça Almeida

25 05 2018

 

 

colorindo, Marli Soares Borges, aquarela_01Ilustração de Marli Soares Borges.

 

 

 

Lápis coloridos

 
Maria da Graça Almeida

 

Perfilados, apontados,
estão todos bem guardados
numa caixa tão bonita,
desenhada e com fitas!

São eretos, são brilhantes
coloridos, elegantes!
Têm o corpo de madeira,
têm a cor na cabeleira!

O azul colore o céu,
o verdinho aviva as folhas.
Pra pintar um bom painel,
o tom fica a sua escolha.

Tenho um sol brilhante e belo
com o lápis amarelo!
Lápis preto escurece
e o desenho entristece.

Com o branco passo apuros,
mas às vezes nele aposto,
sua cor em fundo escuro
quando vejo sempre gosto!
 





Convite, poema de Alfredo de Souza

12 05 2018

 

 

 

joseph_caraud_a2889_the_love_birdsDois pombinhos, 1897

Joseph Caraud (França, 1821-1905)

óleo sobre tela, 60 x 45 cm

 

 

 

Convite

 

Alfredo de Souza

 

Vem, sem demora, ver estes pombinhos

Que se beijam tão ternos, venturosos,

Deixando muito tempo os seus biquinhos

Colados em transportes amorosos;

 

Vem — mirar como fazem seus carinhos;

Ora arrulando em cantos maviosos,

Ora as asas batendo para os ninhos

— Ninhos plenos de odor, ninhos ditosos.

 

E já que tu sentiste quanto é bela

Essa cena que vimos, dando ensejo

De imitá-la por dentro da janela…

 

Resta apenas dizer-te, ó minha flor,

Que colemos os lábios, num só beijo,

Fingindo de pombinhos, meu amor!

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 232.

 

Alfredo de Souza  (Rio de Janeiro, 1880 — ??) — Foi jornalista e funcionário público.

Bibliografia

Aurora, sem data

 





Papalivros, um grupo de leitura, 15 anos de existência!

16 04 2018

 

 

30708363_10216448248102687_3601373864887582720_nBolo de comemoração dos Quinze Anos do Grupo de Leitura Papalivros

Da Graça Pâtisserie, em Copacabana

 

 

Em março de 2003, três meses após o meu retorno ao Brasil, pensei abrir caminho para novas amizades e atiçar fogo nos velhos relacionamentos depois de décadas fora do país. Resolvi fazer no Rio de Janeiro um grupo de leitura nos moldes que conhecera no estrangeiro.

Nos Estados Unidos, nos meus primeiros anos, tive o apoio da Secretaria de Estudantes Estrangeiros da Universidade Johns Hopkins.  Através deles fui apresentada a maneiras de complementar  renda e também, modos de me integrar à vida do país, o que incluiu pertencer a grupos que se encontravam não mais do que uma vez por mês.

Participei de grupos de culinária, onde a cada mês uma pessoa mostrava em sua cozinha, como fazer uma especialidade de seu país de origem.  Participei de grupo de estudos (leituras) de história da Europa. E antes mesmo de completar seis meses no país, entrei para um grupo de leitura. Grupos de leitura são comuns nos EUA.  Morei por muitos anos no país, em três diferentes estados e no Distrito de Columbia e em todos os locais fui membro de um grupo de leitura.

É um meio de se conhecer pessoas, de descobrir afinidades, aprofundar o conhecimento geral.  Ainda me lembro com prazer de algumas leituras dos dois anos em que pertenci ao primeiro grupo, na cidade de Baltimore: John Steinbeck, Of mice and men;  John Fowles, The MagusThe once and future king, T. H. White, All creatures great and small, James Herriot, Watership Down, Richard Adams, Breakfast of Champions, Kurt Vonegut,  Burr, Gore Vidal.  Desses tornei-me fã de Vidal, de Vonegut, e Fowles.  E apaixonada pela história do Rei Artur. Em outros grupos de leitura, conheci dezenas de autores americanos e estrangeiros que me roubaram o coração e a atenção.  E mais, fiz grandes amizades nesses grupos.  Pessoas com afinidades.  E aprendi, sobretudo, a respeitar os gostos de cada um, a ouvir as opiniões dos outros sem interferir e a aceitar que cada um de nós tem gosto único e que ele pode mudar através dos anos.

Minha intenção de abrir um grupo de leitura aqui no Rio de Janeiro, cidade de festa, sol, samba e extroversão, foi recebida com surpresa e descrença. Mas à maneira americana, fui pragmática.  Segui em frente até ver no que dava.  E deu samba.  Muito além das minhas expectativas.  Neste mês de abril o Grupo de Leitura Papalivros (nome escolhido por votação logo no primeiro encontro) completa 15 anos de existência.  Começamos com seis pessoas.  Minhas primas, minha cunhada, uma amiga de mamãe.  Quinze anos depois, ainda temos sete membros que entraram no primeiro ano, dos familiares só minhas primas. Somos 22 pessoas, todas mulheres, mas já foi um grupo misto. Somos leitoras.  E amigas. Nossas idades variam dos 34 anos aos 90.  E continuamos muito amigas, a cada ano, mais amigas.

15 anos, 180 livros, 180 encontros, sem nenhuma falha.  É para nos orgulharmos de nós mesmas, do nosso comprometimento, que melhor acontece quando a verdadeira amizade brota e é cuidada.  Que venham mais 15 ou 30.  É um prazer pertencer a esse grupo.