
“A pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo.”
Olavo Bilac

Olavo Bilac
Bernard Boutet de Monvel (1881-1949) Elegante nos jardins de Versailles.
Vera Siqueira de Mello
Bendita seja a lágrima que rola
Pela face de alguém, que triste está,
Pois é ela, na vida que consola,
Que na aflição, maior alívio dá.
Sendo este mundo a verdadeira escola,
Onde aprendemos as lições da vida,
Devemos bendizer tão santa esmola,
Aos tristes e infelizes, concedida.
Vós, que seguis na vida, caminhando,
Ao fitardes a estrada percorrida
E fordes as tristezas recordando,
Não lastimeis a lágrima perdida,
Pois, feliz é aquele que, chorando,
Consegue aliviar uma ferida!
Em: Conflitos interiores, Vera Siqueira de Mello, 1938.
Jovem mulher lendo no ateliê, 1901
David Oyens (Holanda, 1842-1902)
óleo sobre tela, 80 x 75 cm
Padre Antônio Vieira
Xilogravura japonesa policromada, Ukiyo-e.
Vai o rio em cantochão…
Suas águas se lamentam.
-Parecem pedir perdão
às pedras que as atormentam.
(Durval Mendonça)
Castelo de cartas, ilustração de H. B. Long.
Guilherme de Almeida
Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!
Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?
Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?
Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.
Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!

Sem resposta que conforte,
dúvida imensa me corta:
Qual o segredo da morte?
Fim? Partida? Porto? Porta?
(Alonso Rocha)
Combray, À procura do tempo perdido, por Stéphane Heuet. 1998
“Combray, de longe, por dez léguas ao redor, vista do trem, quando chegávamos na semana anterior à Páscoa, não era mais que uma igreja que resumia a cidade, representava-a, falava dela e por ela às distâncias, e, quando nos aproximávamos, mantinha aconchegados em torno de sua grande capa sombria, em pleno campo, contra o vento, como uma pastora às suas ovelhas, os lombos lanosos e cinzentos das casas reunidas que um resto de muralhas da Idade Média cingia aqui e ali num traço tão perfeitamente circular como uma cidadezinha num quadro de primitivos. Para morar, Combray era um pouco triste, como eram tristes as suas ruas, cujas casas, edificadas com as pedras escuras da região, precedidas de degraus exteriores e com seus telhados de beirais salientes que faziam sombra, eram tão escuras que, mal começava a declinar o dia, já era preciso erguer as cortinas nas “salas”; ruas de graves nomes de santos (vários dos quais se ligavam à história dos primeiros senhores de Combray), rua de Santo Hilário, rua de S. Tiago, onde ficava a casa de minha tia, rua de Santa Hildegarda, para onde davam as grades, e a rua do Espírito Santo, para onde se abria o portãozinho lateral de seu jardim; e essas ruas de Combray existem num local tão recôndito da minha memória, pintado a cores tão diferentes das que agora revestem para mim o mundo,que na verdade me parecem todas, bem como a igreja que as dominava na praça, ainda mais irreais que as projeções da lanterna mágica; e em certos momentos me parece que poder atravessar ainda a rua de Santo Hilário, poder alugar um quarto na rua do Pássaro — a velha hospedaria do Pássaro Ferido, de cujos suspiros saiam um cheiro de cozinha, que intermitente e cálido, ainda sobe por momentos em minha lembrança — seria entrar em contato com o Além de um modo mais maravilhosamente sobrenatural do que se me fosse dado conhecer a Golo e a conversar com Genoveva de Brabante.”
Em: Em busca do tempo perdido, No Caminho de Swann, volume I, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, Rio de Janeiro, Editora Globo: 1981, 7ª edição, página 48
Noite enevoada
Barbara Fracchia (EUA, contemporânea)
Óleo sobre tela, 60 x 50 cm
Vem a neblina… e a cidade
goteja um pranto silente…
– Neblina é como a saudade
molhando os olhos da gente.
(Joubert de Araújo Silva)

Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
(Dorothy Jansson Moretti)
Gato peludo, ilustração de Harrison Fisher (1875-1934).
Bobagem grande, de fato,
que o meu bom senso rejeita…
Mas que inveja dá-me o gato
que no teu colo se deita!…
(A. A. de Assis)