Bolinha não tem um tostão.
Busca primeiro a virtude;
teu ouro, busca depois.
Quem não toma essa atitude
acaba perdendo os dois!
(Renata Paccola)
Bolinha não tem um tostão.
Busca primeiro a virtude;
teu ouro, busca depois.
Quem não toma essa atitude
acaba perdendo os dois!
(Renata Paccola)

Pra tirar o pó do amor
saiba que o melhor caminho
sequer passa pela dor:
basta um sopro de carinho.
(Adilson Roberto Gonçalves)
Cebolinha em dia de chuva © Maurício de Sousa
“…Chuva para menino é festa, é rego barrento cachoeirando à porta de casa, chamando a gente para brincar com a água que passa fazendo cócegas nos pés … É goteira pingando, é de noite música no telhado. Na calçada, reúne-se a meninada, na exuberância, no contentamento de ver a água cair, meninada pançudinha, inchada pelas sezões, de frieira rosada nos pés, de boca sem dentes caídos na muda, de boqueira, meninotas de tranças, ossudinhas, uma de olhos de sapiranga, batendo palmas e se esgoelando:
Chove chuva
pra nascê capim
pro boi comê
pra papai matá
pra mamãe comê!”
Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição, p. 72.
Ilustração Equipe Mauricio de Souza.
Ganha mais brilho a vitória
quando o nobre vencedor,
no pódio da sua glória,
não humilha o perdedor!
(Alba Helena Corrêa)
Jovem lendo
Jean-Pierre Alaux (França, 1925)
litografia, 50 x 67 cm
Zalkind Piatigorsky
Unknown Magazine, 1940.
José Otávio Gomes Venturelli
Sonâmbula tristeza me rodeia,
Inebria-me a prece dos crepúsculos,
Já não mais sinto a força que semeia
A resistência física dos músculos.
E o coração, minha esquecida aldeia,
Onde as casas são místicos corpúsculos,
Sente sua alma de saudades cheia,
E de prazeres parcos e minúsculos.
Os sonos se aproximam… Vêm vestidos
De horríveis pesadelos que me falam
De insônias infernais aos meus ouvidos.
Espíritos do mal, seres medonhos,
Eu não posso dormir se não se calam,
Porque querem roubar também meus sonhos!
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p.397

Quando a folha seca e muda
segue no seu abandono,
ela abraça o vento e ajuda,
com arte, a pintar o outono.
(Lúcia Sertã)
Ilustração de Willy Aractingi (1930-)
Olavo Bilac
Um camundongo humilde e pobre
Foi um dia cair nas garras de um leão.
E esse animal possante e nobre
Não o matou por compaixão.
Ora, tempos depois, passeando descuidoso,
Numa armadilha o leão caiu:
Urrou de raiva e dor, estorceu-se furioso…
Com todo seu vigor as cordas não partiu.
Então, o mesmo fraco e pequenino rato
Chegou: viu a aflição do robusto animal,
E, não querendo ser ingrato,
Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…
Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,
Pode sempre trazer em paga outro favor.
E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,
Deve os fracos tratar com caridade e amor.
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 132-3
O espelho de tartaruga, 1903
George Henry (Escócia, 1858 – 1943)
óleo
The Paisley Art Institute, Paisley, Escócia
Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Em: Antologia Poética, Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

Anastácio Luiz de Bonsucesso
O dia era fulgente, o sol brilhava,
Em vívido esplendor;
De repente mil nuvens se aglomeram,
O sol perde o fulgor.
E as nuvens encobrem
Do sol os lindos raios,
As terras se cobrem
De turvos desmaios;
Ninguém se conduz
Nas trevas sem luz.
Do sol de seu posto
Tais coisas bem via;
Das nuvens no rosto
Com força batia;
A tanto calor
Desfez-se o vapor.
Perdidas nos ares
As nuvens passaram,
Das zonas polares
Que rumo levaram?
Não viram o sol
O novo arrebol.
MORALIDADE
Luz um talento, os tolos anuviam
Os fogos da razão;
A luta é transitória — os zoilos morrem.
O gênio brilha então.
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, pp 157-158
Anastácio Luiz de Bonsucesso (1833-1899) Poeta carioca, fabulista, médico, jornalista, professor, teatrólogo, membro da Sociedade Propagadora das Belas Artes e da Academia Filosófica.
Obras:
Fábulas, 1854
Maroquinhas do Apito, comédia em versos
Versos de Cisnato Lúzio
Quatro Vultos, 1867,