Quadrinha infantil da boa aluna

28 04 2009

escrevendo

 

 

 

Que eu seja grande vadia

Não quero que pensem, não!

Não falto à escola um só dia

Sabendo sempre a lição.

 

 

 

 

Esta quadrinha faz parte do seguinte exercício:  Passe para prosa, com suas palavras, esta quadrinha.

 

 

Em: Exercícios de Linguagem e Matemática: 2ª série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1958, p. 32





Uma pequena homenagem ao nosso baixo-clero!

27 04 2009

senado-no-imperioO edifício do Senado Brasileiro, ná época do Segundo Império.

 

 

 

 

Inspirada no picadeiro em que se transformou o debate sobre o desmando no uso da coisa pública no Brasil, ou em outras palavras, no uso sem cabimento do dinheiro público dos nossos legisladores, voando pelo mundo às nossas custas,  voltei-me para um texto delicioso de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), escrito em 1855, sobre a política no império.  Quem ainda não conhece este romancista brasileiro, ou que só o conhece pelas obras românticas que leu na escola como A moreninha, O moço louro, As mulheres de mantilha, e outros tantos títulos; precisa se dar o presente de consultar seus outros escritos.  Joaquim Manuel de Macedo foi um grande escritor, crítico voraz dos hábitos e costumes brasileiros, muito sarcástico mas também muito bem humorado nas suas críticas.  Foi também um poeta, um teatrólogo, um memorialista e um biógrafo.  Acredito que ainda não tenhamos lhe dado o lugar que merece na história do pensamento brasileiro. 

 

A passagem que se segue é de seu romance A carteira de meu tio, onde ele descreve o político brasileiro da época.  O que parece inacreditável: passados 150 anos e com pouquíssimos ajustes suas descrições vestem como uma luva o que presenciamos no Congresso em Brasília.  Então, vamos lá:

 

 

 

…………………………………………………

 

 

Ora pois, consideremos ao acaso um de tantos: seja aquele figurão que ali vai repotreado em um magnífico e soberbo carro.

 

Era há poucos anos um miserável diabo, que vivia de suas agências, e mais não disse; não  tinha onde cair morto, e portanto ninguém fazia caso dele: mas não há nada como ter juízo!… O maganão atirou-se ao comércio, e foi de um salto ao apogeu da fortuna; eis o caso: primeiro abriu uma casa de secos, e quebrou; meteu-se logo nos molhados, e quebrou outra vez – excelente princípio!  O quebrado ficou inteiro, e os credores com alguns pedaços de menos; depois, dinheiro a juros, três ou quatro por cento ao mês para servir aos amigos; um pouco mais aos indiferentes; duas dúzias de alicantinas  por ano, e o suor alheio nos cofres do espertalhão: uma terça deixada em testamento por um estranho, e arrancada aos malvados parentes do morto; aqui há anos atrás o comércio de carne humana, que era um negócio muito lícito, negócio molhado e seco ao mesmo tempo, porque se arranjava por mar e por terra, terra marique: vai senão quando, no fim de dez ou doze anos, o pobretão aparece milionário.

 

Mudam-se as cenas; dantes ninguém tirava o chapéu ao indigno tratante, olhavam-no todos com desprezo, era um bicho que causava tédio, além de mau, era pobre; mas, ó milagrosa regeneração!  ó infalível poder do ouro! o antigo malandrim já é um homem de gravata lavada! banhou-se no Jordão da riqueza, e ficou limpo e puro de todas as passadas culpas!…

 

E por onde chegou ele ao cume das prosperidades? – pelos desvios: se tivesse vindo pela estrada real, estava na esteira velha.

 

É verdade que o tal bargante, para se enriquecer, fez a desgraça de muita gente:  mas que tem isso?…  não goza ele agora muito sossegadamente a sua imensa riqueza?…

 

Quebrou fraudulentamente, pregou calotes, ofendeu as leis de Deus, e zombou das leis dos homens; ora viva!  Coisas do tempo da nossa avó-torta; águas passadas não movem moinho; dize-me o que tens, que eu te direi o que vales: bravo o nosso figurão!…

 

Todos o festejam, diplomatas conselheiros, senadores, deputados, ministros, enfim, a fidalguia toda da terra!

 

Dizem que é sedutor e libidinoso; histórias da carochinha! Todas as portas se abrem para ele, todas as famílias o recebem em seu seio!

 

Se dá um baile, não há fidalgo que deixe de ir dançar na casa do ex-velhaco; se é solteiro, ainda que seja feio, velho, e tenha fama de mau e de bruto, as mães metem-lhe as filhas pelos olhos adentro.

 

Quando aparece no teatro, os grandes figurões quase que quebram o espinhaço, fazendo-lhes cortesias.

 

Antigamente era um farroupilha, um trapaceiro desprezível; agora é o amigo de cama e mesa do senhor marquês; é o compadre da senhora viscondessa, é o fidus Achates do senhor conselheiro; é o querido, o nhonhô, o não-me-deixes das moças.  O diabo do dinheiro faz até de um mono um cupidinho, e transforma uma azêmola em um rouxinol

 

Dizem que é estúpido: elegem-no deputado, ou votam nele para senador.  E fica sábio!…

 

Tem fama de gatuno: nomeiam-no tesoureiro.  E fica honrado!

 

Acusam-no de todos os sete pecados mortais, e ainda dos quatro que bradam ao céu: fazem-no juiz ou mordomo das dez irmandades!  E fica santo!…

 

Passa enfim a vida regalada, embora alguns nas costas lhe  mordam; tem tudo quanto deseja e aspira: festas, favores e honras, ainda que pela boca-pequena o abocanhem; e para dizer tudo, fica sendo um senhor da terra, como muitos outros senhores da terra.

 

Viva, pois, o dinheiro, que tudo o mais é história!

 

………………………………………

 

 

 

Em:  A carteira de meu tio, Joaquim Manuel de Macedo, Porto Alegre, LP&M:2001, 50-52.

 

 

 

Joaquim Manuel de Macedo (Itaboraí, 24 de junho de 1820 — Rio de Janeiro, 11 de abril de 1882) foi um médico e escritor brasileiro: romancista, poeta, cronista literário e dramaturgo.

 

Em 1844, Joaquim Manuel de Macedo, formou-se em Medicina no Rio de Janeiro, e no mesmo ano estreou na literatura com a publicação daquele que viria a ser seu romance mais conhecido, “A Moreninha“, que lhe deu fama e fortuna imediatas.

 

Além de médico, Macedo foi jornalista, professor de Geografia e História do Brasil no Colégio Pedro II, e sócio fundador, secretário e orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, desde 1845. Em 1849, fundou, juntamente com Gonçalves Dias e Araújo Porto-Alegre, a revista Guanabara, que publicou grande parte do seu poema-romance A nebulosa — considerado por críticos como um dos melhores do Romantismo. Foi membro do Conselho Diretor da Instrução Pública da Corte (1866).

 

Abandonou a medicina e criou uma forte ligação com Dom Pedro II e com a Família Imperial Brasileira, chegando a ser preceptor e professor dos filhos da Princesa Isabel.

 

Macedo também atuou decisivamente na política, tendo militado no Partido Liberal, servindo-o com lealdade e firmeza de princípios, como o provam seus discursos parlamentares, conforme relatos da época. Durante a sua militância política foi deputado provincial (1850, 1853, 1854-59) e deputado geral (1864-1868 e 1873-1881). Nos últimos anos de vida padeceu de problemas mentais, morrendo pouco antes de completar 62 anos.

 

 

Obras:

 

Romances

 

A Moreninha (1844)

O moço loiro (1845)

Os dois amores (1848)

Rosa (1849)

Vicentina (1853)

O forasteiro (1855)

Os romances da semana (1861)

Rio do Quarto (1869)

A luneta mágica (1869)

As Vítimas-algozes (1869)

As mulheres de mantilha (1870-1871).

 

Sátiras políticas

A carteira do meu tio (1855)

Memórias do sobrinho do meu tio (1867-1868)

 

Dramas

 

O cego (1845)

Cobé (1849)

Lusbela (1863)

 

Comédias

 

O fantasma branco (1856)

O primo da Califórnia (1858)

Luxo e vaidade (1860)

A torre em concurso (1863)

Cincinato quebra-louças (1873)

 

Poesia

 

A nebulosa (1857)

 

 

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Joaquim Manuel de Macedo é o patrono da cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL).





Estampa da Primeira Missa, poema de Murilo Araújo

26 04 2009

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Primeira Missa no Brasil, 1861

Victor Meirelles (Brasil 1832- 1903)

Óleo sobre tela, 268 x 358 cm

Museu Nacional de Belas Artes

Rio de Janeiro

 

 

 

Estampa da Primeira Missa

 

Murilo Araújo

 

 

Na terra amanhecida,

entre as ondas a rir jubilosas de luz

e as árvores em flor, se ergue a árvore da Vida –

a Cruz.

 

 

Entre os tupis a marujada ajoelha.

 

 

Uma legião de beija-flores passarinha.

 

 

 

Então “no ilhéu chamado a Coroa Vermelha”

Frei Henrique de Coimbra se aparelha

e em paramentos de ouro beija o altar…

 

 

A alma argentina de uma campainha

se une aos gorjeios da manhã solar.

 

 

Junto aos altos pendões do palmar nunca visto

treme um pendão mais alto, o estandarte de Cristo.

 

 

Longe um som de clarim morre em glória no ar.

 

 

As resinas do mato, onde em onde,

erguem incenso

turibulando pelos troncos bons.

 

 

 

Frei Henrique celebra e é Deus quem lhe responde

na voz do oceano, seu harmônio imenso,

rolando ao longe um turbilhão de sons.

 

 

As campânulas trêmulas nos galhos

tlintam  à brisa

sua matina aos pingos dos orvalhos;

e a várzea que se irisa

oferenda ao Senhor

nas passifloras roxas os martírios

e na água em sono as ânforas dos lírios…

Há um repousório em cada moita em flor.

 

 

São candelabros de ouro os ipês flamejantes!

E ascenderam ao sol corolas delirantes

como se fossem círios

em louvor.

 

 

Quando a hóstia se eleva angelical

sobe com ela o sol no firmamento.

 

 

As borboletas – que deslumbramento! –

com os tucanos e arás de tom violento

pintam no azul policromias vitral…

 

 

Canta a araponga na floresta longa

como um sino a tanger, dominical.

 

 

As naus florem de branco o deserto marinho.

Lembram virgens trazendo, em túnicas de linho,

na alva das velas uma cruz cristã;

e a patena dos sol as consagrou com o vinho

aéreo da manhã.

 

 

Oh hora ingênua da Fé!  Oh primeiro evangelho!

Pero Vaz escreveu que “um índio já bem velho

apontou para a cruz…”  Oh gesto anunciador!

 

 

Cabral e os que domaram os sete mares

Unem as mãos tremendo de fervor.

 

 

E na luz recém-vinda

em bênçãos tutelares,

a terra em flor se alegra em jubileus…

“a terra graciosa” e tão nova e tão linda! –

a terra desde então desposada de Deus.

 

 

Em: Poemas Completos de Murillo Araújo, com introdução de Adonias Filho, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti: 1960, 3 volumes.

 

 

 

Murilo Araújo – ou Murillo Araújo — (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta, escritor, teatrólogo, ensaísta.

 

 

 

Obras:

 

Poesia:

 

Carrilhões (1917) 

A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois)

Árias de muito longe (1921)

A cidade de ouro (1927)

A iluminação da vida (1927)

A estrela azul (1940)

As sete cores do céu (1941)

A escadaria acesa (1941)

O palhacinho quebrado (1952)

A luz perdida (1952)

O candelabro eterno (1955)

 

 

Prosa:

 

A arte do poeta (1944)

Ontem, ao luar (1951) — uma biografia de Catulo da Paixão Cearense

Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens)

Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958)

 

———

Victor Meirelles; ou Victor Meireles; ou Vitor Meirelles, ou ainda Vitor Meireles

 

Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis SC 1832 – Rio de Janeiro RJ 1903). Pintor, desenhista, professor. Inicia seus estudos artísticos por volta de 1838, com o engenheiro argentino Marciano Moreno. No ano de 1847, muda-se para o Rio de Janeiro e se matricula na Academia Imperial de Belas Artes –  onde, em 1849, inicia o curso de pintura histórica. Em 1852 ganha o prêmio de viagem ao exterior e no ano seguinte segue para a Itália.  Em Roma freqüenta, em 1854, as aulas de Tommaso Minardi (1787 – 1871) e, posteriormente de Nicola Consoni (1814 – 1884), com quem realiza uma série de estudos com modelo vivo. Com a prorrogação da pensão que lhe fora concedida continua sua formação estudando em Paris onde, em 1857, matricula-se na École Superiéure des Beaux-Arts [Escola Superior de Belas Artes], freqüentando as aulas de Leon Cogniet (1794-1880) e, em seguida, recebendo orientações de seu discípulo Andrea Gastaldi (1810-1889). Durante o período em que permanece no exterior corresponde-se com Porto Alegre (1806 – 1879). Retorna ao Brasil em 1861 e, um ano depois, é nomeado professor de pintura histórica da Aiba. Entre os anos de 1869 e 1872 executa duas grandes telas, Passagem do Humaitá e Batalha de Riachuelo. Em 1879 participa da Exposição Geral de Belas Artes, expondo a Batalha dos Guararapes ao lado da Batalha do Avaí de Pedro Américo (1843 – 1905). A apresentação das duas obras gera grande polêmica e um intenso debate no meio artístico. A partir de 1886 passa a se dedicar à execução de panoramas. Entre eles destacam-se: o Panorama Circular da Cidade do Rio de Janeiro, feito na Bélgica, juntamente com Henri Langerock (1830 – 1915) e Entrada da Esquadra Legal no Porto do Rio de Janeiro em 1894, produzida nesse mesmo ano.





Quadrinha infantil de Moyses Augusto Torres

24 04 2009

noite

 

 

 

 

O luar de  minha terra

é de prata e diamante…

Quer no vale, prado ou serra,

parece ser mais brilhante.

 

 

(Moyses Augusto Torres)





Navio Pirata, poema para uso escolar, Ribeiro Couto

23 04 2009

pirateship

 

 

 

Navio Pirata

 

Ribeiro Couto

 

 

Navio pirata

Num mar confidente,

Levando ouro e prata;

Percorre caminhos

Sabidos somente

Dos gênios marinhos;

 

 

Pela madrugada

Uma luz cansada

Olha nas vigias;

E outra luz responde

Nas águas vazias

— Não se sabe onde.

 

 

 

 

 

 

 

Em: Poemas para a infância: antologia escolar, ed. Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Ediouro, s/d.

 

 

 

Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, foi um jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro.

 

Foi membro da Academia Brasileira de Letras desde 28 de março de 1934 (ocupando a vaga de Constâncio Alves na cadeira 26), até sua morte.

 

 

Obra

 

Poesia

 

O jardim das confidências (1921)

Poemetos de ternura e de melancolia (1924)

Um homem na multidão (1926)

Canções de amor (1930)

Noroeste e alguns poemas do Brasil (1932)

Noroeste e outros poemas do Brasil (1933)

Correspondência de família (1933)

Província (1934)

Cancioneiro de Dom Afonso (1939)

Cancioneiro do ausente (1943)

Dia longo (1944)

Arc en ciel (1949)

Mal du pays (1949)

Rive etrangère (1951)

Entre mar e rio (1952)

Jeux de L’apprenti Animalier. Dessins de L’auteur. (1955)

Le jour est long, choix de poèmes traduits par l’auter (1958)

Poesias reunidas (1960)

Longe (1961)

 

 

Prosa

 

A casa do gato cinzento, contos (1922)

O crime do estudante Batista, contos (1922)

A cidade do vício e da graça, crônicas (1924)

Baianinha e outras mulheres, contos (1927)

Cabocla, romance (1931);

Espírito de São Paulo, crônicas (1932)

Clube das esposas enganadas, contos (1933)

Presença de Santa Teresinha, ensaio (1934)

Chão de França, viagem (1935)

Conversa inocente, crônicas (1935)

Prima Belinha, romance (1940)

Largo da matriz e outras histórias, contos (1940)

Isaura (1944)

Uma noite de chuva e outros contos (1944)

Barro do município, crônicas (1956)

Dois retratos de Manuel Bandeira (1960)

Sentimento lusitano, ensaio (1961)





Quadrinha para crianças de Luciana Long

21 04 2009

jardineira-2-margaret-evans-priceJardineira, ilustração de Margaret Evans Price.

 

 

Planta do bem a semente

em solo limpo e seguro,

e colherás certamente,

lindas flores no futuro.

 

 

 

Quadrinha de Luciana Long





21 de abril, Dia de Tiradentes, pelos olhos de Tibicuera

20 04 2009

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Capa da 4ª edição: 1947

 

 

 

 

 

Continuamos aqui com a narrativa sobre Tiradentes e sua morte, pelos olhos de Tibicuera.

 

 

41

 

A cabeça na ponta do poste

 

 

Um tal Joaquim Silvério dos Reis, coronel dos dragões, tinha denunciado os conspiradores.

 

Para encurtar o caso:  Cláudio Manoel da Costa enforcou-se na prisão.  O poeta Gonzaga foi mandado para a África, para bem longe da Marília dos seus sonhos.  Muitos tiveram a  mesma sorte.  Outros foram condenados à morte.

 

Chegaram-nos notícias de Tiradentes.  Submetido a interrogatórios repetidos, ele insistia em negar a culpabilidade dos amigos.  Dizia-se o único responsável por tudo: o animador, o chefe e principal culpado da tentativa de revolta.

 

A pena de morte dos outros foi comutada.  Mas Tiradentes foi levado à forca.  Eu não quis assistir ao seu martírio.  Sei que ele manteve a coragem e a fé até o fim.  Não fraquejou.  Foi levado para o patíbulo num cortejo assustador.  Devia impressionar naquela bata branca que ia ser sua mortalha.  Levava na mão um crucifixo preto, para o qual ele olhou o todo o tempo, murmurando preces.

 

Quando me disseram que o corpo de Tiradentes fora esquartejado, sendo sua cabela espetada na ponta de um poste  — estremeci de raiva e cheguei a chorar de sentimento.  E não sei se por influência dos versos de Gonzaga, começou a dansar em minha cabeça esta frase: “Aquela cabeça na ponta do poste é uma bandeira, a bandeira da nossa liberdade.”

 

Foi assim que terminou a aventura da “Inconfidência Mineira”.  Foi assim que perdi o meu amigo José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes.  

 

 

 

 

Em: As aventuras de Tibicuera: que são também as aventuras o Brasil, Érico Veríssimo, Porto Alegre, Livraria do Globo: 1947, 4ª edição., ilustrado por Ernst Zeuner.





Prece a Xavier, o Tiradentes — poema de Murilo Araújo pelo 21 de abril

20 04 2009

eduardo-de-sa-julgamento-da-inconfidencia-museu-historico-nacional-ost

Julgamento da Inconfidência, 1921

Eduardo de  Sá ( RJ, 1866 – RJ, 1940)

Óleo sobre tela

Museu Histórico Nacional

 

 

 

 

 

 

 

Prece a Xavier,  o Tiradentes

 

                                               Murilo Araújo

 

 

 

Marchaste, sem tremer, na alva dos condenados.

 

 

Ela voava ao vento,

alva como tua alma.

E galgaste os degraus da tortura

descalço.

 

 

Mas que enormes degraus!  Iam a tal altura

que por eles, chegaste ao céu, ao sol, a Deus,

subindo ao cadafalso.

 

 

Alferes Xavier – é inesperada e estranha

a Luz Providencial!

Envolve num fracasso a maior das vitórias;

faz perder quem mais ganha;

e arroja à morte –

à morte –

o justo que elegeu para ser imortal.

 

 

E assim a insurreição sagrada

que te santificou –

tu, que eras o menor,  foste o maior na glória;

tua lenda dourada

mais do que todas na memória se elevou.

 

 

Tinham todos bons títulos de efeito

os teus irmãos na grande Inconfidência.

 

Tu que não eras doutor, ó guarda do Direito;

não eras sacerdote, ó  mártir da consciência;

nem comandaste – herói – como Freire de Andrade,

um terço de dragões…

Tinhas no cofre da alma a pureza e a verdade

e essa indomável vocação da liberdade

mais poderosa que togas e legiões.

 

 

Ah!  As multidões da terra

exaltam todas, como gênios tutelares,

grandes falcões de guerra

de cujas garras brota o raio e a morte desce…

Mas, ando do Brasil, — tu mereces altares,

porque, invés de matar, foste morrer estóico

por um destino que hoje em luzes resplandece!

 

 

Inabalável, foste a Fé que, decidida,

serenamente,  voluntária, se imolou.

Com a própria vida deste à Pátria vida;

e a oferenda de sangue trouxe ao povo

um prêmio que do Céu, que de Deus lhe alcançou.

 

 

Vinda a hora funesta,

Deus quis que os opressores

cercassem tua morte em rumores de festa,

levassem teu cortejo ao rufo de tambores

e ao grito  do clarim,

e adornassem a rua e as fachadas com flores,

contentes os senhores,

pois morrias enfim…

 

 

Mas  — que pura ironia a desse instante! –

glorificaram, sem saber, a redenção…

porque, com tua morte triunfante,

surgiu formada e indestrutível

a Nação!

 

 

Alferes Xavier, entre os teus, meu patrício,

tu que eras o menor,

cresceste tanto na coragem e sacrifício,

que deixaste no pó todos em derredor.

 

 

Onde estão hoje tantos juízes e fidalgos?

Onde os soldados?  Os esbirros da tortura?

Onde esses nobres de brasão e de arcabuz?

 

 

Ah!  Pisavam tão forte … e pisaram em falso!

Mas na tua hora escura,

subindo, humílimo, os degraus do cadafalso,

Alferes Xavier, chegaste à grande Luz.  

 

 

 

 

Encontrado em:

 

O candelabro eterno: aos moços – este álbum dos avós que criaram o Brasil, publicado pela primeira vez em 1955, parte da  Poemas Completos de Murillo Araújo [Murilo Araújo], 3 volumes, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti:1960

 

 

 

Murilo Araújo – ou Murillo Araújo — (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta, escritor, teatrólogo, ensaísta.

 

 

 

Obras:

 

Carrilhões (1917) 

A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois)

Árias de muito longe (1921)

A cidade de ouro (1927)

A iluminação da vida (1927)

A estrela azul (1940)

As sete cores do céu (1941)

A escadaria acesa (1941)

O palhacinho quebrado (1952)

A luz perdida (1952)

O candelabro eterno (1955)

 

 

Prosa:

A arte do poeta (1944)

Ontem, ao luar (19510 — uma biografia do compositor Catulo da Paixão Cearense

Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens)

Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958)

 

 

———————-

 

 

Eduardo de Sá (Rio de Janeiro RJ 1866 – idem 1940). Escultor, pintor e restaurador. Frequenta aulas particulares de escultura com Rodolfo Bernardelli e estuda na Academia Imperial de Belas Artes – Aiba, entre 1883 e 1886, com Victor Meirelles, Zeferino da Costa, José Maria de Medeiros e Pedro Américo. Em 1888, em Paris, estuda na Académie Julian, onde foi aluno de Gustave Boulanger e de Jules Joseph Lefebvre. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o restauro do escudo do teto da entrada da capela da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

 

 

 

 

Outros poemas de Murillo Araújo (Murilo Araújo neste blog):

 

Dois tesouros na pátria

Romance dos Dois Pedros

Dia de festa

Com as estrelas natais





Tibicuera acompanha Tiradentes!

19 04 2009

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Tibicuera, 1937

Ernst Zeuner, (1895-1967)

Ilustração: As aventuras de Tibicuera

 

 

 

 

 

Neste Dia do Índio, tão próximo do Dia de Tiradentes, nada melhor do que nos lembramos do mártir da independência através dos olhos de Tibicuera.  Para quem não sabe quem é Tibicuera, posso adiantar que ele é um indiozinho, criação do grande escritor gaúcho, Érico Veríssimo.  Tibicuera nasceu no século XV e presenciou a chegada dos portugueses.  Como seu amigo Pajé lhe ensinou um segredo, Tibicuera viveu muito tempo, sendo capaz de acompanhar a história do Brasil de seu descobrimento até 1940.   Assim, foi testemunha grande parte da nossa história.  

 

Aqui está o que ele testemunhou da Inconfidência Mineira.

 

 

 

 

40

 

A CONSPIRAÇÃO

 

 Uma noite os conspiradores se reuniram na casa de Tiradentes.  Tive o prazer de lhes fazer um bom café.  Enquanto eles discutiam, fiquei junto da porta, indo de quando em quando passear pelo corredor e espiar pela fresta da janela, a ver se se aproximava algum vulto suspeito.

 

As pessoas que lá estavam eram Joaquim José da Silva Xavier, o meu querido chefe; Alvarenga Peixoto, o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrada, José Álvares Maciel, o padre Carlos Correa de Toledo e Melo, o coronel Domingos de Abreu…  e não me lembro mais de nenhum outro nome.

 

O plano era simples.  Quando o governo fizesse a cobrança dos impostos – a “derrama” – explodiria o movimento.  A senha era esta:  Hoje faço o meu batizado.

 

O povo se revoltava, conseguia a adesão dos dragões, que seriam influenciados por Tiradentes e pelo seu comandante Paula Freire de Andrada.  Prenderiam as autoridades portuguesas.  Libertariam os escravos.  Instalariam muitas fábricas importantes – todas as fábricas que um decreto recente de Portugal proibira de funcionar no Brasil. E a nova nação teria uma bandeira com este dístico: Libertas quæ sera tamen. Quando os incofidentes falaram nisto, não gostei.  Eu não entendia.  Fiquei sabendo depois que era uma frase latina do poeta Virgílio.  Queria dizer: Liberdade, ainda que tarde.

 

O padre Toledo junto com Alvarenga Peixoto conseguiu convencer o desembargador Tomás Antônio Gonzaga e o dr. Cláudio Manuel da Costa a aderirem ao movimento.  Gonzaga era poeta.  Estava apaixonado por uma moça, Dorotéia.  Fazia versos em que lhe dava o nome de Marília.  Sempre impliquei com este costume que os poetas têm de não darem o  nome verdadeiro às coisas.  Mas eu gostava de Gonzaga, que era um homem melancólico de ar sonhador.  Muita vez levei recados seus à noiva.  Foi um romance bonito mas que não teve aquele final dos romances antigos: Casaram-se e foram muito felizes.

 

A idéia marchava.  Tiradentes resolveu ir até o Rio a serviço da revolução. Acompanhei-o montado num burro emprestado.  Foi uma viagem dura.  Chegamos à capital do Brasil e uma tarde percebi que estávamos sendo seguidos.  Disse de minhas desconfianças a Tiradentes.  Ele sorriu e troçou:

 

— Tibicuera está vendo fantasmas…

 

Mas eu sentia a nosso redor a sombra de espiões.  Passei a andar inquieto e de olho alerta.

 

Tiradentes parava na casa de um amigo na rua dos Latoeiros, que hoje se chama Gonçalves Dias.  Um dia ouvimos barulho de passos na rua.  Devia ser uma patrulha, a julgar pela cadência das batidas no calçamento.  O dono da casa foi à janela e empalideceu.  Voltou-se para o hóspede e não teve voz para lhe dizer que a casa estava cercada.  Tiradentes compreendeu tudo num relance.  Gritou:

 

— Foge, Tibicuera!

 

E precipitou-se para a porta dos fundos.  Era tarde.  Prenderam-no cinco soldados.  Mais dois caminhavam para mim.  Dei um salto de tigre e desandei a correr pelo corredor…  Derrubei o primeiro homem que encontrei pela frente.  Escalei-o com a agilidade de um … de um homem perseguido.  Poucos segundos depois eu entrava na varanda de uma casa desconhecida onde duas mulheres se puseram a gritar.   Ganhei o pátio dessa casa, saltei por cima de novo muro e me vi noutra rua.   Comecei a andar com naturalidade.  Caminhei durante meia hora.  Estava fora de perigo.  Mas um pensamento tomara conta de mim:  Era preciso avisar os inconfidentes de Vila Rica.  Com as economias que tinha comprei um burro e me pus a caminho.  Quando, dias depois, cheguei a Vila Rica foi para saber que todos os inconfidentes estavam presos.  

 

 

 

 

Ernst Zeuner (1895 — 1967) foi um pintor, desenhista e ilustrador alemão, radicado no Brasil.  Zeuner estudou na Academia de Artes Gráficas de Leipzig e veio para o Brasil em 1922, mais especificamente, para Porto Alegre, onde realizou um trabalho de orientação e formação de muitos artistas gráficos gaúchos. Notabilizou-se pela contribuição dada à Revista do Globo, onde atuou como ilustrador.

 

 

Para outro trabalho de Ernst Zeuner, clique abaixo:

 

Imigrantes





Tarefa no Dia do Índio: Ler Santa Rita Durão

18 04 2009

elon-brasil-expo-em-franca

Jovem índia, sd

Elón Brasil (Niterói, RJ, 1957)

Técnica mista

Foto de uma exposição na França

 

 

 

 

 

Quem já se preparou para um exame de vestibular em letras no Brasil deve se lembrar que uma das leituras obrigatórias, ou melhor, uma das leituras que podem ser discutidas nessas provas é o poema-livro de Santa Rita Durão:  Caramuru.  Publicado em 1781, é considerado a primeira criação literária de um brasileiro com tema indígena.  E apesar de ser uma obra enquadrada nas linhas do neoclassicismo, por sua temática é freqüentemente considerada como “ponte” para o romantismo,  apesar de ser também fortemente influenciado pelo poema-épico de Camões, Os Lusíadas.  Caramuru está em domínio público e foi do texto oferecido pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – online – que copiei aqui, a passagem sobre a morte de Moema, que é sem sombra de dúvida, uma das mais belas horas da literatura brasileira.  Faz parte do CANTO VI.

 

 

 

XXXIV

 

Dizendo assim, com calma vê lutando

Formosa nau de Gálica bandeira,

Que a terra ao parecer vinha buscando,

E a proa mete sobre a própria esteira:

Vem seguindo a canoa, e sinais dando,

Até que aborda a embarcação veleira;

E de paz dando a mostra conhecida,

As praias de Bahia a nau convida.

 

XXXV

 

A Gupeva entretanto, e Taparica

Dava o último abraço, e à forte Esposa

A intenção de levá-la significa,

A ver de Europa a Região famosa:

Suspensa entre alvoroço, e pena fica

Paraguaçu contente, mas saudosa;

E quando o pranto na sentida fuga

Começava a saudade, amor lho enxuga.

 

 

XXXVI

 

 

É fama então que a multidão formosa

Das Damas, que Diogo pretendiam,

Vendo avançar-se a nau na via undosa,

E que a esperança de o alcançar perdiam:

Entre as ondas com ânsia furiosa

Nadando o Esposo pelo mar seguiam,

E nem tanta água que flutua vaga

O ardor que o peito tem, banhando apaga.

 

 

XXXVII

 

 

Copiosa multidão da nau Francesa

Corre a ver o espetáculo assombrada;

E ignorando a ocasião da estranha empresa,

Pasma da turba feminil, que nada:

Uma, que às mais precede em gentileza,

Não vinha menos bela, do que irada:

Era Moema, que de inveja geme,

E já vizinha à nau se apega ao leme.

 

 

XXXVIII

 

 

Bárbaro (a bela diz) Tigre, e não homem…

Porém o Tigre por cruel que brame,

Acha forças amor, que enfim o domem;

Só a ti não domou, por mais que eu te ame:

Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,

Como não consumis aquele infame?

Mas pagar tanto amor com tédio, e asco…

Ah que o corisco és tu… raio… penhasco.

 

 

XXXIX

 

 

Bem puderas, cruel, ter sido esquivo,

Quando eu a fé rendia ao teu engano;

Nem me ofenderas a escutar-me altivo,

Que é favor, dado a tempo, um desengano:

Porém deixando o coração cativo

Com fazer-te a meus rogos sempre humano,

Fugiste-me, traidor, e desta sorte

Paga meu fino amor tão crua morte?

 

XL

 

Tão dura ingratidão menos sentira,

E esse fado cruel doce me fora,

Se a meu despeito triunfar não vira

Essa indigna, essa infame, essa traidora:

Por serva, por escrava te seguira,

Se não temera de chamar Senhora

A vil Paraguaçu, que sem que o creia,

Sobre ser-me inferior, é néscia, e feia.

 

 

 

XLI

Enfim, tens coração de ver-me aflita,

Flutuar moribunda entre estas ondas;

Nem o passado amor teu peito incita

A um ai somente, com que aos meus respondas:

Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,

(Disse, vendo-o fugir) ah não te escondas;

Dispara sobre mim teu cruel raio…

E indo a dizer o mais, cai num desmaio.

 

 

 

XLII

 

Perde o lume dos olhos, pasma, e treme,

Pálida a cor, o aspecto moribundo,

Com mão já sem vigor, soltando o leme,

Entre as falsas escumas desce ao fundo:

Mas na onda do mar, que irado freme,

Tornando a aparecer desde o profundo;

Ah Diogo cruel! disse com mágoa,

E sem mais vista ser, sorveu-se n’água.

 

 

XLIII

 

 

Choraram da Bahia as Ninfas belas,

Que nadando a Moema acompanhavam;

E vendo que sem dor navegam delas,

À branca praia com furor tornavam:

Nem pode o claro Herói sem pena vê-las,

Com tantas provas, que de amor lhe davam;

Nem mais lhe lembra o nome de Moema,

Sem que ou amante a chore, ou grato gema.

 

 

MINSTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

CARAMURU: POEMA ÉPICO

Santa Rita Durão

 

 

 

 

 

Frei José de Santa Rita Durão, poeta brasileiro da fase neoclássica (Cata Preta, MG, 1720 – Lisboa, Portugal, 1784). Escreveu o poema épico Caramuru (1781), primeira obra literária a usar como tema o índio brasileiro, suas lendas e seus costumes, e heróis nacionais. Nascido no Brasil, Durão partiu para a Europa em 1731, radicando-se em Portugal, onde teve marcante participação política. Foi um grande orador.