Ilustração Maurício de Sousa.
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Cantiga da bela infância,
peteca, bola, pião …
Minha inocência pelada
nadando no ribeirão…
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(Clóvis Brunelli)
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Cantiga da bela infância,
peteca, bola, pião …
Minha inocência pelada
nadando no ribeirão…
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(Clóvis Brunelli)
Roupa estendida, 1944
Eliseu Visconti (1866-1944)
óleo sobre tela 67 x 82 cm
Coleção Particular
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Jorge de Lima
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No fio de arame
tem roupa estendida,
tem roupa na corda,
ceroulas e cuecas
que dizem coisas brejeiras
às calçolas da sinhá
sinhá, sinhá
toma vento
senão vem um pé-de-vento
e carrega com sinhá!
no fio de arame
tem roupa pingando água,
deixa pingar
não faz mal nenhum…
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Em: Poesias completas, vol. IV, Jorge de Lima, Rio de Janeiro, José Aguilar:1974
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Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.
Obras:
Poesia:
XIV Alexandrinos (1914)
O Mundo do Menino Impossível (1925)
Poemas (1927)
Novos Poemas (1929)
O acendedor de lampiões (1932)
Tempo e Eternidade (1935)
A Túnica Inconsútil (1938)
Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)
Poemas Negros (1947)
Livro de Sonetos (1949)
Obra Poética (1950)
Invenção de Orfeu (1952)
Romance:
O anjo (1934)
Calunga (1935)
A mulher obscura (1939)
Guerra dentro do beco (1950)
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Se me coubesse a votação para um prêmio nacional de literatura — melhor livro do ano — ele iria para Traduzindo Hannah de Ronaldo Wrobel [Record:2010]. O livro já foi um dos finalistas, este ano, do Prêmio São Paulo, nessa mesma categoria, quando o vencedor foi Passageiro do fim do dia de Rubens Figueiredo. Mesmo assim, continuo convencida de que o romance de Ronaldo Wrobel, escancara as portas para novos rumos da literatura brasileira contemporânea. O que faz esse livro merecer tanto entusiasmo? Tema, estilo, narrativa, leveza, humor, ironia e pesquisa.
O tema é um retrato de grupos de imigrantes judeus que chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, fugidos de desastrosas realidades: guerra, fome, desemprego, perseguição. Tais como milhares de outros imigrantes, que ao longo dos séculos vieram se estabelecer no país. Acentuando a narrativa, trazendo-a para o nível de deleite literário, está o estilo de Ronaldo Wrobel, leve e solto, com uma refrescante e fértil maneira de expressão: imagens, figuras de linguagem soam novas, soam belas e vivazes. Permeando todo o texto há uma leve ironia, um humor fugaz que nos faz sorrir, quase rir em certos trechos sem, no entanto, termos diante de nós nada mais do que a mera e justa comédia humana. Sua pesquisa foi preciosa, o que tornou fácil imaginar as andanças pelas ruas do Rio de Janeiro, pela Lapa, pelo Catete, pela Praça Onze, mesmo que hoje esses locais sejam tão diferentes.
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A história tem início na década de 1930. Max Kutner sapateiro, imigrante e judeu polonês, que já havia estabelecido uma pequena clientela no centro do Rio de Janeiro, é convocado, durante o governo Vargas, para trabalhar na censura de cartas. Traduzir do iídiche para o português passa a ser sua segunda ocupação. Ele se enfronha na intimidade da comunidade judaica através das cartas que traduz. No processo, também se familiariza com as irmãs, Hannah e Guita, do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, e se interessa em conhecer Hannah. Quando isso acontece, descobre que ela não era bem a pessoa que ele imaginava ser quando lia sua correspondência.
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Ronaldo Wrobel
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Deste momento em diante passamos a uma grande aventura em terras cariocas. Num ritmo galopante, vamos de espionagem a contra-espionagem. A cada capítulo uma surpresa e um aprofundamento da trama. Como num teste de visão, vamos corrigindo nossas lentes, passo a passo, enquanto acompanhamos o progresso de Max Kutner que, como nós, precisa acertar a combinação de lentes para ver, entender, compreender e digerir tudo que o rodeava. Traduzindo Hannah é uma pequena obra-prima burlesca, inteligente e histórica. Não deixe de ler. Um deleite!
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Henriqueta Lisboa
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Vento do Norte
vento do Sul
vento do Leste
vento do Oeste.
Quatro cavalos
em pêlo.
Quatro cavalos
de longas crinas,
de longas caudas,
narinas sôfregas
bufando no ar.
Quatro cavalos
que ninguém doma,
quatro cavalos
que vêm e vão,
que não descansam,
de asas e patas
varrendo os céus.
Cavalos sem dono,
cavalos sem pátria,
cavalos ciganos
sem lei nem rei.
Quatro cavalos em pêlo.
Animais em beira de rio, s/d
Alexandre Reider ( Brasil, SP, 1973)
Óleo sobre tela
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Julinda Alvim
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Sulcando a plaga serena
à luz da manhã dourada,
numa cantiga magoada,
chora o rio a sua pena.
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E uma bonita morena,
lavadeirinha engraçada,
canta saudosa balada,
descendo a margem amena.
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Chega e depõe a bacia
de roupa. Seu vulto espia
na flor do rio, cismando.
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Volve, escuta os passarinhos.
Depois a nuvem de linhos
mergulha na água, cantado…
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Em: Vamos estudar? – 3ª série primária – edição especial para o estado do Rio de Janeiro, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1957
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Que grande travesso é o mar!
Molha de novo o lençol
que a praia para secar,
expôs aos raios do sol!
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(Walter Waeny)
Negra com paisagem ao fundo, 1935
Genesco Murta ( Brasil, MG 1885 — MG, 1967)
óleo sobre tela sobre eucatex, 58 x 48 cm
Coleção Particular
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Antônio Gedeão
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Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
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Recolhi a lágrima
com todo cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
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Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
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Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
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Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
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nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
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Rômulo Vasco da Gama de Carvalho , rambém conhecido pelos pseudônimos : Antônio Gedeão ou por Rômulo de Carvalho. (Portugal, 1906-1997) Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa. Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições. Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo.
Obras poéticas:
Movimento perpétuo, 1956
Teatro do Mundo, 1958
Máquina de Fogo, 1961
Poema para Galileu 1964
Linhas de Força, 1967
Poemas Póstumos, 1983
Novos Poemas Póstumos, 1990
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Pedro Bandeira
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Eu sou pequeno, me dizem,
e eu fico muito zangado.
Tenho de olhar todo mundo
com o queixo levantado.
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Mas, se formiga falasse
e me visse lá do chão,
ia dizer, com certeza:
— Minha nossa, que grandão!
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Cláudio Dantas ( Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 30 x 30 cm
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À instabilidade das coisas no Mundo:
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Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz, se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
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Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
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Mas no Sol, e na luz falta a firmeza
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
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Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
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Em: Gregório de Matos Obra Completa, 2 vols. São Paulo, Edições Cultura: 1945
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Gregório de Matos ( Brasil, Bahia, 1623– Brasil, Recife 1695) advogado e poeta brasileiro do século XVII. O nosso maior poeta do período Barroco no Brasil. Também um dos mais satíricos. Conhecido também por dois cognomes: Boca do Inferno e Boca de Brasa. De família baiana abastada, estudou no Colégio dos Jesuítaa na Bahia, indo depois para Lisboa em 1650 e em 1652 para a Universidade de Coimbra. Foi o primeiro poeta a cantar o elemento brasileiro, o tipo local, produto do meio geográfico e social.
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Vicente de Paula Reis
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De meu pai, como herança que bendigo,
Recebi, neste vale de amargura,
Um tesouro do qual não me desligo
E o guardo avaramente, com ternura.
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Escudando-me nele é que consigo,
Tornando a minha vida menos dura,
Impávido, vencer qualquer perigo,
Sobrepondo-me à própria desventura.
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Essa herança, meu pai, que me legaste,
Tem suavizado muito a minha vida,
Dos espinhos do mundo mal ferida!
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E essa prenda moral, que me deixaste,
É toda essa riqueza de ser pobre!
É toda essa grandeza de ser nobre!
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Vicente de Paula Reis ( Rio de Janeiro 1895-?) Professor de português do Colégio Pedro II e jornalista com colunas em diversos periódicos do Rio de Janeiro.
Obra:
Esparsos, poesia, s/d