“Dona Santa” poesia de Olavo Nunes

11 11 2024
Ilustração de Frederick Richardson, 1975

 

 

Dona Santa

 

Olavo Nunes   (1871-1942)

 

Quando ela passa, risonha e pura,

De arzinho honesto, cheia de graça…

Todos murmuram: Que formosura!…

Quando ela passa…

 

Flores rebentam pelo caminho

Sob os pezinhos que a bota enlaça;

Beijos se escutam de ninho a ninho,

Quando ela passa…

 

Seguem-na olhares cheios de gula

Como os da fera fitando a caça,

Olhares meigos que amor açula,

Quando ela passa…

 

Boca vermelha que o riso enflora

Cintura fina que um dedo abraça,

Parece ver-se Nossa Senhora,

Quando ela passa…

 

À luz dos olhos dessa menina

Deserta o pranto, foge a desgraça;

Com grande afeto tudo se inclina,

Quando ela passa…

 

Sombrero alegre, cheio de fita,

Vestido leve de fina cassa,

Gosto de vê-la assim tão bonita,

Quando ela passa…

 

Trinulam aves pelas umbrosas

Ramas que o vento no alto entrelaça,

E abelhas d’oiro desfolham rosas,

Quando ela passa…

 

Quando ela passa, risonha e pura,

De arzinho honesto, cheia de graça…

Todos murmuram: Que formosura!…

Quando ela passa…

 

Em: Coelho Netto e a Mina Literária, Imprensa de Alfredo Silva, Pará: 1899, pp 34-36





História de tia Bilu, texto de Josué Montello

7 11 2024
Ilustração Veronica V. Jones.

 

 

 

“Eu, desde que me conheço, sempre gostei de ouvir histórias. Tenho mesmo a impressão de que foi para ouvi-las, e para contá-las, que nasci. As histórias, além de darem mais vida ao mundo em que vivemos, nos fazem viver outras emoções e outras experiências, mesmo quando a imaginação do contador de histórias enfeita de fadas e bruxas, os mais belos contos.

Mais tarde, se não era mais menino para ouvir histórias, passei a lê-las nos livros, sabendo que o livro é um companheiro, sempre que o tiramos da estante para que nos diga em silêncio o que  tem para nos contar ou ensinar.”

 

 

Em: O carrasco que era santo: (a mais bela história de tia Bilu), Josué Montello, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1994. pp. 2-3





Dia de Finados: 2 de novembro

2 11 2024

O enterro de Atala, 1808

Anne-Louis Girodet (França, 1767-1824)

óleo sobre tela, 207 x 267 cm

Louvre

 

 

Dia de Finados

 

Juvenal Galeno

 

Hoje, Dia de Finados,

Às campas os vivos vão

Aos mortos render menagem;

Mas, com certa ostentação…

E eu visito um cemitério

Dentro do meu coração.

 

Ai, nele, quantos sepulcros,

Quantas cruzes no seu chão:

Amores da primavera,

Amores do meu verão,

Que em meu outono revejo

Dentro do meu coração.

 

Quantas florinhas fanadas,

Ai, murchas ‘inda em botão;

Quanta esperança perdida,

Ai, quanta morta ilusão…

Aqui todas sepultadas

Dentro do meu coração.

 

E quantas cruzes de amigos,

Lembrando dedicação;

De amigos que me deixaram

Chorando na solidão,

Neste triste cemitério,

Dentro do meu coração.

 

Onde cultivo flores,

Eis minha consolação;

A saudade, a sempre-viva,

Perpétua recordação,

Para enfeitar suas campas,

Dentro do meu coração.

 

E minh’alma ajoelhada

Nesta santa região,

Entoa sentidas preces

Da mais pura devoção,

Entre ciprestes e cruzes,

Dentro do meu coração.

 

 

Ceará, 2 de novembro de 1904





Tomates, poema de Fabrício Corsaletti

30 10 2024

Tomates no saco plástico, 2009

Renato Meziat (Brasil, 1952)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

Tomates

 

 Fabrício Corsaletti

 

os tomates

fervendo na panela

meu pai minha mãe

na sala televisão

fiquei olhando

os tomates

estava frio o bafo

quente dos tomates

esquentava as mãos

 

 

saía da panela

já naquele dia

um cheiro

forte de passado





Trova popular, anônima

25 10 2024

Meu pai julga que me tem

fechadinha na varanda.

Coitadinho de meu pai

que bem enganado anda…

 

(Cultura popular)





“Versos de entreter-se”, poesia de Ferreira Gullar

23 10 2024

A vitória, 1939

René Magritte (Bélgica, 1898-1967)

óleo sobre tela, 73 x 54 cm

 

 

Versos de entreter-se

 

Ferreira Gullar

 

À vida falta uma parte

— seria o lado de fora —

pra que se visse passar

ao mesmo tempo que passa

 

e no final fosse apenas

um tempo de que se acorda

não um sono sem resposta.

 

À vida falta uma porta.

 

 

Em: Barulhos, Rio de Janeiro, José Olympio: 1987, p. 58





Trova das guloseimas

18 10 2024

 

“Coma conosco, querida!”…

Confusa e num gesto tosco,

a moça, olhando a comida:

– Quero provar o “conosco”!

 

(Elisabeth Souza Cruz)





Lágrimas ocultas, poesia de Florbela Espanca

17 10 2024
Leitora, Joanne Grieve

 

 

Lágrimas ocultas

 

Florbela Espanca

 

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

 

 

 





Primavera: Machado de Assis

14 10 2024

Paisagem

Vicente Leite (Brasil, 1900 -1941)

óleo sobre madeira, 28 x 22 cm

 

“Nos climas ásperos, a árvore que o inverno despiu, é novamente enfolhada pela primavera, essa eterna florista que aprendeu não sei onde e não esquece o que lhe ensinaram”.

 

Machado de Assis





Cigana, poesia de Armando Vieira da Silva

11 10 2024
Ilustração de Miriam S. Hurford, para capa de Woman’s World, Setembro, 1931.
 
Cigana

 

Armando Vieira da Silva  (1887-1940)

 

“Era uma vez uma cigana”… um dia,

Laura pediu-lhe que lhe lesse a sina,

E ela, a cigana, de contente ria,

Ante a mãozinha delicada e fina.

 

Fita-lhe o olhar e, débil e franzina,

Linha por linha, atentamente lia;

Um futuro de rosas à menina,

Tudo o que Laura desejar podia.

 

E disse aos pais: “Três vezes, meus senhores,

Aquele ipê se cobrirá de flores,

Para a menina se cobrir de um véu”.

 

Laura riu-se e corou. E um ano corre,

Outro mais, e um terceiro… a Laura morre…

— Foi, com certeza, se casar ano céu!…