Fábula: A raposa e as uvas, texto de Monteiro Lobato

18 04 2012

A raposa e as uvas, ilustração JACOT.

A raposa e as uvas

Certa raposa esfaimada encontrou uma parreira carregadinha de lindos cachos maduros, coisa de fazer vir água à boca. Mas tão altos que nem pulando.

O matreiro bicho torceu o focinho.

Estão verdes — murmurou. Uvas verdes, só para cachorro.

E foi-se.

Nisto deu o vento e uma folha caiu.

A raposa ouvindo o barulhinho voltou depressa e pos-se a farejar…

Quem desdenha quer comprar.

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

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Quadrinha do descobrimento do Brasil

18 04 2012

 

Ilustração de autoria desconhecida.

Cabral olhando o infinito,

Viu um cruzeiro de luz

E chamou a nossa Terra

de Ilha de Santa Cruz.

(Walter Nieble de Freitas)





Quadrinha do falatório

17 04 2012

Falatório, ilustração Maurício de Sousa.

A mais tremenda das armas

pior do que a durindana,

atende, meus bons amigos,

se apelida – a língua humana.

(Fagundes Varela)





Primeiro fruto, poesia de Artur de Castro

13 04 2012

Mãe com bebê, ilustração Maud Tousey Fangel.

Primeiro fruto

Artur de Castro

De manso Ela desperta e o leito cor de arminho

Envolvendo no olhar de materna doçura,

Contempla o alvo filho entre os lençóis de linho,

Mais alvo que os lençóis de imaculada alvura.

E meiga a contemplar o tépido filhinho,

Seu casto olhar azul em lágrimas fulgura:

— É que nem sempre o pranto é de sofrer mesquinho…

— Que a lágrima é também  a imagem da Ventura.

Depois nos braços seus tomando-o febrilmente,

A fronte dele encosta à sua fronte bela,

Aos lábios dele cola os lábios seus, ridente…

E assim, em doce amplexo, em meio sonho, — Ela

De novo os olhos cerra… e terna… e vagamente

O filho adormecido, entre acordada, vela.

Em: 232 Poetas Paulistas, antologia, Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista: 1968.

Artur de Castro (SP, 1880 – ?) — poeta e  jornalista.  Residiu em Campinas.





Quadrinha infantil dos passarinhos

10 04 2012

Ilustração Yoshida Toshi.

Canta, canta passarinho,

Sempre alegre a saltitar,

Quem é bom vive cantando

Deus te fez para cantar.

(Walter Nieble de Freitas)





Quadrinha infantil para comer frutas

9 04 2012

Magali comendo melancia, ilustração Maurício de Sousa.

Nunca se esqueçam que as frutas

Matam a sede e a fome

E somente fazem mal

Quando a gente não as come.

(Walter Nieble de Freitas)





Fábula: O lobo e o cordeiro, texto de Monteiro Lobato

5 04 2012

 

O lobo e o cordeiro

Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado , de horrendo aspecto.

— Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? — disse o monstro arreganhando os dentes.  Espere, que vou castigar tamanha má-criação!…

O cordeirinho, trêmulo de medo,respondeu com inocência:

— Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?

Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta.  Mas não deu  o rabo a torcer.

— Além disso — inventou ele — sei que você andou falando mal de mim o ano passado.

— Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano?

Novamente confundido pela voz da inocência, o lobo insistiu:

— Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo.

— Como poderia ser meu irmão mais velho, se sou filho único?

O lobo furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:

— Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!

E — nhoc! — sangrou-o no pescoço.

Contra a força não há argumentos.

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

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Quadrinha do teu segredo

5 04 2012

Ilustração, autor desconhecido, década de 1920.

O teu segredo famoso

eu bem sei, direitinho…

chegou depressa, ditoso,

nas asas de um passarinho! …

(Luiz Pereira de Faro)





Inglaterra, Argentina, Faulklands, Malvinas e a fineza de julgamento de Elsie Lessa

4 04 2012

Londres, Casas do Parlamento, 1903

Claude Monet ( 1840-1926)

óleo sobre tela

[Claude Monet pintou uma série enorme de paisagens como esta, retratando as casas do parlamento inglês, num estudo sobre os efeitos da neblina.  Não sei exatamente o número total de varições desse tema, mas elas foram pintadas em 1900-1904]

Esta semana vimos muitos programas na televisão e artigos no jornal que lembram o aniversário de 30 anos da Guerra das  Ilhas Malvinas ou Faulklands.  Não me pronuncio politicamente nesse blog.  Este não é o objetivo desse lugar, mas não pude deixar de me lembrar dessa crônica de Elsie Lessa,  quando vi tais comemorações:  uma crônica que eu havia lido há alguns anos.  Devo dizer, que sou fã de algumas cidades no mundo.  Londres está entre elas.  [As outras? Paris, Madri, Coimbra, Córdoba, Sarlat e Siena, lugares que por várias e diversas razões cheguei a conhecer muito bem e a visitar inúmeras vezes]. Mas meu sonho de consumo, aquele que a gente acalenta sem dizer palavra porque sabe ser quase impossível, aquele que só se realizaria se um dia eu ganhasse na loteria, (e jogo sempre na esperança)  é ter um “flat” em Londres, uma cidade verdadeiramente cosmopolita.  Como poucas.

COTIDIANO INGLÊS

Elsie Lessa

Estrangeira, com quase cinco anos de Londres, é muito frequente virem me perguntar, brasileiros e ingleses, o que acho da Inglaterra.  Posso dizer a ambos, sem mentir, que acho um privilégio ter desfrutado dela por tanto tempo.  Porque?  Tranquilidade, um sentido de segurança, de ser respeitado como ser humano, de ser deixada viver, sem atritos, num mecanismo social de rodas bem azeitadas, dentro das falibilidades humanas. É um sapato que não dói no pé, como todas as felicidades, negativo, não incomoda, não machuca e a gente só se dá conta disso quando, à força de uso, lembra que está na hora de substituí-lo ou de ter que deixar o país.

As pequenas coisas da vida: o inevitável “obrigado por ter chamado” de qualquer amiga inglesa, para quem a gente ligou. O “por favor” e o “muito obrigado” de que é recheado o cotidiano.

Outro dia eu esperava o ônibus na esquina e, decerto para entreter a espera, aquele senhor de cabelos brancos e roupa meio puída me chamou atenção para aquele desperdício de dois postes tão juntos.  Não era preciso não estava ali aquele com a tabuleta da parada? Para que o outro?  Era assim que eles gastavam o nosso dinheiro e por aí vai.  Entrei contente na conversa e na argumentação, tinha todíssima razão, a gente devia escrever ao “Council” (Conselho Municipal), dona Tatcher era uma senhora sem juízo, a vida estava cara, essas amenidades.  Veio o meu ônibus, o dele não.  E eu já estava dentro quando o meu vizinho de rua, como fazia meu pai quando lhe agradeciam ter pago a passagem de bonde, levantou um pouco o chapéu, saudou-me, agradecendo: “obrigado por ter falado comigo”. Está aí um obrigado que nunca ninguém antes me dissera.

Sou jornalista, gosto de papear, num dia a dia sem muitos interlocutores e usufruo os privilégios da feliz idade a que cheguei, que me põe a salvo de intenções equívocas, ao iniciar uma conversa com um vizinho de balcão de café.  Era ali na Brompton Arcade para o cafezinho das 4, com um cheiro que deixa os fregueses de bom humor.  Entrei na deixa fácil do café do Brasil, falamos de outros, cafés e países, ele já me oferecia galante uma segunda xícara quando me despedi.  Este já era um “gentleman” bem-apessoado,ao contrário do homem reclamador de Chelsea.  Só os unia a mesma boa educação: “muito obrigado por ter falado comigo”.  Tudo boa gente.

Há 8 semanas este país está em estado de conflito, se não de guerra, já tendo ceifado uma meninada e alguns dos seus comandantes.  Não ouvi uma discussão em voz alta sobre ela, embora seja muito comentada.  A televisão tem vozes soturnas, nunca esbravejantes.  Inevitavelmente são transmitidas as notícias e as estatísticas dos dois lados, embora divirjam. São mostrados trechos inteiros da televisão argentina.  Sem comentários ou com um único, certa vez: “A televisão aqui é um pouco diferente”. Nos programas de auditório, fascinantes, em que se discute tudo, (outro dia tomava parte um argentino do auditório), aceitam-se, em voz baixa, todos os argumentos a favor, contra, nem a favor nem contra, muito pelo contrário. Admite-se que seres humanos tenham diferentes pontos de vista e que os defendam, com bons modos e serenidade.  A Rainha tem um filho na frente de batalha e nem ela nem ninguém faz estardalhaço disso.  Ela respondeu simplesmente, perguntada: “São tempos de preocupação e sofrimento para todos nós.  Nossos corações estão com eles,  Mas a vida deve continuar…”  O príncipe mais moço, Edward, acaba de se alistar como fuzileiro naval.  Com uma única nota para a imprensa: não por causa da guerra, mas como parte da educação dos rapazes da família real”. É, a Inglaterra não dói no pé.

Em: Ponte Rio-Londres, Elsie Lessa, Rio de Janeiro, Record:1984.





Poesia infantil: O vento, de Helena Pinto Vieira

3 04 2012

O vento

Helena Pinto Vieira

Eu hoje acordei feliz,

e ninguém sabe por quê;

como isto é um segredo,

vou dizer só a você,

menino que ora me escuta:

você não fica, também,

contente, muito contente,

quando o vento sopra, além?

É este, pois, meu segredo;

vou sair, vou lá pra fora,

vou soltar meu papagaio.

Que bom vento sopra agora!

No barbante, que é bem forte,

um recado vou mandar

às andorinhas que voam,

lá no alto, sem cansar.

O vento que está soprando,

menino, meu companheiro,

parece estar convidando

a brincar o dia inteiro.

Em:  O mundo da crianças, poemas e rimas, Rio de Janeiro, Editora Delta: 1975, volume 1, p. 143