Brinquedos, poesia infantil de Afonso Schmidt

7 12 2010

 

Joyeux Noel, cartão de Natal francês da virada do século XX.

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Brinquedos

                                 Afonso Schmidt

São Nicolau de barbas brancas,

de alto capuz beneditino,

nas costas levava um grande saco

e vai seguindo o seu destino.

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É muito tarde.  Nas janelas,

há sapatinhos ao sereno:

a cada espera corresponde

o sonho leve de um pequeno.

Súbito, estaca na calçada;

uma janela está vazia

e, pelas frinchas de uma porta,

chegam rumores de alegria.

O Santo pára; está amuado,

acha que o mundo é muito mau

e estas crianças já não querem

esperar por São Nicolau.

Mas, logo fica curioso,

quer descobrir porque naquela

casa não há um sapatinho

no canto escuro da janela.

Vai espiar pelo buraco

da fechadura…  – Pobrezinhos,

são os meninos do trapeiro,

nunca tiveram sapatinhos…

E vê, que à falta de bonecas,

eles divertem o casal,

enquanto o avô fuma num canto,

São Nicolau, mas de avental…

Todos estão muito contentes

o Santo ri de olhos molhados

e vai seguindo à luz branquinha

do plenilúnio nos telhados.

 Pisa de leve sobre as folhas,

diz a sorrir palavras mansas:

“Essas crianças são os brinquedos

 e esses papais são as crianças…”

Em: Poesia brasileira para a infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

VOCABULÁRIO

Beneditino – é o nome que se dá aos frades da Ordem de São Bento.  Na poesia a palavra é usada como adjetivo de capuz.

Plenilúnio — a lua cheia.

 

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

Lírios roxos, 1904

Miniaturas, 1905

Janelas Abertas (poesia), 1911

Lusitânia (ato em verso), 1916

Evangelho dos Livres (panfleto), 1920

Mocidade, 1921

Brutalidade (contos), 1922

Ao relento, 1922

Janelas Abertas (versos) – Edição Aumentada (Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, 1923

Os Impunes (novelas), 1923

As Levianas (peça em três atos), 1925

O Dragão e as Virgens (romance, 1927

Cânticos Revolucionários (panfletos), 1930

A nova conflagração, 1931

Garoa, 1931

Os Negros (crônicas), 1932

Garoa (poesia), 1932

Poesias, 1934

Carne para Canhão (peça em três atos), 1934

Pirapora (contos), 1934

Curiango (contos), 1935

Zanzalás (uma novela de tempos futuros), 1936

A Vida de Paulo Eiró (biografia), 1940

A Marcha (Romance da Abolição), 1941

O Tesouro de Cananéia (contos), 1941

No Reino do Céu (novela), 1942

A Sombra de Júlio Frank (biografia),1942

A árvore das lágrimas, 1942

Colônia Cecília (Uma aventura anarquista na América), 1942

O Assalto (Romance do ouro e do sal), 1945

Poesias (edição definitiva), 1945.

O Retrato de Valentina (novela), 1947

A Primeira Viagem (viagem), 1947

Menino Felipe (romance), 1950

Saltimbancos (romance), 1950

Aventuras de Indalécio (romance), 1951

Os Boêmios (contos), 1952

Dedo nos Lábios (novelas), 1953

O Gigante Invisível (divulgação), 1953

Carantonhas (novela juvenil), s/d

São Paulo dos Meus Amores (crônicas), 1954

A Marcha (romance da Abolição,  história em quadrinhos), 1955

Mistérios de São Paulo (reminiscência), 1955

Bom Tempo (memórias), 1956

A Datilógrafa (romance), 1958

A Locomotiva (romance), 1960

Mirita e o Ladrão (romance), 1960

O Retrato de Valentina (novela), 1961

O Canudo, 1963

O enigma de João Ramalho, 1963

O passarinho verde, s/d

Zamir, s/d





Cartão de Natal, poema de Stella Leonardos

1 12 2010
Cartão de Natal italiano. Sem data.

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Cartão de Natal

                                                  Stella Leonardos

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O velho gordo e rosado

Que veste sempre encarnado,

Esse bom Noel barbudo

Que reserva para as crianças

As mancheias de esperanças

De um grande saco bojudo;

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E traz na sola das botas

Neve das terras remotas

Onde há frio no Natal;

E pinheirais pela neve;

E renas de passo leve

Vivendo no pinheiral;

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Quem disse que era estrangeiro?

Ele hoje é bem brasileiro

Malgrado o traje hibernal.

Se veste de lã e de arminho

É que o calor e o carinho

Que deve haver no Natal!

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Em: Stella Leonardos, Pedaço de Madrugada, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956 

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Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa (Rio de Janeiro RJ, 1923). Poeta, tradutora, romancista, com mais de 70 obras publicadas, em poesia, prosa, ensaios, teatro, romances e literatura infantil.  Considerada membro expoente da 3ª geração de poetas modernistas.  Um dos maiores nomes da poesia contemporânea no Brasil.





Imagem de leitura — Isolda

31 10 2010

 

Anoitecer com lampadário, s/d

Isolda [ Hermes da Fonseca Chapman] ( Brasil, 1924-2004)

óleo sobre eucatex, 48 x 68 cm

Coleção Particular

 

Isolda Hermes da Fonseca Chapman (Rio de Janeiro RJ 1924 — 2004). Pintora, ilustradora. estuda na Corcoran School of Art e no Art Students League, em Nova York e funda a Galeria Artists Cooperative, em Washington, Estados Unidos, entre 1947 e 1949. Neste mesmo ano, viaja para a Itália, onde é aluna da Academia de Belas Artes de Florença. De volta ao Brasil, estuda com Chamberlain e realiza ilustrações para os jornais Correio da Manhã e O Globo, no Rio de Janeiro.





Um Nobel mais do que merecido: Mário Vargas Llosa

7 10 2010

Marie-Jose com vestido amarelo, 1950

Henri Matisse, ( França, 1869-1954)

Aquatinta

 

Raramente um prêmio Nobel de literatura é dado a algum escritor cuja obra eu conheça.  E se o conheço é por um único livro.  Recebi então com surpresa e grande prazer a notícia de que Mario Vargas Llosa, o grande escritor peruano, recebeu hoje o Prêmio Nobel de Literatura.  Dele conheço muitos livros.  A impressão que tenho é que suas obras me acompanham desde sempre e reconheço a importância de sua palavra escrita não só para o meu próprio desenvolvimento como leitora, mas para aquele de uma inteira geração de leitores latino americanos.  O que faz Mário Vargas Llosa maior do que seus livros, maior do que sua constante preocupação com sua terra natal, com o Peru e com a estabilidade dos princípios democráticos na América Latina, é a sua permanente preocupação com o ser humano, com suas emoções e principalmente com as paixões humanas.  Sem paixão, é a mensagem sua obra, não somos nada; a vida de nada serve.  Quer nos seus romances de fundo político, quer naqueles que se caracterizam por explorar a estrutura emocional de seus personagens, Vargas Llosa demonstrou do início de sua carreira até hoje um enorme fôlego criativo.

Meu primeiro contato com Vargas Llosa foi com Tia Júlia e o Escrevinhador, uma obra que me fez rir e muito, mesmo quando a lia em lugares públicos, como no ônibus ou no metrô.  Sou, por mim mesma responsável pela compra de pelo menos 11 volumes desse romance que dei de presente através dos anos, a cada re-edição, até mesmo na sua versão em inglês, para amigos na época em que morei nos Estados Unidos.

Depois vieram Conversa na Catedral – um deslumbrante diálogo político com o período de uma ditadura no Perú, nos  anos 50:  um livro que me marcou muito, com sua acidez, com sua irreverência.   Nas minhas leituras, que não seguem necessariamente a ordem de publicação, seguiu-se quase imediatamente  Quem matou Palomino Molero?  Um quase-mistério que continua com a mesma preocupação de descortinar os meios pelos quais uma ditadura permanece no poder. 

 Pantaleão e as visitadoras veio a seguir.  Apesar de sua popularidade, este não é o meu favorito.  Mas sem dúvida é uma obra repleta de ironia e humor e mostra as atitudes e os desmandos — enquanto abre os nossos olhos — das gastanças do poder público na América Latina e a freqüência com que projetos governamentais estão fadados a meter os pés pelas mãos.  Mais tarde fui de encontro à ditadura da República Dominicana lendo o pequeno romance, um grande conto, uma novela talvez, chamado A festa do bode.   Depois disso descansei por alguns anos da leitura de Vargas Llosa, só para voltar a me apaixonar por sua escrita, de novo, em 2006 com Travessuras da menina má

 Hoje, ao descobrir que Vargas Llosa – este grande escritor – foi premiado com o Nobel, vibrei.  Este incansável defensor dos direitos humanos, que tem como os grandes humanistas o homem como medida exata de seus trabalhos, nunca se acanhou de lutar com unhas e dentes pelos valores democráticos em seu país e fora dele.   Agora, sinto-me tentada a ler suas outras obras, aquelas com as quais ainda não consegui me deliciar.  É um compromisso pessoal.    Devemos todos nos orgulhar de tão justo prêmio a um infatigável batalhador pela justiça social.





Antigos manuscritos gregos na internet

2 10 2010
Salmo Theodoro

A Biblioteca Britânica que está na vanguarda dos esforços de digitalização de manuscritos,  digitalizou e colocou na internet mais de um quarto dos seus manuscritos gregos, totalizando 280 volumes.  Foi mais um passo rumo à digitalização completa desses importantes documentos antigos.  Ela possui uma das maiores coleções do mundo de manuscritos gregos: mais de 1000 manuscritos, mais de 3.000 papiros.  A digitalização cuidadosa dos mais antigos textos do Novo Testamento, o famoso Codex Sinaiticus é um dos projetos que a biblioteca tem em conjunto com a Biblioteca Universitária de Leipzig, a Biblioteca Nacional da Rússia em São Petersburgo, e com o Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai.

Os manuscritos, disponibilizados mais recentemente,  e gratuitamente podem ser encontrados no portal www.bl.uk/manuscripts  e são parte de uma das mais importantes coleções localizadas fora da Grécia para o estudo de mais de 2 mil anos de cultura helênica.   As informações ali presentes interessam a acadêmicos que trabalham com literatura, história, ciência, religião, filosofia e arte do Mediterrâneo Oriental durante os períodos clássico e bizantino.

 “Isso é exatamente o que todos esperávamos da nova tecnologia, mas raramente tínhamos”, disse Mary Beard, professora de cultura clássica da Universidade de Cambridge.Isso abre um recurso precioso para qualquer um ¿ do especialista ao curioso ¿ em qualquer lugar do mundo, gratuitamente.”

Entre os destaques do acervo digitalizado estão os Salmos de Theodoro, altamente ilustrados, produzidos em Constantinopla em 1066, e as Fábulas de Babrius, descobertas em 1842 no monte Atos, que contêm 123 fábulas de Esopo corrigidas pelo grande acadêmico bizantino Demetrius Triclinius.  Também foram colocados à disposição do público na rede Os Diálogos de Luciano, manuscrito do século X.  Luciano ficou famoso por seus diálogos satíricos.

A digitalização de manuscritos raros ou outros documentos primários tem, obviamente, uma série de vantagens: facilidade de acesso aos dados já que os interessados. Além disso, um documento digital não é exposto a muitas pessoas  e, portanto, o original é salvo de danos devido ao manuseio e exposição à luz. 

Fonte:   Greek Manuscripts Online at the British Library





O aranhol, poema infantil de Menotti del Picchia

20 09 2010

O aranhol

                                Menotti del Picchia

No tear dos juncos aquáticos

à beira do lago de opala

D. Aranha uma artista

abriu sua oficina de modista.

Urde um tecido de gala

rico e decorativo

tendo como motivo

os raios geométricos de uma estrela.

Tela fina com botões de orvalho

que refulgem como pérolas

dependurou-a num galho

para que através do ar diáfano venha vê-la

com sua couraça de ábano e de ouro

o príncipe etíope D. Besouro

seguido por sua corte de libélulas.

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Em: Entardecer, MPM Propaganda, Edição Especial, Natal 1978.

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Paulo Menotti Del Picchia (São Paulo, 1892 — 1988) foi um poeta, escritor e pintor modernista brasileiro. Foi deputado estadual em São Paulo.   Foi também advogado, tabelião, industrial, político entre outras funções assumidas durante sua vida.

Com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros jovens artistas e escritores paulistas, participou da Semana de Arte Moderna de Fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo. Em 1943, foi eleito para a cadeira 28 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido suas principais obras Juca Mulato (1917) e Salomé (1940). Um livro seu de elevada popularidade é Máscaras (1920), pela sua nota lírica.

Obras:

A “Semana” Revolucionária Crítica, teoria e história literárias, 1992  

A Angústia de D. João, Poesia 1922  

A Crise Brasileira: Soluções Nacionais Crítica, teoria e história literárias 1935  

A Crise da Democracia Crítica, teoria e história literárias 1931  

A Filha do Inca, Romance e Novela 1949  

A Longa Viagem Crítica, teoria e história literárias 1970  

A Mulher que Pecou Romance e Novela 1922  

A Mulher que Pecou Romance e Novela 1923  

A Outra Perna do Saci Romance e Novela 1926  

A República 3000, 1930  

A Revolução Paulista Crítica, teoria e história literárias 1932  

A Revolução Paulista Através de um Testemunho do Gabinete do Governador Crítica, teoria e história literárias 1932  

A Tormenta, Romance e Novela 1932  

A Tragédia de Zilda, Romance e Novela 1927  

Angústia de João, Poesia 1925  

As Máscaras, Poesia 1920  

Chuva de Pedra, Poesia 1925  

Curupira e o Carão, Conto 1927  

Flama e Argila, Romance e Novela 1919  

Homenagem aos 90 anos, Outros 1982  

Jesus: Tragédia Sacra Teatro 1933  

Juca Mulato Poesia 1917  

Juca Mulato Poesia 1924  

Kalum, o Mistério do Sertão Romance e Novela 1936  

Kummunká Romance e Novela 1938  

Laís Romance e Novela 1921  

Máscaras Poesia 1924  

Moisés Poesia 1924  

Moisés: Poema Bíblico Poesia 1917  

Nacionalismo e “Semana de Arte Moderna” Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1962  

Nariz de Cleópatra Crônicas e textos humorísticos 1923  

No país das formigas Literatura Infanto-juvenil   

Novas Aventuras de Pé-de-Moleque e João Peralta Romance e Novela   

O Amor de Dulcinéia Romance e Novela 1931  

O Árbrito Romance e Novela 1959  

O Crime daquela Noite Romance e Novela 1924  

O Curupira e o Carão Crítica, teoria e história literárias   

O Dente de Ouro Romance e Novela 1924  

O Despertar de São Paulo Crítica, teoria e história literárias 1933  

O Deus Sem Rosto Poesia 1968  

O Gedeão do Modernismo Crítica, teoria e história literárias 1983  

O Governo de Júlio Prestes e o Ensino Primário Crítica, teoria e história literárias   

O Homem e a Morte Romance e Novela 1922  

O Homem e a Morte Romance e Novela 1924  

O Momento Literário Brasileiro Crítica, teoria e história literárias   

O Nariz de Cleópatra Romance e Novela 1922  

O Nariz de Cleópatra Conto 1924  

O Pão de Moloch Miscelânea 1921  

Pelo Amor do Brasil, Discursos Parlamentares Crítica, teoria e história literárias   

Pelo Divórcio, s/d   

Poemas Poesia 1946  

Poemas do Vício e da Virtude Poesia 1913  

Poemas Sacros: Moisés e Jesus Poesia 1958  

Poesias Poesia 1933  

Poesias (1907-1946) Poesia 1958  

Por Amor do Brasil Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1927  

Recepção do Dr. Menotti Del Picchia na Academia Brasileira de Letras Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1944  

República dos Estados Unidos do Brasil Poesia 1928  

Revolução Paulista, 1932  

Salomé Romance e Novela 1940  

Seleta em Prosa e Verso Poesia 1974  

Sob o Signo de Polumnia Crítica, teoria e história literárias 1959  

Soluções Nacionais,  1935  

Suprema Conquista Teatro 1921  

Tesouro de Cavendish: Romance Histórico Brasileiro Crítica, teoria e história literárias 1928  

Toda Nua Romance e Novela   

Viagens de João Peralta e Pé-de- Moleque Literatura Infanto-juvenil





A língua do Nhem — poesia infantil de Cecília Meireles

6 08 2010

 

 

 Ilustração, Maurício de Sousa.
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A língua do Nhem

                                         Cecília Meireles

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Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…

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Em: Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:

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Veja este poema musicado numa animação infantil em homenagem à maturidade, com poesia de Cecília Meireles e música de Dércio Marques.

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Descobrindo a esposa através dos livros — um trecho de Os Diários de Pedra, de Carol Shields

3 08 2010

Homem lendo, 1881

Vincent van Gogh ( Holanda 1853-1890)

técnica mista: aquarela e carvão

Museu Kröller-Müller, Otterlo, Holanda

Uma passagem das mais interessantes do livro Os diários de pedra de Carol Shields, cuja resenha publiquei recentemente aqui mesmo no blog, mostra a descoberta que um homem faz da mulher que o abandonou, subitamente, sem nada dizer.  A cena se passa no Canadá nos anos 20 do século XX.  É simultaneamente delicada, enternecedora, engraçada.  E fala da solidão, da inabilidade de se demonstrar o amor.  Realmente fascinante.

***

Fazia um ano que ela tinha ido embora quando ele resolveu fazer uma faxina na sala – tapete, cadeiras, tirar o pó e botar tudo para arejar, e no fundo da caixa de costura dela ele encontrou quatro livros pequenos.  Livros românticos, ele achava que se chamava esse tipo, livros femininos, com capa de papel macio.  Nove centavos cada um, o preço estava carimbado nas costas: Livraria dos Nove Centavos.  Não sabia ao certo como ela arranjara aqueles livros, mas imaginava que os tinha comprado do caixeiro-viajante judeu, comprado e lido em segredo, como se ele algum dia fosse negar-lhe esse prazer tão insignificante.

Ele mesmo começou a ler aqueles livros nas noites de inverno.  Era melhor do que ficar olhando o relógio, ouvindo o seu tique-taque, ou escutando o gelo caindo dos ramos sobre o telhado.  A essa altura ele tinha instalado um pequeno e potente aquecedor a lenha na sala, para esquentar o ambiente, coisa que a esposa vivia pedindo.  Lia, devagar, pois, verdade seja dita, ele nunca em sua vida tinha lido um livro inteiro, da capa à contracapa.  Achava agradável pensar que conseguia decifrar a maioria das palavras, virando as páginas uma por uma, prestando atenção: Lutar por um coração, de Laura Jean Libby, O que o ouro não compra, por uma tal de Sra. Alexander, À mercê do mundo, por Florence Warden e Jane Eyre, de Charlotte Brontë.  Esse último era o seu predileto; havia episódios na história que lhe traziam à garganta uma sensação doce e dolorosa, e nesses momentos ele sentia a esposa perto, separada por algumas batidas do coração, tão perto que ele quase podia estender a mão e acariciar a carne do interior de suas coxas.  Ficava pasmo com a quantidade de pessoas que recheavam aqueles livros.  Cada um era um mundinho, povoado e mobiliado.  E como falava aquela gente dos livros!  Falar, falar, viviam pela língua.  Muito do que diziam era tolice, mas também razoável.  Falar afastava a raiva.  As palavras eram trocadas como se troca dinheiro por mercadoria.  Algumas das frases pareciam poemas, nada do jeito como as pessoas falam na realidade, mas mesmo assim ele as pronunciava em voz alta e as decorava, de modo que, se por algum acaso a esposa resolvesse voltar para casa e retomar o seu lugar, ele estaria pronto.  Se essa bobagem de falar difícil era a maior necessidade dela, ele estaria preparado para satisfazê-la – um vulcão de palavras cheias de doçura e sentimento.  Ó lindos olhos, Ó rosto precioso, Ó pele mais bela.  Ou frases que falavam de coração transbordante, desejo crescendo no peito, súbitas centelhas de um corpo acolhendo outro, ou mesmo a simples declaração de amor: Eu te amo, sussurrou ao ouvido expectante dela.  Adoro-te por inteiro.

Ou, se essas declarações lhe fossem demasiado difíceis, como suspeitava que seriam, iria simplesmente olhá-la nos olhos e pronunciar o nome dela: Clarentine.  Falando a princípio com delicadeza, como se faz para acalmar uma criança arisca, forçando a voz a permanecer suave, falando diretamente para aquele rosto que pertencia para sempre ao Clube Feminino de Ritmo e Movimento mas não a ele, aquele rosto querido e imóvel.  Clarentine.  Clarentine.

Em:  Os diários de pedra, Carol Shields,  tradução de Eliana Sabino, Rio de Janeiro, Editora Record: 1996, páginas 111 e 112.

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NOTA:  Todas as autoras mencionadas nesse texto existiram de verdade.





Fal Azevedo assombra em Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite

24 06 2010

Vaso com flores, 1988

Fang (China/Brasil, 1931)

gravura, 48 x 58 cm

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Tenho um fraco por esculturas.  Num seminário em história da arte, há muitos anos, escrevi um artigo sobre o uso do espaço vazio, do vão, digamos assim, como parte vibrante das esculturas de Henry Moore e Giacometti: no trabalho de ambos e de maneiras diferentes, o que não está presente, o buraco (em Henry Moore) ou o espaço à volta (em Giacometti)  tem uma função tão grande, tão intensa que faz parte da escultura que vemos, que analisamos, com o mesmo peso que as formas do bronze que nos fascinam.  Este é o vazio positivo, sentido mas não visto, que conta com o ausente, tanto quanto com o que está exposto.  Pensei nesse artigo, enquanto lia o romance de Fal Azevedo, Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Rocco: 2008.  Nele, o que não é dito, conta.  Fala.  Nos move e comove.  A eloquência desses pequenos silêncios  pode ser vista no minúsculo parágrafo, que cito aqui por inteiro:

O gato amarelo veio fumar comigo.  Ele morde meu dedão, charmosa tentativa de me convencer de ir até a cozinha.  A coisa mais fofa nesse gato é que, quando eu choro, ele apoia a  pata no meu rosto.  Como agora.”

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O texto segue, com outro assunto, com outro momento.

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Quantas vezes ela precisou chorar para perceber esse comportamento do gato?  Por que chorava?   O conforto de um gato seria o único conforto dado à autora dessas frases?   Não sabemos, não nos é explicado.  Passamos rapidamente para o assunto seguinte.  A vida é curta.  Há muito acontecendo.  O peso do passado também assombra.  No entanto, o sofrimento implicado pelo texto fala alto.  E nos cala.  Fal Azevedo trabalha com a elipse, a omissão do sentimento retratado,  assim como Henry Moore trabalhava com um buraco no meio do corpo de uma mulher reclinada.   Tanto em um como no outro, cabe ao leitor/observador fazer a conexão, participando ativamente do encontro.   Envolvendo-se.   O resultado sedutor, mostra um texto, que carregado de tristeza, consegue ser leve, irônico e muito, muito agradável.

Figura reclinada, década de 1980

Henry Moore ( Grã-Bretanha 1898-1976)

Litografia

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Presenciamos nesse romance a chegada de Alma, personagem principal, à segunda metade de sua vida.  Aos 44 anos, já viveu muitas vidas e mortes.  Homeopaticamente conhecemos um pouco destes eventos através de lembranças doloridas, de cicatrizes mal curadas.  Tudo é passado a limpo: as dezenas de passados, as dúzias de vidas.  Alma escrupulosamente exorciza seus fantasmas e nos lembra dos nossos.  É impossível não ter empatia.  É impossível ignorarmos a nós mesmos.  O que lhe vem à mente, chega em pequenos parágrafos, camafeus de potencialidades perdidas, nódoas de sofrimento físico e emocional do passado que ajudam a caracterizar o dia a dia de um tempo mais atual, que também presenciamos.  Estes são quase entradas em um diário, que têm, como pano de fundo, o passado.  O estilo é sucinto.  Twitter sucinto.  A cada parágrafo um tempo, uma realidade.  E sempre, sempre a angústia das vidas vividas.  O medo.  A dor.  A consciência da solidão.  

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 De grande auxílio é o formato do texto: intercala o tempo mais contemporâneo com as lembranças do passado, em diferentes parágrafos.  Cada qual tem sua própria aparência gráfica, o que facilita o entendimento da trama.  Este artifício simplifica e esclarece também um quase fluxo de consciência que nos permite conhecer Alma intimamente.   Conhecemos os eventos.  Imaginamos as emoções.

Apesar da tristeza latente, das dores auto-geradas e das auto-impostas, das frustrações e  sofrimentos dessa mulher, uma artista plástica em busca de uma identidade profissional, esse romance é repleto de otimismo, de gosto pela vida e de humor.  Oferece então, ao leitor,  uma válvula de escape e um ponto de apoio nas lutas diárias pela sobrevivência física e emocional.  Sem ser piegas, sem ser auto-ajuda essa história nos força a refletir sobre a nossa própria existência e nas ramificações dos nossos atos.  

  

Fal Azevedo

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Eu poderia continuar nesse tópico por muito tempo.  De especial ironia são as cenas e os pensamentos na galeria de arte.  Tão real…  Mas quem não gostaria de ter os amigos de Alma como amigos?  E de receber emails tão precisamente relevantes quanto ela?  Tão irônicos e concisos?  E quem não gostaria de ter como vizinho um Seu Lurdiano, que como um anjo da guarda, alimenta sua amiga com comida do corpo e da alma?  Quem não gostaria de um amigo com quem se pode ficar calado por algumas horas na mais perfeita intimidade?

Mas nenhum desses amigos, nenhum desses emails, se os tivéssemos, nada,  conseguiria dar ao leitor o prazer desse texto e os parâmetros para a auto-reflexão que esse livro consegue gerar.  Aqui fica a sincera recomendação para a leitura desse pequeno mundo mágico de Alma.  Um dos melhores livros que li em 2010 e certamente um dos mais interessantes livros que li de autor brasileiro há muito, muito tempo.  Não percam.





O sol é para todos, romance de Harper Lee faz 50 anos de popularidade!

17 06 2010

O problema com que todos nós vivemos, 1964

Norman Rockwell ( EUA, 1894-1978)

óleo sobre tela

[Para a revista LOOK de 14-01- 1964]

Old Corner House Collection, Stockbird, Massachusetts

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Na Inglaterra o livro O sol é para todos, [To kill a mocking bird] da escritora  Harper Lee, é um dos livros mais populares ficando em quinto lugar na preferência do público, abaixo  de Orgulho e preconceito [ Pride and Prejudice] mas acima da Bíblia, um fato intrigante considerando-se que o romance foi publicado há exatamente 50 anos, que se passa no sul dos Estados Unidos na época da Depressão.  O enredo se desenrola na cidade fictícia de Maycomb  e um dos temas centrais trata da discriminação racial, discriminação de classe e a procura da justiça para um inocente.  Levando isso em consideração li o artigo que a BBC publicou ontem, justamente analisando essa popularidade, que não é justificada só por ser um livro adotado em muitas escolas.  Ao que tudo indica sua popularidade ultrapassa gerações.  Seus fãs tanto os jovens e quanto seus pais, o consideram uma leitura inigualável.  Além disso, as bibliotecárias entrevistadas nessa mesma enquete do World Book Day admitiram ser O sol é para todos o livro que mais indicavam. 

A narrativa é feita por uma adolescente.  Ou talvez, por uma pessoa idosa lembrando-se de sua adolescência.  O adolescente como narrador tem um longa e forte tradição na literatura americana, cujo principal propulsor dessa voz foi conquistado por  Huckleberry Finn, no livro As aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain.  Em O sol é para todos, Scout, é a filha de um advogado que defende um homem negro da acusação de estupro de uma menina branca, e é através de seus olhos que entendemos a sociedade que a cerca.    Este é de fato um livro sobre justiça, cheio de esperança, de valores morais universais, que não têm nem idade, nem país de origem.  E que todos nós, adultos, jovens ou crianças almejamos.  É um livro de alto astral.  E é, também,  onde aprendemos a tentar ver a realidade através dos olhos de outrem; de andar nos seus passos, de conhecer o seu caminho.  São experiências e atitudes universais que nos mostram a nossa própria humanidade. 

E você?  Já leu O sol é para todos?