Quadrinha do outono

12 03 2012

Outono, ilustração de Hergé.

Vem o outono as folhas caem,

sopra o vento devagar.

Ilusões nunca se esvaem

ficam no mesmo lugar.

(Therezinha Radetic)





O leão e o ratinho – fábula, texto de Monteiro Lobato

12 03 2012

Ilustração, assinatura ilegível.

O leão e o ratinho

Monteiro Lobato

Ao sair do buraco viu-se um ratinho entre as patas de um leão.  Estacou, de pelos em pé, paralisado pelo terror.  O leão, porém, não lhe fez mal nenhum.

— Segue em paz, ratinho; não tenhas medo do teu rei.

Dias depois o leão caiu numa rede.  Urrou desesperadamente, debateu-se, mas quanto mais se agitava mais preso no laço ficava.

Atraído pelos urros, apareceu o ratinho.

— Amor com amor se paga – disse ele lá consigo e pôs-se a roer as cordas.  Num instante conseguiu romper uma das malhas.  E como a rede era das tais que rompida a primeira malha as outras se afrouxam, pode o leão deslindar-se e fugir.

Mais vale paciência pequenina do que arrancos de leão.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

———————————-

Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

——————————





Palavras para lembrar — Cervantes

11 03 2012

O vestido azul, 2006

Helena De Groot (Holanda, contemporânea)

óleo sobre madeira, 65 x 45 cm

www.helenadegroot.com

“Ver muito e ler muito aviva o engenho do homem.”

Cervantes





Palavras para lembrar — provérbio chinês

10 03 2012

Nu lendo, s/d

Theodor Pallady ( Romênia, 1871-1956)

óleo sobre tela

“Ler um livro pela primeira vez é fazer um novo amigo, ler um livro pela segunda vez é se encontrar com um velho amigo”.

Provérbio chinês





Palavras para lembrar — Jeremy Collier

6 03 2012

Alexandre lendo um livro, 1946

Zinaida Serebriacova ( Ucrânia, 1884- Paris, 1967)

óleo sobre tela

“Um homem pode muito bem esperar ficar mais forte por sempre comer e mais sábio por sempre ler”.

Jeremy Collier





A guerra das mulheres — lenda Ioruba

13 02 2012

Homem Ioruba em trajes tradicionais.

A guerra das mulheres

Nos velhos tempos, na cidade de Ilesa, antes das guerras entre os reinos, havia mulheres governantes assim como homens.  Uma geração se sucedia a outra em paz.  Às vezes as mulheres reinavam, às vezes os homens.  Até que houve uma governante em Ilesa, chamada Aderemi.

Um dia, durante o seu governo, um exército de guerreiros de outro reino, tentou invadir Ilesa.  Essa era a primeira vez que a cidade tinha que se defender para sobreviver.  Por isso mesmo não havia procedimentos a serem seguidos para proteger a cidade.  Não havia tradição.  Ninguém podia dizer: “Oba Tal lutou dessa maneira”, ou “Oba Fulano-de-Tal lutou daquela maneira”.  Aderemi juntou seus conselheiros. Alguns eram homens e alguns eram mulheres.  Eles confabularam.   Arguiram sobre a melhor maneira de se livrarem dos inimigos.  Os conselheiros homens disseram que os guerreiros homens deveriam se munir de lanças e escudos, cajados, arcos e flechas e ir à luta.  Mas as conselheiras tinham outras ideias e sugeriram que as melhores armas seriam os pilões, longos com que batiam nos grãos para preparar a comida.  Elas também favoreciam o uso de ovos, porque estes continham o poder de neutralizar os poderes dos inimigos, e assim, ovos deveriam ser usados.  A discussão entre os conselheiros foi esquentada, mas finalmente Aderemi declarou que as conselheiras haviam ganho.

Os conselheiros homens perguntaram: “Que guerreiro vai para o campo de batalha munido de pilão e ovos?

Aderemi respondeu indignada, “ Muito bem, então os homens ficam na cidade e fazem as tarefas daqui.  Enquanto isso as mulheres vão defender Ilesa.

Ela mandou as mulheres pegarem as armas e se prepararem para a luta.  Elas tiraram seus longos pilões das cumbucas, apertaram as roupas e se pintaram seus rostos para guerra.  Cada mulher segurou um ovo na mão esquerda e juntas foram para frente da casa de Aderemi.

A líder lembrou-as que deveriam ter coragem dizendo: “Vão e encontrem o inimigo. Joguem os ovos na frente deles para combater seus poderes. Ataquem e faça com que eles fujam, sem piedade para o lugar de onde vieram, para que eles nunca voltem a atacar a cidade de Ilesa.”

No entanto, os homens continuaram a reclamar dizendo, “não é assim que se faz isso.”

Aderemi respondeu ríspida, “guardem para si, os seus conselhos.”

As guerreiras saíram com os pilões nas mãos direitas e os ovos nas esquerdas. Acharam o inimigo.  Os inimigos riram quando viram as guerreiras vindo com pilões e ovos para defender Ilesa.  E gritaram, “não há homens nessa cidade?  Voltem.  Não viemos à procura de esposas, essas nós já temos em casa.”

As mulheres de Ilesa ouviram o insulto e jogaram seus ovos em direção aos invasores dizendo, “assim como os seus poderes se tornam estéreis, também vocês ficarão sem poderes.”  E elas correram a atacar com seus pilões.  Mas os inimigos se protegeram com os escudos, e lutaram de volta com cajados, lanças, arcos e flechas.  Muitas mulheres de Ilesa morreram no campo de batalha.  As outras deram para trás.  Daí, os inimigos atacaram e as mulheres fugiram para a cidade.  Chegando lá,  elas entraram em casa e se desfizeram dos pilões.

Os homens de Ilesa viram tudo o que aconteceu.  Foram até Aderemi e disseram, “isso é demais para você. Nos tempos de paz você reinou bem.  Mas agora, que a guerra veio, você tentou moer o inimigo como se fosse milho puro e simples.  Essa é a natureza das mulheres.  Assim, não podemos mais ter uma governante mulher em Ilesa.  Daqui por diante, Ilesa deve ter um chefe guerreiro como governante.” Os homens se reuniram em um conselho e selecionaram um homem para ser Oba da cidade e das terras à sua volta.

Sob orientação do novo Oba, os homens munidos de lanças, escudos, facas, cajados e arcos e flechas, saíram da cidade cantando seus gritos de guerra, e atacaram o inimigo.  Fizeram-no voltar atrás, eliminando o inimigo de sua terra.  Os inimigos ficaram confusos e se desorganizaram.  A batalha continuou até que o único inimigo à vista eram os corpos caídos no chão.  Depois disso, os guerreiros Ilesa foram para casa.  Disseram, “foi feito.”

Os  guerreiros voltaram a dizer que daí por diante Ilesa só teria homens como governantes.  Disseram, “Obatala fez todos humanos e os amou igualmente.  No entanto, cada pessoa tem habilidades para coisas específicas.  Mulheres têm autoridade sobre pilões e ovos.  Essa é a natureza delas.  Os homens são bons para  defenderem suas casas.  Vamos respeitar as nossas diferenças.”

Desde então só homens governaram Ilesa e só eles entram em guerra enfrentando inimigos.

***

Tradução e adaptação: Ladyce West

Em: Tales of Yoruba Gods and Heroes: myths, legends and heroic tales of the Yoruba people of West Africa, Harold Courtlander, New York, Fawcett Premier Book: 1974.





Quadrinha sobre a poesia

6 02 2012

A verdadeira Poesia

não se prende a nenhum laço:

na tristeza, ou na alegria,

ela ocupa o mesmo espaço…

(Moysés Augusto Torres)





O veado na fonte, fábula de Loqman

10 01 2012

O veado na fonte

Loqman *

Um veado sedento veio a uma fonte para beber, mas quando percebeu sua imagem refletida na água, sentiu-se tomado de melancolia por causa da magreza de seus pés, mas, por outro lado, orgulhava-se da beleza e da grandeza de seus cornos.  Pouco depois, os caçadores puseram-se em sua perseguição.  Enquanto fugia pelas planícies não puderam nada contra ele, mas quando atingiu a floresta da montanha, sua corrida foi retardada por seus cornos que se embaraçavam entre as moitas e os galhos.  Os caçadores então se apoderaram dele sem dificuldade e mataram-no.  Mas antes de exalar o último suspiro o veado gritou:

— Coitado de mim que subestimei o que me salvou a vida e só tive elogios para o que me causou a morte.

Em: Contos Árabes, Jamil Almansur Haddad, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: s/d

—-

* Loqman – [também conhecido como Loqman, o sábio] – foi um fabulista muitas vezes confundido com Esopo.  Muitas vezes suas fábulas também apareceram como sendo de Esopo.  A primeira tradução de suas fábulas para a Europa foi feita por Erpenius em 1615.





Canção, poema de Onestaldo de Pennafort

4 01 2012

Mulher e flores, s/d

Antonio Rocco ( Itália, 1880- Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 76 x 50 cm

Canção

Onestaldo de Pennafort

Quando murmuro teu nome,
a minha voz se consome
em ternura e adoração.


Quando teus olhos me olham,
parece eu se desfolham
as rosas de algum jardim

Ó meu amor, se é preciso
eu direi que o teu sorriso
é doce como um olhar.

Mas é preciso que eu diga,
ó minha suave amiga,
isso que sinto e tu vês,

mas é preciso que eu diga?

Onestaldo de Pennafort Caldas (RJ-1902- 1987) jornalista, ensaísta, tradutor e funcionário público. Escreveu para diversos periódicos brasileiros, tais como Fon-Fon, Careta, Autores e Livros, Para Todos e O Malho.  Faleceu no Rio de Janeiro, sua cidade natal, em 1987.

Obras

Escombros Floridos, 1921, poesia

Perfume e outros poemas, 1924, poesia

Interior e outros poemas, 1927, poesia

Espelho d’ Água: Jogos da Noite, 1931, poesia

Nuvens da tarde, 1954, poesia

Um rei da valsa, 1958, música

O festim, a dança e a degolação, 1960, crítica literária

Romanceiro, 1981, poesia

Além de traduções do inglês e do francês.





Por que escrevo resenhas de livros?

14 11 2011

Biblioteca, François Schuiten (Bélgica, 1956).

Desde que comecei a escrever resenhas de livros, muito antes de ter um blog, houve a pergunta do por quê?  Recentemente, uma amiga depois de ler uma de minhas resenhas acabou me dando a oportunidade, através de suas perguntas, de esclarecer, até para mim mesma, a preocupação que tenho em escrevê-las.  Há diversas razões, mas é em essência para fechar aquela experiência de leitura.  Como se com ela eu pudesse colocar um ponto final naquela experiência.

Não me lembro de uma vida sem livros. Fui alfabetizada muito cedo, tão cedo que me faltam memórias dessa época. Foi um pouquinho antes dos cinco anos de idade.  A minha alfabetização foi tema, como única criança na família, antes de irmãos e primos nascerem, de um projeto de minha tia, irmã mais moça de mamãe, no último ano da faculdade.  Quando tia Neyde um dia me mostrou o trabalho dela de faculdade, os meus desenhos durante o processo didático no início da minha alfabetização, fiquei pasma.  Não me lembrava.  Para ser precisa, não me lembro de uma época em que eu não estivesse com alguma coisa para ler nas mãos.  Revistinhas e livrinhos foram brinquedos tão queridos quanto o cachorro de pelúcia Tupi, o patinho de madeira com rodas, e mais tarde a minha bicicleta.  Tinha bonecas, mas elas nunca foram o meu forte: “davam muito trabalho”, eu respondia quando interrogada.

Os livros também foram, como o piano, os grandes companheiros de uma adolescência difícil, irritadiça, cheia de altos e baixos emocionais, de gastrite nervosa, calmantes e de muitas brigas familiares.  Receio que, na época, eu não tenha entendido as boas intenções de meus pais, mas eles tampouco não conseguiam entender minha sede de liberdade e minha necessidade de testar limites. Mutuamente desapontados, sobraram-me os livros como os grandes amigos, minha válvula de escape, meu mundo único, inatingível.  Contribuiu para esse cenário meus pais serem, ambos, professores: minha mãe formada em neo-latinas, lia muito, principalmente em espanhol;  papai, químico industrial e professor de química e física também estava sempre às voltas com livros.  Na nossa família livros poderiam ser encontrados em qualquer lugar da casa.

Jovem escrevendo carta, Diane Ursin (EUA, contemp.) acrílica sobre tela.

Aos nove anos de idade, ganhei de minha avó um livro em branco, de capa dura com a palavra Poesias impressa em dourado. Pus-me imediatamente a copiar poemas dados na escola, a copiar, da antologia de leitura em que estudava, as poesias de que mais gostava, e a recolher, desse jeito, um vasto arsenal de versinhos, rimas, poemas, poesias, sonetos variados.  Tenho esse livro até hoje, apesar de ter sido abandonado ao longo do tempo, ainda com páginas em branco a serem preenchidas.  Ao longo dos anos fui aprendendo a pensar sobre aquilo que lia, e um dia comecei dois cadernos diferentes de anotações: ambos com capas duras [que demonstram que durarão para sempre], mas poderiam ter sido qualquer tipo de caderno, a diferença fazia com que eu pensasse que eles eram “mais sérios”.  Em um deles eu copiava um trecho de leitura que tivesse achado importante, sedutor, significativo.  No outro eu anotava o título do que lia, o autor, a editora, e adicionava palavras que me lembrassem do conteúdo e principalmente os motivos da nota que eu dava abaixo, que variava de1 a 5.   Ambos ainda existem, apesar de não serem mais funcionais.  Vem daí, tenho certeza, a idéia de escrever as resenhas.

Ler é uma atividade singular.  Fazemos a leitura sozinhos.  Mas há uma vontade enorme de conversarmos com alguém sobre aquilo que lemos, não é mesmo?  Confirmar que percebemos o que estava lá naquele outro mundo. Dividir essa experiência de leitura faz parte das motivações para que eu escreva uma resenha.  Resenhas me ajudam a pensar sobre o que li.  E, se imagino que há uma audiência, qualquer que ela seja —  para mim é uma coisa mais ou menos abstrata — aí sim, me coloco com a incumbência de fazer a resenha clara, inteligível.  Gosto mais de escrever do que de conversar.  Sempre gostei mais.  A razão é simples: tenho mais controle, não sou interrompida, posso editar, não me distraio, posso escolher o tom, selecionar o vocabulário e com isso me aproximar ou me distanciar do que estou pensando. Tenho que pensar antes de dar uma opinião: é por isso que escrevo.  –

Desconheço a autoria dessa gravura.

Na leitura levei horas, dias, com um autor, com sua história, com sua maneira de pensar.  O autor pede e o leitor se entrega.  Sim, ler é um ato de entrega.  Eu me entrego a uma certa narrativa, a um certo ritmo, ao tema, à escolha das palavras de outrem.  Concordando ou não sigo sua direção, confiando que irá me levar a um desenlace.  A resenha é a minha hora de guiar, de levar avante, de fazer o caldo final.  A relevância da leitura está nas minhas mãos.  Ela é minha, só minha.  Cada texto é  importante para o leitor por diferentes motivos.  Penso então em como e por que razão levei a leitura até o final.  Tenho, afinal, que honrar esse investimento do tempo em que eu e o escritor passamos juntos. Diferente de um filme que pode levar de 90 a 120 minutos,  um livro provoca um relacionamento prolongado, mais íntimo, até mesmo físico: consideremos o peso de um volume, o tamanho de suas páginas.  Às vezes o livro se torna desconfortável para segurar, para abraçar, para  manusear. Seu peso pode ser uma experiência desagradável porque não podemos levá-lo para cama, colocá-lo na bolsa,  lê-lo no ônibus.  Se vou até o fim de um livro tenho que pensar nos motivos que me levaram até fim.  É a minha hora de dizer se a troca entre essas duas pessoas: escritor/leitor foi relevante, se teve valor para mim.  Ah, sim, devo dizer que não tenho pena de abandonar livros no meio.  Às vezes não é a hora de lermos sobre um assunto, e  às vezes não dá mesmo, não conseguimos ter empatia com aquele escritor.  Há muito mais livros a serem lidos em uma vida do que os dias e horas que nos restam.  Este não é um mau presságio. É uma realidade.  Não é possível ler tudo que já foi publicado.  Por que então investir num relacionamento com um autor que sentimos não será significante?

Não faço resenhas de todos os livros que leio.  Não escrevo sobre os livros de que não gosto.  Às vezes faço anotações das razões que me levaram a abandonar um livro: umas poucas frases, para que eu me lembre.  Mas não vou gastar tempo e energia escrevendo um monte de coisas horríveis sobre um livro.  Para quê?  Para quem?  A minha experiência não é a mesma de outras pessoas. É só mais uma.  Anos atrás, quando eu ainda morava fora, fui convidada para fazer resenhas para um jornal americano.  A mim, couberam romances em tradução para o inglês, porque na época eu trabalhava nesse ramo.  Foi gratificante saber que as minhas opiniões eram lidas, aplaudidas, mas também muitas vezes não muito bem acatadas por pessoas que não me conheciam.  Isso me deu uma visão muito diferente do que é a resenha profissional.  Essa experiência, além de me trazer uns trocados, me ensinou a ter disciplina, a escrever só um certo número de palavras, nem mais nem menos [que não é o caso nesse ensaio]. Ela me ensinou também que o que é publicado num jornal tem longo alcance.

Todos esses parágrafos foram para justificar o hábito das resenhas.  Esse hábito é o do simples pensar.  Procuro responder às perguntas: Gostei?  O que me levou a gostar?  E como ou porque isso é relevante na minha experiência?  Quando consigo responder a essas perguntas de maneira que faça sentido para mim, estou pronta para dizer adeus ao companheiro de viagem em que o livro se tornou.  E provavelmente, para dizer um até logo, ao autor que me proporcionou momentos intrigantes. Sim, é com a resenha que concluo o processo de leitura.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011