Mais antigo manuscrito com os Dez Mandamentos em Nova York

17 12 2011

O manuscrito mais antigo e conservado com as mensagens dos Dez Mandamentos que, segundo a fé judaica, Moisés recebeu no Monte Sinai, será exposto a partir desta sexta-feira no Museu Discovery de Nova York.

Escrito em hebraico, o pergaminho de mais de 2 mil anos possui aproximadamente 45 cm de comprimento por 7 cm de largura e faz parte da mostra mais ampla sobre os manuscritos do Mar Morto, que inclui mais de 500 artefatos cedidos pela Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA, na sigla em inglês). O documento foi descoberto em 1954 e, segundo o Museu Discovery, faz parte de uma coleção de mais de 900 peças encontradas ao longo dos anos 40 e 50 em uma gruta de Qumran, região situada próxima ao Mar Morto.

Os manuscritos, também escritos em aramaico e grego, além de hebraico, são os documentos mais antigos encontrados sobre a vida na Judéia. Segundo o museu nova-iorquino, “os Dez Mandamentos são as regras que constituem os pilares da moralidade e da lei do mundo ocidental”, destacando que o texto reúne e define como os homens e as mulheres devem trabalhar e viverem juntos sob sua fé em uma sociedade civil“.

Essa é a primeira vez que esse pergaminho será exposto em Nova York.  A peça, que contém fragmentos do Deuteronômio, está datada entre os anos 50 e 1 a.C. e é um dos dois únicos manuscritos antigos com os Dez Mandamentos que conhecemos atualmente. O pergaminho contém o texto de Deuteronômio 5, o quinto livro do Antigo Testamento, onde Moisés explica a aliança do Deus israelitas com o seu povo, lembrando os mandamentos de Deus à geração mais jovem, que estava para entrar na terra prometida.

Não obstante a sua idade, o Museu Discovery confirmou que o estado de conservação do manuscrito é “excepcional“, apesar de ser feito com um material tão frágil como a pele de um animal, ou seja, muito vulnerável à umidade, à luz e às variações de temperatura.  O período da exposição —  15 dias —  é um dos mais longos já permitidos pela Autoridade de Antiguidades de Israel que propiciou esta mostra fora de Israel por causa da importância universal desses rolos de sua fragilidade e idade.  Os Dez Mandamentos são importantes para as três religiões monoteístas do Ocidente:  o judaísmo, o cristianismo e o Islã.  Imediatamente após a exposição, o livro será devolvido para Israel .

O outro manuscrito, conhecido como o Papiro Nash, está armazenado na Universidade de Cambridge. Apesar de estar fragmentado, a peça é datada entre o ano 150 e 100 a.C. A identidade do escriba ainda permanece desconhecida, embora a instituição nova-iorquina tenha afirmado que muitos especialistas acreditem que todos os manuscritos do Mar Morto tenham sido escritos por integrantes de uma seita que se distanciou do Judaísmo e viveu no deserto de Israel do século III a.C. até o ano 68 d.C. antes de os romanos destruírem aquela comunidade.

Descoberto perto de Khirbet, Qumran, o rolo com os Dez Mandamentos está entre os antigos tesouros escritos conhecidos como Manuscritos do Mar Morto, que foram encontrados por pastores beduínos inicialmente entre 1947 e 1956 em uma série de cavernas perto da costa noroeste da Mar Morto.  Cerca de 900 manuscritos teriam sido encontrados em cavernas. Feitos com pele animal, o manuscrito com os Dez Mandamentos, em pergaminho, mede 18 centímetros de comprimento por 3 cm de altura e é escrito em hebraico.

Além dos rolos com os Dez Mandamentos, a exposição incluirá mais de 500 artefatos da era bíblica até o período Bizantino em Israel. Os artefatos e pergaminhos proporcionam “um olhar cativante e intrigante em um dos períodos mais influentes da história, quando surgiu o judaísmo, o domínio do Império Romano caiu, e as sementes do cristianismo surgiram,” disse Kristin Romney, consultor curador da exposição.  Objetos nunca antes vistos, incluindo mosaicos, esculturas em pedra, e utensílios domésticos, tais como jóias e cerâmica.

O pergaminho dos Dez Mandamentos poderá ser visto até o próximo dia 2 de janeiro, enquanto o resto da exposição, que foi inaugurada 28 de outubro, permanecerá aberta até o dia 15 de abril de 2012.

FONTES: Terra e Christian Post





5 de dezembro, dia de Krampus. Quem é aquela figura estranha ao lado de Papai Noel?

5 12 2011

Krampus moderno, art digital.

Se você ainda não ouviu falar no Krampus, não se preocupe, poucas pessoas o conhecem.  Mas quem o conhece, não esquece.  O Krampus [grafia alemã] é um ser mítico, fantástico  — definitivamente um ser do Mal —  muito conhecido das populações das aldeias e  cidadezinhas dos Alpes.  Ele também habita a imaginação européia através do folclore na Áustria, Alemanha, Alsácia,  Suíça, Eslovênia, e demais áreas  das montanhas alpinas.  Faz parte da cultura local desde tempos imemoriais.  Apesar de muito antigo e limitado geograficamente aos Alpes, sua influência afeta alguns costumes natalinos de outras terras, até hoje.

De acordo com as lendas, Krampus começa as festividades do Natal na noite do dia 5 de dezembro.  Ele é um companheiro de São Nicolau, ou como dizemos por aqui, de Papai Noel.  Ele é o contraponto ao Papai Noel, e ao invés de dar presentes às criancinhas das aldeias, Krampus invade as casas das pessoas e retira delas as crianças que foram más, que mentiram, que fizeram pirraça…  E ele as leva.  Nada de presentes para crianças más…

Cartão de Natal com as representações de Krampus e São Nicolau, século XX, década de 20-30.

Krampus não é nada mais nada menos do que a inserção nas festividades natalinas de um demônio bastante conhecido nessas regiões e já temido por todos, que foi incorporado pelo cristianismo.  Ele aparece lado a lado com o mais bondoso dos santos, aquele que distribui presentes às crianças.  Assim, ajuda a equilibrar as forças do bem e do mal, servindo como um freio social, como um lembrete de que  as  crianças precisam ser boazinhas e comportadas para ganharem presentes de Natal: presentes não vêm automaticamente .  Foi uma maneira inteligente de manter em cheque as crenças pagãs que teimavam em ressucitar.   Já no século IV da nossa era, o Papa Gregório, havia aconselhado Santo Agostinho a permitir que esse personagem pagão fosse incorporado às festividades desde que fosse rebatizado.  Krampus é o novo nome dessa entidade: Percht ou Perchta.  Bartl,  Ruprecht, Knecht Ruprecht, são alguns dos muitos outros nomes de Krampus.

Krampus e São Nicolau.

Perchta era uma deusa pagã da região alpina, que aparece em duas formas: ou sedutora belíssima, branca como a neve, ou como um demônio em trapos.  A ela cabia a vigilância dos animais no início do inverno e a visita às casas para se certificar de que a fiação da lã estava sendo feita corretamente.  Seu dia festivo era o dia 6 de janeiro e sua festa foi incorporad às festas da Epifania no calendário cristão.

São Nicolau acompanhado por Krampus, cartão postal 1901.

Até hoje, tradicionalmente, jovens rapazes das regiões Alpinas se vestem como Krampus – principalmente na cidade que é centro de comércio na Bavária, chamada Berchtesgaden, e desfilam acompanhando São Nicolau, durante as primeiras duas semanas de dezembro.

Procissão de São Nicolau acompanhado de seus ajudantes Krampus.  Região alpina da Alemanha.

Até 1969, quando a Igreja Católica Apostólica Romana retirou do seu calendário oficial a Festa de São Nicolau, celebrada no dia 6 de dezembro, grande ênfase dessa procissão e das travessuras feitas pelos rapazes vestidos de Krampus, era dada à noite do dia 5 de dezembro, véspera do dia da festa em que trocava-se presentes na região.

São Nicolau chega à cidade acompanhado de Krampus, cartão de Natal da Bavária.

Os rapazes reproduziam o que todos sabiam que Krampus fazia:  andavam sem objetivo nas ruas, alarmando as crianças, colocando medo naquelas que haviam se comportado mal e arrastavam pesadas correntes de ferro aumentando a algazarra.  A imagem de Krampus é aquele ser com uma longa língua vermelha, coberto de pelos, carrega correntes e tem na mão um freixo de galhos de madeira com o qual ameaça as crianças que se comportam mal ou que não sabem suas lições.

Krampus levando as crianças embora.

Na Áustria, Krampus pode mais comumente  ter chifres e cascos de cabra no lugar dos pés.  Sua aparência é a de um diabo, como é representado mais comumente.   Foi só no final do século XIX, por volta de 1890 que sua imagem começou a aparecer nos cartões de Natal acompanhando São Nicolau.   Aparecia frequentemente com os dizeres “Gruss vom Krampus” [Saudações de Krampus] ou com a frase “Brav Sein!” [Comporte-se!].

Menino ameaçado por Krampus.

No final do século XIX a popularidade de Krampus era grande e passou a fazer suas aparições também ao norte da Alemanha.

Krampus com as crianças.

Krampus estava sempre pronto a punir as crianças que não se comportavam.  E evidentemente colocava-as em fila e as levava para algum lugar.  Ainda não consegui descobrir para onde iam.

Visitas: São Nicolau e Krampus.  As crianças parecem apavoradas!

Saudações de Nicolau!

Krampus, São Nicolau, crianças e gatinho.

As visitas que Krampus fazia às casas das pessoas para verificar quem era bom e quem não era, não só fizeram algum sucesso nas artes gráficas como também, devidamente digeridas, sanitarizadas e embelezadas vieram a fazer parte do panorama cultural dos Estados Unidos, terra que acolheu imigrantes de todo o mundo cada qual com suas tradições e hábitos culturais.  O resultado são referências a tradições de outros lugares do mundo, no dia a dia americano.  No caso da celebração do Natal há uma evidente correspondência entre outros aspectos ao da letra de uma das músicas mais conhecidas de Natal, nos EUA: Santa Claus is coming to town. [Papai Noel está chegando].  Vejamos se não é uma referência a dupla alpina que ocupa as nossas atenções hoje?

You better watch out                                                  
You better not cry   
Better not pout 
I’m telling you why
Santa Claus is coming to town 
He’s making a list 
And checking it twice;   
Gonna find out Who’s naughty and nice 
Santa Claus is coming to town     
He sees you when you’re sleeping  
He knows when you’re awake 
He knows if you’ve been bad or good  
So be good for goodness sake! 
O! You better watch out!
You better not cry
Better not pout   
I’m telling you why
Santa Claus is coming to town 
Santa Claus is coming to town
——

É melhor tomar cuidado
É melhor você não chorar
Melhor não emburrar
Estou dizendo porque
Papai Noel está vindo para cá
Ele está fazendo uma lista
E verificando-a duas vezes;
Vou descobrir quem é levado e quem não é
Papai Noel está vindo para a cidade
Ele vê quando você está dormindo
Ele sabe quando  está acordado
Ele sabe se você foi mau ou bom
Então, seja bom pelo amor de Deus!
O! É melhor tomar cuidado!
É melhor você não chorar
Melhor não emburrar
Estou dizendo porque
Papai Noel está vindo para a cidade
Papai Noel está vindo para a cidade .

Não tenho mais informações sobre Krampus além de saber que  depois de quase desaparecer, voltou a ser invocado e a fazer suas trapalhadas na mesma região em que nasceu.  Krampus é hoje em dia um dos personagens que gera festas, eventos, e todo tipo de manifestação cultural na Áustria, na Bavária, na região alpina.

A seguir outras imagens de Krampus encontradas em cartões ou em postais de Natal.

São Nicolau e Krampus.

Menina implorando a Krampus.

Krampus entra em casa um pouquinho à frente de São Nicola…

Menina com boneco de Krampus na mão.

Papai Noel com boneco Krampus nas mãos.

Obra digital século XXI, Krampus no jardim, São Nicolau na casa.




12 de outubro — Descobrimento da América

12 10 2011

Gravura do Descobrimento da América por Cristóvão Colombo.  Autor desconhecido.




Helene Hegemann, Max Ernst e o inconsciente coletivo

25 09 2011

Max Ernst (Alemanha, 1891-1976), Prancha do romance Une semaine de bonté, 1934, Domingo,colagem.

Em 1933, durante uma viagem de três semanas à Itália, o pintor Max Ernst (Alemanha, 1891-1976) produziu uma obra – um romance – a que deu o título de Une semaine de bonté,  [Uma semana de bondade].  Publicado no ano seguinte, em 1934, em Paris, impresso por George Duval e editado por Jeanne Bucher, Une semaine de bonté se transformaria em uma das mais populares obras de Max Ernst.  Esse romance difere do romance como conhecemos nos meios literários, já que não usa palavras, só imagens.  [O romance é dividido nos sete dias da semana e a cada dia (capítulo) há a introdução do dia com uma citação poética, por escrito]. Ao todo são 182 imagens que foram impressas originalmente em 5 pequenos volumes.  A curiosidade é que é um trabalho de colagem, de imagens que já haviam sido impressas em revistas e livros, na sua grande maioria em meados do século XIX, e que foram recortadas e retrabalhadas em novas e oníricas representações ao gosto desse artista dada-surrealista.

Esse não foi o primeiro romance figurativo de colagem publicado por Max Ernst.  Os anteriores, [Répetitions e Les malheurs des immortels] publicados em 1922, foram feitos em conjunto com o poeta Paul Éluard.    La femme 100 têtes, 1929, e Rêve d’une petite fille qui voulu entrer au Carmel, 1930, foram de sua autoria, única, mas nenhum deles atingiu o sucesso, quatro anos mais tarde, de Une semaine de bonté.  

Capa da edição de Une semainde de bonté, usada nesse artigo,  Nova York, Edição Dover, 1976.

– 

Nos livros anteriores, muitas das páginas, todas sem texto só composições visuais,  eram de recortes diversos rearrumados e colados, formando uma cena completamente diferente.  Mas em Une semaine de bonté, talvez porque estivesse viajando, Max Ernst usou como base das diversas ilustrações pranchas de gravuras já existentes, transformando-as em outro trabalho, ao adicionar partes recortadas  de outras ilustrações, de outros autores, de outras publicações, cortadas com precisão e portador de grande tenacidade, Max Ernst conseguia fazer de suas “novas obras” um conjunto de imagens contínuas, completamente diferentes das originais.   No linguajar de hoje, Ernst fazia intervenções.

Estudantes de história da arte e seus professores já passaram muito mais tempo do que se pode imaginar tentando reconhecer nas páginas do romance, as gravuras originais que serviram de base para a publicação.  O historiador da arte Werner Spies, foi um dos que conseguiu identificar três ilustrações de Une semaine de bonté como tendo sido retiradas do romance Les damnés de Paris,  de Jules Mary, publicado em 1883.  É possível que já haja outras identificações à medida que Max Ernst é mais estudado nos cursos de pós-graduação como um dos expoentes do movimento surrealista.  Sabe-se também que na viagem à Itália Max Ernst comprou em Milão um volume ilustrado de Gustave Doré, provavelmente Cour du dragon e que este foi possivelmente a fonte de muitos elementos fantasmagóricos encontrados em Une semaine de bonté.

Max Ernst (Alemanha, 1891-1976), Prancha do romance Une semaine de bonté, 1934, Terça-feira, colagem.

Nunca na história da arte e das artes plásticas se considerou a questão de plágio para as obras de Max Ernst.  Talvez porque a história da arte mostre que desde os primórdios a pintura se desenvolveu com pintores olhando e copiando imagens produzidas por outros pintores, com resultados tão semelhantes que era, e ainda é, por vezes, difícil separar o original da cópia.  Essa tradição se perpetuou por muitos séculos por diversos motivos: quando eram obras dedicadas à representação de motivos sacros (e, no ocidente, a Igreja Católica foi a grande fonte de renda de pintores e escultores através de muitos séculos) havia paralelamente um incentivo para que se copiasse cenas exatamente iguais, para que se mantivesse a iconografia rígida,  ajudando fiéis, quase todos analfabetos, a poderem reconhecer, de relance, as cenas das vidas dos santos representadas.   Mais tarde essa iconografia tornou-se bastante rígida, com regras bem codificadas, o que faz com que até hoje, por exemplo, reconheçamos um Santo Antônio – com o menino Jesus no colo, ou uma Santa Lúcia, com um olho sobre um a bandeja na mão.

Essa maneira de produzir, por cópia, aconteceu também nos manuscritos, nas iluminuras.  Produzidos em sua grande maioria em monastérios, o produto final apresentava muitas mãos.  Muitos religiosos iluministas eram especializados.  Uma situação não muito diferente das grandes companhias de montagem de produtos da era industrial.  Havia os que faziam as iniciais, outros que se especializavam em animais fantásticos, usados nas bordas de uma página e assim por diante.   Livros copiados e ilustrados eram uma obra de conjunto, de grupo.  Só muito mais tarde, o artista (pintor ou escultor) ganhou individualidade, deixando de ser um artesão anônimo, trabalhador filiado às guildas.  Até então, pintura e escultura eram ensinadas nos ateliês dos artistas, por anos e anos  — não havia as Escolas de Belas Artes —  e os aprendizes absorviam  as técnicas de seus mestres copiando fielmente as obras de seus mestres.  Aos poucos era-lhes permitido adicionar detalhes na obra do mestre:  olhos feitos pelo estudante tal,  paisagem de fundo por um outro estudante.   A cópia sempre fez parte do aprendizado de um artesão das artes visuais.   Ao longo de uma carreira, estilos se diferenciavam.  Mas a individualidade não era o principal objetivo de um artista até a Alta Renascença.   Muitos desses artesãos passavam a vida ensinando a outros artesãos como  misturar as tintas, como pintar um perfil, e assim por diante, um trabalho bem mais  anônimo.  Não é à toa, que quando se visita um museu, muitas vezes vemos um painel atribuído, por exemplo, ao “Mestre dos Montes Claros”,  ou ao “Mestre das Janelas Romanas”.  Eram artistas cujos nomes desconhecemos, mas cujos trabalhos são reconhecidos por características específicas (como no nosso exemplo, as janelas com arcos romanos), mas que eram competentes o suficiente para terem muitos outros artistas aprendendo o ofício em seu ateliê.

Santo Antonio de Pádua, 1656

Il Guercino [Giovanni Francisco Barbieri](Itália, 1591-1666)

Óleo sobre tela, 91 x  74cm

Coleção Particular

Depois da invenção da imprensa, a cópia de imagens tornou-se ainda mais corriqueira.  Já no século XVI, as xilogravuras que ilustravam o livro de Sebastian Brant , A nau dos insensatos, [Das Narrenschiff], publicado em 1494,foram usadas e reusadas por artistas como fonte para a posição de uma pessoa sentada, como desenhar uma cidade murada, etc.  Um dos grandes passatempos de historiadores da arte é tentar adivinhar exatamente essa “fonte” em que um artista famoso bebeu.  Muitos artigos profissionais que levaram professores às suas cátedras, às publicações nas áreas de especialização, se baseiam nessas descobertas – melhor seria dizer “redescobertas”.

Com um propósito muito diferente, mais anárquico, irreverente, Max Ernst produziu nas primeiras décadas do século XX diversos livros, romances se quiserem assim chamar, com imagens que foram retiradas na íntegra, muitas vezes adicionando uma ou duas pequenas intervenções, vindas de outros livros, de outros autores.  É a colagem como arte, uma consequência natural desse mesmo processo de criação das artes visuais.  A imagem final é o resultado de um arranjo específico de partes de outros artistas, uma nova criação com componentes de outrem, sem qualquer atribuição, sem referências a qualquer uma de suas fontes.  A obra final é um trabalho único, mas elaborado por partes de outros trabalhos de outras mãos.   A arte de Max Ernst no caso dos romances, não é nada mais nada menos do que a habilidade de colocar partes diversas, de origens variadas, num grupo único.  É a sua visão que apreciamos.  O resultado é como de um carro de hoje, que não perde a marca, o nome, mesmo que seja a soma de componentes de diversas origens.

Sebastian Brant, Das Narrenschiff  [A nau dos insensatos]: o jogo de gamão na Idade Média.

Pensei nos romances de Max Ernst quando comecei a ler no início desse ano, sobre a controvérsia criada pela publicação do romance Axolotle Atropelado [Intrínseca: 2011]da jovem escritora alemã Helene Hegemann.  Controvérsia criada pela acusação, seguida da confirmação pela própria autora, de que partes do texto eram colagens de outros autores.  Deu o que falar, principalmente depois que seu livro foi selecionado como finalista para receber o prêmio de USD$ 20.000 [vinte mil dólares americanos] da Leipizig Book Fair, mesmo depois de boatos de plágio terem contaminado o mundo literário.   Em outras palavras, o livro mostrou ser de tal valor, que mesmo com acusações de plágio, foi colocado entre os finalistas.

Filha do conhecido dramaturgo Carl Hegemann, a autora, que “bombou” na Alemanha com o Axolotle Atropelado, é uma adolescente de 17 anos, evidentemente talentosa, que já teve uma peça teatral não só publicada, mas montada, assim como teve um filme cujo roteiro escreveu, dirigiu, já lançou no circuito alemão.   Axolotle Atropelado vendeu milhares e milhares volumes na Alemanha e conquistou um lugar entre os mais vendidos no início desse ano.  É um romance sobre as descobertas de uma adolescente em Berlim.  Depois da morte de sua mãe, ela se familiariza com o mundo do sexo, das drogas, das noitadas, dos sonhos, do inconsciente individual e coletivo.  Vertiginoso.  Alucinante.  Não muito diferente das imagens exploradas – guardando-se as devidas diferenças de época – pelos surrealistas como Max Ernst, do início do século XX.

Apesar de reconhecer publicamente que copiou e colou diversas passagens de outros – vários — autores, Helene  não se autopuniu, parecendo acreditar mais no conceito trazido a público no século XVIII por Lavoisier de que  na natureza, “nada se cria, tudo se transforma”.   Produto da era da informação livre, criada na internet, escritora de textos, quase comunitários, que não existiriam sem as facilidades da era digital a autora parece ter vestido a própria essência da cidade onde mora, uma encruzilhada do mundo moderno, onde tudo se mistura, se aglutina, se transforma, para se individualizar em seguida.   Num artigo no jornal O Globo, de hoje, titulado “Lula der Grosse”, João Ubaldo Ribeiro descreve Berlim assim: “Cosmopolita, bonita e também cheia de história e cultura, com alguns museus únicos no mundo, não para nunca e, ao contrário das outras cidades alemãs, projeta uma atmosfera boêmia e pouco convencional, onde todas as tribos convivem e se manifestam e as ruas mais movimentadas são uma festa.”  E essa atmosfera parece ter sido absorvida pela autora.  Seu pai, já era conhecido, antes mesmo da controvérsia, por pontificar que “Uma determinada realidade não pode ser achada, apenas ser-nos trazida pelos ‘membros’ de uma cultura”.  E Helene colocou estas percepções à prova.

Helene Hegemann, Jens Schlueter/Agence France-Presse — Getty Images

Assim como Max Ernst não será jamais criticado por usar “partes” de outros artistas, não acredito que Helene Hegemann deva ser punida pelos seus “empréstimos”.  Tudo tem a ver com o espírito com que cada uma dessas criações foi feita.  É uma coisa de Zeitgeist  — para usar a expressão alemã – é uma coisa de espírito da época.  O romance, que não está entre os meus favoritos,  talvez até mesmo por uma questão de geração, é como uma viagem pelos pensamentos caóticos de alguém cuja mente está mantida, como um picles, ao molho de  drogas ferozes.  Não obstante a minha inabilidade de apreciar o conteúdo do texto, acredito que este seja um excelente momento para ventilar as questões de autoria e de criatividade.  A pergunta que lanço aqui, aos meus leitores:

Se aceitamos sem restrições as colagens nas obras das artes visuais, por que então somos tão rígidos, tão severos, quando nos reportamos aos textos literários?

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2011





Descoberta uma fortaleza muçulmana ao sul de Portugal, do século XII

1 09 2011

Exército muçulmano, iluminura encontrada no manuscrito “Estações de Hariri”, de 1237, na Biblioteca Nacional de Paris.

A descoberta de uma fortaleza islâmica do século XII no sul de Portugal traz novos dados sobre o domínio muçulmano na Península Ibérica, especialmente sobre o fundador desta construção, o filósofo sufi Ibn Qasi. Os vestígios descobertos, pertencentes a um tipo de complexo militar e de culto conhecido em árabe como “ribat”, são excepcionais na Península Ibérica pelo número de casas e mesquitas, explicou o arqueólogo da Universidade Nova de Lisboa, Mário Varela Gomes.

O achado desta construção medieval é raro na Península, porque até agora mal se conhecia a de Guardamar del Segura, na província de Alicante (sudeste da Espanha), disse o pesquisador. As escavações do “ribat”, situadas em Aljezur, um pequeno município na província meridional do Algarve, serviram para identificar nove pequenas mesquitas, um minarete e um muro de orações em seus dois hectares de extensão.

No entanto, a descoberta mais relevante corresponde às lápides funerárias, cuja leitura revela novos dados sobre um personagem importante, mas pouco conhecido da ocupação muçulmana na Península Ibérica durante o século XII: o místico Ibn Qasi. Para Varela Gomes, o achado é “muito interessante“, porque mostra uma figura que “fundou as bases de um estado teocrático” no sul de Portugal, Andaluzia, Extremadura, Badajoz e Córdoba.

Fundamentalista do ramo sufi, Ibn Qasi liderou a luta contra os Almorávides (dinastia norte-africana) e iniciou o “ribat” em 1130 como uma pedra angular para travar sua jihad (guerra santa) particular e como um tipo de retiro espiritual. A construção, que formou monges guerreiros que combateram em sucessivas guerras em Al Andalus – a região ibérica dominada pelos muçulmanos – incitava à meditação por seu isolamento e grandeza natural, explicou o pesquisador.

Entre dunas e baixa vegetação, estava encravado à beira de uma fileira de penhascos banhados pelo Oceano Atlântico. No entanto, o projeto de Ibn Qasi ocorreu em 1151 quando foi assassinado. “Era visto como um traidor pelos outros muçulmanos, porque tinha assinado um pacto de não agressão com Afonso Henriques (primeiro rei português e de confissão católica)”, relatou Varela Gomes.

Cerco de Lisboa de 1384, iluminura no manuscrito Crônicas de Jean Froissart, século XIV.

O “ribat”, batizado como “Arrifana”, acabou sendo abandonado definitivamente pouco depois do desaparecimento de seu fundador. A Ibn Qasi, que era também um notável literato, se atribui a autoria de O Descalçar das Sandálias, obra imprescindível para a compreensão da influência xiita no movimento sufi de Al Andalus do século XII.

A espetacular localização deste complexo, onde também foram encontrados relevantes restos de cerâmica, objetos de vidro e armas metálicas, será aproveitada para levantar um centro de interpretação a partir de 2013, antecipou Varela Gomes.

Mapa da península ibérica no século XII.

Artigo de Antonio Torres del Cerro.

Fonte: Terra





Seis tumbas abertas ao turismo em Gizé, no Egito

24 05 2011

 

Foto: Associated Press.

No Egito, esta semana, Zagi Hawass, ministro para assuntos arqueológicos, abriu para visitações o Cemitério do Estado Moderno, em Gizé. Um dos destaques é a tumba de Pay, guardião do harém do faraó Tutancâmon.  Estas tumbas, que até agora não estavam abertas ao público, poderão de agora em diante dar uma melhor idéia ainda de como era a vida, milhares de anos atrás. 

Ao todo são seis tumbas à disposição do visitante.  Entre elas estão a de Maya, ministro das finanças do faraó e sua esposa Merit e a de Horemheb, comandante do exército egípcio durante o reinado de Tutancâmon, que mais tarde subiu ao trono.   “Maya e Horemb foram homens de grande importância política numa das épocas mais conturbadas do período Amarna”, descreve assim o informe distribuído à imprense pelo Supremo Conselho de Antiguidades do Egito,  “nessa época, o faraó Akenaton fechou os mais importantes templos de Luxor e mudou a capital para um local no meio do deserto, chamado Tell el-Amarna.”  A capital do reino só voltou para Luxor, depois da morte de Akenaton, quando seu filho, Rei Tutancâmon,  decidiu por ordem no reino, abandonar Tell el-Amarna e levar de volta a capital para sua antiga morada, Luxor.  Para conseguir fazer essas mudanças, Tutancâmon precisou de apoio e dos conselhos de duas pessoas cujas tumbas foram postas à visitação: de seu general Horemheb e do tesoureiro do reino, Maya.

Foto: Associated Press

A importância de Maya e por extensão sua esposa Merit pode ser avaliada quando vemos suas efígies no pátio desse cemitério.  Maya, como tesoureiro de Tutancâmon, foi uma figura importantíssima para a reconstrução do Egito depois do período de Amarna.  Ele ajudou o rei a reabrir os templos em Luxor e a construir novos templos e altares to Amon, tudo para mostrar como Tutancâmon estava dedicado a restaurar a ordem no país.  Maya se dedicou a estabelecer ordem dentro do país, enquanto que Horemheb trabalhou em estabelecer a ordem fora das fronteiras egípcias.  Ainda que a tumba de Maya nunca tenho sido acabada, o visitante pode ver a coluna de terracota com relevos, com Maya e Merit recebendo oferendas. 

Foto: Associated Press.

Outras tumbas que foram abertas para o publico nesse mesmo complexo incluem:

Merneith –  organizador e escrivão do templo de Aten, durante o reino de Akenaton.  Mais tarde foi alto sacerdote de Aten e do Templo de Neith;  Sua eumba foi construída com tijolos de terracota recobertos por blocos de calcário.  Nos fundos da tumba há três capelas para oferendas.  A capela central tem uma cena de ferreiros trabalhando e tem também as bases de duas pequenas colunas, onde provavelmente se apoiava uma pequena pirâmide de terracota.  

Ptahemwia – conhecido como o “Mordomo Real, o que tem mãos limpas”, que serviu tanto a Kenaton como a Tutancâmon.  Ele foi o responsável por trazer a comida e as bebidas ao rei.  Sua tumba, que tem a inscrição “Amado pelo Rei”, também é de tijolos de tarracota recobertos como blocos de calcário e tem três capelas. . 

Tia – teve um alto posto no reinados de Ramsés II, além de ser o supervisor do tesouro.  Casou-se som uma das irmãs de Ramsés, também chamada de Tia.  Sua tumba também foi usada com um templo mortuário para Osíris e tem representações de Tia e sua esposa fazendo peregrinação  a Abidos, o centro do culto a Osiris.

Pay e seu filho Raia – Pay era o guardião do harém de Tutancâmon.  Sua tumba tinha uma capela inicial dando para um pátio com colunas que por sua vez tinham três capelas para oferendas.  O filho de Pay, Raia, começou sua carreira como soldado, mas assumiu o posto de seu pai depois que este morreu.  Raia adicionou pátio e duas estelas; renovou a tumba antes de morrer e lá ser enterrado.  As estelas foram levadas para Berlim quando o egiptólogo Karl Richard Lepsius as descobriu em 1928.

Foto: Associated Press

Ao longo do processo de excavação 56  ataúdes da era do Novo Reinado doram encontrados, a maioria dos quais de crianças. 

Na abertura dessas tumbas ao public Zagi Hawass lembrou que o projeto de restauração incluía renovação detalhada e trabalho de arquitetura além da volta para o local de artefatos que no momento não se encontram lá.  Os tetos e as paredes de todas as tumbas foram recobertos com plexiglass para proteger do grande número de turistas esperado nas visitas, as cores e os desenhos em relevo, principalmente aqueles que adornam as tumbas de Maya e Tia.  Além disso, portas de madeira e de metal foram instaladas para proteger as tumbas, e caminhos pavimentados com pedras foram feitos para facilitar o acesso.

O complexo funerário fica a 30 km ao sul de Cairo e abriga também as tumbas dos nobres Merineiz e Ptahemuia, que viveram durante o reinado de Aketanon (de 1.361 a.C a 1.352 a.C).  Algumas dessas tumbas foram descobertas em 1843 pelo explorador alemão Richard Lepsiu, mas não foram completamente excavadas até 1975, quando uma missão anglo-holandesa recomeçou as excavações.  Hoje um grupo de arqueólogos holandeses da universidade de Leiden excava o sítio arqueológico e também tem restaurado as tumbas.

Fontes: Almasriyalyoum e Scrollpost





A emocionante história da Segunda Guerra Mundial, na arte de Kseniya Simonova

11 03 2011

 

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Kseniya Simonova é uma artista ucraniana, performática, que trabalha com a areia.  Este vídeo é o final de um programa de talentos.  Vale a pena dedicar os 8 minutos desta viagem pelo tempo para vê-lo. 

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Lista das músicas no vídeo:

1. Cirque du Soleil – Jeux d’Eau

2. В.Лебедев-Кумач – Священная война

3. Марк Бернес – Темная ночь

4. Apocalyptica – Harmageddon

5. John Williams – Auschwitz – Birkenau

6. Марк Бернес – Журавли

7. Apocalyptica – Nothing Else Matters

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 Palavras no final:  “Vocês estão sempre próximos”





Banhos Romanos descobertos em Israel datam do século II

10 02 2011
  Banhos romanos em Jerusalem.

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No final de 2010  uma descoberta importante tanto para os estudos judaicos quanto para os estudos da Roma antiga, quase passa desapercebido por mim.  E me apresso em postar a notícia:   arqueólogos israelenses escavando na velha Jerusalém para deixar espaço para a construção de um moderno Mikbe (banho ritual judaico), descobriram uma casa de banhos romana construída há mais de  1.800 anos e que foi  provavelmente utilizada por soldados da Décima Legião, a mesma legião  que conquistou  Jerusalém no século II a.C.

Centenas de telhas de barro foram encontradas no chão da piscina, indicando que esta  era uma estrutura coberta.  As telhas, tijolos e azulejos da casa de banho tinham impressos o símbolo da Décima Legião Fretensis  ” XFR-LEG “, o que revela serem da cidade  Colonia Aelia Capitolina,  mais conhecida como Aelia Capitolina —  cidade construída pelo Imperador Adriano, sobre as ruínas de Jerusalém, entre  131-135 dC, como resultado da conquista sobre a  revolta judia de Bar Kokhbano que fracassou culminando na destruição do Segundo Templo em 70 dC.

A marca dos soldados da Décima Legião, na forma das impressões estampadas sobre as telhas e tijolos de barro nesse  local, demonstra que eles foram os construtores dessa  estrutura“, disse Ofer Sion, diretor da excavação.  “Durante a escavação encontramos várias banheiras dentro de uma piscina, com um encanamento lateral para encher com água, no fundo da piscina há um chão de mosaico branco e azulejos que também apresentam símbolos impressos da Décima Legião romana“.    Um destacamento da Décima Legião era responsável por guardar a cidade romana dos judeus que haviam sido proibidos de morar lá.   Esses legionários asseguravam que a Aelia Capitolina não tivesse nenhum judeu residente. 

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Localização no mapa da  velha Jerusalem.
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A descoberta  é muito importante, ressalta no comunicado o professor Yuval Baruch, da AAI, porque “ainda não se tinha encontrado no bairro judaico (da Cidade Antiga) nada que pertencesse à legião romana, o que tinha levado à conclusão que a cidade fundada na época romana após a destruição de Jerusalém, era pequena e com uma área limitada“.   Essas  ruínas indicam que a cidade romana “era consideravelmente maior do que se tinha imaginado previamente“.    Sabe-se que o plano urbano da cidade era  típico romano, com uma avenida central [ Cardo maximus] e outras  grandes avenidas transversais.

As ruínas dos antigos banhos romanos serão integradas à nova construção do  Mikbe, banho ritual judaico,  que será construído no bairro judeu.  

Fontes:  Terra, IMEMCApostolic News.





A moda:o papel em nossas vidas, na Fashion Week do Rio de Janeiro

13 01 2011

Sally Rosembaum, (EUA, contemporânea), Kathleen minha melhor amiga, óleo.

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Há momentos em que tudo o que fazemos parece convergir numa determinada direção, como se certos assuntos ou ações fossem inevitáveis.  Costumo respeitar essas coincidências e ver o que elas podem me oferecer.   Domingo, na semana em que a Fashion Week começa no Rio de Janeiro, me encontrei lendo com bastante gosto o artigo de  Ulinka Rublack, Renaissance Fashion: The Birth of Power Dressing [Moda na Renascença: o nascimento do vestir para o poder] que foi publicado na revista History Today, de dezembro.

Mathäus Schwarcz com Jakob Fugger, nos escritórios bancários de Fugger, 1517.

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Ulinka Rublack – que é professora na Universidade de Cambridge,  na Inglaterra, de História Européia Moderna — procura apontar para o momento em que a moda passou a ser um item de importância pessoal, que nos distingue e que reforça o status social de cada um.  No processo, ela  nos lembra de uma ou outra figura interessante dos séculos XV e XVI, como Matthäus Schwarz (Augsburgo,1497 – c. 1574).  Esse senhor, cidadão alemão, que trabalhou como contador na famosa firma de Jakob Fugger – [ lembram-se dele?  O primeiro homem a investir no Brasil, em 1503, mandando seu agente Fernão de Noronha para cá? ] —  passou para a história, não por ser um contador extraordinário, mas por ser um apreciador das artes e acima de tudo um dândi.

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Retrato de Mathäus Schwarcz, 1526

Hans Maler ( Alemanha, 1480-1529)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

Museu do Louvre, Paris

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Observando o retrato de Matthäus, mesmo de bandolim na mão, não temos idéia do tamanho de sua vaidade.  Mas o que ele fez de extraordinário, e pelo qual estamos gratos, hoje, cinco séculos mais tarde, foi contratar um artista em 1526 para fazer um livro com todas as roupas que possuía.  Uma espécie de catálogo de suas indumentárias através da vida, que mais tarde ele compilou no que é chamado Klaidungsbüchlein [ O Livro de Roupas].    Foram ao todo 135 aquarelas mostrando suas roupas.  A maioria dessas ilustrações foram feitas por Narziss Renner ( Alemanha 1502-1536) e detalhadamente descritas por Matthäus, de próprio punho.

O livro de roupas de Matthäus Schwarcz.

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Mas Matthäus não ficou só por aí: encomendou duas imagens de si mesmo nu, quando estava no auge de sua boa forma física, dando-se ao trabalho de anotar com precisão a medida de sua cinturinha de vespa.  Ele se preocupava em não ganhar peso que, na sua opinião, era uma indicação de velhice.   Em 1992, o historiador Philippe Braunstein editou a publicação  na França, da autobiografia de Matthäus em um volume, que me parece estar esgotado, mas cuja capa reproduz uma dessas imagens de Matthäus Scwarcz: Un banquier mis à nu : Autobiographie de Matthäus Schwarz, bourgeois d’Ausbourg, Gallimard Jeunesse. [Um banqueiro nu: autobiografia de MatthäusSchwarcz, um burgês de Augsburgo].

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Há detalhes interessantíssimos nas aquarelas e nas descrições: numa das páginas vemos Matthäus com meias vermelhas, acompanhado de um menino, aprendiz de bobo da corte, com um macacão amarelo, com listras pretas.  E  aprendemos também, um pouquinho  sobre nós mesmos, sobre a nossa cultura brasileira: Ulinka Rublack menciona no seu artigo, quando Matthäus saía para cortejar uma donzela levava consigo uma bolsa no formato do coração e da cor verde da esperança.  Portanto a expressão em português usada aqui no Brasil e em Portugal “verde é a cor da esperança” já era usada na Europa no século XVI.

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O livro de roupas de Matthäus Schwarcz.

E foi nesse momento que percebi que os ventos estavam me levando na direção dessa postagem, porque uns dias antes, eu havia relido algumas passagens do livro Magdalena and  Balthazar: an intimate portrait of  life in the 16th century Europe revealed in the Letters of a Nuremberg husband and wife [ Madalena e Baltazar: um retrato íntimo da vida na Europa do século XVI revelado nas cartas de um casal de Nuremberg]; editado e ilustrado por Steven Ozment, Nova York, Simon & Schuster: 1986.  Quem me conhece não deve se surpreender porque sabe que um dos meus passatempos favoritos é a leitura de diários e cartas de pessoas mais ou menos desconhecidas na história.  Não necessariamente as cartas dos reis, mas aqueles diários e cartas de pessoas comuns.

O livro das Boas Maneiras, 1410, De Jacques Legrand, dado a Jean du Berry em 1410, Paris, Bibliothèque nationale, fr. 1023

Passagens das cartas de Madalena para Baltazar vieram à mente.  Numa carta, Madalena escreve para Baltasar que era um comerciante com negócios na Itália e que se encontrava por lá.  Ela mostra os desejos de seu filho: “Você tem que mandar fazer uma bolsa de seda para o Pequeno Baltasar”. Mais tarde:  “O Pequeno Baltasar lhe cumprimenta  e pede a você que lhe traga um par de meias vermelhas e uma bolsa”.  Ainda mais adiante, vemos que o Pequeno Baltasar precisa se sentir à altura de seus colegas ou amigos, porque sua mãe escreve:  “Ele quer  dois pares de meias, um dos quais um precisa ser igual às meias usadas pelos alunos em Altdorf” [ o editor anota que isso queria dizer, meias da cor da pele ou da cor do açafrão].  Como podemos ver pela iluminura do Livro de Boas Maneiras de Jacques Legrand, datado de 1410,  as meias de seda coloridas eram lugar comum na Europa do século XV e XVI.

Retrato de Federico da Montefeltro,  1472

Piero della Francesca ( Toscana, 1416 — 1492)

Óleo sobre madeira, 47 x 33 cm

Galeria Uffizi, Florença

Assim como meias coloridas, chapéus específicos eram objetos de desejo.  O Pequeno Baltasar pede que seu pai lhe traga,  para  a passagem do Ano Novo de 1592, um chapéu.  O pedido demonstra como era importante para ele o uso específico de um determinado modelo de chapéu:  “Querido Pai:  eu imploro que me mande um chapéu coroa italiano para usar na passagem do Ano Novo, prometo que serei bonzinho o tempo todo e que rezarei pelo senhor”.  Não sei como eram os tais chapéus coroa.  Procurei bastante, tanto na internet quanto nas minhas referências em casa, e não encontrei nada específico.  Mas acredito que possa ter sido algo semelhante ao que oDuque de Urbino, Federico da Montefeltro, usava quando retratado por Piero della Francesca em 1472.

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Retrato de jovem, c. 1515

Piero degli Ingannati (Veneza, ativo 1529-1548)

Retrato de Paola Priuli Querini, 1527/28

Palma Vecchio ( Itália, 1480-1528)

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Meias vermelhas, cor de açafrão, casaco de damasco branco, negro, amarelo todos esses detalhes refletiam sim o início de uma grande preocupação com a moda que não estava  limitada ao comportamento janota de Matthäus, da casa Fugger.  Assim como hoje, — e nós aqui  na semana Fashion Week do Rio de Janeiro, ouvimos muito isso  – entre as facetas da moda mais interessantes para o publico em geral, estão as cores da estação.  O mesmo acontecia na época de Mathäus Schwarcz; todos queriam saber da cor da moda.    Ulinka Rublack lembra que amarelo se tornou a cor da moda no início do século XVI, sendo adotada primeiramente pelas pessoas mais abastadas. Por volta de 1520 já quase toda a população de Basel, na Suiça, cidade usada como exemplo, tem itens de vestuário dessa cor.

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Fernando I, de Habsburgo, s/d

Hans Bocksberger, o Velho (Áustria 1510 -1561]

óleo sobre tela, 206 x 109 cm

Museu de  História [Kunsthistorisches Museum], Galeria de Arte

Viena, Áustria

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Assim como hoje, a moda na virada do século XVI também era usada para impressionar.  Acompanhando as peripécias de Matthäus Schwarcz vemos que ele emagreceu alguns quilinhos para estar em forma quando soube que teria a oportunidade de conhecer o Arquiduque Fernando I de Habsburgo, Santo Imperador Romano [1503-1560].  Além disso, ele usou de perspicácia e de psicologia (se bem que essa disciplina não existisse na época) e deixou crescer uma barba, barbeando-se à semelhança do Imperador.  Hoje diríamos que Matthäus usava da técnica de espelhar o imperador, técnica que arrogantemente imaginamos  ser uma “novidade” do mundo da linguagem corporal.  Matthäus conseguiu seu objetivo: o arquiduque gostou e confiou nele.

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Retrato de um homem [ Supeita-se que seja Jan Jacobsz Snoeck],  circa 1530

Jan Gossart, conhecido como Mabuse, (Países Baixos, c. 1478–1532)

National Gallery of Art, Washington DC

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Fez tão boa impressão que o Imperador lhe deu um título, em 1541.  Para comemorar este novo patamar social, teve o seu retrato pintado com um casaco forrado com pele de marta, semelhante ao casaco na pintura de Mabuse, acima.  Este detalhe, a pele de marta, era estritamente reservado às elites: principalmente uma pele como a dele inteiriça, que sabemos medir 60cm e ser toda castanha, por igual, sem manchas.  Como Ulinka Rublack lembra, uma pessoa de menos posses teria um casaco forrado de peles diversas, pequenas, retalhos emendados de diferentes procedências, tamanhos e cores.

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THOMAS_COUTURE_-_Los_Romanos_de_la_Decadencia_(Museo_de_Orsay,_1847._Óleo_sobre_lienzo,_472_x_772_cm)Os Romanos durante a decadência, 1847

Thomas Couture (1815-1879)

Óleo sobre tela,  4,72m x 7,72 m

Paris, Museu d’Orsay

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Na minha época de estudante do Colégio Pedro II a Idade Média era tratada como um grande bloco de séculos sobre os quais se sabia muito pouco.  Estudávamos os feudos como entidades quase estacionárias, cruéis e desumanas.  Essa percepção não era só nossa, brasileira.  Em inglês, por muito tempo, a expressão Dark Ages [Eras Sombrias] era usada para explicar os séculos compreendidos pela queda do Império Romano [476 aD] até a Renascença [1492].  Mais ou menos 1.000 anos.  E a Renascença, esta sim, aparecia milagrosamente, como uma fênix, seus contemporâneos verdadeiros heróis que sozinhos recompunham o universo, ressuscitavam valores e conhecimentos do nada ou do quase nada.

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A universidade medieval.  Desconheço a origem dessa iluminura.

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Mas assim como houve grande avanço nas ciências, na segunda metade do século XX, houve também um avanço enorme no conhecimento sobre esse período obscuro da civilização ocidental, graças às pesquisas e descobertas de estudiosos que garimparam um número enorme de manuscritos; e arqueólogos que não se deixaram levar pela percepção de que não havia nada a ser descoberto.  E aos poucos muito foi trazido à tona. Hoje vislumbramos um período de dez séculos, que não era de todo estagnado, mas um conjunto de sociedades bastante complexas, e muito menos rígidas do que se imaginava quando falávamos dos feudos no período que antecede à Renascença.

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Vendedores de tecidos, em O livro das Boas Maneiras, 1410, de Jacques Legrand, dado a Jean du Berry em 1410, Paris, Bibliothèque nationale, fr. 1023

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O que aconteceu com Matthäus Schwarcz, sua ascensão social,  não foi um resultado exclusivo do investimento que fez em roupas, ou em moda.  Este tipo de marketing pessoal ajudou.  Mas ele provou ter sido um competente contador, pois trabalhava para um dos maiores banqueiros da Europa, Jakob Fugger.  Era também um conhecedor da alma humana, como já vimos, e das artes.  Contrário ao que se acreditava no passado, a mudança de status social era possível no mundo medieval e talvez nem tão rara, principalmente na Idade Média tardia, a partir do século XIV.  O exemplo mais conhecido e documentado de ascensão social é o de Gregório Dati (1362- ?), um homem comum, comerciante de seda, linho, fazendas em geral e pérolas, em Florença.  A leitura de seu diário ajuda a compreensão da ascensão social e econômica  no período da Proto-Renascença, principalmente em se tratando de um homem  sem quaisquer laços com a nobreza ou com as famílias de importância de Florença.  Seu diário, por menor que seja, é repleto de informações curiosas a respeito dos negócios da época e da maneira como ele foi, ao longo da vida, saindo do obscurantismo até obter uma posição social de respeito.  Quantos outros não terão tido semelhante sorte em outras localidades, sem terem deixado lastro?

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Barraca de peixes em feira medieval no Concelho de Constance, na Alemanha, por Ulrich von Richenthal, [1350-60? – 1467], pintada na década de 1460.

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O que notamos da efervescência social no final da Idade Média, digamos de 1350 em diante, são as pequenas amostras de individualidade que pululam aqui  e acolá.  Há um maior número de pessoas que sabe ler e escrever e o comércio, este grande fomentador das mudanças sociais, se intensifica entre pequenos aglomerados, povoados, aldeias e cidades–estado,  incluindo maior contato de todos com produtos diversos e até estrangeiros.  Os não-nobres, os homens comuns, passam a medir a possibilidade de serem apreciados pelas suas próprias características, ao invés de estarem sujeitos exclusivamente aos mandantes da igreja ou do rei.  A ilustração acima, por exemplo, de Ulrich von Richenthal  ( c. 1360- 1467) é um exemplo:  contrário aos costumes da época, Richenthal produziu por conta própria, sem nenhum patrocínio, uma série de desenhos mostrando a vida diária em Constance, como explica Albrecht Classen, no livro Urban Space in the Middle Ages and the Early Modern Age [O espaço urbano na Idade Média e no início da Era Moderna]. E seu orgulho em fazer isso está evidenciado nas linhas de apresentação: “como cidadão e residente de Constance, eu, Ulrich Richenthal, coletei tudo isso.  Eu ou testemunhei tudo isso em pessoa ou ouvi as descrições de religiosos ou pessoas comuns. [a tradução livre, é minha].

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Auto-retrato, 1493

Albrecht Dürer ( Nuremberg 1471 — 1528)

óleo sobre tela, 57 x 45 cm

Museu do Louvre, Paris

Uma outra pista para o aparecimento do “indivíduo” separado da classe social a que pertence é a popularidade do retrato,  da vontade de se ser retratado, para o presente e para a posteridade.  O retrato, como gênero de pintura, havia sido corriqueiro na Roma antiga, seu uso desaparecendo durante a Idade Média.  Mas volta com bastante força, justamente nessa época em que o “indíviduo” começa a se salientar na sociedade que habita, nessa hora em que se começa a dar espaço para exploração dos próprios dotes, das habilidades únicas de cada um.  Albrecht Dürer, o maior pintor da Renascença alemã, é um dos primeiros da classe artesã (essa era a classe dos pintores) a se retratar, uma ato circunscrito aos nobres e abastados.  E se dá a esse luxo diversas vezes na vida, fato até então anômalo no período medieval.

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Retrato de homem, 1500

Ambrogio di Pedris ( Itália, 1455-1508)

óleo sobre madeira, 60x 45 cm

Galleria degli Uffizi, Florença

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Foi justamente nesse período de final do século XV e início do século XVI,  que pessoas comuns, que haviam adquirido mais educação, mais recursos financeiros, que podiam deixar algo para gerações seguintes, com mais tempo de lazer começaram a se preocupar com a noção de posteridade: deixar algo pessoal para seus herdeiros, para as futuras gerações.  Este conceito de posteridade, de perpetuação de uma linha familiar de quem não era nobre  entrou sutilmente, aos pouquinhos, comendo pelas beiradas, no conceito de individualização do período.  E com isso voltamos a Matthäus Schwarcz.  Nos anos de sua adolescência ele foi perguntando aos mais velhos o que vestiam quando eram jovens.  Foi também nesse período que  iniciou um caderno com seus próprios sketches, registrando  suas indumentárias, como um documento para o futuro, para sua própria lembrança.

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Vestimentas na Idade Média.
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Matthäus Schwarcz, apesar do sucesso financeiro e social que obteve,  numa outra época não teria sido uma pessoa importante o suficiente para ter retratos a óleo feitos por artistas habilidosos.  Filho de um comerciante de vinhos, ele estava bem enraizado na classe mercantil.  O que o diferenciou, foi saber fazer um marketing pessoal, usando entre outros meios, o vestuário como ferramenta de ascensão social.   É importante notar que trajes, fora do necessário e funcional, eram dispendiosos.   Mas o vestuário era sempre, como o é hoje, um cartão de visitas.  Os nobres usavam roupas como símbolos de poder e status.  O povo comum se esforçava para “melhorar a aparência” a todo custo, isso não é novidade.   A maioria das pessoas tecia em casa e sabia usar tinturas naturais à base de plantas e minerais para conseguir tonalidades variadas.  Em alguns centros urbanos, as leis suntuárias, que proibiam o uso de excessivo luxo nas vestimentas do homem comum, proibiram  também o uso de certas cores, permitidas só aos nobres.  Na Inglaterra, por exemplo, o uso do tecido escarlate, era prerrogativa da nobreza.  Em toda a Europa, o linho e a lã eram tecidos comuns; algodão e seda eram caros, e mais raros, só aparecendo  com a descoberta de produtos estrangeiros, graças às Cruzadas.  Fazendas aveludadas também eram bastante usadas.  À medida que a classe média aparecia, — como Matthäus Schwarcz demonstra, entre outros — as linhas divisórias entre a nobreza e a classe mercantil se embaralharam, permitindo brechas nessas restrições.

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Matthäus Schwarcz, 1542

Christoph Amberger, (Nurembergue, c. 1500-1562)

óleo sobre tela, 74 x 60 cm

Thyssen-Bornemisza, Madri

Mas Matthäus Schwarcz eventualmente teve que se render aos costumes da época e à medida que envelheceu, fez como todas as pessoas de alguma idade o faziam, vestiu-se de preto e branco, pois não cabia bem a um senhor “brincar” com cores e modelos.  Ele engordou, como podemos ver no retrato de Christofer Amberger.  A Reforma na Alemanha também o afetou e a partir de 1550 o comércio entrou em crise, nos concelhos da Alemanha. Matthäus  Schwarcz, um grande exemplo de homem moderno, que confiou no marketing pessoal, sobreviveu a um derrame [AVC] mas, não temos notícias da data específica de seu falecimento.  Muito devemos a ele, que é lembrado hoje pela extravagância de um catálogo de roupas.  Mas ele também é exemplo da vitalidade econômica e social do início da Renascença, que levará à ascensão da classe média ao poder, logo na segunda metade do século XVI.





Os vikings estiveram nas Américas 500 anos antes de Colombo!

18 11 2010

Vikings dinamarqueses a ponto de invadir a Inglaterra no século IX

Iluminura da Vida de São Edmundo, do século XII

Bibblioteca Pierpoint Morgan, Nova York

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A primeira pessoa a viajar até a Europa, tendo nascido no continente americano, é possivelmente uma mulher que os Vikings teriam levado para a Islândia há mais de mil anos, segundo um estudo realizado por cientistas espanhóis e islandeses.

Essas conclusões sustentam a teoria de que os Vikings chegaram ao continente americano muitos séculos antes de Cristóvão Colombo ter descoberto o Novo Mundo. O Instituto de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC) informou que análises genéticas realizadas em cerca de 80 pessoas vindas de quatro famílias islandesas mostraram que os indivíduos possuíam um tipo de DNA que é apenas encontrado nos ameríndios ou pessoas nascidas na Ásia Oriental.

Pensamos primeiramente que o DNA tinha vindo das famílias asiáticas que se estabeleceram recentemente na Islândia“, declarou um pesquisador do CSIC, Carles Lalueza-Fox, citado em um comunicado do instituto publicado nesta quarta-feira.

Mas quando as árvores genealógicas foram estudadas, descobrimos que as quatro famílias descendiam de ancestrais que viveram entre 1710 e 1740 e vinham da mesma região do sul da Islândia“, acrescentou. A linha genética descoberta, chamada de C1e, é mitocondrial, o que quer dizer que o gene foi introduzido na Islândia por uma mulher.

Sabendo que a ilha foi virtualmente isolada a partir do século X, a hipótese mais verossímil é a de genes correspondentes de uma mulher de origem ameríndia que foi levada do continente americano pelos Vikings por volta do ano 1000“, explicou Lalueza-Fox.

Os pesquisadores tiveram acesso aos dados da companhia deCODE Genetics, situada em Reykjavik. A equipe de cientistas espera encontrar este mesmo DNA de origem ameríndia em outras pessoas provenientes da população islandesa, começando pela região situada ao redor da geleira Vatnajokull, no sul do país.

O relatório, redigido pelos cientistas do CSIC e da Universidade da Islândia, foi igualmente publicado na última edição do American Journal of Physical Anthropology.

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Fonte: TERRA