Hélène Béland (Canadá, 1949)
óleo sobre tela, 60 x 75 cm
Coleção Particular
A chegada da família real a Salvador, 1952
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
Óleo sobre tela
Pinacoteca da Associação Comercial da Bahia.
“O bergantim real, alcatifado de coxins de veludo, com o seu belo toldo de damasco franjado, atracou debaixo do mais quente ribombo de festa. O povo espremia-se no cais. Milhares de espectadores, com avidez mordente, o coração aos saltos, contemplavam, fascinados, a embarcação garrida. Tudo queria “ver o rei”. O Conde dos Arcos, que então governava o Brasil, correu a abrir a portinhola: e do bergantim, muito ataviada de garridices, desceu lustrosamente a família real. Era D. João VI em grande gala. Era D. Carlota Joaquina, com seu fuzilante diadema de predarias. D. Pedro, o herdeiro do trono, principezinho de nove anos, muito vivo, os cabelos crespos e negros, saltou acompanhado de Frei Antônio de Arrábida, o preceptor. Seguia-o o irmão mais moço, o infante D. Miguel, todo de veludo, calças compridas, o gorro apresilhado por um fúlgido broche de pedras. As princesas vinham enfeitadas com primor. Muito lindas. Vestiam sedas dum azul pálido, enevoadas de arminho, com grandes diamantes nas orelhas e altos trepa-moleques nos cabelos. Viera, também, galhardo e belo, um moço arrogante, muito simpático, olhos romanticamente verdes: era o Senhor D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, infante da Espanha, sobrinho dos regentes.
No cais, fora armado um altar. D. João e D. Carlota, seguidos pelo príncipe e pelos infantes, ajoelharam-se diante dele. O chantre da Sé tomou da água benta e aspergiu ritualmente os reais hóspedes. Tomou do turíbulo de prata e incensou-os por três vezes. D. João, com fervorosa compungência, caiu então por terra: beijou o Santo Lenho. A corte, prosternando-se, acompanhou-o no beijo tradicional. Depois, ao longo do cais, formou-se um séquito de honra. Lá ia a bandeira, lá ia a cruz, lá iam os nobres, lá ia o clero, lá ia a gente da terra. No meio das alas, carregado pelo Senado da Câmara, franjado de ouro, rutilando ao sol, um imenso pálio de seda: e, debaixo dele, com os seus atavios carnavalescamente vistosos, a deslumbrar a colônia, toda a família real.”
Em: As maluquices do Imperador, Paulo Setúbal, São Paulo, Clube do Livro: 1947, pp: 14-15.
Cartão postal, 1ª metade do século XX.
Felicidade é um recado
sem data, sem remetente,
chegando sempre atrasado
na caixa postal da gente!
(Aurora Pierre Artese)
Ilustração de autoria desconhecida.
Três irmãos viviam no meio de um bosque escuro, muito escuro, a pouca distância do mar azul e puro.
Tinham tido a desventura de perder os pais quando eram ainda meninos, e viviam lá muito solitários.
Um dia, finalmente, o mais velho, aborrecido de tanta solidão disse:
— “Além do bosque está o mar azul e puro, e além dele, à margem de lá, uma cidade rica e bela.”
E o outro acrescentou:
–“Dizem que lá encontram-se árvores belas, como as da nossa floresta, e pássaros que cantam também como os que temos aqui, em torno da nossa casinha paterna?”
Mas o maior replicou:
— “Partirei em busca desta felicidade.”
O segundo repetiu:
–“Partirei também para tentar a minha fortuna, ou para ver se me será dado encontrar a felicidade.”
O terceiro abaixou a cabeça e nada falou:
Selaram os cavalos, os seus belos cavalos negros, tomaram as lanças, as suas boas lanças de ferro, luzentes e agudas, e partiram todos três à procura da felicidade.
O mais velho atravessou a montanha, e entrou no país, vasto e fértil; o segundo passou o mar azul e puro a bordo de um barco, e recolheu-se na cidade rica e bela, lugares onde deveriam encontrar a felicidade, mas nunca puderam vê-la.
O mais jovem, no entanto, não se tinha retirado para longe. Estava ainda junto do bosque, quando sentiu o coração palpitar no peito.
Ergueu-se então, e disse ao cavalo negro:
— “Seria melhor se tornássemos à casa paterna, no meio da floresta escura, muito escura.”
Tirou a brida ao cavalo, ao seu belo cavalo negro, e tornou a conduzi-lo ao casebre.
As árvores agora começavam a murmurar mais suavemente e a inclinar-se ante ele como para saudá-lo; e os pássaros seguiam-no saltando de ramo em ramo, cantando.
E a floresta inteira parecia dizer-lhe:
–“Fizeste bem em voltar!”
Perto da casa paterna viu uma rapariga de cabelos dourados, sentada no portal, atenta a olhá-lo, tendo a seus pés um lindo gato, envolto nas dobras do seu vestido, a dormir.
–“Quem sois?”, perguntou o moço à bela rapariga de cabelos dourados.
Ela picou-lhe os seus grandes olhos doces, e sorrindo respondeu:
— “Sou a Felicidade!…”
***
Em: Histórias do Arco da Velha — Livro para crianças, de Viriato Padilha, Rio de Janeiro, Quaresma: 1947,pp: 179-181.
Domingo em Lincoln Parque, 1931
Gustaf Dalstrom (Suécia/EUA, 1893-1971)
aquarela sobre papel, 30 x 39 cm
Conquista é jogo de azar
e, no amor, jogo pesado;
querendo te conquistar,
eu é que fui conquistado!…
(Heloísa Zanconato Pinto)