O silêncio na biblioteca é importante

8 02 2013

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Ilustração Walt Disney.

Numa pesquisa feita nos Estados Unidos sobre o que os usuários das bibliotecas públicas mais gostam nos serviços apresentados está o silêncio para ler.  Um mundo de quietude parece ser tão importante quanto acesso livre a computadores e à internet.  Os resultados dessa enquete foram surpreendentes para  Laura Miller que  publicou um pequeno artigo na revista Salon sobre o fato.  Eu também aprecio a certeza de que estarei num lugar quieto, sem conversas, quando vou à minha biblioteca. Gosto de saber que não serei incomodada com cochichos e conversinhas, que ainda há ilhas de quietude nas metrópoles, quietude ainda maior do que a que encontro em  minha casa, onde o telefone com ofertas mais variadas parece estar sempre chamando.

Aqui estão os resultados: os serviços mais apreciados nas bibliotecas públicas:

80% considerou – bibliotecárias que ajudem a encontrar informações.

80% considerou – empréstimo de livros

77% considerou – livre acesso a computadores e à internet

76% considerou – lugar silencioso para adultos e crianças

Este último item, só 1% a menos do que acesso à internet.  VIVA!  Há pessoas com os mesmos gostos que eu!





Palavras para lembrar — Christian Bobin

4 02 2013

Marek Langowiski

À luz de vela, 2005

Marek Langowiski (Polônia, contemporâneo)

óleo sobre tela

“Poucos livros mudaram minha vida.  Quando mudaram foi para sempre”.

Christian Bobin

 





Centros culturais, sua manutenção, responsabilidade e educação

31 01 2013

João Fahrion-bastidores,1951, ost

Bastidores, 1951

João Fahrion (Brasil, 1898-1970)

óleo sobre tela, 130 x 130cm

Raramente abordo neste blog assuntos do cotidiano. Tenho tentado ser uma ilha de referências  culturais sem ligações à política ou ao dia a dia no país. Mas há ocasiões em que se faz necessário um posicionamento. Tendo a tragédia do incêndio na Boate Kiss, de Santa Maria, RS, como pano de fundo,  descobrimos ao ler o  jornal O Globo desta manhã, que a cidade do Rio de Janeiro tem 49 espaços culturais funcionando que não exibem alvará – ou seja permissão de funcionarem para aqueles fins.  Fiquei pasma.  Esses centros culturais incluem estabelecimentos municipais e estaduais.  Para surpresa de todos são lugares conhecidíssimos e freqüentados por milhares de cariocas e turistas: teatros municipais  [Carlos Gomes, Gonzaguinha, Café Pequeno, Sérgio Porto, Ziembinski, Maria Clara Machado,Teatro do Jockey, Sala Baden Powell, Teatro de Marionetes Carlos Werneck]; teatros estaduais [Artur Azevedo, Mario Lago, Glaucio Gill, Armando Gonzaga]; museus, centros de referência e centros culturais da prefeitura [Memorial Getúlio Vargas, Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, Hélio Oiticica, Laurinda Santos Lobo, Oduvaldo Vianna Filho (Castelinho do Flamengo), Parque das Ruínas, Prof. Dyla Sylvia de Sá, Centro Calouste Gulbenkian]; museus estaduais [Museu do Ingá, Casa de Oliveira Viana, Carmen Miranda, Museu dos Teatros, Casa de Euclides da Cunha, Museu da Imagem e do Som, Escola de Artes Visuais, Casa França-Brasil]; bibliotecas Populares da Prefeitura [Botafogo-Machado de Assis. Campo Grande-Manuel Ignácio da Silva Alvarenga, Ilha do Governador—Euclides da Cunha, Maré – Jorge Amado, Irajá—João do Rio, Jacarepaguá—Cecília Meireles, Santa Teresa – José de Alencar, Tijuca – M. Marques Belo]; bibliotecas estaduais [Niterói]; lonas culturais [Gilberto Gil, Elza Osborne, Sandra de Sá, Renato Russo, Terra, Jacob do Bandolim, Herbert Vianna, João Bosco, Hermeto Pascoal e Carlos Zéfiro]; locais em funcionamento, sem alvará, sem permissão do Corpo de Bombeiros.

Lembrei-me então de uma postagem antiga nesse blog que gerou controvérsia, leva o título Museus nos Estados Unidos Passam por Mudanças, lá defendo que temos centros culturais em demasia no Rio de Janeiro, que não podemos continuar usando a cultura como guarda-chuva de proteção a prédios antigos.  Muitas associações de bairro, com medo de que um construtor compre casa e terreno em área nobre,  e com isso aumente o número de pessoas em bairros selecionados, pedem que casas antigas, algumas delas com valor arquitetônico questionável, sejam transformadas em centro cultural.  É praticamente só nessa hora que nos lembramos da cultura.  Ela serve de mãe generosa, ama de leite, justificativa única, contra empreendimentos imobilários na cidade. Não estou com isso defendendo o crescimento sem controle da área urbana da cidade, mas este deverá ser restringido de outra maneira.

NELITO CAVALCANTI( 1933 - 2008),MPB 538, ast,51 x 60cmMPB 538

Nelito  Cavalcanti (Brasil, 1933-2008)

acrílica sobre tela, 51 x 60 cm

Não se trata só de descaso da prefeitura.  Muita dessa responsabilidade, eu diria até mais da metade, é nossa.  Não só porque continuamos a eleger pessoas que estão mais interessadas em seu próprio benefício do que na sociedade.  Não é isso, unicamente.  É que fechamos os olhos: ” não vou me meter, pra quê?  Está bem assim..” é uma resposta natural, porque reclamar e fazer alguma coisa dá trabalho.  Até escrever este texto dá trabalho, não é copiado, tenho que pensar e sentar aqui e reclamar. Mas a mentalidade de “Para quê arranjar sarna para me coçar?” é generalizada.  E se você reclama muitas vezes é vista como uma pessoa cri-cri, que não tem mais o que fazer, que quer impedir uma excelente causa, que quer colocar freios na cultura, nas ideias dos outros.  Temos uma história imoral com a manutenção nessa cidade.  Manutenção de qualquer bem, público ou privado.   Deixamos que tudo aconteça. O problema é sempre dos outros, de preferência do governo. Se esse não fosse o caso, como então explicar marquises desabando de edifícios em ruas movimentadas, como  aconteceu há cinco anos na  Nossa Sra de Copacabana no Rio?  Janelas despencam de edifícios na cidade.  Sabemos que o desastre do Edifício Liberdade no centro do Rio de Janeiro, poderia ter sido evitado, caso o síndico tivesse feito seu papel. Fato é que fazemos vista grossa.  Todos nós. A sociedade carioca é responsável por esses crimes.  Porque temos que exigir dos nossos síndicos, temos que contribuir com as taxas extras para manter fachadas, manter calçadas, manter as saídas de incêndio abertas, manter os extintores de incêndio com manutenção em dia.  É nosso interesse, não podemos simplesmente dizer que os bombeiros não vieram aqui, portanto não vou fazer nada.  Agora, me digam como pode o Teatro Sérgio Porto, no Humaitá, funcionar sem autorização dos bombeiros há cinco anos?  Como pode o dono de uma boate — uma das casas mais populares de Botafogo,  —  dizer que não tem alvará porque é quase impossível conseguí-lo, quando sua competição tem? De acordo com a prefeitura são 374 boates, casas de shows e casas de festas com alvará de funcionamento ativo na cidade. Como que ele não consegue? Ninguém quer assumir responsabilidade.

VIDAL,Sérgio,Café carioca,2008,ast,120 x 80

Café Carioca, 2008

Sérgio Vidal (Brasil, 1945)

acrílica sobre tela, 120 x 80 cm

A decisão de voltar a discutir o assunto de casas de cultura foi também em solidariedade com os empresários da Lapa que temem uma caça às bruxas.  Acredito que assim como o Patrimônio Histórico pode proteger as fachadas de bairros como a Lapa, poderia também apresentar soluções de como fazer com que essas construções possam ser utizadas para os fins que seus donos desejam.  Não adianta só proibir.  Tem que mostrar como solucionar o problema, que é de todos nós, é a nossa herança cultural.  Não queremos que os edifícios da Lapa se deteriorem, queremos que sejam protegidos mas usáveis.  Quando passeei pela Espanha — e vou usar a Espanha como exemplo, porque fiquei muito impressionada com o trabalho de preservação arquitetônica lá —  vi diversas soluções que poderiam muito bem ser aplicadas a conjuntos arquitetônicos como os da Lapa.  Há de haver vontade de todas as partes envolvidas.  O empresário não é só um monstro, como tende-se a pensar por aqui.  Sem ele muito do que nós consideramos “alma carioca” não existiria.  Não há mal algum em se ganhar dinheiro, em explorar um filão cultural.  Temos sim que ter responsabilidade.  E essa tem que ser de todos nós.  A coisa mais irritante na nossa cidade é pensar que cultura só pode ser fomentada pelo governo, pelo dinheiro público.  Cultura pode e deve ser mantida pelo dinheiro particular.  O dinheiro público deve ser colocado na educação.  Com educação, temos pessoas que consomem e gastam com a cultura.  Sem ela, não temos nada.





O girassol, poema de Maurílio Leite

27 01 2013

Lorenzato – Girassóis--ose - 1979 - 48x36 cmGirassóis, 1979

Amadeu Luciano Lorenzato (Brasil, 1900-1995)

óleo sobre eucatex, 48 x 36 cm

Coleção Particular

O Girassol *

Maurílio Leite

Quando o sol nasce em pompa radioso

De luz banhando o universo inteiro,

O girassol desperta no canteiro

Para seguir-lhe o rastro luminoso.

E fica assim, à terra preso e em gozo,

Apesar da distância o rotineiro,

Corola aberta ao beijos do luzeiro,

Cada vez mais distante e mais formoso.

Comparo o girassol à nossa lida;

Cada vez a distância é mais sentida

No infinito do espaço em que vivemos.

Vivo sempre a seguir-te em pensamento,

Não poder alcançar-te é o meu tormento.

Sou como a flor… tu és meu sol … Giremos.

* Este soneto foi musicado pelo autor.

Em: Panorama da poesia norte-riograndense, coletado por Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, introdução Luiz da Câmara Cascudo.

Maurílio Leite (RN 1904- RJ 1939)  nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte em 1904.  Foi aluno do Grupo Escolar Augusto Severo, e depois do Ateneu Norte-Riograndense e da Escola de Comércio de Natal.  Desde o curso primário demonstrou vocação para a música e para a poesia.  Mudou-se para o Rio de Janeiro onde continuou compondo versos e músicas, aproveitando temas folclóricos e líricos.  Percorreu o Brasil como musicista e compositor.  Morreu subitamente em 1939, no Rio de Janeiro, após  executar uma das Polonaises de Chopin. Em 1942, seus restos mortais foram trasladados para o Cemitério do Alecrim em Natal.





Os perigos da leitura sedutora … por F. von B., século XIX

27 01 2013

F. von B, no1

F. von B, no 2

F. von B, no3

F. von B. no4

F. von B, no5

F. von B, no6

Hoje é dia de apreciar um dos precursores das histórias em quadrinhos: F. von B. As pranchas foram retiradas do site Konkykru e como tinham Imagem de leitura  — uma das seções deste blogue — achei muito apropriado trazê-las para cá neste domingo.  Pouco se sabe desse humorista do desenho, seu trabalho aparece depois de 1860, na Alemanha e na Áustria.  O título dessa série de seis quadros é:

‘Der schlaue Pepi – oder – Die geraubte Gans’

Pepi o astuto ou O ganso roubado [mas aqui há um trocadilho já que a palavra  Gans também significa bobo, tolo, o que faria a tradução ser O bobo roubado].

Um bom domingo para todos!




Ação Social, livros para biblioteca escolar

26 01 2013

escola, crianças, colorida, sem autoria

Escola, ilustração americana, sem autoria.

Para comemorar os 5 anos de aniversário do blog Livro Errante, Regina Porto, autora do blog, volta a fazer uma ação social de doação de livros infantis, em boas condições,  para uma escola que precise.  Já participei de dois projetos semelhantes da própria Regina mandando livros para uma escola em Minas Gerais e outra na Paraíba.  Desta vez a escolhida — e Regina sempre seleciona com muito cuidado esses locais, porque os professores precisam estar envolvidos — foi no estado de São Paulo.  Eu vou contribuir.  Peço que quem puder faça o mesmo.  Obrigada.

Nas palavras da Regina:

“A Escola Municipal prof. Alberto Thomazi vai contar com a nossa colaboração para a a formação de sua biblioteca.  Este blog, acredita que você também queira colaborar. Se você é da cidade de Piracicaba pode ir lá pessoalmente doar quantos livros infantis quiser.  Se mora longe, pode enviar pelos correios para o endereço abaixo.”

E.M Prof. Alberto Thomazi
Rua Batatais S/N – Cruz Caiada
13413.015 Piracicaba SP




O espião e o crítico de arte, texto de John Banville

21 01 2013

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O crítico de arte, 1935

Norman Rockwell (EUA, 1894-1978)

[Capa da revista Saturday Evening Post, de 16 de abril de 1935]

Neste fim de semana estive envolvida com o livro O Intocável de John Banville. É extremamente bem escrito, fala de espionagem, fala de arte e da Inglaterra.  Baseia-se na história real do agente secreto britânico e simultaneamente agente para a Rússia, Anthony Blunt, conhecidíssimo historiador e crítico de arte.  O caso só veio ao conhecimento do público no final dos anos 80.  E a história, aqui contada como uma quase-memória é fascinante.  Selecionei um trecho para postagem hoje, porque mostra além do conhecimento da arte, os valores que eram a elas atribuídos e as metáforas que dela se usava.  A cena se passa na Inglaterra, em 1935 antes do início da Segunda Guerra Mundial.

“Fêz-se uma fração de segundo de silêncio, e a atmosfera adensou-se por um breve instante. Eu olhava de um para o outro, parecendo detectar uma coisa invisível a passar entre eles, não tanto um sinal como um símbolo mudo, como um desses quase impalpáveis  reconhecimentos que trocam os adúlteros quando têm companhia.  O fenômeno ainda me era estranho, mas ia tornar-se cada vez mais conhecido quanto mais fundo eu penetrava no mundo secreto. Assinala aquele momento em que um grupo de iniciados, no meio da tagarelice habitual, começa a trabalhar num candidato potencial: era sempre o mesmo: a pausa, o breve intumescimento no ar, depois a tranqüila retomada do tema fora irrecuperavelmente mudado. Mais tarde, quando eu mesmo já era um iniciado, essa pequena agitação especulativa me emocionava profundamente. Nada muito tentador, nada muito emocionante, a não ser, claro, algumas manobras na caçada sexual.

Eu sabia o que estava acontecendo; sabia que estava sendo recrutado. Era emocionante, assustador e ligeiramente ridículo, como ser chamado das laterais para jogar no time titular da escola. Era divertido. Essa palavra não traz mais o peso que tinha para nós. Diversão não era diversão, mas o teste de autenticidade de uma coisa, uma verificação do seu valor. As coisas mais sérias nos divertiam. As coisas mais sérias nos divertiam. Isso é algo que os Felix Hartmans jamais entenderam.

— Sim – falei, é verdade que eu antes defendia o primado da forma pura. Uma parte muito grande da arte é apenas anedótica, que é o que atrai o sentimentalista burguês. Eu queria uma coisa rude e estudada, realmente fiel à vida: Poussin, Cézanne, Picasso. Mas esses novos movimentos… esse surrealismo, essas áridas abstrações… que têm eles a ver com o mundo real, em que os homens vivem, trabalham e morrem?

Alastair bateu palmas lentas e silenciosas. Hatman, franzindo pensativamente a testa para meu tornozelo, ignorou-o.

— Bonnard – disse. Bonnard fazia furor naquele momento.

— Felicidade doméstica. Sexo sábado à noite.

— Matisse.

— Postais pintados a mão.

–Diego Rivera.

— Um verdadeiro pintor do povo, claro. Um grande pintor.

Ele ignorou o sorrisinho de lábio preso que não pude evitar; lembro-me de que surpreendi Bernard Berenson sorrindo assim uma vez, quando fazia uma atribuição gritantemente falaz de uma falsificação barata que um infeliz americano ia comprar por um preço fabuloso.

— Tão grande quanto … Poussin? – perguntou.

Encolhi os ombros. Então ele conhecia meus interesses. Alguém andara falando-lhe.  Olhei para Alastair, mas ele se achava absorvido examinando o polegar machucado.

— Essa questão não se coloca – disse eu – A crítica comparativa é em essência  fascista. Nossa tarefa – como apliquei delicadamente a pressão nesse nosso – é enfatizar os elementos progressistas na arte. Em tempos como estes, certamente é esse o primeiro e mais importante dever do crítico.

Seguiu-se outro silêncio significativo, Alastair chupando o polegar, Hartman balançando a cabeça e eu olhando para o lado, a exibir meu perfil, a própria modesta e a firme decisão proletárias, como, tinha certeza, uma daquelas figuras em relevo, em leque, no pedestal  e um monumento do realismo socialista. É curioso como as pequenas desonestidades são as que se grudam na seda da mente. Diego Rivera – Deus do céu! Alastair observava-me agora com um sorriso matreiro”.

Em: O Intocável, John Banville, Rio de Janeiro, Record: 1999, pp-114-115, tradução de Marcos Santarrita.





O Pavão, texto de Rubem Braga

18 01 2013

A figueira e o pavão, Walter Crane, 1895

A figueira e o pavão, 1895, ilustração de Walter Crane.

O Pavão

Rubem Braga

Eu considerei a glória de um pavão, ostentando o esplendor, de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros,e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Em: Ai de Ti Copacabana! Rubem Braga, Rio de Janeiro, Sabiá: 1969, 5ª edição





O livro das horas de Nélida Piñon

17 01 2013

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Iluminura da Cidade das Mulheres, de Catarina de Pisano, século XV

Mestre da Cidade das Mulheres (Ativo em Paris entre 1400-1415)

Pintura sobre pergaminho, 12 x 18 cm

Biblioteca Nacional da França, Paris

Tradicionalmente o Livro de Horas era um pequeno livro, manuscrito, contendo salmos e orações, para a pessoa comum usar como guia dos rituais religiosos. Foram populares na Idade Média, a maioria aparecendo entre os séculos XIV e XVI.  Tinham, por vezes,  divisões das horas canônicas,  para que seus portadores mantivessem as orações necessárias na hora certa. Podiam conter também os meses ou as estações do ano com lembranças das festividades do ano cristão. O Livro de Horas  era composto de pequenos textos pois era  um guia para  reflexão,  para a meditação religiosa.  Era carregado facilmente em bolsas ou bolsos;  poderia ou não ser ilustrado com pinturas à mão, chamadas iluminuras, mais ou menos ricas dependendo da fortuna de seus portadores.  Porque eram  objetos próprios, especificamente feitos para um só dono, diferenciavam-se, cada qual  adaptado  ao gosto de quem o encomendara.

A descrição acima não se aplica ao livro de Nélida Piñon a não ser na forma e no espírito:  ponderações oportunas, ritmadas.  Meditações variadas.  Seu livro tampouco se mostra afiliado aos poemas de amor divino enunciados no volume poético de Rainer Maria Rilke, titulado Livro das Horas, publicado em 1905.   O que todos têm em comum é o convite à reflexão, a voz introspectiva, o tom meditativo.  Este é um livro pessoal, íntimo, mesmo que essa intimidade seja filtrada e dosada.  Dona de uma das mais fortes vozes narrativas da literatura brasileira, Nélida Piñon pode ser considerada acima de tudo a escritora da palavra certa, mestra  do uso do “mot juste”.

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Engana-se quem imagina perceber nessas reflexões sobre o cotidiano, sobre viagens e leituras,  memórias reveladoras dos pensamentos mais íntimos, das alegrias e tristezas de sua autora.  Muito pelo contrário, vislumbramos sim, uma pessoa carinhosa para com seu cachorrinho de estimação, Gravetinho; uma pessoa  cuja mente associa no perscrutar diário, segmentos de leituras do passado temperadas ao gosto da gastronomia galega.  Mas são passos cuidadosos de revelação, passos que avançam o conhecimento que temos da escritora, mas que simultaneamente nos aguçam a curiosidade sobre suas opiniões, sobre suas ‘verdadeiras’ opiniões.  A aparente facilidade com que Nélida Piñon pode deslizar da leitura da manchete de jornal a considerações  sobre o teatro clássico grego; quando consegue se imaginar dialogando com a boneca Emília do Sítio do Picapau Amarelo,  passear pelo velho centro do Rio de Janeiro e acabar com os olhos pousados nas águas da lagoa Rodrigo de Freitas, só demonstra sua extraordinária habilidade de cinzelar o texto, de abreviar as pausas e mostrar só, unicamente aquilo que se permite revelar.  Mas os véus encobrindo a pessoa continuam a ser tão eficazes quanto a roupa de Salomé antes do espetáculo diante de São João Batista. O que descobrimos  não é a autora, mas sua persona.

Memórias, todos sabemos, são tão grande ficção quanto um bom romance detetivesco.  Lembramo-nos do mundo como o desejaríamos que tivesse sido, às vezes para justificar certas ações, outras para nos apresentarmos pelo melhor ângulo. Recontamos só aquilo a que nos permitimos.  O mesmo se dá nessa publicação, nesse livro de reflexões.   O presente que Nélida Piñon nos entrega, no entanto, nessa coletânea encantadora  de meditações enfileiradas como contas de um rosário, é a habilidade de imaginarmo-nos em sua companhia, em  conversa sem hora para terminar; saltando de um canto ao outro do mundo; peregrinando pela Ibéria com a escritora a nos servir de guia.  O tom é íntimo.  Suave.  Meia-voz.  E com ela escorregamos de um assunto ao outro, às vezes surpresos pelo convívio que revela ter com amigos, por um leve misticismo quase gitano, talvez herdado dos ancestrais espanhóis e alimentado nas raízes brasileiras. O que descobrimos é uma mulher com um interior rico, lúdico e letrado. Só. Imensamente só.

Nélida Piñon, close

Nélida Piñon

A leitura de Livro das Horas é um presente. Deixou-me com curiosidade ainda maior pela autora, que já participava do meu panteão de sacerdotes da nossa literatura.  Percorri a rede à cata de entrevistas, queria ouvir sua voz para finalmente casá-la com os textos que perscrutava. É impossível ler-se essa publicação de uma ou duas sentadas.  Ela exige reflexão e os cinco ou seis parágrafos de cada etapa são suficientes para levar-nos, cheios de ponderações, ao dia seguinte, à noite seguinte.  Sherazade, é quem me vem à memória.  Tal é o encantamento do texto que me fez alongar a leitura por quase um mês, tomando-a a conta gotas, prolongando sua vida ao meu lado, como fez  o rei Sheriar.  Foi um prazer!





Quadrinha da alvorada

16 01 2013

galo, canto do galo, ils Caroline YoungO canto do galo, ilustração de Caroline Young.

O galo canta e desperta

a festiva passarada,

que deixa o morno dos ninhos

para saudar a alvorada.

(Manuel Lins Caldas) [psed. Daslak]