Festa de reis, texto das memórias de Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930)

10 09 2020

Rodrigues Lessa (Brasil, 1972)Folia de Reis,2006,ast,30 x 40 cmFolia de Reis, 2006

Rodrigues Lessa (Brasil, 1972)

acrílica sobre tela, 30 x 40 cm

Reunidas as famílias na Marmota, partiu o imenso terno às oito ou nove horas da noite. Cada família levava alguns de seus agregados que tinham filhas que dançassem bem o lundu, única dança então conhecida em nossa terra, à exceção de uma valsa de que depois falarei. Eram também convidados alguns desses agregados só pela estima ou deferência que mereciam do proprietário; iam como meros espectadores. Algumas senhoras iam a cavalo, bem como os homens. Todas as famílias, porém, levavam carros puxados a bois, não só para as senhoras que preferiam aquele modo de transporte, como para os meninos, agregados e mucamas. porque iam também as que dançavam bem ou tinham boa voz para tirar os reis.

Os instrumentos musicais eram ordinariamente flauta, rebeca e violão. Chegando a certa distância apeavam-se os que iam nos carros, cujo chiado estridente podia ser ouvido na vivenda. Os que iam a cavalo prosseguiam até mais perto. Então, reunidos, a pé, no maior silêncio, dirigiam-se à casa do proprietário. Não tanto para causar surpresa aos donos da casa, que haviam sido avisados, mas para que se conservassem as portas fechadas e em silêncio, talvez para simular surpresa. Era a praxe.

No silêncio profundo da noite, rompiam de repente os sons das vozes e instrumentos. Era de um efeito agradabilíssimo. Às trovas em referência ao nascimento do Messias, seguiam-se as de saudações aos donos da casa e outros membros da família. Vinham depois as quadras mais ligeiras e alegres,  pedindo para ser aberta a porta. Com pequenas variantes, tudo isto era obedecido até há pouco tempo. Aberta a porta, era a sala invadida em alegre alvoroço. Não ricamente mobiliada, como acontecia com as nossas vivendas campestres, todas muito simples, a sala estava, porém, adornada com o mais precioso adereço para os hóspedes. a alegria e bom acolhimento dos donos da casa. Então, todos em pé formavam a circunferência de um grande círculo vazio que devia ser ocupado pelos que dançavam. Somente os instrumentistas tinham cadeiras.

As mais peritas cantadeiras entoavam as alegres cançonetas chamadas chulas, acompanhadas dos instrumentos e palmas dos assistentes. Algumas dessas chulas não deixavam de ter o sainete da graça e o espírito popular. Depois, o que dirigia o samba, logo que terminava a última copla, saía na roda dançando, acompanhado dos instrumentos. Os homens não tinham em grande apreço o lundu baiano, executado pelo sexo masculino. Portanto, só saíam dançando para ter lugar de tirar as belas raparigas. Davam algumas pernadas, sempre em ar de galhofa, e iam topar –– era  o termo —em uma das dançadeiras. Cantavam então a segunda copla no final da qual saía à roda a rapariga. Se era bonita e conhecido seu mérito dançante, as palmas dobravam de entusiasmo e estrepitosos bravos cruzavam-se no ar. Isto não durava muito tempo: todos desejavam o descanso depois da caminhada. Era dado o sinal, e a dançarina topava mo instrumentista da viola ou do violão. Eram oferecidas bebidas, e todos se dispersavam pelas salas e outros aposentos, conversando alegremente.

Findo o breve descanso, devia recomeçar o samba. Desta vez, porém, não foi assim. Todos ardiam na impaciência de ver as danças altas — assim eram chamadas — que iam ser executadas pelos sobrinhos de minha mãe. Estas danças eram de bem poucos ali conhecidas, e foi tal a aglomeração de espectadores, que com dificuldade deixaram o espaço, no centro da sala, para a execução das mesmas. Vi, pela primeira vez, a gavota, a cachucha, o minueto, o fandango e o solo inglês, que foi o mais apreciado em razão das múltiplas figuras ou modos de dançar. O rapaz mais moço, Manoel Paulino, de treze anos, era muito vivo e engraçado, sendo por isso muito aplaudido. Do mais velho, Pedro da Trindade, já sério e refletido, diziam: “Dança bem, mas não tem a graça do outro.” Depois houve a repetição do samba, a que não assisti, Minha mãe nessas ocasiões tratava de arranjar um cômodo para agasalhar-me o sofrimento dos olhos, que foi o constante martírio de minha vida, não me permitia perder as noites,  e ela, pouco apreciadora do samba, não voltava à sala.

Pela manhã, encontrei as senhoras cuidando dos preparativos do almoço. Todas, parentas e amigas, auxiliavam a dona da casa, embora não fosse preciso, visto o crescido número de escravas empregadas em todas as casas no serviço doméstico. Mas é que todas aquelas senhoras tinham muito garbo de boas donas de casa e gostavam de ostentar seus conhecimentos culinários, embora muito simples, como era tudo naquele tempo. Os homens, ao se levantarem da mesa, dispersavam-se pelas salas da frente, e as senhoras agrupavam-se nos aposentos interiores, onde estas conversavam sobre coisas domésticas e costuras, que mostravam, comentando a beleza ou os defeitos. Em todas as casas havia costureiras e rendeiras escravas que trabalhavam para a família. Depois do suculento almoço, todos voltavam às suas vivendas satisfeitos,  a combinar novos reisados, que repetiam na maior parte das casas.

Em: Longos Serões do Campo; infância e juventude, Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930), volume II, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:1992, pp 52-55





Flores para um sábado perfeito!

5 09 2020

Jarro de flores sobre mesa, 1986

Alice Brill (Alemanha-Brasil, 1920 – 2013)

óleo sobre tela, 70 x 42 cm





Trova da virtude

20 08 2020

 

 

e não tenho um tostãoBolinha não tem um tostão.

 

 

Busca primeiro a virtude;

teu ouro, busca depois.

Quem não toma essa atitude

acaba perdendo os dois!

 

(Renata Paccola)





Tijuco (Diamantina) visita de Auguste Saint-Hilaire, 1817

13 08 2020

 

 

 

Wilde Lacerda,Paisagem de Diamantina – ost,1972 - 46 x 55Paisagem de Diamantina,  1972

Wilde Lacerda (Brasil, 1929 – 1996)

óleo sobre tela,  46 x 55 cm

 

“Antes mesmo de chegar a essa bonita aldeia o viajante fica bem impressionado, vendo os caminhos que a ela vão ter. Até uma certa distância os caminhos tinham sido reparados (escrito em 1817) pelos cuidados do Intendente e por meio de auxílios particulares.  Ainda não tinha visto tão belos em nenhuma parte da Província.

……….

As ruas de Tijuco são bem largas, muito limpas, mas muito mal calçadas; quase todas são em rampa; o que é consequência do modo em que a aldeia foi colocada. As casas construídas umas em barro e madeira, outras com adobes, são cobertas de telhas brancas por fora e geralmente bem cuidadas. A cercadura das portas e das janelas é pintada de diferentes cores, segundo o gosto dos proprietários e, em muitas casas, as janelas têm vidraças. As rótulas, que tornam tão tristes as casas de Vila Rica, são muito raras em Tijuco, e os telhados aqui não fazem abas tão grandes para fora das paredes. Quando fiz minhas visitas de despedida, tive ocasião de entrar nas principais casas de Tijuco e elas me parecem de extrema limpeza.  As paredes das peças onde fui recebido estavam caiadas, os lambris e os rodapés pintados à imitação de mármore.  Quanto aos móveis, eram sempre em pequeno número, sendo em geral também cobertos de couro cru, cadeiras de grande espaldar, bancos e mesas.

Os jardins são muito numerosos e cada casa tem, por assim dizer, o seu. Neles veem-se laranjeiras, bananeiras, pessegueiros, jabuticabeiras, algumas figueiras, um pequeno número de pinheiros e alguns marmeleiros. Cultivam-se também couves, alfaces, chicória, batata, algumas ervas medicinais e flores entre as quais o cravo é a espécie favorita. Os jardins de Tijuco pareceram-me geralmente melhor cuidados que os que havia visto em outros lugares ;  entretanto eles são dispostos sem ordem e sem simetria. De qualquer modo resultam perspectivas muito agradáveis desta mistura de casas e jardins dispostos irregularmente sobre um plano inclinado. De várias casas veem-se não somente as que ficam mais abaixo,  mas ainda o fundo do vale e os outeiros que se elevam em face da vila; e não se poderá descrever bem o efeito encantador que produz na paisagem o contraste da verdura tão fresca dos jardins com a cor dos telhados das casas e mais ainda com as tintas pardacentas e austeras do vale e das montanhas circundantes.”

 

Em: As lavras de diamantes (Diamantina e arredores- 1817),  texto de Auguste Saint-Hilaire,  incluído no livro O ouro e a montanha: Minas Gerais, seleção, introdução e notas de Ernani Silva Bruno, Organização de Diaulas Riedel, São Paulo, Cultrix: 1959, pp-39-40.

 

NOTA: Auguste Saint-Hilaire (França, 1779 – 1853) botânico, naturalista e viajou pelo Brasil entre os anos de 1816 – 1822.

 





Rio de Janeiro, um parque à beira-mar

7 08 2020

 

 

Carlos Geyer (Brasil, 1912), oleo sobre madeira, iRio de Janeiro, paisagem com cristo redentor, 1965, 38 x 54 cmRio de Janeiro, paisagem com Cristo Redentor, 1965

Carlos Geyer (Brasil, 1912 – ?)

óleo sobre madeira, 38 x 54 cm





Trova da renovação

5 08 2020

 

limpando a casa, silhueta

 

Pra tirar o pó do amor

saiba que o melhor caminho

sequer passa pela dor:

basta um sopro de carinho.

 

(Adilson Roberto Gonçalves)





Na boca do povo: escolha de provérbio popular

4 08 2020

 

 

 

7e86acbe4a297b42c714b5c8f2734300Ilustração americana anos 60.

 

 

“Do prato à boca, perde-se a sopa.”





Chuva, texto de Gilberto Amado

1 08 2020

 

 

chuva 2Cebolinha em dia de chuva © Maurício de Sousa

 

“…Chuva para menino é festa, é rego barrento cachoeirando à porta de casa, chamando a gente para brincar com a água que passa fazendo cócegas nos pés … É goteira pingando, é de noite música no telhado. Na calçada, reúne-se a meninada, na exuberância, no contentamento de ver a água cair, meninada pançudinha, inchada pelas sezões, de frieira rosada nos pés, de boca sem dentes caídos na muda, de boqueira, meninotas de tranças, ossudinhas, uma de olhos de sapiranga, batendo palmas e se esgoelando:

 

Chove chuva

pra nascê capim

pro boi comê

pra papai matá

pra mamãe comê!”

 

Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição, p. 72.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos

29 07 2020

 

 

Natureza Morta com Frutas. Óleo sobre tela, 46 x 55 cm. Manuel SantiagoNatureza morta com frutas

Manoel Santiago (Brasil, 1897 – 1987)

óleo sobre tela,  46 x 55 cm





Trova do vencedor

28 07 2020

 

 

ganhou concursos,Ilustração Equipe Mauricio de Souza.

 

 

Ganha mais brilho a vitória

quando o nobre vencedor,

no pódio da sua glória,

não humilha o perdedor!

 

(Alba Helena Corrêa)