Refeições literárias…

17 04 2023

DETALHE**

Os sentidos: toque, audição e paladar, c. 1620*

Jan Brueghel  (Flandres, 1568-1625)

óleo sobre tela, tamanho do original 176 x 264 cm

Museu do Prado

* acima temos um detalhe.  O original pertence a um par de quadros enormes, representando os cinco sentidos.

** Veja abaixo esta tela completa

 

Em abril de 2014 postei uma pergunta aos leitores: você se lembra de alguma refeição literária memorável?  O questionamento veio de um artigo que eu havia acabado de ler na revista Smithsonian daquele mês, onde a exposição fotográfica de Dinah Fried, Fictitious Dishes [Pratos fictícios] retratavam refeições descritas em conhecidas obras literárias. Naquele dia, próximo à Páscoa, me lembrei de uma refeição descrita por José de Alencar, no livro Senhora, um de meus livros favoritos quando jovem adolescente, que li e reli diversas vezes.  Nesta última semana tive a oportunidade de reler outro livro favorito da minha adolescência, A cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, votado como livro do mês pelo grupo Encontros na Praça.  É claro  que tinha que passar para vocês a deliciosa primeira refeição no interior de Portugal  de Jacinto, recém-chegado de Paris.   Aqui vai para vocês esta refeição memorável, que é a porta de entrada para toda a segunda metade do livro, a vida de Jacinto, o citadino ao interior de seu país natal.

 

Na mesa, encostada ao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam grossos pratos de louça amarela, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. Os copos, de um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas, contentaria Diógenes. Espetado na côdea de um imenso pão reluzia um imenso facalhão. E na cadeira senhorial reservada ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de hirto espaldar de couro, com madeira roída de caruncho, a clina fugia em melenas pelos rasgões do assento puído. Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que Suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar… Jacinto ocupou a sede ancestral — e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. 

Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e recendia. Provou — e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: — “Está bom!” Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo. — Também lá volto! — exclamava Jacinto com uma convicção imensa. — É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome. Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado — e pousou sobre a mesa uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!… Tentou todavia uma garfada tímida — e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: — Ótimo!… Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia! E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…

— Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! O homem ótimo sorria, inteiramente desanuviado: — Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até Suas Incelências se riam… Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também vai engordar e enrijar! O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e minguava… e o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: — “É divino!” Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde — um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de otimismo na face, citou Virgílio: — Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras? Eu, que não gosto que me avantajem em saber clássico, espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural: — Hanc olim veteres vitam coluere Sabini… Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Rómulo e Remo… Assim cresceu a valente Etrúria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo! E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverência.

Ah! Jantámos deliciosamente sob os auspícios do Melchior — que ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o suntuoso céu de verão.Filosofamos então, com a pachorra e facúndia.”

 

Em: A cidade e as Serras, Eça de Queiroz.  Em domínio público.  Esta versão Amazon, Kindle.

 

Aqui a tela completa do início da postagens:

 

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/87/File-Bruegel_d._%C3%84.%2C_Jan_-The_Senses_of_Hearing%2C_Touch_and_Taste_-_1618.jpg





Papalivros comemora 20 anos!

16 04 2023

O grupo de  leitura Papalivros comemorou hoje vinte anos de existência.  Nesse período muita coisa mudou.  Já tivemos nascimentos de filhos, de netos, divórcios e casamentos.  Falecimentos, três. Já fomos grandes: vinte e duas pessoas,  Mas agora no limitamos a quinze, porque é difícil arranjar lugar para vinte pessoas.  É difícil para quinze!   Já nos encontramos nas nossas casas, e fora.  Atualmente nos encontramos em restaurantes.  Mesmo assim passamos um aperto para encontrar mesa para todas nós.  Fomos um grupo que incluía homens e mulheres.  Mas eles não aguentam… a gente fala muito!  Foram até hoje 239 encontros e 239 livros lidos.  Só não nos encontramos quando fiquei viúva, ano passado, na semana do nosso encontro.  Querendo ver o que lemos nesses vinte anos,  leitura sempre decidida por votação de uma série de livros sugeridos, visite  a página do grupo aqui no blog.

 

AVISO:  Não temos vaga no grupo.  Se você quiser posso lhe dar o passo a passo para você formar um grupo de  leitura.   Mas não temos vagas para este grupo, nem para os dois outros grupos que gerencio: Ao pé da letra, Encontros na praça.  Infelizmente não tenho como dar atenção a mais nenhuma pessoa ou grupo. 





Passeio de domingo: casa de campo, montanha ou costa?

16 04 2023

Dia Florido, 2010

Renata Amrita Dowe (Brasil, 1961)

óleo sobre madeira, 60 x 80 cm

Teresópolis, Serra dos Órgãos, 1895

Henrique Bernardelli (Chile-Brasil, 1858-1936)

óleo sobre tela, 52 x 77 cm

 

 

Pescaria

João Fahrion ( Brasil, 1898-1970)

óleo sobre tela, 70 x 81 cm





Flores para um sábado perfeito!

15 04 2023

Vaso com flores, 1980

Evilásio Lopes (Brasil, 1917-2013)

óleo sobre tela, 35 x 28cm

 

 

Buquê de peônias

Jorge Mori, (Brasil, 1932- 2018)

óleo sobre tela, 41 x 22 cm





Vida de escritora

12 04 2023

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Nas últimas semanas,  março e abril,  comecei a sair do meu ninho, voltando para uma vida mais normal.  Marquei um encontro com Judy Botler, no dia 25 de março.Nossos livros, Cerejas de Maio de Judy Botler e À meia voz de minha autoria estão na Amazon e em livrarias no Rio de Janeiro. Recebi um volume do livro Cerejas de Maio, para doação à biblioteca da Usina de Arte, em PE para qual o Livro Errante está recolhendo livros novos.

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Sim, tiramos fotos juntos. Mas me dei ao luxo de não gostar de nenhuma das minhas. Ou estava desarrumada, ou mais acabada do que me acho, ou parecia com sono… eliminei TODAS…. Minha página, meu gosto!





Nossas cidades: Belo Horizonte

4 04 2023

Mineirão, 2007

Márcio Schiaz (Brasil, 1965)

óleo sobre tela,  60 x 100 cm

 





Passeio de domingo: casa de campo, montanha, ou costa?

2 04 2023

Marinha, 1979

Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

 

 

Galinhas no quintal, 1988

Eduardo Carlson (Brasil, 1924)

óleo sobre tela, 35 x 27 cm

 

 

Paisagem rural

Jonas Matos (Brasil, 1984)

óleo sobre tela, 30 x 60 cm

 

 


Ladyce West historiadora da arte e escritora. Seu primeiro livro de poesias À meia voz, foi publicado em  novembro de 2020, pela Autografia. Encontra-se à venda em todas as livrarias e em ebook na Amazon.

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Canto do regresso à Pátria, Oswald de Andrade

30 03 2023

Viaduto Santa Ifigênia

José Maria dos Reis Junior (Brasil, 1903-1985)

óleo sobre madeira, 20 x 18 cm

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Canto do regresso à pátria

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Oswald de Andrade

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Minha terra tem palmares

Onde gorjeia o mar

Os passarinhos aqui

Não cantam como os de lá

 

Minha terra tem mais rosas

E quase que mais amores

Minha terra tem mais ouro

Minha terra tem mais terra

 

Ouro terra amor e rosas

Eu quero tudo de lá

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá

 

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para São Paulo

Sem que veja a rua 15

E o progresso de São Paulo.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p.18.





Curiosidade literária

27 03 2023

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A escritora inglesa Enid Blyton (1897-1968), falecida há mais de cinquenta anos, continua conhecidíssima no mundo inteiro por suas obras para crianças e adolescentes. Seus livros, continuamente reimpressos, são lembrados por adultos até hoje. Lembranças das aventuras das gêmeas no colégio Santa Clara, o grupo dos cinco detetives, a sociedade secreta dos sete amigos, todos são personagens queridos e firmemente enraizados na memória de milhares de adultos. Enquanto para as gerações mais recentes, Enid Blyton seria conhecida pelas séries televisivas dos anos 90 ao início do século XXI de Nodi [Noddy], o menino de madeira que vivia numa casinha em Toyland. Sua proeminência no mundo infanto-juvenil não é exagero: seus livros estão entre os mais vendidos do mundo, mais de 600 milhões de cópias desde a década de 1930. A escritora conta com oitocentas obras. Por causa disso foi acusada de usar escritores profissionais para produzir tanto. Negou veementemente e nunca foi confirmado o uso de ghost-writers.

É surpreendente, portanto, descobrir que a autora não gostava de crianças. Era conhecida pelos gritos constantes com os filhos reclamando do barulho que faziam. Vizinhos relataram a preferência da escritora por uma das filhas, favorecendo-a sempre que possível. Imogen, outra filha, relata em suas memórias que ela e a irmã eram levadas e obrigadas a permanecer em um aposento da casa, com a porta aberta, de tal maneira que pudessem ver a mãe e seus convidados, crianças, fãs e leitoras, recepcionadas pela escritora.





Passeio de domingo: casa de campo, montanha, ou costa?

26 03 2023

Paisagem,1975

Francisco Rebolo Gonzales (Brasil, 1902-1980)

óleo sobre placa, 46 x 61cm

Paisagem com casario e montanhas, 1970

Geza Heller (Hungria-Brasil,1902-1992)

aquarela, 45 X 59 cm

Recanto, 1998

Carlos Haraldo Sörensen (Brasil, 1908-2008)

óleo sobre tela, 53 x 63 cm