Chegada de Papai Noel.
Capa da Revista Toda Família, Suécia, 1917.
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Natal é meditação,
é o tempo da Humanidade
entender que salvação
tem um nome: CARIDADE!
(José Ouverney)
Chegada de Papai Noel.
Capa da Revista Toda Família, Suécia, 1917.
—
Natal é meditação,
é o tempo da Humanidade
entender que salvação
tem um nome: CARIDADE!
(José Ouverney)
Nascimento de Jesus
Arte folclórica dos Estados Unidos, anônimo
Manuel Bandeira
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O nosso menino
Nasceu em Belém
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
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Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
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Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.
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Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.
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Em: Bandeira, antologia poética, Rio de Janeiro, José Olympio:1978, 10ª edição.
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Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.
Obras:
3 Conferências sobre Cultura Hispano-americana, 1959
50 poemas escolhidos pelo autor , 1955
A Autoria das Cartas Chilenas, 1940
A Cinza das Horas, 1917
A Cópula, 1986
A Leste do Éden, 1958
A Morte, 1965
A Versificação em Língua Portuguesa
Alumbramentos, 1960
Andorinha, Andorinha 1965
Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos 1946
Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana 1938
Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica 1937
Antologia dos Poetas Brasileiros: fase moderna 1967
Antologia dos Poetas Brasileiros: Fase Simbolista 1937
Antologia Poética 1961
Apresentação da Poesia Brasileira 1944
Auto Sacramental do Divino Narciso, de Sóror Juana Inés de la Cruz
Carnaval 1919
Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira 1958
Colóquio Unilateralmente Sentimental 1968
Crônicas da Província do Brasil 1937
De Poetas e de Poesia 1954
Discurso de Posse de Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras 1941
Em Busca do Verso Puro, de Pedro Henríquez Ureña 1946
Estrela da Manhã 1936
Estrela da Tarde 1960
Estrela da Vida Inteira 1966
Flauta de Papel 1957
Francisco Mignone 1956
Glória de Antero 1943
Gonçalves Dias 1952
Guia de Ouro Preto 1938
Itinerário de Pasárgada 1954
Itinerários 1974
Libertinagem 1930
Literatura Hispano-americana 1949
Macbeth, de Shakespeare 1958
Mafuá do Malungo 1948
Maria Stuart, de Schiller 1955
Mário de Andrade: animador da cultura musical brasileira 1954
Meus Poemas Preferidos 1967
Noções de História das Literaturas 1940
Noturno do Morro do Encanto 1955
O Melhor Soneto de Manuel Bandeira 1955
Obras Poéticas 1956
Obras Poéticas de Gonçalves Dias 1944
Obras-primas da Lírica Brasileira 1943
Opus 10 1952
Oração de Paraninfo 1946
Os Reis Vagabundos 1966
Panorama das Literaturas das Américas 1958
Pasárgada 1960
Poemas Traduzidos 1945
Poemas-gráficos: 3 ensaios tipográficos no centenário do poeta 1986
Poesia do Brasil 1963
Poesia e prosa 1958
Poesia e Vida de Gonçalves Dias 1962
Poesias 1924
Poesias completas 1940
Poesias Escolhidas 1937
Poesias, de Alphonsus de Guimaraens 1938
Portinari 1939
Recepção do sr. Peregrino Júnior 1947
Recordações de Manuel Bandeira nos Arquivos Implacáveis de João Condé 1990
Rimas, de José Albano 1948
Rio de Janeiro em Prosa & Verso 1965
Rubaiyat, de Omar Khayyan 1965
Sonetos Completos e Poemas Escolhidos, de Antero de Quental 1942
Um Poema de Manuel Bandeira 1956
Ceia de Natal
Cartão de Natal da Polônia.
—
Natal! É sonho e vigília
harmonia, amor e paz…
Milagre! Toda a família
se reúne uma vez mais…
(J. G. de Araújo Jorge)
Igreja de São Bento, Vale do Tamanduateí, SP, s/d
José Wasth Rodrigues (Brasil, 1891-1957)
Aquarela, 32 x 47 cm.
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À memória de Horácio Senne
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” A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova daquelas que não se vêem.” —- S. PAULO, Epístola aos Hebreus, 11
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Nada se pode articular contra a sinceridade com que a gente do Vale do Paraíba pratica seus deveres religiosos. Pelo menos, era assim no meu tempo de menino: os preceitos da Igreja, nós os cumpríamos com uma pontualidade inalterável, e mais ainda: com profunda unção espiritual.
Por alguns anos (antes de nos transferirmos para a Chacrinha, às margens do Paraíba), residimos perto da Matriz, e tivemos como vizinho o velho vigário Gaudêncio Antônio de Campos.
Tal circunstância, acrescida pelos desvelos de minha mãe, concorreu para a dedicação e o interesse com que eu e meus manos nos dedicávamos a tudo o que dissesse respeito ao culto.
Por ocasião das grandes e solenes procissões, nós figurávamos em lugares de realce, trajando roupas vermelhas, e tendo nas mãos pesados círios. Nas rezas do mês de Maria, igualmente, éramos incluídos na guarda de honra do altar. Como mais velho, eu, compenetradíssimo, fiscalizava meus irmãos, pois o maior prazer do Nelson era brincar com a chama de sua vela, e reacender as que se apagassem, para o que saía pingando cera em todo o mundo; e o do Júlio, bater nos cachorros que entrassem no templo, os quais saiam ganindo lamentosamente, o que a meu ver perturbava a atenção piedosa dos fiéis.
O vigário Gaudêncio, homem boníssimo, utilizava, sempre que possível, nosso concurso nas festinhas da paróquia. É claro que não designo por essa forma as grandes solenidades, religiosas e populares, que se efetuavam outrora, como ainda hoje, nos dias 23 a 25 de junho, e que compreendem as homenagens ao Santo Precursor, padroeiro da cidade e as festas anuais consagradas ao Divino Espírito Santo. Nesses dias havia alvorada, missas cantadas (pregando o Evangelho ilustres oradores sacros), imponentes procissões, retretas ao jardim público, mesas de doces franqueadas ao povo, como nas hecatésias atenienses, leilões, fogos de artifício o que tudo figurava nos programas impressos em enormes folhas de papel de cor, e absorvia as atenções de toda a gente, durante aquele movimentado tríduo.
Dessas solenidades, porém, a que mais me impressionava era a proclamação dos festeiros para o ano seguinte. Os festeiros eram três: o “Imperador”, o “Capitão do Mastro” e o “Alferes da Bandeira.” O primeiro, superintendia toda a festa; o segundo tinha a seu cargo a ereção do mastro, alto poste de madeira, cantado em frente a Matriz, poste que devia ser anualmente substituído. Na extremidade do tal mastro ficaria o quadro, isto é, a bandeira, em que São João Batista se via com o inseparável cordeirinho aos pés. Ao “Alferes da Bandeira” cabia a feitura desse quadro.
Salvo casos especialíssimos (de promessas, ou de donativos altamente valiosos), os festeiros eram escolhidos mediante sorteio, entre paroquianos de notória idoneidade, que se apresentassem candidatos àquelas honrosas funções.
Quando se proclamava o “Imperador”, estando a velha igreja repleta, sentia-se certo frisson na assistência: a música tocava, os sinos vibravam, e o foguetório enchia o ar com seus estrondos. É claro que tais homenagens lisonjeavam a vaidade dos pretendentes.
Lembra-me ainda o dia em que o vigário Gaudêncio se mostrava preocupado com qualquer problema de solução difícil.
— Estou numa dúvida desagradável, seu João de Deus – dizia ele a meu pai. – Imagine que eu já havia assumido compromisso com o Rebouças de Carvalho, o Dr. França e o Chico Carlos, para imperador, capitão do mastro e alferes da bandeira. Agora soube que o Zé Carlos e o Monteiro também fazem questão fechada de ser festeiros. Não quero faltar a minha palavra, mas também não desejo magoar a esses bons amigos… Que acha você que convém fazer?
Meu pai formulou uma solução conciliatória, mas o padre fez ver que nada conseguiria, dada a intransigência dos candidatos.
O Nelson, que comigo assistia ao grave debate, animou-se a propor outra sugestão.
— Pois vamos ver o que é, menino, disse o sacerdote, já sorrindo por conta da extravagância que esperava.
— Em vez de três festeiros, o senhor arranja cinco.
— Cinco? Mas, como? Se são só três os cargos!
— Isso não tem importância! O senhor arranja mais dois: o major da fogueira, e o tenente do pau de sebo!
É claro que a idéia do Nelson nem sequer foi objeto de deliberação o que o decepcionou bastante. Atribuímos a recusa do padre ao fato de não ser possível promover o Capitão José Carlos a “major”, nem rebaixar o Capitão Moreira a “tenente”.
Convém recordar que naquele tempo todos os fazendeiros do interior adquiriam patentes de oficiais da extinta “Guarda Nacional”, e, como esses títulos nunca mudavam, aderiam ou anexavam-se indelevelmente aos nomes dos respectivos portadores.
— O padre Gaudêncio é muito atrasado, observou Nelson, despeitado. E é teimoso na sua opinião. Nunca muda nada! Todos os anos há de se fazer a mesma coisa que se fazia há cinqüenta anos atrás!
Em casa a turma fez caçoada. Sugeriram-se mais dois postos, altamente honrosos: o de coronel da retreta e o de general da procissão.
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Mais do que as festas juninas, porém, o fato que ora vou referir comprova o espírito religioso do povo queluzense. Quando ele ocorreu, já o padre Gaudêncio, valetudinário, havia deixado o árduo ministério. Pastoreava a paróquia o padre Paulo Machado.
Prolongada estiagem estava causando graves danos à lavoura, em todo o município. Tres longos meses haviam transcorridos, sem que do alto caísse um pingo d’água. Os lavradores queixavam-se e com razão. Rios e ribeirões das fazendas distantes do Paraíba minguavam a olhos vistos. O gado perecia.
Quando ocorrem tais períodos de secas, o céu torna-se pardacento, todo por igual, e os dias passam sem que nos venha o refrigério de uma brisa, o que produz em toda gente, nos animais, e até nas plantas uma tristeza esquisita, um desalento sem remédio.
O povo de Queluz suportava a ausência de chuvas enquanto podia. Se a natureza perseverasse em sua ação inclemente, não havia discutir: recorria-se a São Roque.
Procissão, 2007
Vera Sabino (Brasil, PR. Contemporânea)
Acrílica sobre eucatex
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São Roque tem o seu culto em modesta capelinha em torno da qual se formou um pequeno povoado, simples arraial, que do município de Areias foi recentemente transferido para o de Queluz. Cerca de três quilômetros separam o povoado de qualquer das duas cidades. Numa e noutra tem o santo apreciável número de devotos.
Para trazer São Roque a Queluz tornava-se necessário a autorização do vigário. Obtida a licença, organizavam-se os crentes em procissão e lá iam, galgando a estrada que contorna a Fortaleza, e repetindo orações que se iniciavam e se encerravam pela prece “Ad petendam pluviam”.
De volta, ao reentrar a procissão na cidade, o povo vinha receber a imagem do milagroso santo, e, com demonstrações do maior respeito acompanhava-a até o alto da Matriz.
Repicavam os sinos e soltavam-se foguetes, condimento indispensável em tais cerimônias.
— Ora, não é tanto assim, objetou o sacerdote, cautelosamente. E prosseguiu: Talvez convenha aguardar uns dias mais… Penso que só em caso extremo devemos apelar para São Roque, e removê-lo de sua capela para a Matriz…
— Mas… V. Revma. não se opõe?
— A que a imagem venha, não!… Apenas acho que ainda é cedo… Consultem os zeladores; depois… veremos o que se há de fazer.
Os solicitantes retiraram-se descontentes com o resultado da tentativa.
À tardinha, ao despertar de sua sesta habitual, o vigário teve uma surpresa que o deixou contrariadíssimo.
Soube que à sua revelia, os mesmos devotos e outros vários tinham estado na igreja, e dali retiraram tudo o que era necessário ao cortejo. Descendo, processionalmente, a ladeira, e atravessando a ponte do Paraíba, o grupo se engrossou com grande número de aderentes. Quando o sacerdote teve plena ciência do caso, já a procissão subia a Fortaleza, fora da zona urbana, entoando o cântico “Ad petendam pluviam”.
Mas o Padre Paulo não se deixava convencer facilmente. Considerou que aquilo significava um desrespeito a sua autoridade.
A vinda de São Roque importava na realização de uma festinha, dias depois do aguaceiro, na data fixada para o regresso do santo. Ora, ele vigário, julgara prematura a vinda da imagem, pensando já nas conseqüências. Resolveu agir com presteza no sentido de procrastinar a execução daquele ato.
Saiu imediatamente, arranjou, às pressas, um veículo do tipo que outrora se chamava “aranha”, e foi no encalço da procissão.
Em poucos minutos alcançou-a.
Os romeiros interromperam a marcha, ao vê-lo.
— Então, que é isso, meus amigos? Vocês vão, assim, buscar São Roque?
— Vamos, seu Vigário – explicou o líder do movimento – como Vossa Reverendíssima disse que não se opunha, e todos os zeladores concordaram, nós não quisemos incomodar Vossa Reverendíssima, que estava descansando, e…
— Mas aqui ninguém acredita em São Roque! — exclamou o vigário, em tom paternal de censura.
— Perdão, seu Vigário, mas nós todos confiamos no santo…
— Ninguém acredita, insistiu energético, o sacerdote. E a prova é esta: ninguém trouxe guarda-chuva! Se vocês, realmente, têm fé em São Roque, voltem, para buscar os guarda-chuvas!
Ouvindo essa recomendação, um dos crentes tomou a iniciativa de transmitir a todos os demais o aviso, exclamando em voz bem alta, no linguajar de roceiro:
— Vorte quem tem fé! Vorte tudo, pra morde buscá os guarda-chuva!
Não houve remédio, senão atender. Todo o bando voltou, com raras exceções. Tornou atrás, igualmente, o vigário, convencido de que pelo menos naquela tarde não seria possível a marcha que ele interceptara.
Mas enganou-se. Os devotos de São Roque, em matéria de pertinácia, nada deixavam a desejar, relativamente ao padre que os guiara. A procissão atrasou-se em três quartos de hora; mas reconstituiu-se, e prosseguiu.
A julgar pela quantidade de paraguas, a fé em São Roque era, mesmo, profunda.
Ao cair da noite, regressavam os devotos a Queluz. A imagem vinha com eles, é claro.
A essa hora, nuvens sombrias já se iam acumulando para os lados da Figueira.
E quando a procissão entrou na cidade, chovia a cântaros. Os guarda-chuvas prestaram excelente serviço a seus possuidores.
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No dia seguinte, o Padre Paulo encontrou, na boca da ponte, dois paroquianos que haviam participado da procissão, e foi ter com eles.
— E não é que a chuva veiu ônte mêmo, seu Vigário.
— Ora, como não havia de vir! Que São Roque é milagroso, todos nós sabemos. Agora – o que eu notei é que todos mostraram ter Fe no santo, menos vocês dois!
— Pruquê, seu Vigário?
— Porque só vocês não voltaram para buscar o guarda-chuva!
— Ah! seu padre! Nós tem muita fé em São Roque, mas nós não tem guarda-chuva!
***
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Em: Histórias do rio Paraíba: episódios e tradições regionais, de J.B. de Mello e Souza, São Paulo, Saraiva:1951, 2 volumes, pp 80-88, volume I
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João Batista de Mello e Souza (SP 1888 — RJ 1969) — Pseudônimo: J. Meluza — Contista, romancista, poeta, memoralista, autor didático e de Literatura Infantil, teatrólogo, historiador, tradutor, folclorista, diplomado em Direito (1910), funcionário público, professor universitário, jornalista, membro da Academia Carioca de Letras. Prêmio Joaquim Nabuco -ABL (1949).
Obras:
Sacuntala de Calidasa e outras histórias de heroísmo e amor, contos indianos,
Lendas Medievais, contos
A sombra do bambual, teatro, 1955
Histórias do Rio Paraíba, 2 vol, contos e memórias, 1951
Histórias famosas do Velho Mundo, contos,
Majupira, romance histórico, 1949
Sete lendas de amor e outras poesias, 1959
Estudantes do meu tempo, contos e memórias, 1958
História da América, história, 1957
História do Brasil, história, 1959
História Geral, história, 1956
O homem sem pátria, 1963
Joaquim Serra
——
Na palhoça iluminada,
Que fica junto da ermida,
Des que a missa foi cantada
Se congrega a multidão;
Toldo de mirta florida,
Flores de mágico aroma
Ornam o presépio, que toma
Na sala grande extensão.
—-
Quão lindo está! Não lhe falta
Nem o astro milagroso
Que de repente brilhou;
Nem o galo, que o repouso
Deixara por noite alta
E que inspirado cantou!
——-
Tudo o que a lenda memora
E consagra a tradição,
Vê-se ali, grosseiro embora,
Despido de perfeição.
——
Céu de estrelinhas douradas,
Estrelas de papelão;
Brancas nuvens fabricadas
Da plumagem do algodão!
Anjos soltos pelos ares,
Peixes saindo dos mares,
Feras chegando do além.
Marcha tudo, e vêm na frente
Os Reis Magos do Oriente
Em demanda de Belém.
——-
É esta a lapa; o Menino
Nas palhas está deitado,
Com um sorriso de alegria
Todo doçura e amor!
——
Contempla o quadro divino
São José ajoelhado,
E a Santíssima Maria
De Jericó meiga flor!
——
Trajando risonhas cores
Com muitos laços de fitas,
Rapazes, moças bonitas
Formam grupos de pastores.
———-
Que curiosos bailados,
Com maracás e pandeiros!
E o ruído dos cajados
Desses risonhos romeiros!
——–
Essa quadrilha dançante,
Cantando versos festivos,
Aos pés do celeste infante
Vai depor seus donativos:
———
Frutas, doces, sazonadas,
Ramilhetes de açucenas,
Cera, peles delicadas,
Pombinhos de brancas penas.
—–
São as joias que os pastores
Dão ao Deus onipotente!
E o povo aplaude os cantores
E o espetáculo inocente.
———
Eis o presepe singelo
Da devoção popular;
Oratório alegre e belo
Sagrado risonho altar!
——
——
Em: Poesia Brasileira para a Infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1969.
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——
Joaquim Serra
——
—–
Joaquim Maria Serra Sobrinho ( MA 1838 — RJ 1888) jornalista, professor, político e teatrólogo. Pseudônimos: Amigo Ausente, Ignotus, Max Sedlitz, Pietro de Castellamare, Tragaldabas. Foi um intelectual muito ativo na segunda metade do século XIX. Abolicionista, trabalhou lado a lado com Joaquim Nabuco, Quintino Bocaiuva e José do Patrocínio para o fim da escrevidão.
Obras:
A capangada, sem data, séc. XIX
A pomba sem fel, sem data, séc. XIX
As Cousas da moda, sem data, séc. XIX
Epicedio à morte de Manuel Odorico Mendes, sem data, séc. XIX
O jogo das libras, sem data, séc. XIX
O remorso vivo, sem data, séc. XIX
Quem tem boca vai a Roma
Rei morto, rei posto
Biografia do ator brasileiro Germano Francisco de Oliveira, 1862
A coalisão, 1862
Julieta e Cecília, contos, 1863
Mosaico, poesia traduzida, 1865
O salto de Leucade, 1866
A casca da caneleira, romance de autoria coletiva, cabendo a J.S. a coordenação, 1866
Um coração de mulher, poema-romance, 1867
Versos de Pietro de Castellamare, 1868
Semanário maranhense, 1867
Quadros, poesias, 1873
Almanaque Humorístico Ilustrado, 1876
Diário oficial do império do Brasil, 1878
O abolicionista, 1880
Sessenta anos de jornalismo, a imprensa no Maranhão, 1820-80, por Ignotus, 1883
O coroado, 1887
Poesias e poemas, 1888
Os melros brancos, 1890
Na foto, da esquerda para a direita: Lima Duarte como Sinhôzinho Malta, Regina Duarte como Viúva Porcina e José Wilker como Roque Santeiro. Telenovela produzida pela Rede Globo e exibida no Brasil de junho de 1985 a fevereiro de 1986.
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Hoje, sábado chuvoso, resolvi abrir umas pastas com papelada de minha mãe. Desde que ela faleceu ando aos pouquinhos selecionando, excluindo e guardando sua papelada. Mamãe havia sido uma grande fã da telenovela Roque Santeiro, e guardara provavelmente porque gostava tanto da novela um recorte do jornal português O Jornal ( 10/01/1988) de quando a novela passava naquele país. Vou reproduzi-lo aqui para mostrar como essa produção televisiva influenciou o ritmo daquele país.
Muita gente da classe alta e média que deixou de ver telenovelas brasileiras voltou a retomar o hábito com “Roque Santeiro“. Os efeitos de tal visão só podem ser benéficos, sobretudo em alguns dos nossos políticos e intelectuais, bem precisados de lições do “sentido do ridículo“. mas como é que alguns dos nossos líderes de opinião ou autarcas podem continuar a fazer determinados discursos, vendo o professor Astromar?
A mensagem que Dias Gomes criou para ser encenada em Asa Branca atravessa o Atlântico e assenta como uma luva a tantos dos nossos amigos e amigas — e, reconheçamo-lo, às vezes a nós próprios.
Mas não é verdade que, em Portugal, alguns dos maiores admiradores de Eça ou Fialho foram precisamente aqueles que eram atingidos pela sátira mordaz?
Não se caia, portanto, no pecado de dissertar sobre esse incomensurável lugar-comum do poder da televisão.
Mas não é que nos cafés portugueses se ouve já rir com essas gargalhadas alarves de Sinhôzinho e se vêem os tiques do seu sacudir de braço?
“Roque Santeiro” teve, há tres anos, um enorme impacto no Brasil. Também em Portugal, mesmo nas grandes cidades, muitos indiferentes das telenovelas querem já chegar mais cedo à casa para não perder as birras da viúva Porcina, os delírios do Beato Salu, as cenas de ciúme de Zé das Medalhas.
Libelo contra o puritanismo cínico (“vícios privados, virtudes públicas“) como se vai confrontar em Portugal a ironia cáustica e divertida de “Roque Santeiro” com uma certa moralidade conservadora e hipócrita que parece crescer neste país de humor tão próprio que fracassa geralmente quando expresso em público?
Neste Portugal onde ainda há poucos dias houve um linxamento popular pelo receio de bruxaria, no país de Santa da Ladeira, do Padre Cruz — com que olhos vêem “Roque Santeiro” esses cidadãos que não são das classes “blasées” alta e média alta?
E já agora perguntamos: “Estou certo ou estou errado?”
Em: O Jornal, Lisboa, 10 de janeiro de 1988, Página: ESCOLHAS, Coluna: Tendências.
Mercado Roque Santeiro, Luanda. Foto do blog: Angola Bela, www.angolabelazebelo.com
NOTA da Peregrina: Essa novela foi exibida também em Angola, onde sua influência pode ser sentida até hoje, já que deu o nome de Roque Santeiro ao grande mercado ao ar livre em Luanda.
Cachorrinho de Natal.
Cartão francês.
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É Natal, que bom seria
se tanta fraternidade,
em vez de durar um dia,
durasse uma eternidade!
(Antônio Juraci Siqueira)
São Nicolau e seu dia: 6 de dezembro
Cartão Postal francês — Chambourcy
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Natal… ternura… poesia…
Vem o amor e foge o mal…
— Quem dera que todo dia
fosse dia de Natal!…
(Luiz Otávio)
Karen Bates (EUA)
—
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Ser criança é fase bela
de alegrias a granel.
É ver sempre da janela
presentes do bom Noel.
—
(Porphírio Rodrigues)
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Fiquei bastante surpresa ao assistir ao comercial da cadeia O Boticário na televisão brasileira. Com o vídeo acima, belíssimo com certeza, o consumidor brasileiro, normal, que não tem qualquer obrigação de saber uma outra língua, e muito menos exclusivamente a língua inglesa, é submetido a um comercial totalmente em inglês.
Este é um comportamento que além de arrogante, manifesta total descaso com a nossa cultura. O que foi que aconteceu?
Não temos bons compositores? — Nossa música em geral não cativa o público? Por isso recorremos a uma canção protestante, um gospel americano, produzido por Harry Dixon Loes (1895-1965) nos anos 20?
Não temos letristas ou poetas? — As letras de nossas músicas são muito herméticas? Por isso recorremos a um poema numa outra língua, porque hermético por hermético… ficamos com o inglês…
Não temos agências de propaganda capazes? O encantamento natalino só pode ser entendido com um toque de hemisfério norte? Com um ar de EUA?
Ou será que este anúncio é um ato de segregação social? Só os inciados são dignos de serem nossos clientes? O dinheiro de quem não entende inglês não interessa?
Esta é mais uma forma de se mostrar a mentalidade do complexo de subdesenvolvido.
Será que nos EUA um anúncio em alemão iria ser mostrado em cadeia nacional com esperanças de venda? Ou será que na França as cadeias televisivas mostrariam um comercial em sueco com esperanças de atingirem a grande população do país?
Pode até ser uma medida de economia. Já que é uma companhia internacional, eles fizeram um anúncio para o mundo inteiro. E por que, então, não o fizeram em português ( afinal é uma companhia brasileira) e com legendas para cada país em que estão representados? Será porque esses outros povos não responderiam a um anúncio em língua estrangeira?
De quem foi a infeliz idéia de desmoralizar a nossa cultura a esse ponto?