Alfredo Volpi (Itália 1896 — Brasil 1988)
esmalte sobre azulejo, 15 x 15 cm
Coleção Particular
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Alfredo Volpi (Itália 1896 — Brasil 1988)
esmalte sobre azulejo, 15 x 15 cm
Coleção Particular
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Marc Chagall ( Bielorrússia 1887 — França 1985)
óleo sobre tela 81 x 100 cm
MOMA ( Museu de Arte Moderna) , N ova York
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Para comemorar o Dia de Camões escolhi postar um dos mais belos sonetos em língua portuguêsa. Pelo tema, começo também a celebrar o Dia dos Namorados que aqui no Brasil se comemora no dia 12 de junho. Este é bem conhecido, muitos de nós até sabemos partes sem saber que são versos de Camões. Pois aqui está:
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Luís de Camões
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
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É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
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É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
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Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
O livro do ABC, 1943, ilustrado por Ethel Hays ( EUA 1892-1989).—
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Bastos Tigre
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Um livro: — um lindo brinquedo
Que Bebê fica a mirar:
Cada página é um segredo
A desvendar.
Livro de folhas escritas
E ilustradas — mais de cem!
Quantas histórias bonitas
Ele contém!
Figuras de vivas cores,
Lindamente combinadas:
Casas, bichos, frutas, flores,
Bruxas e fadas…
E a explicação disso tudo
Em grandes letras impressas!
Bebê, radiante no estudo,
Firme, começa!
Essas letras, essas frases
Têm tais sentidos ocultos,
Que entender não são capazes
Doutos adultos.
É preciso ter cinco anos
— E nem todo mundo os tem —
Para poder tais arcanos
Penetrar bem.
Por leitura eu não entendo
O que eu faço e faz qualquer,
As letras do que está lendo
Sem ver sequer.
Bebê cada letra estuda,
Em cada sílaba atenta,
Franzindo a testa sisuda,
Descobre, inventa,
Decifra um novo mistério
A cada voz que enuncia
Que estudo não há mais sério,
De mais valia.
E é de notar-se o ar solene
Com que as silabas lê:
Já não confunde o “m” e o “n”,
O “p” e o “q”…
Ei-lo que as letras combina,
Forma os sons e, num momento,
Vai-lhe a frase, da retina
Ao pensamento.
Maravilha do alfabeto
Que dos arranjos de traços
Faz surgiur a idéia, o objeto!
Novos espaços.
Abre à razão ignorante,
Dá-lhe asas de luz e a eleva,
Radiosa, para o levante,
Longe da treva!
Que humano invento o suplanta?
Só um Deus pudera, em verdade,
Tal grandeza por em tanta
Simplicidade.
Vendo-o tão simples, dir-se-ia
— Do nada tão pouco além…
Que humana sabedoria
Do nada vem…
Quase-nada, gérmen ovo,
Do saber, célula mater,
Sem ele não tem um povo
Alma, caráter…
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Mas Bebê quer tudo feito
Depressa; e anseia por ciência!
(Não é seu menor defeito
O da impaciência).
E, antes que os frutos recolha
Da cultura, ah, quem dissera!
Todo o livro, folha a folha,
Zás, dilacera!
Em: Meu bebê: poesias líricas ( Poemas da primeira infância), 1925. [Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras].
O rei ordena aos príncipes que se casem. Desenho infantil.—
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Um rei tinha três filhos, vendo-os em idade de constituírem família, chamou-os e disse-lhes: “Meus filhos, é chegada a idade em que se torna preciso constituir família, atendendo à elevada posição que tendes. Ide, pois, procurar esposas; porém, procedei de modo que eu não tenha que me envergonhar da escolha”.
Os três príncipes saíram do palácio e partiram por diferentes caminhos em demanda de esposa. Os dois mais velhos encontraram logo princesas que os quisessem para maridos e casaram-se. O mais moço, porém, por maiores esforços que empregasse, não encontrou quem julgasse digna de lhe oferecer a mão.
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Ilustração russa, o Príncipe vê uma sapa.—
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Desalentado por não conseguir o que desejava, achava-se uma tarde à beira de uma lagoa, e pegando uma varinha, começou a rabiscar na areia. Impressionou-o, no entanto, estranhamente o fato de que embora quisesse escrever um pensamento qualquer, só conseguia rabiscar na areia a palavra – sapo.
Tudo o que escrevia era sapo, e tendo isto afinal o irritado, exclamou:
–“Ora, saia de lá dessa lagoa uma sapa, que quero me casar com ela!…”
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“Imediatamente saltou uma sapa…” — Ilustração infantil.—
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Imediatamente saltou da lagoa uma sapa, que postando-se em frente do príncipe, lhe disse:
— “Aqui estou, meu adorado noivo”.
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Aqui estou! — ilustração de Yuri Vasnetsov (Russia, 1900 – 1973)—
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O príncipe acompanhou a sapa, que era uma formosíssima princesa encantada, para o fundo da lagoa, onde ficou deslumbrado por encontrar o mais suntuoso dos palácios e as mais maravilhosas riquezas.
Realizado o casamento, o príncipe foi comunicar o ocorrido ao pai, que ficou muito desgostoso por saber que o filho havia se casado com um animal tão asqueroso.
Dias depois, o rei mandou a cada uma das noras uma lindíssima toalha de cambraia pedindo-lhes que as bordassem.
O —
O príncipe apresenta sua esposa ao pai. Ilustração russa.A sapa, logo que recebeu a toalha, chamou uma criada e disse-lhe:
— “Maria Carrucá, monta no pescoço do galo branco, vai à casa das senhoras princesas, e, dize-lhes que mando pedir um pouco de fio de barbante bem grosso, para bordar a toalha do rei”.
Maria Carrucá, assim o fez. As princesas, porém, que eram muito invejosas e estúpidas, responderam-lhe:
–“Vá dizer à senhora princesa D. Sapa que se temos barbante, é para bordar as nossas toalhas”.
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A princesa sapa e o seu príncipe.—
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E assim disseram, melhor fizeram, bordando as toalhas que o rei mandara, com barbante grosso. A sapa, no entanto, bordou a sua com o mais delicado fio de ouro.
— “Ora vejam só, disse o rei, “ a sapa fez um trabalho tão mimoso, e no entanto as princesas estragaram-me as toalhas, com um barbante grosseiro, transformando-as em panos de cozinha”.
Daí a alguns dias o rei mandou a cada uma das noras um cãozinho, para que elas os criassem com todo o desvelo, pois esses animais pertenciam a uma excelente raça de caça.
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Maria Carrucá, xilogravura, autor desconhecido.Apenas a sapa recebeu o cãozinho, disse para a criada:
— “Maria Carrucá, monta no pescoço do galo branco, e vai à casa das senhoras princesas pedir-lhes da minha parte um pouco de cal para dissolver na água, a fim de lavar o cãozinho do rei e umas peles de toucinho para engordá-lo”.
Maria Carrucá foi desempenhar sua comissão, mas as princesas disseram:
— Vá dizer à senhora princesa D. Sapa, que se temos cal é para lavar os cãezinhos que o rei nos mandou, e se temos peles de toucinho é para alimentá-los”.
E assim fizeram de modo que os animais perderam quase todo o pelo, e emagreceram a tal ponto, que quase não podiam suster-se de pé.
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A princesa sapa.—
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A sapa, no entanto, banhava o seu com água perfumada e alimentava-o com pão de ló e outras iguarias delicadas, de modo que e tornou um animal formosíssimo, o que muito admirou o rei, quando mandou buscar todos os três, e viu o deplorável estado em que se achavam os outros, parecendo-lhe incrível que uma triste sapa se avantajasse em tudo a princesas de sangue azul.
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O príncipe e sua esposa com o pai e os irmãos. Ilustração do desenho animado da Princesa Sapa.===
Daí a alguns dias, o rei, desejando conhecer pessoalmente as noras, mandou convidá-las para um baile no palácio.
A sapa, logo que recebeu o convite, voltou-se para a criada e disse-lhe:
— “ Maria Carrucá, monta no pescoço do galo branco, e vai à casa das senhoras princesas pedir-lhes da minha parte, uma navalha para raspar a cabeça a fim de ir ao baile do rei, pois é costume agora na corte, apresentarem-se as damas de cabeça raspada”.
As princesas, porém, que por inveja não queriam que a sapa se apresentasse na moda, mandaram dizer-lhe que, se tinham navalha, era para elas rasparem a cabeça.
E trataram de raspar a cabeça, apresentando-se no palácio como verdadeiras Fúrias, o que muito desgostou o rei.
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A princesa sapa desencanta-se.—
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A sapa, no entanto, desencantou-se, e readquirindo a sua forma de mulher, apresentou-se com elegante toucado, fazendo toda a corte pasmar pela sua extraordinária beleza e pela riqueza do vestuário.
O rei ficou satisfeito com ela, ao passo que só tinha palavras de desdém para as duas invejosas.
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Em: Histórias do Arco da Velha, de Viriato Padilha, Rio de Janeiro, Editora Quaresma: 1947, 12ª edição
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NOTA: Esta história é uma adaptação de um conto folclórico russo muito popular e bastante traduzido e adaptado no século XIX por diversos autores, alemães, franceses, italianos (Ítalo Calvino em seu volume de Contos folclóricos da Itália, tem duas versões dessa história) e portugueses e aqui por Viriato Padilha. A cada tradução alguns detalhes e principalmente as demandas do rei foram adaptadas aos costumes mais familiares dos leitores. Por exemplo na versão russa o príncipe quase acerta a princesa sapa com uma seta enquanto caçava. Note nas ilustrações acima e abaixo que a seta figura quase sempre próximo à sapa.
Mas a popularidade desse conto na Rússia, explica a abundância de ilustrações russas sobre o tema. No século XX, com o domínio da indústria editorial americana e principalmente com o império Disney, este conto, apesar da sua grande lição sobre valores e inveja, foi esquecido, principalmente depois da popularização pelos próprios americanos da história da princesa que se casa com um sapo.
VEJA MAIS ILUSTRAÇÕES — Variantes do mesmo tema depois da nota biográfica abaixo.
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Viriato Padilha ( Aníbal Mascarenhas, MG 1866 – Fortaleza, CE 1924) Pseudônimos: Aníbal Demóstenes, Ticho Brahe de Araújo, Sancho Pança. Contista, poeta, autor de literatura infantil, historiador, professor, tradutor.
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Obras: [lista incompleta]
Histórias do arco da velha, 1897
Os roceiros, 1899
O livro dos fantasmas
OUTRAS ILUSTRAÇÕES:
Ilustração russa, desconheço a autoria.—
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Pateta quer ser um pintor famoso, ilustração Walt Disney.—
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Baía de Guanabara, desafios e possibilidades.
Clique no link abaixo para inscrições:
[La Catrina é um personagem folclórico do México]
José Guadalupe Posada (México 1852-1913)
gravura aquarelada
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Walter Nieble de Freitas
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Por causa de um esqueleto
Corri a não poder mais:
Assustado entrei em casa
E contei tudo a meus pais
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“O esqueleto, seu bobinho,
Nunca foi assombração:
É ele um conjunto de ossos
Dispostos em armação.
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Sua função principal
É manter o corpo ereto;
Tem cabeça, tronco e membros
Todo esqueleto completo.
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Preste, pois, muita atenção,
Guarde bem, jamais se esqueça:
Somente de crânio e face
Se constitui a cabeça.
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O tronco tem só três partes,
Vou dizer-lhe quais são elas:
A coluna vertebral,
O esterno e as costelas.
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Os membros são conhecidos:
Os de cima superiores;
E os que servem para andar,
São chamados inferiores”.
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Até agora não compreendo
Como é que fui tolo assim:
Correr de um pobre esqueleto
Tendo outro esqueleto em mim!
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Em Barquinhos de papel: poesias infantis, São Paulo, Editora Difusora Cultural:1961.
Walter Nieble de Freitas ( Itapetininga, SP) Poeta e educador, foi diretor do Grupo Escolar da cidade de São Paulo.
Obras:
Barquinhos de papel, poesia, 1963
Mil quadrinhas escolares, poesia, 1966
Desfile de modas na Bicholândia, 1988
Simplicidade, poesia, s/d
Chico Vagabundo e outras histórias, 1990
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Foi Platão quem primeiro fez a analogia entre a luz e uma idéia. Desde então idéias podem ser más, boas, mas sempre eletrizantes nas mãos dos artista gráficos. Estes sim são sempre brilhantes!
A associação da luz com uma nova idéia, auxiliando a solução de um problema tem-nos fascinado desde a antiguidade e acompanhado até os dias de hoje. Parece que agora estamos um passo adiante: o psicólogo social Michael Slepian, trabalhando na Universidade Tufts, nos EUA, publicou no Journal of Experimental Social Psychology os resultados de sua pesquisa que avaliava se a presença de uma lâmpada, isso mesmo, da lâmpada em si, aquele objeto pelo qual passa a eletricidade, poderia ter um papel significativo como auxiliar de novas idéias.
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E não é que pode?
Parece que as lâmpadas podem de fato ajudar uma pessoa a ter uma intuição na resolução de um problema. Uma lâmpada agiria como um estímulo à imaginação. Apesar de a intuição ser um fenômeno bastante conhecido e muito estudado, ainda é uma capacidade humana completamente misteriosa para os cientistas. E o que Michael Slepian apurou é que a “idéia da lâmpada” trabalha no nosso inconsciente de tal maneira que realmente associamos o objeto à clareza de pensamento. Ela nos dá uma maior tendência de descobrir novos ângulos de um problema, de resolver uma questão de maneira mais criativa. A pesquisa tenta documentar os sinais sutis que podem influenciar o nosso comportamento. [Para maiores detalhes sobre a pesquisa de Michael Slepian, por favor clique AQUI e AQUI.]
Não me cabe julgar os méritos de sua pesquisa. Mas reconheço que a imagem de uma lâmpada está a tal ponto associada ao surgimento de uma idéia que expressões inteiras podem ser substituídas pela lâmpada ou por sua imagem modificada. E é uma comunicação popular e eficiente. Tão emblemática quanto, nos últimos 40 anos, o coração vermelho veio a ser para o verbo amar: por exemplo, a expressão “ eu amo ler”, pode ser também escrita: eu + [imagem de um coração]+ ler, sem qualquer perda de significado.
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Aqui, então um grupo de imagens que poderiam levar o nome: arte gráfica da idéia brilhante.
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Mesmo sem idéias, o Professor Pardal é acompanhado por sua lampadinha que continua a trabalhar. Foi justamente com o Professor Pardal que conheci a primeira associação de lâmpada com idéia, e para mim, a conexão entre esses dois é tão perfeita que o inventor Pardal não existe no meu imaginário seu seu ajudante Lampadinha.
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Quem percebeu que a ideia luminosa de Zé Carioca é representada por uma lâmpada na forma de pena? Ela poderia fazilmente, se colorida de verde, se inserir no seu topete. É ou não brilhante?
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O palhacinho Alegria só poderia ter uma idéia engraçada, e ela vem de chapéu de palhaço igual ao dono!
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O Pato Donald deveria ser brasileiro, porque certamente não desiste nunca. E continua a ter idéias duplamente valiosas, apesar de nós sabermos, de antemão, os resultados da maioria dos seus empreendimentos!
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Uma ideia contrária só poderia ser expressada dessa maneira, é ou não é? Brilhante!
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Chico Bento tem uma ideia antiga. Uma ideia de outros tempos… Talvez uma idéia interiorana, caipira?
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Piteco, o homem das cavernas tem uma ideia de acordo com os seus tempos, nem poderia ser diferente. Será que elas seriam tão brilhantes quanto as de raio laser?
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E os animais pensam da mesma forma que nós…. Mas isso nós já sabíamos!
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A verdade é que nenhuma dessas imagens poderia ter sido entendida por nós se a representação de uma ideia ( brilhante ou não) já não estivesse bem enraizada no nosso inconsciente. A imagem, então, de uma lâmpada, funciona como um ideograma, em que diferentes contextos mudam de acordo com as diferenças no mesmo tema. A lâmpada, o faixo de luz, está tão enraizada no nosso inconsciente que pensamentos mais complexos ainda do que uma imagem de uma história em quadrinhos estão nos dias de hoje sendo transmitidas com uma simplicidade invejável:
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Uma idéia rentável, vendável, lucrativa…
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Uma idéia de destaque, única entre outras…
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Uma nova idéia…
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Uma ideia verde, uma ideia ecológica …
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Dom Marcos Barbosa
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— Como acabar meu tricô,
como assistir à novela,
se esses óculos benditos
me somem sem mais aquela?
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Vovó, procurando os óculos,
vai do quarto para a sala
e de novo volta ao quarto,
sem ninguém para ajudá-la.
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E até parece que os netos
estão a se divertir,
pois mesmo seu predileto
faz força para não rir.
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Deve saber onde estão,
porque lhe diz o malvado:
– Já está ficando quente
seu chicotinho queimado!
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E o diz quando está no quarto
ou à sala torna a voltar.
– Mas como pode uma coisa
em dois lugares estar?
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Em sinal de desespero
leva então as mãos à testa:
ali estão os seus óculos
e tudo vira uma festa.
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Dom Marcos Barbosa [nome civil: Lauro de Araújo Barbosa] (MG 1915 – RJ, 1997) Sacerdote, monge beneditino,poeta e tradutor. Membro da Academia Brasileira de Letras.
Obras:
Teatro, 1947
Livro do peregrino, XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, 1955
A noite será como o dia: autos de Natal, 1959
O livro da família cristã, 1960,
Poemas do Reino de Deus, 1961
Mãe nossa, que estais no céu, s.d.
Para a noite de Natal: poemas, autos e diálogos, 1963
Para preparar e celebrar a Páscoa: autos, diálogos e fogo cênico, 1964
Eis que vem o Senhor, 1967
O livro de Tobias, 1968
Oratório e vitral de São Cristóvão, 1969
Manifestações de autonomia literária: A Escola Mineira e outros movimentos. In: História da Cultura Brasileira, 2 vols., 1973-76
Um menino nos foi dado, org. de Lúcia Benedetti. In: Teatro infantil, 1974
A arte sacra, 1976
Nossos amigos, os Santos, 1985
Congonhas, Bíblia de cedro e de pedra, e co-autoria com Hugo Leal, 1987
Um encontro com Deus: Teologia para leigos, 1991
As vinte e seis andorinhas, 1991
Poemas para crianças e alguns adultos, 1994
O campo de Santana no Rio de Janeiro, 1818
Franz Joseph Frühbeck (Áustria 1795 — data de morte incerta, depois de 1830)
Gravura aquarelada
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Há algum tempo quero escrever sobre as capas de livros publicados no Brasil. Em primeiro lugar, gostaria de saber, porque é difícil encontrarmos o crédito [o nome do artista gráfico que fez a capa de um livro] das capas de livros por estas bandas? Aliás, esta falta de informação não é de hoje: mesmo livros dos anos 40, 50, 60 do século passado que encontramos em sebos e que eram habitualmente ilustrados, muitas vezes não têm a menção do autor (ou autores) das ilustrações. Uma falta na ficha bibliográfica da obra. Uma vergonha para a história da ilustração no Brasil, uma vergonha para editores que se diziam sérios. Porque mesmo que as ilustrações usadas fossem compradas lá fora, deveríamos ter tido o direito, o acesso à informação de pelo menos os nomes dos ilustradores.
O livro ponto zero desta postagem foi lido em 2008, o charmoso Era no tempo do rei, de Ruy Castro, Alfaguara:2007, sucesso de vendas e, hoje, sucesso de dramaturgia depois de ter sido adaptado para o teatro. Este foi um dos livros que o meu grupo de leitura mensal trouxe para discussão em março de 2008. Entre as muitas observações que fizemos – que nos levaram de volta a deliciosos aspectos do Rio de Janeiro de 200 anos atrás — houve também a reclamação, entre nós, da falta de relação entre a capa e seu conteúdo. Desde então tenho prestado mais atenção às capas dos livros que leio.
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Era no tempo do rei se passa no Rio de Janeiro, logo depois da chegada da família real ao Brasil. Num artigo do jornal O Globo, de 17 de novembro de 2007, Suzana Velasco lembra que “ A primeira imagem que Ruy Castro pensou para o romance Era no tempo do rei foi a dos meninos Pedro e Leonardo fugindo pelos Arcos da Carioca”. Como a jornalista sublinha a ambientação desse romance é no Rio de Janeiro colonial. E aí olhamos para capa do livro e o que vemos? Será que vemos uma paisagem do Rio de Janeiro colonial, dentre as tantas a que temos acesso através dos pintores viajantes de diferentes países? Não. Será que temos um desenho moderno de uma representação do Rio de Janeiro com os arcos monumentais dominando a paisagem de então? Não. Será que teríamos uma ilustração de dois meninos perambulando pelas ruas de um Rio de Janeiro colonial, feita por algum ilustrador nosso, de hoje? Não
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O ferrolho, 1778
Jean Honoré Fragonard ( França, 1732 – 1822)
Óleo sobre tela, 73 x 93 cm
Museu do Louvre, Paris
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O que temos em mãos é um quadro francês, do século XVIII, pintura de gênero, de uma suposta aventura amorosa, picante. Nem preciso dizer que a Alfaguara, selo da Editora Objetiva, do Grupo Santillana, não se deu ao trabalho de identificar para o leitor curioso – como a maioria das editoras estrangeiras o fazem no verso da página de rosto — que a capa do livro era um detalhe de uma obra de Fragonard que se encontra no Louvre. Ironicamente no portal da Editora Objetiva encontramos o seguinte texto: A Objetiva se consolidou ao longo dos anos 90, como uma das editoras de referência no segmento de livros de interesse geral. Publica escritores de qualidade, como Luis Fernando Verissimo, Tony Judt, Arnaldo Jabor e Harold Bloom, entre tantos outros, assim como o Dicionário Houaiss, o mais completo da língua portuguesa. Atua em vários segmentos e especialmente em história, biografia, política, comportamento, humor, reportagem, ensaio e referência. Referência? Onde estava a referência ao quadro em questão?
Este assunto rodopiou na minha cabeça por muito tempo: tenho muitas perguntas que não cessam sobre a falta do costume de informações corretas no Brasil e, até certo ponto, a falta de cuidado com o livro, com o leitor, com a curiosidade alheia, o que é certamente o papel de uma editora. Mas há três semanas, por outros motivos, me encontrei com o livro Don Juan acorrentado, da escritora carioca Wanda Fabian, publicado oito anos antes de Era no tempo do rei, pela Editora Lacerda:1999, leia-se Nova Aguilar, que é parte da Nova Fronteira. E pasmem: tem a mesma capa de Era no tempo do rei. O mesmo detalhe, o mesmo corte de imagem!
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Agora a pergunta que não cala: só este quadro de Fragonard tem permissão de ser usado por editoras brasileiras para livros de ficção histórica? É claro que não. Por que então este favoritismo? Eu poderia assumir que é pura preguiça, acomodação, falta de respeito ao leitor, falta de conhecimento do mercado editorial… Mas, lá atrás, no fundo das minhas desconfianças, há uma voz gritando: tem a ver com direitos autorais. Tem a ver com imagem em domínio público. Mas será que O ferrolho, de Fragonard, é o único quadro conhecido pelos editores? Será que é a única imagem em domínio público? Talvez tenha a ver com a divisão de marketing dessas editoras? Será que ambas as editoras contrataram a mesma companhia de marketing? Ou foi o mesmo estagiário? A pessoa de uma só obra de arte? Como se justifica isso? Quem pode me responder?