Meus tiranos, poema de Frederico Trotta, em homenagem ao Dia dos Avós

26 07 2011

Cena de interior, 1901

[também chamado  O Polichinelo]

Alessandro Sani (Itália, 1870,1950)

óleo sobre tela, 36 x 85cm

Meus Tiranos

Frederico Trotta

                          (aos meus sete netos)

Oh!  filhos de meus filhos, meus tiranos,

que a casa me invadis, alacremente,

na expansão natural dos tenros anos,

como um bando de pássaros, contente!

Não deixais sossegados móveis, panos,

em tudo remexeis alegremente.

Sois meigos, vivos, bons, não causais danos

e a tristeza espantais, jocosamente!

E junto da avó, em grupo tagarela,

à larga expandis os corações,

formando um cromo, cândida aquarela,

tal qual Branca de Neve e os sete anões!

Adoro essa balbúrdia domingueira,

de brincos infantis e risos castos,

de suave sabor patriarcal!

Vós me tornais feliz de tal maneira

que, praza aos céus, na hora derradeira,

ao fechar para sempre os olhos gastos,

cerrando sobre a vida espesso véu,

ouça invadir a casa toda inteira,

vosso clamor;

fanfarra triunfal,

a conduzir-me à porta azul do céu!

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 291.

Frederico Trotta

Frederico Trotta (1899-1980), advogado, militar, político, jornalista, poeta.  Como poeta começou publicando poesias soltas, em 1920 na revista Boa Noite.  Como jornalista fez contribuições para  O Jornal e Manhã.  Foi diretor-secretário de ATarde, de Curitiba em 1932,  Em 1950 teve uma coluna diária para o Diário do Povo.

Obras literárias:

Mãe, antologia sentimental, 1957

Meu pai, meu bom amigo, antologia sentimental, 1957

O talismã do Cabo Pierre, contos, 1957

Um roseiral para alegrar a vista, poesias, 1957





Imagem de leitura — Anthony Stewart

21 07 2011


Climax, s/d

Anthony Stewart (EUA, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 45 x 60 cm

http://anthonystewartfineart.com

 





Um senhor documentário: A FAMÍLIA BRAZ

21 07 2011

Tempo de férias.   Ainda bem que fazemos coisas diferentes e fora do hábito comum.  Neste período de julho, estou curtindo férias na minha cidade, dando uma chance de me recarregar saindo quase todos os dias para fazer coisas de que gosto nos horários mais diversos.  Estou com a agenda cheia.  Muito mais cheia do que esperava.  Há muito que fazer, que ver, que compartilhar.  E os amigos, sabendo dessa abertura, estão telefonando, batendo à porta.  Um prazer!  Será que me acostumo a rotina de sempre, mais tarde?

Entre as surpresas dessa temporada o está o maravilhoso documentário A Família Braz: dois tempos, de Arthur Fontes e Dorrit Harazin,  eleito o Melhor Filme no festival de cinema É Tudo Verdade.  O filme retrata uma família que mora em Brasilândia, na periferia de São Paulo.  Um casal e seus quatro filhos.  Esse retrato é feito em 2 épocas diferentes com 10 anos de intervalo.  Por causa disso criamos uma afinidade com cada um dos retratados, já que somos apresentados aos seus sonhos e desejos do passado e a realidade em 2010.   Poderia ter sido uma experiência desastrosa…  Mas, ao contrário, é uma experiência maravilhosa, ver como cada um deles conseguiu ir muito além do que esperava…

A família, que poderia se considerar de classe média baixa, com o pai trabalhando sem carteira assinada como bombeiro hidráulico e a mãe dona de casa, é composta de 4 filhos, que no primeiro retrato estavam entre 14 e 24 anos.  Hoje, bem estabelecida na classe média paulistana, está a caminho de sonhos muito maiores do que aqueles imaginados em 2000.  As conquistas – de todos – são o resultado de muito esforço, de muito estudo e trabalho.  Mas são evidentes.  E é um prazer acompanhá-los.

Sem cunho político – o que é um alívio – o documentário mostra o Brasil que queremos ter.  Se você está precisando daquela força para acreditar que tudo vai dar certo.  Se a sua confiança no futuro desse país está num momento de fragilidade – e todos nós temos isso, porque não faltam razões – vá assistir a esse documentário.  Tenho certeza de que você voltará para casa com as suas energias renovadas.





Julho, férias… O que ler?

8 07 2011

Hora de descanso, s/d

Itzchak Tarkay (Iugoslávia/Israel, 1935)

Acrílica sobre tela, 100 x 80

Woodside Antiques and Estate Auctions

O portal de sebos brasileiros Estante Virtual, pediu para que seus clientes adicionassem o nome dos livros que gostariam de recomendar para a leitura nas férias.  A lista está em processo de ser feita na página da Estante no Facebook.  Vale a pena dar uma olhadinha e tirar algumas idéias do que ler.

Acabei contribuindo para a lista e resolvi colocá-la aqui para os leitores desse blog. Essa lista imagina que a leitura de férias deve ser uma leitura que não se pode deixar a leitura de lado,  sem estar pensando no desenrolar da história.  São livros que entretêm, que garantem horas de prazer. Divertem, aumentam o conhecimento, deixam a imaginação fértil e nos levam a outros lugares maravilhosos.

1 – O tempo entre costuras, da escritora espanhola Maria Dueñas [Planeta Brasil: 2010] um livro grosso e que a gente vira página após página sedentamente e fica com pena de que acabou.

2 – A senhora das savanas do brasileiro Hilton Marques [Ediouro:2008], você não vai deixar de lado, essa aventura com uma heroína brasileira na África.

3 – A catedral do mar, do escritor espanhhol Ildefonso Falcones [Rocco: 2007]– ficção histórica, passada na Barcelona medieval, século XIV. Vale quanto pesa… Muito, muito bom.

4 –A  história do rei transparente da escritora espanhola Rosa Montero [Ediouro: 2006] — ficção histórica, sensacional.

5 – As viúvas das quintas-feiras, da escritora argentina Claudia Piñeiro, [Alfaguara: 2007] uma trama de mistério, muito bem escrita, retratando problemas bem atuais. Um prazer…

6 – Tuareg, do escritor espanhol Alberto Vazquez-Figueroa, [LP&M: 2000 – bolso]excelente história de aventura no deserto do Saara.

7 – Maria de Sanabria, do escritor uruguaio Diego Bracco,[Rio de Janeiro, Record: 2008], uma ótima aventura histórica sobre a colonização da América Latina.

8 – A costureira e o cangaceiro, da escritora americana/brasileira Frances de Pontes Peebles, um romance e tanto, histórico, passado em Pernambuco dos anos 30.

Esta não é uma lista para crianças de férias.  É uma lista para adultos, jovens ou não.  A maioria já teve resenha publicada aqui neste blog.  Já os emprestei e dei de presente a muitos dos meus amigos e todos sem exceção gostaram desses livros.  Espero, então, satisfazer o seu desejo de leitura e entretenimento.





Por um Brasil Literário

8 07 2011





Quadrinha infantil do passarinho

4 07 2011
Cartão postal, 1907, ilustração assinada pelas iniciais JLS.

Não te invejo, ave que voas

tão livre no firmamento!

Vou também aonde quero

nas asas do pensamento!

(A. Coelho Neto)





Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós

3 07 2011

Natureza morta com tomates, 2008

Deb Kirkeeide (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 15 x 20cm

www.dailypainters.com

São poucos os autores de ficção que conseguem dizer muito em poucas palavras, que conseguem ser tão sucintos quanto os poetas, que conseguem contar uma história de maneira obliqua e simultaneamente clara.  Mas eles existem, esses mágicos da língua, esses domadores da prosa emocional, tecedores de imagens que nos envolvem e atrelam.  De vez em quando temos a chance de nos encontrarmos reféns de seus romances, de suas histórias.  Acabamos validando, a cada página, a Síndrome de Estocolmo, porque presas fáceis que somos da magia de seus textos, prolongamos a qualquer custo o prazer que sentimos na leitura e evitamos o desenlace final, a chegada dos últimos parágrafos.  Não somos mais os mesmos ao final da leitura, amamos o seqüestrador de momentos inebriantes, admiramos o sedutor de nossos sentidos, o raptor das nossas emoções.  Foi o que me aconteceu na leitura de  Vermelho amargo [Cosac Naify: 2011] do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Chamar esta publicação de romance é um exagero, chamá-la de conto, peca pelo lado contrário.  São quase 70, as páginas que ordenam as contemplações de um menino que acaba de entrar na escola. Não conhecemos seu nome, nem os de seus familiares. Não sabemos onde mora, nem suas brincadeiras prediletas.  Mas ao acabar a leitura, compartilhamos intimamente de sua solidão.  Bebemos do sofrimento sobre o qual pondera. O ponto de partida é a perda da mãe.  E as meditações, centradas na imagem de um tomate, são seu testemunho sobre as mudanças na família a partir daquele momento. Como o título prenuncia, é amarga a descoberta da vida após a perda materna.

Sinestesia é a figura de linguagem que engloba a expressão Vermelho amargo, uma combinação poderosa das sensações provocadas por diferentes órgãos sensoriais: vista e palato.  Que esse título abençoa as memórias do menino, já deveria nos colocar de sobreaviso: a expressão poética, bela e sedutora, não consegue esconder o lado cáustico das reflexões do narrador. Da vida cotidiana aos sentimentos de perda e saudades, participamos do turbilhão emocional corrosivo de um menino sensível, deixado ao largo da vida familiar, a interpretar meramente o que o rodeia a partir dos sinais que lhe são visíveis.

Bartolomeu Campos de Queirós é considerado “um dos maiores expoentes da literatura infantojuvenil brasileira”, como anuncia a editora Cosac Naify, na sinopse desse volume.  Mas não se enganem, esse não é um livro infantojuvenil.  É um livro para adultos ou jovens, que não só possam se encantar com um texto rico, entremeado pelas mais diversas imagens e de perfeita retórica, como também melhor interpretado por aqueles que já desenvolveram dentro de si, pelas vicissitudes enfrentadas, um extenso rol de sentimentos, dos mais sublimes aos mais mesquinhos, com todas as nuances que lhes pertencem.

Bartolomeu Campos de Queirós

De pronto, esse volume, um ensaio meditativo, é enriquecido de maneira exemplar quando o autor persiste em manter um texto delicadamente equilibrado na junção de imagens antagônicas.  O momento emocional se revela justamente no espaço deixado em branco pelas antíteses narrativas e o sentimento que elas não conseguem definir.  Essa é uma leitura que requer pausa e reflexão.  Há pensamentos que precisam ser digeridos antes mesmo de se passar ao parágrafo seguinte.   As ponderações são de um adulto voltando-se para o seu passado de menino. Somos convidados a participar de uma recapitulação, de uma memória emocional: “Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles.

Há livros que nos seqüestram pela trama, que nos seduzem pelo enredo.  Raras são as vezes em que é o texto, a maneira de dizer, que as imagens colocadas nos envolvem de tal maneira, que o argumento passa a segundo plano.  Tal é o caso de Vermelho amargo.  Esse é um livro para ser degustado mais por sua maneira de ser, por suas imagens, por sua prosa do que pelo que retrata.  Nele conseguimos viver os prazeres de uma língua bem colocada, bem armada.  Uma língua poética.  Fascinante.  Esse é o testemunho de uma língua viva, rica, amada e amante.  É uma ode ao idioma.  Aproveite-a.

Nota:  Agradeço à leitora desse blog, Nanci Sampaio, a recomendação da leitura desse livro.





Minha terra, poema de Casimiro de Abreu

26 06 2011

Paisagem com touro, 1925

Tarsila do Amaral ( Brasil, 1886 – 1973)

óleo sobre tela, 52 x 65 cm

Coleção Particular

Minha terra

                             Casimiro de Abreu

Todos cantam sua terra

Também vou cantar a minha

Nas débeis cordas da lira

Hei de fazê-la rainha.

— Hei de dar-lhe a realeza

Nesse trono de beleza

Em que a mão da natureza

Esmerou-se em quanto tinha.

Correi pras bandas do sul:

Debaixo de um céu de anil

Encontrareis o gigante

Santa Cruz, hoje Brasil.

— É uma terra de amores,

Alcatifada de flores,

Onde a brisa fala amores

Nas belas tardes de abril.

Tem tantas belezas, tantas,

A minha terra natal,

Que nem as sonha o poeta

E nem as canta um mortal!

— É uma terra encantada

— Mimoso jardim de fada –

Do mundo todo invejada,

Que o mundo não tem igual.

Em: Vamos Estudar?  Theobaldo Miranda Santos, 3ª série primária, edição especial para o estado do Rio de Janeiro, RJ, Agyr:1957, 9ª edição.

Casimiro José Marques de Abreu (Barra de São João, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) poeta brasileiro da segunda geração romântica. Foi a Portugal com seu pai em 1853, onde permaneceu até 1857. Morreu aos 21 anos de idade de tuberculose. Deixou um único livro de poesias publicado em 1859, Primaveras, mas foi o suficiente para se tornar um dos mais populares poetas brasileiros de todos os tempos. 

Obras: 

Teatro:

Camões e o Jaú , 1856

 Poesia:

Primaveras, 1859

 Romances: 

Carolina, 1856

Camila, romance inacabado, 1856

A virgem loura,

Páginas do coração, prosa poética,1857





Noite de São João, poesia de Décio Valente

22 06 2011

Festa de São João, década de 1940

Alfredo Volpi (Itália 1893- Brasil 1988)

Noite de São João

Décio Valente

Alegria no terreiro!

Coloridas bandeirolas,

sanfona, flauta, pandeiro,

cantores violões e violas.

Junto ao mastro de São João,

nas mesas e tabuleiros,

tigelinhas de quentão …

quitutes bem brasileiros…

pinhão, pipoca, amendoim…

O céu, cheinho de estrelas,

e eu, com você junto a mim,

não me cansava de vê-las…

Lá fora, clareando tudo,

a crepitante fogueira,

estalando como açoite,

queimava o negro veludo

daquela festiva noite

de tradição brasileira.

Em: Cantigas Simples: poesias, 2ª edição, São Paulo: 1971

Décio Valente, nasceu em Capivari, SP.

Obras:

Anedotas e contos humorísticos, 1955

Cenas humorísticas, 1955

Cantigas simples, 1963

Seleta filosófica, 1964

Pensamentos e reflexões, 1966

Vida e obra de Euclides da Cunha, 1966

Coisas que acontecem…, 1969

Do medíocre ao ridículo, s/d

Ramalhete de trovas, 1977

O plágio, 1986





Imagem de leitura — André Maire

20 06 2011

Mulher oriental lendo, 1970

André Maire (França, 1898-1985)

óleo sobre tela

Museum Pasifika, Bali

www.museum-pasifika.com

André Maire, (França 1898-1985) nasceu em Paris.  Mostrou interesse pelas artes desde cedo e seu pai imediatamente o colocou na escola de desenho de Vosges, onde foi estudou sob a orientação de Émile Bernard.  De lá André Maire foi para o ateliê Devanbez, e em seguida para a Escola Nacional de Belas Artes. Em 1918-19 mudou-se para a Indochina, onde se tornou professor em Saigon antes de retornar à Europa em 1922 e se casar.  Viajou bastante nesse período pela Itália, Espanha, Índia e África.  Conseguiu escapar dos centros de prisioneiros na Segunda Guerra Mundial encontrando abrigo na Borgonha.  Em 1946 voltou a viajar pelo oeste África, Costa do Marfim, Daomé e Senegal. Vai para a Ásia: Cambódia, Laos e Vitenã, onde foi professor na Escola de Arquitetura de Hanói. Depois de 10 anos deixa o Vietnã, para Madagascar, e Martinica.  Acaba seus dias na França, morre em Paris em 1985.