Armando Pacheco (Brasil, 1913-1965)
óleo sobre madeira, 27 x 33 cm
Autoria não identificada.
João Manuel Simões
Azar: acabei por esquecer
num baú antigo
a caixa de lápis de cor
com que eu costumava pintar
o arco-íris.
(Foi antes de pegar o trem
que me trouxe ao presente).
Por isso sou obrigado a me contentar,
hoje,
com as imitações desenhadas no céu,
depois da chuva.
Em: Poemas da infância,antologia poética, João Manuel Simões, Curitiba, Livros HDV: 1989, p. 60
Ilustração L. Caplain.
“Voltaire querendo entrar ocultamente em Paris, foi detido nas barreiras entre os malsins que lhe perguntaram se traria na carruagem alguma cousa que pagasse direitos.
— Não senhores, respondeu ele; o único contrabando que aqui vem, sou eu.”
Em: O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 17, 25 de dezembro de 1859, p.12. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC: 2008, p. 218.
NOTA DA PEREGRINA:
Malsim, plural Malsins: polícia ou fiscal alfandegário.
Sobrados em S. Miguel dos Campos, Al, 1963
Fernando Lopes ( Brasil, 1935 – 2011)
têmpera sobre madeira, 30 x 40 cm
Charlie Roberts (EUA, 1983)
guache sobre papel, 111 x 76 cm
Em um charmoso ensaio The Pleasure of Reading to Impress yourself, [O prazer de ler para impressionar a si mesma] publicado na revista The New Yorker, Rebecca Mead, escritora do cadre da revista, revela a lista de livros lidos que anotara a partir dos anos oitenta, ainda adolescente. Ela começa com Dr. Jivago, em 1983 e deixa de listar suas leituras quatro anos depois, em 1987, quando, já na faculdade, fazia crítica literária para um jornal universitário. O último item da longa lista é o livro de Malcolm Bradbury, Mensonge, uma sátira.
Rebecca Mead se redescobre ao ver, mais de vinte anos depois, a lista dos livros lidos. Percebe pela inclusão de muitos títulos que era uma leitora ambiciosa. “O que o meu caderno de títulos me oferece é o meu retrato dessa leitora, jovem mulher, ou um esboço de quem ela era. Eu queria ler muito, mas eu também queria ser bem instruída. O caderno é um pequeno registro dessa realização, mas é também um esboço de uma grande aspiração. Há prazer na ambição também.”
Ela lembra um ponto importante. Nesses anos de formação, de leituras que não são obrigatórias, que não são exigidas pela escola, digamos, nesses vãos de dias e horas livres o adolescente vai se conhecendo, tanto pelos livros chamados ‘comerciais’ que escolhe, como pelos ‘clássicos da literatura’. Muitos livros chegam às nossas mãos nessa época através de algum interesse romântico, através de uma amiga de infância, de alguém que se admira ou de quem queremos nos aproximar. Ela, como muitos adolescentes, comprava seus livros no sebo mais próximo e por uma quantia irrisória foi lendo o que estava dentro de seu orçamento. Daí a presença primeiro muitos clássicos americanos, editados muitas vezes, facilmente encontrados e outros livros mais comerciais. Levou um tempo para chegar aos clássicos ingleses, e mais ainda para vagar pela literatura internacional. Para isso usou a lista de publicação dos livros de bolso Penguin Classics como diretiva.
Foi uma volta ao passado e uma surpresa ao descobrir-se tão ambiciosa. E você? Que memórias tem das suas leituras nos anos formativos?
Coleção cítrica dos Medici, 1715
Espécies de limões e laranjas,
Bartolomeu Bimbo (Itália, 1648-1723)
Óleo sobre tela
Hoje, Palácio Pitti, Florença
“Foram porem os portugueses que nas suas viagens, depois do Renascimento, vulgarizaram a laranja pelo Ocidente. A prova é que hindus maometanos e árabes modernos, no Oriente, chamam à laranja portughan, que lhes trouxeram, da China, os navegantes portugueses. A prova é que, no Mediterrâneo, em Itália, as laranjas são, ainda hoje, chamadas portogalli.
Os portugueses foram disseminadores das árvores prestadias, pelo mundo, universalizando a natureza, regional, pela ecologia ou afeiçoamento ao meio, e tornada mundial. Não será espirituosa senão etimológica esta frase: os portugueses tornaram católica (universal) a natureza. As autoridades francesas da Guiné confessam que todas as plantas do mundo aí cultivadas são da primitiva estação portuguesa, nessa África ocidental. Aliás, o mesmo aqui podemos ver: a fruta-pão é da Oceania; a lichia é da China; o dióspiro ou caqui é do Japão; o café é da Etiópia; a cana-de-açúcar peregrinou da Índia ao Egito, à Sicília, ao Algarve, à Madeira, ao Brasil; o cacau trouxeram-no do México. O Brasil produziu cravo, canela, anil, noz moscada, pimenta, chá, gengibre… A vida de Portugal pelo mundo, “a vida em pedaços repartida”, do Poeta, terá um sentido universal, reunindo todo o mundo, em todas as partes a que chegaram. E comunicar é civilizar…
Depois das viagens de D. João de Castro, em 1520, foram eles, os portugueses, fazendo de seu portos de escala, culturas e depósitos e assim já não precisariam trazer consigo o mundo, achando o mundo em toda parte. As laranjas foram trazidas à Guiné, às Ilhas de Cabo Verde, onde as naus, em caminho da Índia, se proviam delas, “refrescando a nutrição dos marujos — de peixe seco e bolachas — o que produzia o escorbuto, ou peste náutica, o flagelo das navegações. Pode-se sem exagero dizer que os portugueses descobriram as vitaminas, de tanto prestígio hoje em dia, pelo menos os seus providenciais efeitos. Na própria metrópole tentaram e conseguiram. ”
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[Grafia atualizada]
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Em: Breviário da Bahia, Afrânio Peixoto, Rio de Janeiro, Editora do MEC: 1980, p.122
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Nesse texto acima, Afrânio Peixoto cita um verso do Poeta. Este Poeta a que ele se refere com letra maiúscula é Luiz de Camões. E a passagem em verso é a seguinte:
Canção VII
[Trecho] *
. . . . . . . . . . . . . . . . .
Aqui, nesta remota, áspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,
porque ficasse a vida
pelo mundo em pedaços repartida.
Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e de ira cheios,
não tendo tão-somente por contrários
a vida, o sal ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios;
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria Natureza,
também vi contra mi,
trazendo-me à memória
algũa já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
* Você pode encontrar as canções de Camões facilmente na internet. Vale a pena. Você vai se encantar…