Luca Bastos, você fará falta

9 03 2015

 

 

11025775_10153095080115937_7759736406572558142_nLuca Bastos [Luiz Arnaldo de Gusmão Bastos, RJ, 22-5-1945 — SP, 8-3-2015]

 

 

Em uma família temos gerações definidas independente de idade: avós, tios, primos, filhos e sobrinhos, e netos. Não importa a diferença de idades entre eles. São grupos, camadas, que se sobrepõem umas às outras, que se tornam mais perceptíveis nas grandes reuniões familiares dos natais, dos casamentos, das festas de formatura, aniversários, bodas, quando a família inteira se encontra. Nesse momento os grupos se descobrem e acham um cantinho para a roda das conversas. Só aí temos maior noção de quem é mais velho e de quem é o pirralho. Na minha família, os encontros eram frequentes. Parte da família morava no mesmo bairro e não era raro sairmos primos e tios para um passeio juntos no Jardim Botânico ou para um sorvete de frutas no Morais, em Ipanema, em noites de verão. Os laços se estreitavam e nem percebíamos.

Nos Estados Unidos é comum as famílias fazerem um esforço especial para se encontrarem pelo menos uma vez por ano. Pode ser no feriado de Ação de Graças, [Thanksgiving] mas há outras soluções. Na vida americana pessoas se mudam com frequência. Isso provoca um distanciamento físico grande. No passado, anterior às comunicações digitais, era mais difícil manter a comunicação. Na família de meu marido havia uma tradição: todos os irmãos do pai dele se encontravam numa cidade praiana (a mesma todos os anos) no estado de Delaware, onde a família em gerações passadas tinha tido uma casa de veraneio. Encontravam-se para um reencontro familiar. Cada núcleo dos oito irmãos alugava uma casa e os encontros diários por uma semana entre irmãos e primos se faziam à beira-mar. Era sempre a mesma semana e a mesma cidade, todos os anos. Os familiares contavam com isso e faziam planos durante o ano. Dessa forma meu marido se criou conhecendo os primos quaisquer que fossem as idades ou estados em que moravam.

Crescer no Rio de Janeiro foi diferente, meu contato com tios e primos e tios de meus primos e primos de meus primos, foi muito maior. Até a geração de meus pais todos que nasciam aqui, por aqui ficavam, casavam, tinham filhos e comemoravam juntos as datas de grande ou pequena importância. Além dos aniversários, fim de ano, das férias, não faltava ocasião para nos reunirmos, pois também nos encontrávamos para os jogos da Copa do Mundo, para o Carnaval e assim por diante. Tínhamos a certeza da amizade duradoura não importando as características sociais e políticas que nos diferenciavam, os bons e maus alunos, os levados, os santinhos. Sim, havia brigas, discussões enérgicas, depois que crescemos, principalmente a respeito de política, mas havia pazes também, porque afinal o próximo aniversário do tio tal chegava logo, ou um primo se formava, ou nos víamos quando uma prima ia ao palco para uma dança na escola primária.

Os tempos mudaram para a minha geração. Eu mesma saí Rio de Janeiro para São Paulo, para depois sair do Brasil, meus dois irmãos também saíram do Rio. Um morou em Curitiba e depois São Paulo, o outro também acabou indo morar em São Paulo. Mais tarde retornaram ambos ao Rio de Janeiro. Tive um primo, Luiz Arnaldo, mais conhecido como Luca, que foi para São Paulo e ficou. Por lá criou raízes e a filha. Por isso mesmo nos encontramos menos vezes. Nos natais, principalmente. Mas a cada Natal passado juntos, na tradição familiar da festa celebrada na casa de nossa tia Maria-Emília e depois na casa de seu filho, Murilo, o conforto de conversar com ele reaparecia com ecos da infância, da adolescência, das incontáveis vezes que conversamos no passado. Havia aquele bem-estar da familiaridade que só se consegue através de muitos anos e de muito papear. Sempre o admirei. Mesmo sabendo que nossas visões políticas eram muito diferentes. Luca era uma das pessoas mais criativas que conheci, saindo-se tão bem na informática quanto na poesia, um engenheiro que amava Fernando Pessoa. E ele escrevia também. Mostrou recentemente seu grande senso de humor em uma série de contos em uma competição na internet da qual também participei. Suas narrativas ficcionais lhe garantiram grande popularidade no núcleo bem jovem de futuros escritores. Era um homem de grande senso de humor, apaixonado pelo mar, por veleiros, romântico num sentido mais largo da palavra, atleta, aventureiro e muito carinhoso. Reinventou-se muitas vezes, a cada virada trazendo para o presente as diversas experiências passadas. Acabou como um palestrante, e era muito bom nisso porque ajudava sua plateia a se questionar: “Ser rico para quê? Cuidado com objetivos medíocres” ; “A vida é muito curta para aturar chatos” ou “Não trabalhe no que não gosta. Pra que? Ir atrás de dinheiro para fazer o que gosta no futuro? E se não houver futuro?” Deixava sempre algo para que pensássemos no que fazíamos. Ontem, para ele, já não haverá futuro entre nós. Deixa saudades porque tocou a todos nós com sua experiência e carinho. Faleceu jovem demais, ainda tinha muito para dar.

E assim volto a pensar nas gerações da família. Quando crescemos dentro de cada grupo sabemos que há uma ordem: alguns mais velhos, outros mais jovens do que nós. Deste lado da família estou bem no centro da geração dos primos. Mas isso, como aprendi, não conta. Isso não quer dizer nada. Não se morre na ordem de chegada. ELA, a morte, nos surpreende, mesmo quando se anuncia no horizonte, em seu cavalo branco e foice ceifadora em mãos. Estarrecidos, nos olhamos com amargura. A sensação de abandono se instala.  A vida nos parece injusta. E é.





Grandes começos, IV de XII, escolha de Ana Maria Machado

9 03 2015

 

 

Interior-benson-greyroomA sala cinza, 1913

Frank Benson (EUA, 1862-1951)

óleo sobre tela, 64 x 78 cm

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“O homem me pede fogo. Ergo para ele o isqueiro aceso e noto contrariado que minha mão treme um pouco. Seus olhos cor de zinco se fixam nos meus dedos. Nervoso? Sacudo a cabeça negativamente, odiando-o como se pode odiar a pessoa que nos descobre o segredo que mais queremos ocultar.”

 

Érico Veríssimo, Saga

 

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.





Domingo, um passeio no campo!

8 03 2015

 

 

Manzke, Carroça na estrada, aquarelaUma carroça na estrada, s.d.

Reynaldo Manzke (Brasil, 1906-1980)

aquarela sobre papel

Coleção Particular





Algumas mulheres na arte brasileira, vistas por eles

8 03 2015

ADELSON DO PRADO (1944) Flores Amarelas, o.s.t. - 61 x 50 cm. Ass. dat. 2002Flores amarelas,2002

Adelson do Prado (Brasil, 1944)

acrílica sobre tela, 61 x 50 cm

 

Alberto da Veiga Guignard, A jovem colegial, 1955, osm, 50 x 40cm,Museu de Arte da PampulhaA jovem colegial,1955

Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)

óleo sobre madeira, 50 x 40 cm

Museu de Arte da Pampulha

 

ARLINDO CASTELLANE,Retrato de Adelina, 1942,ost,46 x 38 cm, Instituto de artes, ufrgsRetrato de Adelina, 1942

Arlindo Castellani (Brasil, 1910-1985)

óleo sobre tela, 46 x 38 cm

Instituto de Artes, UFRGS

 

CLAUDIO FONTES - As Três Graças (XXX) - ost - 90 x 120 - Datado 2003As três graças, 2003

Cláudio Fontes (Brasil, 1939)

óleo sobre tela, 90 x 120 cm

 

DI CAVALCANTI - Retrato feminino - OST  - 70 x 90 cmRetrato feminino, s.d.

Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)

óleo sobre tela, 70 x 90 cm

 

 

Eugênio Paxelly (Brasil, contemp) No salão azul, ano 2012, 59x44,5,cm,  Acrilica sobre TelaNo salão azul, 2012

Eugênio Paxelly (Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 59 x 44 cm

 

Gustavo Rosa, (Brasil 1946) Mulher com ros, 2005, ost,65x54cmMulher com rosa, 2005

Gustavo Rosa (Brasil, 1946-2013)

óleo sobre tela, 65 x 54 cm

 

HENRIQUE BERNADELLI - Moça OST, 1919. Med. 65x45 cm.Moça, 1919

Henrique Bernardelli (Chile/Brasil, 1857-1936)

óleo sobre tela, 65 x 45 cm

 

 

Henrique Cavalleiro,Baiana,1943,ost- 96,5 x 76,5 cmBaiana, 1943

Henrique Cavalleiro (Brasil, 1892-1975)

óleo sobre tela, 96 x 76 cm

 

 

Orlando Teruz, Mulata, ost, 1965, 75 x 60 cmMulata, 1963

Orlando Teruz (Brasil, 1902-1984)

óleo sobre tela, 75 x 60 cm

 

Oscar Pereira da Silva,Mulher e borboleta,1937,oscartão - 28 x 23 cmMulher e borboleta, 1937

Oscar Pereira da Silva (Brasil,1865-1939)

óleo sobre cartão, 28 x 23 cm

 

Siron Franco, Uma rainha qualquer, 1981, ost, 50x60Uma rainha qualquer, 1981

Siron Franco (Brasil, 1947)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

 

Heros Lima (1916-1987)Mulher(1975)Óleo sobre tela55 x 45 cmMulher, 1975

Heros Lima (Brasil, 1916-1987)

óleo sobre tela, 55 x 45 cm





Grandes começos, II de XII, escolha de Ana Maria Machado

7 03 2015

 

Gabriella Piccatto. aquarela, 30 x 40Sem título

Gabriella Picatto (Itália,contemporânea)

Aquarela, 30 x 40 cm

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“Alguém deve ter dito mentiras sobre Joseph K., pois, sem ter feito nada de errado, certa manhã ele foi preso.”

 

Franz Kafka, O Processo

 

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.

 

 





Grandes começos, I de XII, escolha de Ana Maria Machado

6 03 2015

 

Mary Cassatt (1844-1926) The Reader 1877 Oil on canvasLeitora, 1877

Mary Cassatt (EUA, 1844-1926)

óleo sobre tela, 81 x 64 cm

Crystal Bridges Museum of American Art

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“Em meus anos mais jovens e mais vulneráveis, meu pai me deu um conselho que, desde então, tenho feito virar e revirar em minha mente. ‘Sempre que tiver vontade de criticar alguém‘, disse, ‘lembre-se de que nem todo mundo teve a vantagens que você teve‘”.

 

Scott Fitzgerald, O grande Gatsby.

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.

 





O Mercado da Arte, curso de dois dias!

5 03 2015

 

 

Slide1

1ª Aula — uma vista de como o mercado da arte evoluiu, desde o tempo das oferendas nos templos ao sofisticado século XX.

2ª Aula — Uma explanação de como funciona o mercado nos dias atuais, a arte como commodity até 2012. Dados depois dessa data são escassos.
Ladyce West é uma historiadora da arte, formada pela Universidade de Maryland. Foi diretora de uma galeria de arte non-profit para artistas em ascendência até abrir sua própria galeria de arte e antiguidades, Gessner Art & Antiques, nos EUA, que manteve por 15 anos antes de retornar ao Brasil.





Vila Lobos, texto de Menotti del Picchia

5 03 2015

 

 

ARMÍNIO PASCUAL (1920) Trem, óleo sobre madeira industrializada - 49 x 64.Trem, s.d.

Armínio Pascual (Brasil, 1920-2006)

óleo sobre tela, 30 x 40 cm

 

 

 

Vila Lobos

Menotti del Picchia

 

 

Jantei outro dia com Vila-Lobos. Recordamos muita coisa da luta comum. Lembramos do chinelo que lhe ornava o pé esquerdo, quando dentro de uma impecável casaca. O grande Vila regia a orquestra do Municipal, numa das famosas noitadas da Semana de Arte Moderna de 1922.

— Eles pensaram que casaca de chinelo era parte da indumentária futurista. Acharam original. O que eu tinha era uma unha encravada…

Rimos. Lembramos da então tão jovem e tão linda Yvonne Daumerie no palco vestida de libélula, asas enristadas nas espáduas, chorando, apavorada, fugindo das vaias com que uma plateia ululante e desesperada coroara nosso heroísmo afrontando-a com a impertinência de um programa polêmico e agressivo feito, então, do que se consideravam “as loucuras de Mário de Andrade, Oswald, Ronald, Graça Aranha” e dos demais revolucionários.

— Vá dançar, Yvonne.

A graciosa bailarina dançou, uma dança clássica. Foi ovacionada. A ojeriza da platéia era conosco, não com Yvonne, Guiomar Novais, nem com o próprio Vila-Lobos. O formidável criador das Bacchianas bebia seu vinho e comia com apetite. As memórias vinham em fila: casa de D. Olívia, as viagens de concertos culturais, as primeiras concentrações corais. Os companheiros mortos e vivos: Mário, Oswald, Ronald, Brecheret…

— Você sabe que não foi a Semana de Arte Moderna que me lançou. Eu já era revolucionário na música muito antes.

Vila Lobos faz questão de fixar bem que ele não é resultante do movimento. Ele começou sozinho a sua revolução musical. Vila Lobos, porém, ignora, que nós todos, os autores da “Semana”, não fomos feitos por ela. Nós é que a fizemos. Anos antes já sonhávamos com a nossa revolução. Que eram o Moisés, o Juca Mulato senão rebeldias e discordâncias do ritmo mental dominante? Moisés é de 1917. Em 1921, com Osvaldo, dirigíamos a revista Papel e Tinta, onde exaltávamos a pioneira Malfatti, o rebelde criador de Paulicéia Desvairada. A “Semana” foi apenas uma data como 7 de setembro a eclosão de um movimento de independência nacional que vinha de longe. A “Semana” foi um encontro de valores e não um ponto de partida. Foi a oficialização da rebeldia criando uma data histórica. Vila Lobos pode ficar tranquilo; a “Semana” não disputará sua originalidade pioneira, apenas a registrará com o seu comparecimento tão pitoresco na ribalta do nosso Municipal, cabeleira agitada, chinelo no pé, marcadamente modernista.

Fomos, depois, ouvir, as últimas criações do mestre. Seu apartamento é um museu fotográfico dos maiores vultos contemporâneo, todos eles depondo, em dedicatórias consagradoras, sobre o gênio do maior compositor patrício.

— Isto que é, Vila?

Homenagens. Homenagens de governos, de corporações artísticas, de sociedades de concertos. Nem sei o que o Vila poderá fazer de tanta glória. O mundo inteiro é hoje sua plateia. Lá está a saudação de Stravinsky. Lá está o abraço de Stokowski. Lá está o agradecimento de Casals.

— Você lembra quando compôs o Trenzinho do caipira?

Passa pelos olhos de Vila Lobos uma rajada de melancolia. Há quantos anos? Mocidade, divina mocidade, única coisa boa da vida! Foi em São Paulo, dentro de um trem da Paulista, numa excursão artística pelo Interior na qual o compositor genial tocava violoncelo, D. Antonieta Rudge, o piano.
Nessa hora, porém, a vitrola sonorizava uma das Bacchianas que eu não conhecia, recentemente gravada nos Estados Unidos. Era o Vila Lobos romântico – romântico mas moderníssimo – o melhor Vila Lobos. E eu entrei em êxtase. Por vários minutos fiquei, pairando no Paraíso.

 

 

Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 107.





Nomes e apelidos… texto de Pedro Nava

4 03 2015

 

 

DÉCIO RODRIGUES VILLARES, Retrato de senhora, 1889, mnbaRetrato de Senhora, 1889

Décio Rodrigues Villares (Brasil , 1851-1931)

óleo sobre tela

Museu Nacional de Belas Artes, RJ

 

 

Há uma propaganda de carro na televisão no momento lembrando que devemos ter orgulho do nosso nome, que ele nos faz únicos!  Será?  Será que é sempre assim?  Lembrei-me desse trecho das memórias de Pedro Nava.

 

 

“A irmã mais moça de meu pai recebera, em lembrança de certa tia e madrinha de meu avô paterno, nome absolutamente igual ao desta antepassada: Maria Euquéria Nava.  Além disso, quando ela nasceu, era tão mofina e miúda que o tio Itriclio, ao vê-la no primeiro banho, dissera logo que aquilo não era gente. Isto é um belisco… E a menina, além de Euquéria, teve de arcar com o apelido que pegara e Belisco ficou sendo. O Euquéria, ela rifou ao assinar o registro de casamento. O Belisco, depois, quando, com muita paciência e muito jeito, ela conseguiu modificá-lo no Bibi com que morreu. Tia Bibi. Delicada, reservada, discreta criatura. ”

 

Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 338.

 

Tenho alguns casos na família semelhantes a esse. E você?





Palavras para lembrar — José Eduardo Agualusa

3 03 2015

 

 

 

Jenny Nyström, Dagmar vid bordetDagmar à mesa branca, 1924

Jenny Nyström (Suécia,1854-1946)

óleo sobre tela, 46 x 65 cm

 

“Os bons escritores são aqueles que conseguem colocar os leitores na pele do outro.”

 

José Eduardo Agualusa