A chuva fez azul nosso horizonte, poesia de Ladyce West

16 11 2010

Paisagem, s/d

Georgina de Albuquerque ( Taubaté, SP 1885 — RJ,RJ, 1962)

Aquarela sobre papel,  34 x 44 cm

Coleção Particular

A chuva fez azul nosso horizonte

 

Ladyce West

 —

A chuva fez azul nosso horizonte.

Pintou no vale a cor da esperança.

Encheu de anêmonas, miosótis, margaridas,

Do campo aberto, ao sopé do monte.

Brotaram pintassilgos e abelhas.

No rio, a cada curva um jatobá.

No cheiro do capim ao sol ardente

Paravam insetos, lagartos e até o ar.

Na sombra escura o gado se perfila,

Debaixo de mangueiras generosas,

E espera em silêncio sonolento

O alívio do calor.  Passam-se as horas.

Ao sinal distante da capela na aldeia,

Quando o sol se apaga atrás da serra,

As nuvens, uma a uma,  se enfileiram.

Primeiro, brancas, alegres, arredondadas,

Depois cinzas, sem forma e pesadas.

Acomodam-se, ao sul,  entre montanhas.

E qual ninhada de cachorros desmamada,

Que luta, reclama e se aquieta ’inda faminta

Com roncos e rugidos passam a noite.

O vento as nina… Mas ao brilho de relâmpago

Fugaz,  recomeça o murmúrio no horizonte.

Qual relógio mecânico e em tempo,

As nuvens acordam o sol sem cerimônia,

E em prantos limpam bem o firmamento,

Para de novo azularem o horizonte.

 —

28/8/06

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro





Imagem de leitura — Dominique Frassati

14 11 2010

Quatro meninos pescadores no porto de Ajaccio lendo, 1936

Dominique Frassati ( Córsega, França, 1896-1947)

Óleo sobre tela,  60 x 73 cm  

Dominique Frassati (França, 1876-1947) nasceu na Córsega.  Deixa a Córsega muito cedo para viajar à Argentina, Argélia e Paris, onde continua seus estudos artísticos.  Volta à Córsega aos 30 anos de idade onde se instala em Ajaccio oito anos depois.  Foi nomeado conservador do Museu Fesch em 1939.  Ele se distingue por ter grande atividade artística.  Pintor de retratos e de pintura de gênero.





Imagem de leitura — Helen M. Turner

12 11 2010

Jornal da manhã, 1915

Helen M. Turner ( EUA, 1858-1958)

Óleo sobre tela

Jersey City Museum,  New Jersey, EUA

Helen M. Turner ( EUA, 1858-1958) nasceu em Louisville, Kentucky, mas cresceu em Nova Orleans.  Começou a pintar por volta de 1880, quando o New Orleans Art Union foi inaugurada. Mudou para New York City em 1895  e matriculou-se na Art Students League.  Também estudou na Escola de Design da Mulher na Cooper Union, e como aluna particular de William Merritt Chase.  Entre 1902 até 1919 Turner ensinou desenho na ACM, e exibiu paisagens impressionistas e obras figurativas nos museus e galerias. Em 1906 fez sua primeira aparição na Academia Nacional de Desenho.  Daí por diante, a lista de exposições em que participou cresceu para incluir a maioria das principais exposições com júri do país.





Reflexões sem compromisso sobre o dia de hoje: Todos os Santos

1 11 2010

Cristo glorificado rodeado por santos e anjos, 1423-24

Fra Angélico ( 1387-1455)

Têmpera de ovo sobre madeira [álamo]

Predela central do altar do Convento de Fiesole

National Gallery, Londres

Nada melhor a fazer no Dia de Todos os Santos  do que expiar as nossas culpas e pedir interferência de TODOS OS SANTOS a nosso favor. Redimindo-me: mea culpa, mea culpa, mea culpa —  deveria ter guardado as notas de aula do curso de Arte Bizantina que freqüentei na Universidade de Maryland, uma versão pálida da extensão do conhecimento passado pela Profª. Marie Spiro.  Sim, porque agora, algumas décadas mais tarde, dando aulas sobre adornos no Clube dos Decoradores do Rio de Janeiro, senti muita falta das detalhadas informações sobre os mosaicos bizantinos que me lembro terem sido copiosas e importantes.

Na extensão do meu curso como historiadora da arte, minha especialidade, meu maior interesse tinha a ver com a pintura européia moderna, do final do século XIX até a Segunda Guerra Mundial.  Isso não desabona a minha segunda área de especialização – que na época era obrigatória – desenhos e gravuras do barroco holandês – quando fui aluna do Prof.  Arthur Wheelock, curador da National Gallery de Washington DC de Pintura Holandesa, nem o meu interesse perene na arte africana, de onde saiu minha monografia para minha primeira graduação em história da arte.   Mas, minha ênfase, por gosto e afinidade, durante os 10 anos que me dediquei ao estudo da História da Arte, tinha tudo a ver com o Dadaísmo e o início do Surrealismo: movimentos de arte e literatura, dois pólos sempre presentes no meu horizonte e completamente dependentes um do outro, de acordo com o meu entendimento do mundo naquela época.  Com isso em vista, a arte bizantina, magnífica sem dúvida, me parecia rígida demais, na sua representação do mundo. 

Painel dos santos e precursores de Cristo, 1423-24

Fra Angélico ( 1387-1455)

Têmpera de ovo sobre madeira [álamo]

Painel do altar de San Domenico do Convento em Fiesole

National Gallery, Londres

Foi necessário que eu deixasse o magistério e enveredasse para “o mundo real” gerenciando uma galeria de arte contemporânea, e mais tarde, abrisse a minha própria versão de uma galeria de arte/antiquário para que eu voltasse à história e à arte pelo mero prazer, sem as necessidades impostas por testes, provas escritas e orais, defesas, para vir a compreender a imensa importância da “rígida” arte bizantina, não só para as artes, mas sobretudo como meio de estender o conhecimento do mundo medieval, parte da história da civilização ocidental que através das duas últimas décadas tornou-se um verdadeiro ponto de interesse para mim,  um hobby, um cacoete de leitura digamos assim, do qual não consigo escapar.

Dizem que não há coincidências.  E apesar de não saber o que algumas coincidências possam significar, reconheço que nas duas últimas semanas, vira e mexe, a arte bizantina, em diversas de suas versões, preencheu os meus pensamentos e as minhas recordações.  Comecei com os preparativos para três horas de aulas sobre mosaicos no Clube dos Decoradores  — e não se fala em mosaicos sem se pelo menos passar os olhos nos mosaicos bizantinos; foram dois ícones na exposição de um leilão residencial que visitei nas Laranjeiras; foi a exposição do Islã que visitei no CCBB no centro do Rio de Janeiro – onde a LINHA DO TEMPO estampada na parede – lembra aos visitantes da longevidade do Império Otomano.  Na sexta-feira à noite, na casa de amigos, cheguei a falar da minha frustração quando passei dez dias na Grécia, e fui barrada de dois diferentes monastérios cujos mosaicos eu conhecia por fotografia, pelo simples fato de ser mulher e não poder visitar esses locais.  E hoje, dia 1º de novembro, quando pensei: não conheço nenhuma iconografia específica sobre a representação de TODOS OS SANTOS.

O último julgamento, 1431

Fra Angélico ( 1387-1455)

Têmpera de ovo sobre madeira [álamo]

Museu de San Marco, Florença

Uma rápida busca na internet mostra o que eu intuitivamente já sabia: a representação visual de todos os santos é em geral associada aos santos representados nas imagens da Glória de Cristo, onde Cristo é em geral representado no centro da pintura com um grande número de santos abaixo.  É o caso de Glória de Cristo rodeado de santos e anjos, 1423-1424,  de Fra Angelico (1385-1455 ), predela central do altar do Convento de Fiesole, hoje na National Gallery em Londres, primeira ilustração desta postagem.  Ou como me pareceu mais corriqueiro o uso da imagem de um outro painel do mesmo altar de Fra Angélico, de San Domenico, desta vez representando Os santos e precursores de Cristo  [ segunda ilustração da postagem].   Às vezes os santos de Todos os Santos são representados por um detalhe – do lado dos bons –  [note-se: sempre o lado direito de Cristo, nunca no lado esquerdo ou sinistro] em qualquer cena do Último Julgamento, como acontece  com a representação também popular de Fra Angélico.

Dança Cósmica dos santos e anjos, DETALHE

O último julgamento, 1431

Fra Angélico ( 1387-1455)

Têmpera de ovo sobre madeira [álamo]

Museu de San Marco, Florença

No entanto, o dia de Todos os Santos, não se restringe aqueles santos que aparecem no Último Julgamento, ou aos outros que precederam Cristo, ou a qualquer conglomerado de almas santas da Igreja.  Ele foi provavelmente instituído por volta do século IV, para que todos, TODOS os mártires da igreja, fossem lembrados.  Porque na Igreja, mesmo nos seus primeiros séculos de existência, havia santos mais populares que outros, santos mais queridos, mais milagreiros.  E a Igreja queria uma data em que se comemorasse a todos, populares ou não, mesmo que ainda assim se mantivessem as datas específicas dos santos mais populares.

E foi assim que voltei à arte bizantina.  Porque numa igreja bizantina, a decoração interior do espaço mostra bem a popularidade e a importância de um santo:  quanto maior sua proximidade ao chão, ao nível dos fiéis, menor a importância do representado, na cosmografia do templo.   A altura da representação da imagem dos santos está diretamente relacionada à sua importância naquela igreja.  No topo, quase sempre o Pantocrator [Pantokrator] Deus onipresente, e todo poderoso, rodeado de santos e anjos [os mais chegados].

Pantokrátor [Pantocrator]: Cristo todo poderoso, século XIII

Afresco

Igreja de São Themonianos

Chipre, Turquia

Voltei ao ponto de partida.  Não deveria ter-me desfeito das notas de aula de arte bizantina.  Bem, acho que, talvez, isso sirva de motivo para uma volta aos livros sobre o assunto, e certamente, planos para uma viagem que inclua alguns pontos altos das igrejas bizantinas.  Entre elas, gostaria de ver os mosaicos de San Vitale, em Ravena, [Itália] que nunca cheguei a visitar.  Talvez eu peça uma ajudinha a Todos os Santos, para realizar esse pequeno milagre…





Imagem de leitura — Isolda

31 10 2010

 

Anoitecer com lampadário, s/d

Isolda [ Hermes da Fonseca Chapman] ( Brasil, 1924-2004)

óleo sobre eucatex, 48 x 68 cm

Coleção Particular

 

Isolda Hermes da Fonseca Chapman (Rio de Janeiro RJ 1924 — 2004). Pintora, ilustradora. estuda na Corcoran School of Art e no Art Students League, em Nova York e funda a Galeria Artists Cooperative, em Washington, Estados Unidos, entre 1947 e 1949. Neste mesmo ano, viaja para a Itália, onde é aluna da Academia de Belas Artes de Florença. De volta ao Brasil, estuda com Chamberlain e realiza ilustrações para os jornais Correio da Manhã e O Globo, no Rio de Janeiro.





Imagem de leitura — Charles James Adams

25 10 2010

Menino lendo [ o filho do pintor]

Charles James Adams ( Inglaterra 1859-1931)

Óleo sobre tela

Charles James Adams nasceu na Inglaterra em 1859.  Foi um pintor que hoje é principalmente conhecido como paisagista, mas que também se dedicou ao retrato, à pintura de animais, de G~enero e à pintura histórica.  Estudou com W. Pilsbury e também na Leicester School of Art.   Viveu e trabalhou em Londres, Leicester e Surrey.  Dedicou-se a litografias no início de sua carreira, dedicou-se também às aquarelas, mas a grande parte de seu trabalho é em óleo.  Seus trabalhos podem ser encontrados na Brighton Art Gallery e na Leicestershire Art Gallery.





Imagem de leitura — Alexander Oscar Levy

22 10 2010

Hora do jantar, s/d

Alexander Oscar Levy (EUA, 1881-1947)

óleo sobre tela 122 x 122 cm

Coleção Particular

Alexander Oscar Levy  (EUA, 1881-1947):   Pintor, Ilustrador, artista gráfico e designer de livros.  Nasceu na Alemanha e imigrou para os Estados Unidos em 1884.  Estudou no Academia de Arte de Cincinnati de 1894 a 1900 e  na Escola de Artes Aplicadas de Nova York de 1902 a 1903 sob a direção de  Ossip Linde, William Merritt Chase e Robert Henri.   Foi membro da Buffalo Society for Sanity in Art e expos nos Salões da América, Pennsylvania Academy of Fine Art, Albright Art Gallery.





Imagem de leitura — Carmen Varela

19 10 2010

A leitora, 2005

Carmen Varela ( Espanha, contemporânea)

Acrílica sobre madeira, 40 x 40 cm  

www.carmenvarela.com

Carmen Varela é uma artista contemporânea, espanhola, residente em Madri.  Trabalha com pinturas e esculturas e outras artes.  Visite o seu site para conhecê-la melhor.





O tempo entre costuras, de María Dueñas, uma GRANDE AVENTURA

18 10 2010

A costureira, 1916

Joseph DeCamp (EUA, 1858-1923)

Óleo sobre tela, 36,5 x 28 cm

Corcoran Art Gallery, Washignton DC

Procurando por uma excelente história?  Por um livro que não quer ser esquecido de nenhuma maneira?  Por aquela leitura que nos envolve e empurra para frente e nos obriga a fazer tempo para ler, para saber como tudo se desenrola?  Tenho o livro para você:  O tempo entre costuras, da escritora espanhola María Dueñas  [Planeta Brasil: 2010].   Li este livro compulsivamente e agradeci o tempo chuvoso do fim de semana que me permitiu permanecer em casa com essa maravilhosa história nas mãos.

Este é um romance excitante cujo enredo é complexo e fascinante; é um livro de aventuras e mostra como uma pessoa comum, sem nenhum treino específico além de uma grande vontade de viver e acaba  participando da resistência a um poder absoluto e se torna parte de uma grande causa. Ela é Sira Quiroga ,uma mulher jovem que aprendeu ofício de costureira com sua mãe e que desconhece o pai.  Uma jovem que contava com um futuro certo pela frente, talvez um pouco insosso – é verdade – mas um futuro sólido com um bom e confiável marido.  Às vésperas dos esponsais ela se vira numa outra direção, abandona o noivo e o casamento.  A alavanca é um outro homem.  No entanto, à medida que a história se desenvolve, percebemos que talvez essa jovem costureirinha madrilenha, soubesse intimamente  que a vida poderia ter-lhe reservado muito mais do que um futuro regrado.  Porque ela se joga, sem pára-quedas, na aventura de viver, com todos os altos e baixos que essa decisão poderá lhe trazer.

O pano de fundo das aventuras de Sira Quiroga é a ditadura espanhola de Franco.  Essa situação política, que no início do romance parece ser uma descrição de época, torna-se a verdadeira base para o desenrolar da trama.  A cada capítulo, a cada dezena de páginas, essa ditadura, esse governo de extremos, se mostra como iminência parda, regulando  as ações de todos à sua volta, assim como aquelas de nossa heroína.  Porque esta é uma história de espionagem, de resistência, de contestação a um poder ditatorial.  É uma história de pessoas comuns contribuindo para evitar que a Espanha se tornasse ainda mais envolvida com o poder nazista do que já estava.

María Dueñas

Esta é uma história de ação.  Lembrou-me tantas e tantas outras obras, livros e filmes, que retratam o movimento da resistência francesa ao regime Vichy.   E como aquelas,  O tempo entre costuras  é excitante, sedutor, um verdadeiro rodamoinho de emoções, perigo e de fantasias  aguçadas pelo medo.  Tudo isso centralizado nas ações de uma bela e jovem mulher, costureira, não muito letrada, não muito sofisticada, mas corajosa e inteligente.   Este é um ótimo romance, cinco estrelas, que tem como finalidade uma narrativa rápida, de ação, bem baseada em fatos verídicos, com figuras históricas amplamente documentadas.  Com ele aprende-se um pouco da realidade espanhola nas mãos do Generalíssimo; e um pouco sobre os serviços de espionagem internacionais que se mantinham atentos ao namoro e noivado do governo espanhol com a Alemanha de Hitler.  Uma história que ainda tem muito a ser contada, muito a ser descoberto pelo resto do mundo.

Uma leitura que entretém, sempre, mesmo quando nela aprendemos sobre a Espanha.  Recomendadíssimo.

—-

AQUI: UMA ENTREVISTA COM A AUTORA — EM ESPANHOL

—-

—-

—–





Imagem de leitura — Aldo Bonadei

14 10 2010

A leitura, 1950

Aldo Bonadei ( Brasil, 1906-1974)

Óleo sobre tela, 73 x 54 cm

Aldo Cláudio Felipe Bonadei, (São Paulo, 1906 — São Paulo, 1974) pintor brasileiro, integrante do Grupo Santa Helena.  Além da pintura fez desenhos, gravuras e foi figurinista para teatro e cinema.  Também escreveu poesia. O artista teve importante atuação, entre os anos 1930 e 1940, na consolidação da arte moderna paulista e foi um dos pioneiros no desenvolvimento da arte abstrata no Brasil.  No fim da década de 50 atuou como figurinista na Companhia Nydia Lícia – Sérgio Cardoso e em dois filmes de Walter Hugo Khoury.