Currículo, poema de Gilberto Mendonça Teles

13 09 2011

Estudante, s/d

Roberto de Souza ( Brasil, 1943)

óleo sobre tela,  88 x 55 cm

Currículo

Gilberto Mendonça Teles

Fiz meu curso de madureza,

passei nos testes com bom conceito:

conheço tudo de cama e mesa,

tenho diplomas dentro do peito.

Aluno médio de neolatinas,

vi línguas mortas, literaturas…

Mas eram tantas as disciplinas,

as biografias, nomenclaturas,

tantos os rumos na encruzilhada,

tantas matérias sem conteúdo,

que acabei não sabendo nada,

embora mestre de quase tudo.

Doutor em letras, as minhas cartas

são andorinhas nos vãos dos templos;

ensino o fino das coisas fartas

e amores livres com bons exemplos.

Livre-docente, sou indecente

e nunca ensino o pulo-do-gato:

esta a razão por que há sempre gente

contra o meu jeito de liter-rato.

Com tantos títulos e uma musa,

sou titular, mas jogo na extrema:

o ponta-esquerda que nunca cruza,

que sempre dribla nalgum poema.

Sou bem casado, mas já fiz bodas;

Já fui cassado, tive anistia:

e, buliçoso, conheço todas

as coisas boas de cada dia.

Só não conheço o que mais excita,

o que me envolve por todo lado:

talvez a essência da coisa escrita,

talvez a forma de um mau-olhado.

Em: Plural de nuvens, Gilberto Mendonça Teles, Rio de Janeiro, José Olympio: 1990

Gilberto Mendonça Teles (Bela Vista de Goiás, 30 de junho de 1931) é um poeta e crítico literário brasileiro.

Obras:

Alvorada, 1955.

Estrela-d’Alva, 1958

Fábula de Fogo, 1961

Pássaro de Pedra, 1962

Sonetos do Azul sem Tempo, 1964

Sintaxe Invisível, 1967

La Palabra Perdida (Antología),1967

A Raíz da Fala, 1972

Arte de Armar. Rio de de Janeiro: Imago, 1977

Poemas Reunidos, 1978

Plural de Nuvens, 1984

Sociologia Goiana, 1982

Hora Aberta, 1986

Palavra (Antologia Poética),1990

L ´Animal (Anthologie Poétique), 1990

Nominais, 1993

Os Melhores Poemas de Gilberto Mendonça Teles

Sonetos (Reunião), 1998

Casa de Vidrio (Antología Poética, 1999





Uma visão adolescente dos turistas, em Tchick, de Wolfgang Herrndorf

13 09 2011

Turistas, s/d

Charles Hawes ( EUA, 1909)

aquarela

www.charleshawes.org

Estou lendo Tchick, de Wolfgang Herrndorf, e me divertindo muito com o nosso adolescente narrador.  Perspicaz e intrépido ele tem observações muito boas e frequentemente hilárias.  Posto hoje uma passagem em que ele observa alguns turistas numa pequena cidade da Alemanha.  Ele está na companhia de seu amigo Tchick.  É verão e eles se aventuram por pequeninas estradas à procura do que der e vier…

A cada meia hora, um ônibus com turistas aparecia na praça do mercado.  Em algum lugar alto da cidade havia um pequeno castelo.  Tchick estava sentado de costas para o ponto de ônibus, mas eu ficava o tempo todo olhando para os aposentados que saíam aos borbotões do ônibus.  Pois eram exclusivamente aposentados.  Todos eles usavam roupas marrons ou beges e um chapeuzinho ridículo, e quando passavam pela gente, onde havia uma pequena subida, eles bufavam com se tivessem corrido uma maratona.

Eu ainda não conseguia me convencer de que algum dia eu mesmo seria um aposentado bege.  Mas todos os homens velhos que eu conhecia eram aposentados beges.  E todo as aposentadas eram assim também.  Todos beges.  Era incrivelmente difícil imaginar que essas mulheres velhas algum dia foram, necessariamente,  jovens.  Que tiveram a idade da Tatjana e que à noite se arrumavam e que freqüentavam salões de dança, onde é provável que tenham sido chamadas de belezinhas ou algo parecido, há cinqüenta ou cem anos.  Não todas, claro.  Algumas delas também deviam ser insípidas e feias já naquela época.  Mas também as insípidas e feias provavelmente tinham objetivos, elas com certeza fizeram planos para o futuro.  E as bem normais também tinham planos para o futuro, e era garantido que nesses planos não havia nada se tornarem aposentadas beges.  Quanto mais eu pensava sobre esses aposentados que desciam dos ônibus, mais me deprimia.  E o que mais me deprimia era pensar que entre essas aposentadas devia haver algumas que não tinham sido insípidas e chatas na juventude.  Que tinham sido bonitas, as mais bonitas do seu tempo, aquelas pelas quais todos tinham se apaixonado, e havia setenta anos, alguém sentado em sua torre de índio, ficou ansioso apenas vendo a luz do quarto delas se acender.  Essas garotas agora eram aposentadas beges também, mas não dava mais para distingui-las das outras aposentadas bege.  Todas tinham a mesma pele cinza, orelhas e narizes oleosos, e isso me deixava tão deprimido a ponto de eu quase passar mal.

Em: Tchick, de Wolfgang Herrndorf, tradução de Cláudia Abeling, São Paulo, Tordesilhas:2011, p. 110.





Imagem de leitura — Michele Del Campo

12 09 2011

Menina chinesa lendo, 2008

Michele Del Campo ( Itália, 1976)

Óleo sobre tela, 140 x 140 cm

www.micheledelcampo.com

Michele Del Campo nasceu em  Sannicandro Garganico, na Itália, em 1976.  Fez os cursos de Belas Artes, começando na Universidade de Milão completando os anos de aprendizado na Universidade Complutense de Madri, em 2007.  Formou-se em Ilustração no reino Unido em 2001.  Mudou-se para Londres  em 2008, onde vive hoje.  www.micheledelcampo.com





Contraste, poesia de Aristeu Bulhões pelo dia da árvore

12 09 2011

Pé de romã, 1990

Amadeu Luciano Lorenzatto (Brasil, 1900-1995)

óleo sobre eucatex, 60 x 40 cm

Contraste

                                               Aristeu Bulhões

No chão do meu quintal, que rústico era,

Eu, que de sonhos enfeitava a vida,

Numa linda manhã de primavera,

Plantei ramos de uma árvore caída…

E, cheio de ilusão e de quimera,

Abandonei a terra estremecida

Como o viajante que atingir espera

A rósea meta, a que o Ideal convida…

Anos depois voltei…  Na alma cansada

nem mais um sonho, uma ilusão trazia

Porque tudo eu perdera na jornada.

Mas, cada ramo que plantei a esmo,

Era uma árvore imensa que floria

Para arrimo e conforto de mim mesmo.

Em:  Apologia da árvore, Leonam de Azeredo Penna, Rio de Janeiro, IBDF: 1973





Imagem de leitura — Tatiana Rhinevault

11 09 2011

Menina lendo, s/d

Tatiana Rhinevault ( Rússia, contemporânea)

óleo sobre tela, 50 x 72 cm

www.tatianarhinevault.com

Tatiana Rhinevault nasceu em Moscou  e passou a maior parte de sua infância em Sokolniki Park, vendo artistas pintarem todos os dias.  Vivendo em Moscou foi exposta a muitos museus, ao teatro e a estúdios de arte que abundam na capital russa.  Estudou arte no Instituto de Moscu, onde completou o mestrado.   Trabalhou como restauradora e visitou muitos países europeus familiarizando-se com as artes.  Casou-se com um americano e mudou-se para os Estados Unidos onde vive e continua sua carreira como pintora.  Pinta retratos, paisagens e principalmente dedica-se à pintura de gênero.  www.tatianarhinevault.com





Imagem de leitura — Léon Kamir Kaufman

10 09 2011

Mulher lendo, 1921

Léon Kamir Kaufman ( Polônia 1872-1933)

Óleo sobre tela

Museu d’Orsay, Paris

Léon Kamir Kaufman nasceu na Polônia em 1872.  Foi educado em Varsóvia onde estudou desenho.   Depois disso foi estudar primeiro na Academia de Arte de Munique e depois foi para Paris onde estudou na Académie Julian.  Retornou à Varsóvia por um breve período e em 1902 emigrou definitivamente para a França.  Permaneceu em Paris até o final de sua vida.  Morrei em 1933.   Especializou-se em pintura de gênero, retratos e paisagem.  Ficou conhecido pelas suas cenas noturnas.





Quadrinha do ipê, para a chegada da primavera!

10 09 2011

Ipê amarelo, s/d

Paulo Gagarin (Brasil, 1885-1980)

óleo sobre tela,  41 x33 cm

Banhado de sol e de ouro,

tanta é a beleza que encerra,

que o Ipê parece um tesouro

saído há pouco da terra!

(Clóvis Brunelli)





Imagem de leitura — James Kurihara

9 09 2011

Leitora, s/d

James Kurihara ( EUA, contemporânea)

www.jameskurihara.com

James Kurihara mora e trabalha na área da cidade de Seattle nos Estados Unidos a maior parte da vida.  Fez seus estudos na Universidade de Washington em Engenharia, mas depois já fez diversos cursos e workshop nos últimos 20 anos em pintura a óleo.   www.jameskurihara.com





Minuto de silêncio, uma meditação sobre o primeiro amor

9 09 2011

Pescadores puxando um barco, 1885

Peder Severin Kroyer ( Noruega,  1851-1909)

Óleo sobre tela

Oglethorpe University Museum of Art

Atlanta, Ga,  EUA

Hoje até parece luxo a gente dizer que tem um livreiro em quem confia.  Alguém que é dono ou gerente de uma livraria, que conhece os seus gostos tão bem que chega a separar alguns livros para sua escolha.  Coisa pessoal, não tão esquematizada como as sugestões da Amazon.com, que ainda assim conseguem ser bem acertadas, apesar de sugeridas por um programa de computação.  Mas desde que voltei ao Rio de Janeiro desenvolvi um relacionamento com dois livreiros “à antiga”, que me conhecem, sugerem títulos e até me emprestam um ou outro volume.  Este foi o caso da simpática gerente de uma pequena livraria no meu bairro.   Minuto de Silêncio, um conto publicado como livro do escritor polonês  Siegfried Lenz [Rocco: 2010] chegou às minhas mãos dessa maneira.  Não só eu desconhecia o livro como o autor.  Foi uma “educação” dupla.  Uma educação que valeu a pena.  Levei mais tempo procurando por um belo marcador de livros para dar à minha gerente como agradecimento, do que para ler as 126 páginas dessa história de amor entre um jovem, e sua professora de inglês.

Preciso confessar que ando um pouco cansada de livros de “passagem”, livros que retratam o momento em que um adolescente passa a ser adulto.   Precisei dizer isso porque encarei com certa apreensão essa leitura que mostra as descobertas do amor e da paixão por um jovem.  No entanto, a narrativa é magistral.  Econômica e evocativa.  Delicada e branda encanta e passa rapidamente como um véu transparente soprado pela brisa do mar.  Minuto de silêncio é uma meditação sobre a primeira descoberta do amor e sua subseqüente perda.  Há desde o início a certeza de que o trágico ronda o leitor, o gancho é descobrir como e por quê?   Esse é um livro de grande sutileza, bordejando o poético.

Siegfried Lenz

Situada numa cidade pesqueira no Mar Báltico, a história desse primeiro amor é embalada pela localização idílica de um balneário repleto de veranistas, atraídos pela magia do mar.  As marés, o ir e vir das ondas, o trabalho perigoso dos pescadores de pedras, familiarizados com o imprevisto, servem como pano de fundo significante para as lições de vida, e amor, de perda e morte aprendidas pelo jovem Christian. Um belo romance.





Imagem de leitura — Léonard Foujita

8 09 2011

No café, 1949

Léonard Foujita (Japão, 1866-1968)

Centro Pompidou, Paris

Léonard Tsugouharu Foujita ( Japão,1886 – 1968) pintor e gravurista nasceu em Tóquio.  Aos 24 anos, em 1910, formou-se em Música e Belas Artes pela Universidade Nacional de Tóquio.  Embarcou para a Europa em 1913, indo morar em Paris, onde conheceu todos os principais pintores de Montparnasse das primeiras décadas do século XX.   Atingiu fama e sucesso na Euroopa ao empregar técnicas das artes tradicionais japoneses na pintura ocidental.  Famoso pela pintura de belas mulheres e gatos.  Em 1931 veio ao Brasil e fez uma turnê da América do Sul de grande sucesso, antes de retornar ao Japão.  Saiu de novo de seu país natal depois da Segunda Guerra Mundial e se estabeleceu na França definitivamente.  Morreu em Zurique em 1968.