Imagem de leitura — Emile Vernon

16 01 2012

Uma bela jovem lendo seu livro de orações, s/d

Emile Vernon ( França 1872- Inglaterra, 1919)

òleo sobre tela

Emile Vernon nasceu em Blois, na França em 1872.   Pouco se sabe a respeito de sua vida.  Pintor acadêmico que trabalhou intensamente tanto na França quanto na Inglaterra como retratista de belas jovens da sociedade e  um pouco menos, mas também de cenas de gênero.  Foi estudante na Escola de Belas Artes, em Tours. Depois migrou para Paris onde parece ter estudado com  Bouguereau.   Já no início do século XX encontra-se em Londres.  Faleceu em 1919.





Imagem de leitura — David Laity

15 01 2012

Pensamentos pecaminosos ( A história de O)
David Laity (Austrália, 1958)
Óleo sobre tela colado em madeira
180 x 150 cm
http://www.metrogallery.com.au/exhibitions/28

David Laity é um pintor australiano, nascido em 1958 em Benalla, no estado de Victoria.   Mora e trabalha em Melbourne.  Começou sua carreira artística como cartunista e teve sua própria história em quadrinhos, Rat Race, publicada em jornal diário de 1984 a 1987.  Durante esse período o cartunista autodidata teve aulas de desenho em Melbourne.  Logo depois disso passou a exibir seus trabalhos em galerias em Melbourne  com exposições individuais.  Hoje é um artista conhecido internacionalmente.





Imagem de leitura — iluminura de 1540

14 01 2012

Henry VIII como Rei Davi (c. 1540)

Iluminura

Na exposião de manuscritos reais da Biblioteca Britânica. [The British Library]

A exposição da qual essa iluminura faz parte estará na Biblioteca Britânica até 13 de março de 2012.  Quem por um acaso estiver em Londres, não deve perder esta oportunidade.  Veja detalhes:  The Guardian





O pintor de letreiros, de R. K. Narayan, o conflito entre o novo e o velho

14 01 2012

Dia de feira, s/d
G. D. Thyaga Raj ( Índia, 1922-1981)
aquarela

Foi com grande prazer que descobri, no final do ano passado, o lançamento do romance O pintor de letreiros, de R. K. Narayan (Índia, 1906-2001), publicado pela Editora Guarda-Chuva:2011.   A apresentação de Narayan ao público brasileiro era devida e necessária.  Sua obra já está alinhada entre os clássicos da literatura indiana assim como da literatura de língua inglesa.  [Para ilustrar, a minha edição desse romance, em inglês – The Painter of Signs ––  foi publicada pela Penguin, coleção Clássicos do século XX, em 1982], tal é sua importância.

Muito de sua obra me atrai, mas principalmente o fato de não haver respostas aos problemas apresentados, não haver soluções fáceis.  Os romances de Narayan têm a característica de apresentarem no cotidiano, enfrentados por pessoas comuns, moradoras da fictícia Malgudi — um vilarejo que cresce, cresce até formar uma pequena cidade, isso através de volumes de sua obra –  e terminarem sem respostas fáceis.  Narayan é um daqueles escritores indianos formados na época em que a Índia ainda fazia parte da Comunidade de Nações Britânicas.  Sente-se em sua narrativa o contato íntimo com o melhor da literatura inglesa.   Entre essas características está o descrever de um todo, de um problema complexo, às vezes até político-social, pelos conflitos e resoluções de personagens menores,  mas que no final são quem realmente irão resolver, no dia a dia de suas fainas,  as mudanças necessárias para uma solução aceitável.  É o indivíduo, o homem comum, com todas as suas idiossincrasias que aparece agindo pelo todo.   É como se os romances fossem a respeito de nada, porque não há eventos, ações,  momentos grandiosos.  Não há heróis, nem grandes conquistas. Tudo parece muito corriqueiro e diário, mesmo quando se trata de uma mudança de grandeza social.  É com o homem comum, com a pessoa de pequeno porte, a formiguinha trabalhadora e mantenedora dos princípios sociais, religiosos e morais, é através desses personagens, tomando pequenas decisões, que  o romance e os leitores  se transformam.


E é o humor de Narayan que serve de porta de entrada ao nosso mundo e nos transforma. Com uma narrativa irônica e bem-humorada vemos, em O pintor de letreiros, as dificuldades de Raman.  Participamos de suas dúvidas, de seus anseios e principalmente de sua incompreensão a respeito da mulher amada.  Isso porque solteiro inveterado, na terceira década de vida, esse pintor de cartazes, educado na universidade, vê sua existência como exemplo de um ser pensante de uma racionalidade quase cartesiana.  Mas em seu destino aparece Daisy, a moderna, independente jovem trabalhadora que, com zelo missionário, tenta educar, persuadir e revolucionar os habitantes de pequenas cidades e vilarejos a usarem de planejamento familiar para controlar com sucesso os números do crescimento populacional da Índia.  Esta é a vida moderna.  A Índia de hoje.  Raman, não tem dificuldade nenhuma em aceitá-la.  Apaixona-se por ela… Moderna, instigante, livre, dedicada e inescrutável. Mas será que ela se apaixonaria também por alguém tão pouco fervoroso sobre o futuro?

Em casa, Raman tem o exemplo de outra nação.  Lá está diariamente sua tia, que dedicou toda sua vida à educação e ao crescimento de Raman emocional e intelectual, que se sacrificou pela família, pelos valores  e pela memória dos antepassados.  Com suas idas diárias ao templo, sua comida em forno de barro, com suas  histórias do passado, ela é o mundo de onde ele veio, a Índia com toda a tradição cultural milenar.  Preso entre dois amores, seu mundo desaba, não sem antes termos deliciosos momentos de humor e ironia na trama.

R. K. Narayan

Narayan nos dá a dimensão precisa das mudanças que ocorrem na Índia da década de 1970, quando por esforço governamental de grande magnitude, a necessidade de controle da natalidade foi colocada em destaque.  Ele nos mostra como a tradicional cultura indiana recebe essas mudanças.  São abordados assuntos complexos tratado numa linguagem clara, límpida, sem rebuscados artifícios.  Justamente por isso conseguimos pensar na complexidade de pequenas decisões diárias que afetam ou são afetadas pelo todo.   O charme de O pintor de letreiros é característico do autor: não está na trama – que é de uma simplicidade quase ingênua – mas nos retratos dos personagens, nas descrições que nos levam de início ao fim, às vezes com um tênue sorriso nos lábios, ocasionalmente um riso comedido e espontâneo, até o fim da leitura.

A publicação em português está excelente.  Vale a pena enriquecer as suas férias, os seus dias de verão, com essa leitura leve e significativa de um clássico autor indiano.





Imagem de leitura — Oscar Pereira da Silva

13 01 2012

Leitura, 1937

Oscar Pereira da Silva ( Brasil, 1867 — 1939 )

óleo sobre tela

Oscar Pereira da Silva nasceu em São Fidelis, no estado do Rio de Janeito em 1867.  Foi pintor e professor. Ganhou em 1887, no último em que cursou a Academia Imperial das Belas Artes no Rio de Janeiro, o prêmio de viagem à Europa.  Ficou em Paris e 1889 a 1896. Lá prosseguiu seus estudos com Bonnat e Léon Gerôme.  Voltando ao Brasil fixou-se em São Paulo.  Conquistou no SPBA a grande medalha de ouro em 1933 e o segundo prêmio Prefeitura de São Paulo em 1936.  Faleceu em 1939 em São Paulo.





Imagem de leitura — Anna Sahlstén

12 01 2012

Mulher lendo à janela, 1893

Anna Sahlstén (Finlândia, 1859-1931)

óleo sobre tela





O valor dos professores

12 01 2012

Na sala de aula, 1888

Karen Elizabeth Tornoe (Dinamarca, 1847-2933)

óleo sobre tela, 72 x 59 cm

Coleção Particular

O jornal americano The New York Times, na página de editoriais de hoje, tem um artigo muito interessante de Nicholas D. Kristoff, chamado The Value of Teachers [ O valor dos porfessores] sobre o valor  econômico dos professores na vida dos futuros adultos.  Traduzo livremente os primeiros parágrafos  para ponderação.  Acredito que não seja necessário elaborar a respeito.  As conseqüências dos primeiros parágrafos desse texto são lógicas, mas vale a pena seguir o pensamento do autor.

“Imagine que o seu filho acabou de entrar na 4ª série e cai numa turma com uma excelente professora.  A professora, no entanto,  decide se afastar da escola.  O que você deveria fazer?

 A resposta certa é: Entrar em Pânico!

Bem, não exatamente, mas um estudo de grande porte sobre o assunto mostra a diferença que faz um ótimo professor na vida futura de uma pessoa.   Ter um bom professor na 4ª série faz um aluno ter 1,25% mais chance de entrar para a universidade e 1,25% menos chance de engravidar na adolescência a pesquisa sugere.  Cada um desses alunos se tornará um adulto ganhando uma média de R$3.750,00 – ou mais ou menos uma renda de R$ 1.260.000,00 por uma turma média – tudo isso atribuível ao bom professor lá no passado, na 4ª série.  Isso mesmo: Um excelente professor vale centenas de milhares de dólares, por ano de estudantes, só pela renda extra que esses alunos irão ganhar no futuro.

O estudo, feito por economistas das universidades de Harvard e Columbia, concluiu que se um excelente professor está deixando a sala de aula, os pais deveriam angariar fundos, passar o chapéu, vender bolinhos, na esperança de como um grupo oferecer ao professor o equivalente a R$180.000,00 de prêmio para ficar por um ano a mais.  Claro, isso não seria possível,  – mas as suas crianças lucrariam muito mais que esta soma, no futuro de suas vidas.

Por outros lado, o efeito de um professor ruim  é  como se o aluno tivesse faltado 40%  do ano letivo.  Como não deixamos que isso aconteça, não se entende que se permita que maus professores continuem na sala de aula.  Na verdade, o estudo mostra, que os pais deveriam pagar R$180.000 para que esse mau professor se aposentasse (assumindo-se, é claro, que o substituto fosse de qualidade média) porque um professor fraco retira o potencial de crescimento do aluno.”





Imagem de leitura — Susan Dorothea White

10 01 2012

O professor inspirado, 1992

Susan Dorothea White  (Austrália, 1941)

acrílica sobre madeira, 120 x 120 cm

http://www.susandwhite.com.au/

Susan Dorothea White nasceu em Adelaide, Australia em 1941.  Cresceu como a menina entre dois irmãos, no seio de uma família dotada de habilidades artísticas, ainda que como hobbies: mãe pintava em aquarelas, pai era fotográfo de fim-de-semana, avô também era aquarelista.  Sua inclinação para as artes visuais foi bem vinda, em 1959, começou seus estudos na South Australian School of Art (SASA) em Adelaide.  Sua primeira exposição veio em 1962. Morou na Alemanha no final da década de 70 .





Imagem de leitura — Carlos Alvarez de las Heras

9 01 2012

Mulher lendo, s/d

Carlos Alvarez de las Heras (Espanha, 1982)

www.alvarezdelasheras.com

Carlos Alvarez las Heras nasceu em Léon, na Espanha, em 1982.  É um pintor autodidata, que começou a pintar sob a orientação de Benito Escarpizo.  Em 2001, fez sua primeira exposição.  Formado pela Universidade de Cunef – Complutense – vive e trabalha em Madri desde o ano 2000.  É pintor e escultor Em 2005 recebet a medalha de mérito artistic do College of Spain, em Paris.





A dura vida em Santo André da Borda do Campo, texto de Viriato Corrêa

9 01 2012

Descobrimento do Brasil.

As constantes reclamações, que temos todo o justo direito de fazer sobre os impostos no Brasil, associadas à próxima data de aniversário da cidade de São Paulo, me levaram a pensar hoje nos ensaios de Viriato Corrêa, em particular neste que reproduzo aqui sobre os impostos do vilarejo de Santo André da Borda do Campo em meados do século XVI, quando o Brasil tinha um pouco mais de 50 anos de existência.  Resolvi postá-lo, porque gosto desse excelente escritor e o ensaio  me lembra e espero que faça o mesmo a vocês, das dificuldades que os nossos antepassados tiveram ao se estabelecerem nesse Eldorado.  Sei muito bem que comemora-se o aniversário de Santo André da Borda do Campo  em abril — fundada em 1553 este ano ela comemora 459 anos de idade.   No entanto, Santo André da Borda do Campo exerce um grande fascínio para mim, o fascínio do desconhecido, do mistério, já que o vilarejo desapareceu em 1560 e há muito pouca informação sobre sua localização original.

A dura vida em Santo André da Borda do Campo

Viriato Correia

Desde que o Brasil é Brasil não houve certamente multas mais extorsivas que as que se cobraram na vila remota de Santo André da Borda do Campo.

Ao mais ligeiro golpe de vista pelas atas da municipalidade do rude arraial de João Ramalho, o leitor se escandaliza diante da disparidade das multas, comparada com o valor do dinheiro naquela longínqua quadra quinhentista.

Quer sobre a vila de Santo André, quer sobre a vida de João Ramalho, anda a história ainda às tontas.

João Ramalho tem sido tudo na história, ao sabor dos historiadores.  Para uns foi o precursor de Colombo, pisando em terras americanas antes que as caravelas do navegador genovês fundeassem nas águas das Antilhas.  Para outros é o náufrago que ao Brasil aportou naqueles dias sombrios em que o Portugal deixou a terra de Santa-Cruz em pleno abandono.  Para Cândido Mendes não é outro senão o muito conhecido bacharel da Cananéia, que a história até hoje não pode conhecer definitivamente.  Uns dizem-no fidalgo da casa real, outros afirmam-no aventureiro e ignorante.  O que ele é, até hoje, nestes dias de pesquisas, é um ponto de interrogação.

O arraial de Santo André continua com a mesma sorte de seu fundador.  Ninguém sabe em que ponto do planalto paulista João Ramalho fundou o seu povoado.

Até hoje não se pode determinar o lugar preciso em que existiram os primeiros fundamentos do mais antigo dos núcleos populosos de S. Paulo.

João Ramalho e seu filho

[DETALHE]

Wasth Rodrigues (Brasil, 1891-1957)

óleo sobre tela

Museu Paulista, São Paulo, SP

Que ambos existiram – o arraial e o fundador – é que não há mais dúvida.  Para muitos o arraial de Santo André da Borda do Campo não era mais que uma furna de bandidos, um numeroso rancho de malfeitores, colocados no planalto paulista, logo após as muralhas da cordilheira do Mar, ali vivendo como salteadores terríveis, escravizando indígenas, de arcabuz e flechas impedindo que alguém transpusesse os sertões incultos.  João Ramalho não era mais que o maioral dessa quadrilha.

É possível, é mesmo quase certo, que a população que fervia nas ruas de Santo André não fosse a mais dócil e a mais proba daqueles tempos ásperos.

Não seria possível existir no coração da selva, numa quadra de aventura e de fome de riquezas, uma população de santos.  As surpresas da floresta desconhecida, as emboscadas dos índios indomáveis e principalmente o ambiente da época, haviam de tornar os homens afoitos e bravios.

Mas a verdade é que Santo André da Borda do Campo teve uma organização social e uma organização política.  Ninguém hoje pode duvidar disso, depois que o sr. Washington Luis fez publicar as velhas atas da municipalidade do remoto arraial de João Ramalho.

Em Santo André não mandava quem queria, nem João Ramalho era o poder autoritário e supremo.  Havia uma municipalidade, havia um poder legislativo, havia o que hoje chamamos prefeito e que, naquele tempo, era chamado juiz.

A lei tinha um rigor feroz; os assuntos públicos um tom de seriedade que hoje absolutamente não existe nas mais perfeitas sociedades organizadas.

Em Santo André da Borda do Campo os deveres de um vereador eram coisas rigorosamente sérias.  Basta citar este caso hoje surpreendente para nós: os vereadores sofriam multas quando não compareciam às sessões da Câmara.

A moradia em Santo André não era para qualquer pé rapado.  Ninguém punha a trouxa às costas e entrava sem mais aquela no arraial, para morar.  Devia pedir licença à Câmara e obtê-la.  Em 1556, consta de uma ata da vila, Manuel Ribeiro, que já possuía “casa, roças, vaca e mulher” no povoado, requeria aos vereadores que o “assentassem por morador”.

Se se não entrava sem licença, sem licença também não se saía.  Havia multas rigorosas para os transgressores.  De uma ata de 1555 consta que Francisco Alves requerera permissão para viver algum tempo no campo.

Entre nós, em pleno século XX, o pistolão destrói o rigor das multas impostas pelas municipalidades.

Em muitas localidades do interior os amigos do chefe político não pagam impostos e multas.

Ilustração de trabalho escravo feito por índios.

No arraial de João Ramalho o caso era seríssimo.  Uma multa imposta era uma multa paga.  Não havia empenho capaz de demovê-la. O almotacel João Pires Gago, por desleixo, não mandou limpar os monturos das ruas.  Multaram-no em quinhentos réis.  O pobre diabo fez tudo para livrar-se da pena.  Nada conseguiu.  E, como não tinha dinheiro para pagá-la, viu-se obrigado a fugir.

Diante das atas da municipalidade de Santo André da Borda do Campo o que mais espanta não é o rigor das leis: é o vulto, o extorsivo vulto das multas que se impõem ao povo.

É necessário que nos reportemos à época.

No período quinhentista o dinheiro não tinha o mesmo valor de hoje. Basta dizer que a descoberta da América não custou muito mais de sete contos de réis ao governo da Espanha.  Um cruzado era uma quantia fabulosa.

Cabral quando fez a viagem às Índias, da qual resultou a descoberta do Brasil, ganhava regiamente.  Vencia, pela viagem de ida e volta, a soma incrível de quatro contos de réis.  Cada um dos comandantes das naus recebia um conto e duzentos, ida e volta.  Os pilotos ganhavam duzentos mil réis pela viagem; os marinheiros quatro mil réis por mês; e os soldados dois mil réis apenas.

Fernão de Magalhães não descobriu para Portugal o estreito que tem o seu último nome, porque el-rei d. Manuel não lhe quis gratificar com seis escudos, cerca de nove mil e seiscentos réis na moeda atual.
Na época em que o povoado de João Ramalho floresceu, o governador geral do Brasil percebia dos cofres públicos o imenso ordenado de trinta e três mil trezentos e trinta e três réis mensais.  O bispo não recebia mais que a metade.  O oficial do governador geral só recebia quinhentos réis por mês e vivia como um príncipe.

Ruínas de Santo André da Borda do Campo, aquarela de Miguel Dutra.

Na própria vila de Santo André os ordenados eram apertadíssimos.  O prefeito ganhava oitocentos réis por ano (dois cruzados).  O porteiro da Câmara satisfazia-se com quatrocentos réis anuais.

Numa quadra em que os valores eram esses, as multas impostas pelas municipalidades deviam ser relativas aos valores.  Não o eram em Santo André.

As penas impostas pela Câmara são as mais díspares.  Um tostão, naquela época tomava o vulto de muito dinheiro. Era quanto pagava o vereador que não comparecia a uma sessão da Câmara.

Certamente não existiram no Brasil taxas mais pesadas que as da vila ramalhense.  Tem-se a impressão de que a municipalidade, não podendo arcar com os encargos normais por falta de numerário, quer arrancar, seja como for, o pelo do povo.

A vila de João Ramalho, ao fundo da floresta paulista, era pobre.  A municipalidade tinha que refletir a pobreza da vila.  O patrimônio municipal, em 1556, constava apenas de uma balança, de pau, um peso de ferro de quatro arráteis, dois taipais com seus aparelhos e um machado grande de carpinteiro.  Em 1557 era mais rica.

Tinha a mesma balança, os mesmos taipais, e tudo isso agora acrescido com três agulhas e uma medida de três alqueires e o fabuloso saldo de quatrocentos réis em dinheiro.

Desenho refletindo como seria uma aldeia por volta de 1560.

Apesar de pobre, a municipalidade andreense fazia empréstimos aos seus munícipes preeminentes.  Em 1556 emprestou a João Fernandes – o Gago – a quantia de quatrocentos réis.

Aquele machado de que se fala acima era a caução que João Fernandes deixou, ao receber o grande empréstimo.  No mesmo ano emprestou três cruzados a Paulo Proença.  No ano seguinte João Pires Gago, conseguia, com a caução de um arcabuz, o empréstimo de mil e duzentos réis.

Parece que esse estado de penúria explica de alguma maneira o exagero das multas impostas em Santo André.  Se se não extorquir o povo, os cofres municipais nunca terão dinheiro.

As penas são horríveis.  Na vila a criação de vacas e porcos, dia a dia aumenta.  Os bichos vivem a estragar as roças da redondeza.  A Câmara toma uma medida enérgica contra o abuso, em 1556.  Pelo animal que for recolhido ao curral do Conselho pagará o dono cem réis por cabeça.  Mais tarde o imposto é diminuído, aos reclamos do povo.  A vaca desce a cinqüenta réis e o porco a um vintém.

Os índios das florestas vizinhas fazem, de quando em quando, surpresas desagradáveis à vila, destruindo o que podem.  Todo o mundo é obrigado a recolher, à tardinha, o gado às fortificações. O criador desleixado pagará cem réis por animal.

Cem réis é uma das penas menores impostas em Santo André da Borda do Campo, no tempo em que o ordenado maior era o do prefeito (juiz) e não ia além de oitocentos réis anuais.

João Ramalho aponta o caminho de Piratininga a Martim Afonso de Souza, c. 1912

Benedito Calixto ( Brasil, 1853-1927)

Palácio de São Joaquim

Rio de Janeiro

As taxas são sempre de quinhentos réis para cima.  O morador que se retirava da vila, sem licença, pagava quinhentos réis ao voltar.  Quando pusesse raízes de mandioca a fermentar nas fontes públicas entrava com dez tostões para os cofres municipais.

Era uma multa horrível.  Talvez possa ser explicada pelas razões da saúde pública: a mandioca, antes de fermentada, é um veneno terrível.

Ao fiscal da Câmara, que deixava de cumprir o seu dever, obrigava-se a entregar ao município a soma de quinhentos réis.  Foi a pena imposta ao almotacel João Pires Gago, por não ter mandado “ha limpar monturos”, pena que, por pesada, o fez fugir da vila.

Santo André, plantada à porta do campo paulista, na virgindade inculta dos sertões americanos, vivia numa constante ameaça de ataques. A mata, em redor, era a hostilidade dos índios.  Não se podia deixar a vila desprevenida.  Mas acontecia que os lavradores seguiam todos para as roças, deixando nas casas apenas as crianças e os enfermos.  A Câmara tomou medidas contra a negligência.  Designou as turmas de lavradores a trabalhar e as turmas que ficariam guardando o povoado.  A transgressão custava cento e cinqüenta réis.

As noções de higiene moderna já eram conhecidas no agrupamento humano que João Ramalho fundou.

Hoje, depois de quatro séculos, a trinta minutos do Rio de Janeiro, os médicos da profilaxia rural não conseguiram ainda que a população dos subúrbios compreendesse a necessidade das sentinas.  Nem as fossas simples, cavadas no solo, quer o suburbano usar.
Em Santo André da Borda do Campo, em mil quinhentos e tantos, havia o abuso das fossas.

Há uma ata de 1557, em que os edis, reunidos, impõem a multa de dez tostões a quem fizer privadas dentro dos muros da vila.
No Brasil, em defeitos administrativos, não há nada de novo. O atraso dos governos para com o funcionalismo público, que muita gente supõe ser coisa moderna, é velhíssimo.

Já a municipalidade de Santo André vivia em atraso.  Conhece-se um requerimento do escrivão Gaspar Nogueira solicitando pagamento dos seus ordenados esquecidos.  Devia-lhe a Câmara mil, cento e sessenta réis, dos quais ele já havia recebido oitocentos.

Há quem afirme que o desfalque é, no Brasil, uma criação da República.  Tem quatro séculos. Nasceu com os nossos primeiros vagidos.

Em 1555, em Santo André da Borda do Campo, deu-se um desfalque.  De uma ata constam sérias medidas tomadas contra o procurador João Fernandes, que teve a clamorosa improbidade de não entrar para os cofres municipais com a soma de cinqüenta réis, de uma multa que cobrou.

Sempre a multa! A municipalidade de Santo André da Borda do Campo foi a mais extorsiva criadora de impostos que houve no Brasil.

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Em: Terras de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, Viriato Corrêa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira: 1956