Brasil, um país destinado a voar: Bartolomeu de Gusmão

23 01 2012

Bartolomeu de Gusmão, 2009

J. G. Fajardo (Brasil, 1960)

óleo sobre tela

Antes, muito antes de Santos Dumont inventar o avião, já tínhamos uma tradição de conquista do ar.  Devemos isso ao padre e cientista brasileiro Bartolomeu de Gusmão que foi capaz de surpreender a Europa com sua máquina de voar. E só porque seu balão não foi aceito pela ignorante sociedade portuguêsa da época,  não quer dizer que não tenhamos orgulho desse nosso gênio.  Não há na história da conquista do ar quem não comece essa saga com a “Passarola” de Bartolomeu de Gusmão.  A decisão de D. João V, O Magnânimo,  de sucumbir às crendices do povo, às maledicências de uma sociedade dominada pela falta de conhecimento e pelo medo religioso ainda enraizado por uma Inquisição que cismava em permanecer viva,  nada têm a ver como a nossa memória cultural. Bartolomeu de Gusmão deve ser lembrado nas nossas escolas e universidades por sua insistência, a todo custo,  na pesquisa científica.  Se D. João V tivesse tido um pouco mais de coragem de enfrentar sua corte e os jornais, Portugal teria passado para a história mundial não só como o país das grandes descobertas marítimas, mas também o país da conquista dos ares.  Infelizmente esse título acabou sendo dado à França, quando 74 anos depois dos experimentos de Bartolomeu de Gusmão,  os irmãos Montgolfier conseguiram voar uma balão, em Annonay, em 1783.  Por isso, lembro a todos, o texto abaixo impresso para a 4ª série  das escolas primárias, em 1954, quem foi o nosso padre voador!

Reconstituição artística da apresentação de Bartolomeu de Gusmão à corte portuguêsa.

O Padre Voador



Bartolomeu Lourenço de Gusmão nasceu em Santos, em 1685.  Aos quinze anos, seguiu para Coimbra a fim de iniciar seus estudos de teologia.  Terminando o curso, tornou-se padre, e logo nos primeiros anos notabilizou-se pelo seu imenso saber e pela sua grande eloquência. Dedicou-se especialmente ao cultivo das ciências físicas e naturais. Mas o que imortalizou o seu nome foi a máquina de voar de sua invenção.

Recomendado por D. Isabel, rainha de Espanha, Bartolomeu de Gusmão tornou-se capelão-fidalgo de D. João V, rei de Portugal. Interessou-se este pelos estudos e pesquisas do jovem sacerdote, principalmente pela invenção de sua máquina voadora, cuja construção foi custeada pelo tesouro real.

No dia 8 de agosto de 1709, presentes o rei, a corte e de curiosos, foi realizada a primeira experiência do aeróstato de Bartolomeu.  O aparelho que tinha a forma de uma balão, com o seu inventor à bordo, elevou-se suavemente do pátio do castelo de S. Jorge, permaneceu algum tempo no ar e, em seguida desceu no terreiro do Terreiro do paço.

Outras experiências, bem sucedidas, foram realizadas com o aparelho, para júbilo do seu inventor e despeito dos invejosos que, para ridicularizar Bartolomeu, passaram a chamá-lo de “Padre Voador” e repr4esentar o seu aparelho por uma pássaro, a que deram o nome de “Passarola”.

Seus inimigos foram mais longe.  Aproveitando-se da ignorância do povo, começaram a apregoar que o “Padre Voador” era feiticeiro com ligações com o demônio…

E tais mentiras espalharam a respeito de Bartolomeu que o próprio D. João V, seu protetor, resolveu não mais auxiliá-lo. Entre as críticas maldosas que surgiram na imprensa da época figuravam versos como estes:

Com que engenho te atreves, brasileiro,
A voares no ar, sendo rasteiro,
Desejando ave ser, sem ser gaivota?
Melhor te fora, na região remota
Onde nasceste, estar com siso inteiro!

Abandonado pelo rei, escarnecido pelo povo, desprezado pelos amigos, Bartolomeu de Gusmão viu-se na triste contingência de fugir para a Espanha, onde foi acolhido por seu irmão frei João de Santa Maria.

Consumido pelo desgosto e atacado de súbita enfermidade, o “Padre Voador” morreu, a 19 de novembro de 1724, no hospital de Misericórdia de Toledo.

Findou seus dias esquecido todos e na mais extrema miséria.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1954.





Imagem de leitura — Carl Zewy

22 01 2012

As notícias, s/d

Carl Zewy (Áustria, 1855-1929)

óleo sobre tela, 48 x 38 cm

Carl Zewy ou Karl Zewy nasceu na Áustria em 1855.  Estudou na Academia de Viena e expôs seus trabalhos em Vienna em 1886 e 1888.  Pintor de gênero e de paisagens.





Grupo de leitura: como fazer? Comece o seu ano com um deles!

22 01 2012

Férias em Cannes, Itzchak Tarkay (Iugoslávia, 1935).

Um bom número de leitores me contatou  — até agora foram 23  — querendo fazer parte do grupo Papa-livros.  Surpreende tanto interesse.

Mesmo para quem mora no Rio de Janeiro há um problema com o pedido de entrada no Papa-livros: já estamos completos, e temos fila de amigos e conhecidos que esperam por uma desistência.  Como esse grupo inicialmente era só de amigos e se encontrava na casa dos membros, a preferência sempre foi dada a quem já se conhecia ou a quem vinha com referência interna.  Era até uma questão de segurança.

Hoje nos encontramos num local público, onde comemos e bebemos à vontade, mas não dá para termos mais do que 15 pessoas.  Já foi difícil arranjar um local com mesa redonda ou quadrada onde pudéssemos sentar 15.  Esse já é um número muito grande.  É difícil manter 15 pessoas, todas com opiniões e que se conhecem bem entre si, sem que o grupo se divida em pequenos grupinhos de 2 ou 3 pessoas elaborando um ponto paralelo, uma lembrança trazida à mente pela leitura.   Quantas e quantas vezes não temos que interromper – qual numa sessão do plenário – bater na mesa e dizer:  Calma, calma, um de cada vez!

Quando abri a página do Papa-livros no blog, pensei em dar idéias para outros fazerem o mesmo e talvez até um dia podermos trocar experiências ou sugestões.  Minha intenção também foi mostrar as nossas escolhas, que são sempre baseadas no voto democrático.   Depois de quase 9 anos de encontros mensais –  faremos 9 anos em abril de 2012  – temos muito poucas regras para o grupo,  todas atingidas pelo consenso.

1 — Queremos ler ótimos livros, mas não necessariamente os clássicos.
2 — Raramente lemos alguma coisa que alguém já tenha lido – é uma surpresa para todos.
3 — Não lemos livros de contos, nem lemos poesia.
4 – A discussão está limitada ao dia em que nos encontramos.  Ou seja, não lemos, digamos: Os Miseráveis de Victor Hugo, e passamos dois ou três encontros com esse tópico.  Há muitos grupos que fazem isso.
5 – Temos dois encontros especiais no ano: abril quando comemoramos o nosso aniversário e o encontro de dezembro quando fazemos uma festa de Natal, com troca de presentes Amigo Oculto e outras brincadeiras que animam todo mundo.

É só.

[Cada grupo tem  suas próprias regras.  Já participei anos atrás, quando eu ainda morava em Baltimore, nos EUA, de um grupo de leitura de História.  Líamos livros de história, biografias de persoangens históricos, etc.  Na mesma base, com enocntros uma vez por mês.  Esse grupo era muito pequenino, mas completamente internacional: éramos uma brasileira, uma francesa, uma belga, uma queniana e duas indianas.  Todas mulheres.   Mantivemos o grupo funcionando por quase 3 anos.  Depois algumas voltaram para seus países de origem e o grupo acabou].

Chá no terraço,1900, Charles Joseph Frédéric Soulacroix (França 1858-19330

A cada encontro depois da discussão do livro em pauta, listamos os livros que estão sendo sugeridos pelos membros do grupo.  Conversamos sobre os resumos dos livros e votamos.  Às vezes bons livros não são escolhidos por alguma característica especial do grupo.  Por exemplo, em 2011, havíamos lido: O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler,  A mão de Fátima, de Ildefonso Falcones e já sabíamos que iríamos ler Instruções para salvar o mundo de Rosa Montero, mais no final do ano.   Quando  A máquina de fazer espanhóis, do valter hugo mãe foi sugerido, apesar de ser um ótimo livro, foi derrotado na votação, porque a maioria estava cansada da península ibérica.  Queríamos mudar de ares.

Vivemos uma democracia dentro do grupo e assim temos que ter jogo de cintura e aceitar essas estranhezas, senão não há grupo.
Além dos livros que discutimos, há os livros em paralelo.  Corre entre nós o empréstimo de livros que rodam paralelamente à leitura do mês.

Lemos mesmo é ficção.

Nós nos encontramos uma vez por mês, no terceiro domingo do mês.  Há raras excessões quanto ao domingo, mas sempre uma vez por mês.  As excessões levam em conta o Carnaval ou algum outro acidente de percurso, mas são raras.  No início do ano já sabemos todas as datas em que nos encontraremos, até dezembro.  É uma questão de organização.   A pessoa que tem a responsabilidade de organizar, passa em dezembro a lista com a data de todos os encontros do próximo ano, já com adaptações quanto a feriados, etc.  Essa lista também é acompanhada da lista de todos os membros seus telefones e suas datas de aniversário. Por exemplo em 2012 nos encontraremos nas seguintes datas: 01/22; 02/26; 03/18; 04/15; 05/20; 06/17; 07/15; 08/19; 09/16; 10/21; 11/18 e 12/16.  Como é importante que haja compromentimento, essa é uma das maneiras.  Todo mundo já sabe desde o início do ano as datas que precisarão ser bloqueadas.  Se alguém não pode participar, falta.   Mais de seis faltas, perguntamos se essa pessoa realmente quer continuar.  Nesses anos de encontros isso só aconteceu uma vez.  Outras pessoas saíram, é claro.

Uma semana antes do encontro a pessoa que organiza manda um email para os membros lembrando do encontro.

ORGANIZANDO O GRUPO

O que percebi pelos emails e pedidos para entrada no Papa-livros é que as pessoas gostariam de já entrar para um grupo formado.  Há vantagens:  você não precisa bolar a organização e se não quiser continuar é mais facil de sair…

Mas a minha sugestão é que se você quer um grupo de leitura convide 2 amigos ou conhecidos para começar…  Assim você fará o seu grupo, com amigos que têm mais ou menos o seu perfil, que trarão amigos de gostos semelhantes para a sua vida e aumentarão a sua área de convívio social.  As pessoas têm muito medo do compromisso… Mas sem esse compromisso nada vai adiante.  E depois do compromisso inicial é preciso sermos bons na manutenção do grupo.

Nem todos que começam a participar continuam.  Prepare-se para que alguns desapareçam.  Há muitos motivos.  Às vezes a pessoa gosta da idéia de ler, mas não faz tempo para ler; ou entra no grupo por culpa, sabendo que deveria ler mais, mas não consegue manter o ritmo.  Há quem desista porque não consegue abrir espaço naquelas datas, com aquela regularidade.  Há quem não goste das escolhas dos livros, quem prefira os clássicos, ou quem prefira mangás… ou o que seja.  Essas rejeições não podem afetar o grupo.  Outra pessoa entrará…

Uma tarde no Salon, s/d,  Salvador Sanchez Barbudo Morales (Espanha, 1858-1917)

A menor reunião que tivemos foi num domingo de fim de semana com feriado, quando na véspera meia cidade havia ficado debaixo d’água por causa de tempestades.  Fizemos o encontro assim mesmo, 5 pessoas e decidimos sobre o próximo livro.  No encontro seguinte fizemos uma breve discussão do livro anterior para que todos participassem, mas sem entrar muito a fundo.

Quando, no início, eu dizia a amigos e conhecidos: 1 vez por mês! —  eu via seus olhos se arregalarem, como se aquilo fosse muito compromisso, muito tempo, muita frequência, muito sistemático.  Todos queriam uma coisa assim, mais leve, digamos: venha quando puder… venha quando gostar do livro…   Como se viessem só na base do Vamos conversar sobre o livro do Janjão Bolinha….  Venha se puder….   Não dá.  Isso é igual a trabalho voluntário.  Só porque é voluntário não quer dizer que pode não vir, pode faltar, pode vir quando quiser…  Nada se constrói dessa maneira, nem mesmo as amizades que se fazem através dos anos.   E elas contam, e elas são importantes.

Hoje o Papa-livros  é um grupo de  amigos.  A úlitma pessoa a entrar foi em março de 2011.   Substituiu uma médica que saiu porque  está fazendo cursos para outra especialização.  Além do encontro mensal, não fazemos muito mais juntos.  Saímos ocasionalmente para um ou outro programa fora do grupo de leitura… É um cinema, é um teatro, um concerto, etc.  Mas afinal quantos amigos você realmente vê uma vez por mês?  Tenho certeza de que poucos.  Quando saimos não vamos em grupo, as 15 pessoas.  Vão duas ou três fazer isso,  duas ou três fazer aquilo, até porque nem todos gostam da mesma coisa, nem todos têm o mesmo tempo ou o mesmo interesse em outras atividades.  Mas aos poucos vamos nos tornando amigos.  Uma amizade interessante que escuta muito, que está sempre ali, pelo menos uma vez por mês…  No nosso grupo, desde que começamos, já tivemos viuvez, divórcio, casamentos de filhos, divórcio de filhos,  reconciliação de casamento, troca de empregos, filho sem emprego, filho em vestibular,  pais idosos precisando de atenção, perda de pais ou entes queridos e assim por diante.  Só não tivemos nascimentos de filhos…  Porque uma coisa que descobrimos é que pessoas com crianças pequenas, têm realmente mais dificuldade de manter compromissos.  Até mesmo na nossa festa de Natal, que todos detestam perder, tivemos esse ano uma falta, porque a filha de 12 anos de um membro tinha um recital de dança justamente naquele domingo…  15 pessoas de diferentes idades, com vidas normais, no período de quase 9 anos passam por tudo isso, e nem por isso faltam aos encontros, porque amizades são formadas  e porque também estávamos lá nas horas de tristeza e de alegria, sem nos intrometermos.   É justamente o fato de estarmos sempre mantendo o estipulado que dá a establidade ao grupo.  Nao posso ressaltar mais esse aspecto.

Alfredo’s Café in Capri, 1990, Pauline Comanor,  aquarela.

A DISCUSSÃO 

No nosso grupo ninguém é especialista em leitura ou em literatura.  As discussões partem da visão de cada leitor sobre a obra.  Às vezes começamos muito simplesmente com um: Não gostei…  ou,  Achei muito bonito mas faltou um final conclusivo…  Daí, partimos para a discussão porque invariavelmente alguém vai ter uma outra impressão.  Ou alguém vai ter uma idéia brilhante que ninguém mais teve.  A maioria dos membros anota passagens que justificam as suas posições e ilustram suas observações. É só isso.  Simples assim…  Uma boa idéia é para a pessoa que dirige o encontro ( isso pode ser sempre a mesma pessoa ou pode ser selecionada por revesamento, ou ainda por sorteio) ter uma série de perguntas sobre o texto que a princípio são usadas só para a conversa começar.

PAPA-LIVROS NO BLOG:

Fiz uma tentativa no ano passado para abrir uma discussão no blog sobre os mesmos livros que o Papa-livros escolheu.  Mas não acredito que teha dado muito certo.  Em parte, por meu problema de não estar com tempo para dar atenção à discussão.  Há também o fato do Papa-livros raramente ler um best-seller, um livro da moda.  Temos a tendência de sair um pouco do que está sendo lido, do que está sendo discutido por todos… Então os títulos escolhidos pelo grupo nem sempre são os que seriam comprados pelos nossos leitores.  Acredito que eu não vá continuar essa tentativa de discussão no blog.  Vou me limitar às resenhas dos livros de que gostei, como tenho feito desde o início.





Imagem de leitura — Steve Hanks

21 01 2012

Um livro favorito, s/d

Steve Hanks (EUA, 1949)

aquarela

http://www.stevehanksartwork.com

Steve Hanks nasceu em 1949 em San Diego, Califórnia, no seio de uma família militar.   Cresceu na costa da Califórnia, passou a adolescência no Novo México e entrou para a Academia de Belas Artes de São Francisco em artes gráficas e comerciais, mas acabou se formando pela Escola de Artes e Ofícios da Califórnia.  Depois de formado, passou quatro anos e meio num emprego num estabelcimento de verão para meninas.  Pagavam mal, mas a casa era de graça e ele tinha os meses de inverno livres.  Foi aí que se dedicou a melhorar sua habilidade de desenhista e pintor, tendo liberdade de experimentar com óleos,acrílicas, aquarelas e todo tipo de mídia.  Optou pot fim pela aquarela.  Hoje é um dos maiores aquarelistas dos Estados Unidos, optando pelo que chama de “realismo emocional” — pintura de gênero com uma toque de sonho.  Para mais informações veja sua página citada acima.





Imagem de leitura — Berthe Morisot

20 01 2012

Retrato de sua filha em Gorey, [Julie Manet]

Berthe Morisot (França, 1841-1895)

Desenho

Berthe Morisot ( 1841-1895) pintora francesa impressionista.   Subestimada por quase um século, provavelmente por ser mulher, ela tem hoje postura tão grande quanto de qualquer impressionista francês. Sua arte é arrojada, delicada e vigorosa, de uma modernidade evidente. Entre as pintoras impressionistas, algumas de muito valor, a maior importante talvez tenha sido Berthe Morisot, pintora de paisagens transbordantes de frescor, de traços ágeis e quase sempre com a figura humana como ponto de referência. Além disso, foi uma extraordinária pintora de cenas da vida doméstica, onde podia divertir-se e dar vazão aos seus dotes de observação, e o mesmo acontecia quando tratava com naturalidade da intimidade familiar. De personalidade forte, lutou contra os convencionalismos sociais da época, que tendiam a isolar a mulher no âmbito privado. Casada com Eugene Manet, irmão do pintor impressionista Edouard Manet, que tinha como seu melhor amigo.





Imagem de leitura — Jean Monti

19 01 2012

Menina lendo, s/d

Jean Monti ( EUA, contemporânea)

óleo

Jean Monti crresceu no estado de Rhode Island, onde ainda vive.  Depois de se formar em 1987 pela Rhode Island School od Design, trabalhou como ilustradora autônoma, para anúncios e propaganda, assim como mais de 70 capas de livros.   Depois que resolveu ter uma família, deixou de lado a profissão de ilustradora e passou a pintar retratos e pintura de gênero.





Outra opinião: Irene Popow, trecho extraído do livro Adeus, Stalin!

19 01 2012

O bolchevista, 1920
Boris Kustodiev (Rússia, 1878-1927)
Óleo sobre tela, 101 x 141 cm

Estou lendo as memórias de Irene Popow,  publicadas em 2011 pela Editora Objetiva, que levam o título  Adeus Stalin!.  Ainda não terminei a leitura — tenho o hábito de ler 4 a 5 livros ao mesmo tempo — mas ressalto aqui uma passagem interessantíssima, com o objetivo de contrabalançar a atual  discussão sobre o legado de Luís Carlos Prestes, cuja controvérsia sobre a doação de seus bens a família parece até fomentar para que o líder comunista não caia no esquecimento.  Resolvi citar essa passagem de Irene Popow por achá-la necessária para contextualizar, em perspectiva histórica, um período importante na nossa história.

“Tenho um sentimento misto de admiração e inveja cada vez que ouço ou leio que, durante o nazismo de Hitler, 6 milhões de judeus foram mortos.  Admiração porque os judeus conseguem manter viva a lembrança das atrocidades nazistas através de filmes, livros, artigos, palestras, exposições.  Não deixam ninguém esquecer.  Todos, na ponta da língua, sabem: 6 milhões de judeus morreram por ordem de Hitler.  Inveja porque os russos e os ucranianos não o fazem:  não divulgam que 30 milhões de conterrâneos morreram vítimas do comunismo de Stalin.  Raríssimas vezes se fala ou se escreve a respeito.

Dez milhões de ucranianos morreram durante a Segunda Guerra, e cerca de 2,3 milhões foram levados para campos de trabalho forçado na Alemanha (dois terços de todos os eslavos deportados). Com o fim do conflito, muitos não quiseram voltar para a União Soviética e emigraram para vários países.  Minha família veio para o Brasil, mas a maioria seguiu para o Canadá e os Estados Unidos.  O Ukranian Canadian Research & Documentation Center, com sede em Toronto, lamenta que, dos 300 mil imigrantes ucranianos, apenas dois gravaram depoimentos em vídeo sobre os campos de concentração de trabalhos forçados Ostarbeiterlager (Campo de Trabalhadores do Leste), na Polônia, e nenhum sobre o Holodomor.

No entanto, existem dezenas de milhares de relatos feitos por judeus sobre suas vivências nos campos de extermínio.  Jorge Mautner, que nasceu no Brasil, deu um intrigante título ao seu livro autobiográfico O Filho do Holocausto.

É ou não para ter admiração e inveja?

Ao mesmo tempo, fico irritada com a crescente glorificação de Olga Benário e Luís Carlos Prestes, que aumentou após o livro de Fernando Morais e o filme de Jayme Monjardim.  Ambos são muito bons.  Porém, uma obra com qualidade estética considerável sobre Hitler ou Stalin não justifica o enaltecimento desses líderes.
Olga, judia alemã e filiada ao Partido Comunista, revolta-se contra o nazismo e a perseguição ao seu povo, foge para a Rússia e abraça o comunismo de Stalin.  Mas ela ignora – o talvez apoie – a perseguição do dirigente soviético aos milhões de inimigos do povo.  Prestes, que mora em Moscou desde 1931, é treinado com Olga para liderar uma revolução armada no Brasil.

Não acredito que os dois estivessem alheios ao que acontecia na União Soviética.  Posteriormente, devido à Cortina de Ferro e ao isolamento absoluto, foi possível esconder a existência do muro de Berlim.  Entretanto, era quase inconcebível ignorar os milhões de mortos pelo Holodomor e pelos expurgos de Stalin, que era de conhecimento de toda a população soviética.  O mesmo comunismo que Olga e Prestes queriam implantar no Brasil. Eles então chegam ao Brasil em 1934, fiéis ao lema “Os fins justificam os meios”. A tentativa fracassa e os dois são presos.

Porém, nada justifica a decisão da ditadura de Getúlio Vargas de entregar Olga, grávida, à morte nos campos de Hitler.  Nada faz dela uma heroína tampouco.  A glorificação do casal é bem diferente da de Anne Frank, judia alemã também morta num campo nazista.  Seu diário foi traduzido para dezenas de línguas.  A casa em Amsterdã, onde se escondeu com os parentes durante a guerra e na qual registrou suas anotações, virou merecidamente um museu.”





Imagem de leitura — Yuri Gevorgian Yuroz

18 01 2012

Doce memória, s/d

Yuri Gevorgian Yuroz ( Armênia, 1956)

óleo sobre tela

Yuri Gevorgian Yuroz nasceu na Armênia Soviética em 1956.  Menino prodígio entrou para a escola de belas Arte Akop Kodjoyan na capital  da Armênia, Yerevan.  Formando-se entrou  para a Universidade de  Yerevan  onde se formou como arquiteto.   Suas posições políticas, contrárias ao regime soviético não o deixaram ficar no país.  Yuroz tornou-se um refugiado político e depois de sete anos no anonimato emigrou para os Estados Unidos para onde sua esposa já havia emigrado.  Desde então dedica-se às artes visuais em Nova York.





Fundação de São Paulo, texto de Alfredo Ellis Júnior

18 01 2012

Fundação da cidade de São Paulo, 1913

Antônio Parreiras (Brasil, 1860-1937)

óleo sobre tela, 179 x 200cm

PESP: Pinacoteca do Estado de São Paulo

São Paulo, SP

Fundação de São Paulo

Alfredo Ellis Júnior

O padre José de Anchieta veio da Europa em 1553, como irmão leigo e, em companhia do padre Manuel de Paiva no lugar antes chamado de aldeia de Piratininga, em 25 de janeiro de 1554 (ano do nascimento de D. Sebastião) ergueu a casa de educação e catequese de índios Guaianás.

Aí, nessa data, foi dita a primeira missa, tendo a casa tomado o nome de Colégio de São Paulo de Piratininga, em razão do santo do dia.  O lugar que era antes a aldeia de Piratininga, da qual era chefe Tibiriçá, achava-se quase na foz do riacho Anhangabaú, ao desembocar este no Tamanduateí, com um promotório de terra vestido de vegetação rala, que avançava ravinoso e íngreme sobre a várzea do Tamanduateí.

Em razão da facilidade de sua defesa, o colégio jesuíta foi o ponto de atração de imigrantes que vieram em abundância, do velho vilarejo de Santo André da Borda do Campo e do litoral vicentino. Com essa corrente de novos povoadores, o vilarejo piratiningano progrediu de tal forma que, em 1560, o 3º governador-geral Mem de Sá ordenou a extinção de Santo André e a ereção, no novo núcleo do planalto, doo pelourinho, que deveria ser transferido.

É que Santo André não apresentava condições de fácil defesa.  Situada em um descampado circundado de floresta, o povoado andreense não oferecia segurança aos seus moradores, que estavam por demais expostos aos ataques dos índios.  Enquanto isso, São Paulo de Piratininga, acavalada por sobre outeiros, ilhados na imensidão líquida de varzedo e de valados inundáveis, era uma posição praticamente inexpugnável.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano — pequena antologia sobre a terra, o homem e a cultura do estado de São Paulo, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954

Alfredo Ellis Júnior nasceu em 1896.  Advogado, historiador, militar, político. Dedicou-se ao ofício de professor de História, lecionando em escolas de São Paulo.  Em 1938 torna-se professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde permanece até 1952 quando se retira por problemas de saúde. Faleceu em 1974.

Obras (listagem incompleta):

Amador Bueno: o rei de São Paulo

Ascendendo na história de São Paulo, 1922

O Bandeirismo Paulista e o Recuo do Meridiano, 1924

O café e a paulistânia, 1951

Capítulos da história social de São Paulo, 1944

Confederação ou separação, 1933

A economia paulista do século XVIII

A Evolução da Economia Paulista e Suas Causas, 1937

Feijó e a primeira metade do século XIX

Geografia econômica

História da civilização brasileira, 1º volume, 1939

História da civilização brasileira: Feijó e sua época, 2º volume, 1940

História da civilização brasileira: panoramas políticos, 6º volume, 1946

Jaraguá: romance histórico da penetração bandeirante

A Lenda da Lealdade de Amador Bueno e a Evolução da Psicologia Planaltina, s/d

A madrugada paulista:lendas de Piratininga, 1934

Meio século de bandeirismo: 1590-1640, 1939

A nossa guerra, 1933

Um parlamentar paulista da república, 1949

Pedras lascadas, 1928

Panoramas históricos, 1946

Os primeiros troncos paulistas e o cruzamento euro-americano, 1936

Populações paulistas, 1934

Raça de gigantes, 1926

Raposo Tavares e a sua época, 1944

Resumo da história de São Paulo, 1942

O tesouro de Cavendish, 1928

O tigre ruivo, 1934





Imagem de leitura — Anders Zorn

17 01 2012

Estudo para um nu feminino, 1910

Anders Zorn (Suécia, 1860-1920)

óleo

Anders Zorn nasceu em Dalarma, na Suécia, em 1860.   Foi educado pelos avós no interior.   Só na época do ensino médio deixa a fazenda para Enköping uma cidade um pouco maior.  De 1875 a 1880 estudo na Academia Real de Belas Artes em Estocolmo.   Depois de formado viaja extensivamente para Paris, Londres, Espanha, Itália, os Balcãs e para os Estados Unidos.  Ganha fama internacional como retratista.  Até 1887, praticamente só trabalha com aquarelas, meio pelo qual ficou famoso pela luminosidade.  Depois, passa a pintar em óleo.  Além de retratista também se dedica aos nus femininos e à pintura de gênero, onde fica conhecido pela representação  realista dos reflexos na água. O sucesso lhe trouxe fama e riqueza.  Morreu em 1920, aos 60 anos de idade.