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Mulher descansando, s/d
Heinrich Lossow (Alemanha, 1847-1897)
óleo sobre tela
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“Quando eu morrer, espero que possam dizer: seus pecados eram imorais, mas seus livros eram lidos”.
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Hilaire Belloc
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Mulher descansando, s/d
Heinrich Lossow (Alemanha, 1847-1897)
óleo sobre tela
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Hilaire Belloc
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Sem título
Roberto Kenji Fukuda (Brasil, 1943)
óleo sobre tela, 50 x 50 cm
Coleção Particular
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Há alguns anos, amigos meus nos Estado Unidos, transformaram seu quintal, em um jardim de pedras, um Karesansui, um jardim zen. Com eles aprendi, naquela época, alguns truques de paisagismo oriental que permitem a impressão de grande espaço em uma pequena área, quer por meio de telas, quer por caminhos em passeios sinuosos que levam a cantos raramente explorados do terreno ou que passam sobre um pequeno lago com carpas. O Karesansui, no entanto, permite distanciamento e mais do que isso: uma inimaginável sensação de paz e tranqüilidade, mesmo que sua localização esteja no meio da cidade. O minimalismo das pedras, do cascalho, da água fazem-no um jardim reservado unicamente aos elementos essenciais e parece levar à introspecção e à descoberta daquilo que nos é vital. Karesansui é um jardim que favorece a meditação. A leitura de Nihonjin me lembrou este jardim. Há na sua narrativa, que cobre três gerações de japoneses e seus descendentes no Brasil, um arranjo artístico igualmente sensível que faz com que suas 176 páginas sejam suficientes para o retrato da complexidade emocional, da dificuldade física e cultural de adaptação dos imigrantes japoneses que chegaram a este país.
Ainda não visitei o Japão, em pessoa. A literatura japonesa tem aos poucos encontrado seu lugar nas minhas prateleiras de livros favoritos, enquanto suas famosas xilogravuras policromadas foram objeto de estudo e admiração nas artes visuais. Por causa delas e dos netsuquês, botões de roupa esculpidos com grande detalhe, estudei um ano de japonês. Mas a complexidade da língua e das formas de tratamento me deixaram perplexa e logo abandonei o aprendizado, estudando em seu lugar um pouco de hindu, língua igualmente complexa e frustrante. Foram assim os meus vinte anos, tempos de expansão cultural, onde estudante em terra alheia, uma quase imigrante, tentei alargar meus horizontes e, com afinco, me embrenhar pelos caminhos do outro. Essa atividade não acompanhou a maioria dos imigrantes japoneses no Brasil, como bem mostra Oscar Nakasato em Nihonjin. O outro, nesse caso nós, brasileiros, era exatamente isso: OUTRO. E assim ficaria até que voltassem à terra do sol nascente.
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A temática do imigrante é um dos mais importantes tópicos literários dos últimos 100 anos. Sobretudo a partir de meados do século XX quando a geração dos filhos ou netos de imigrantes que se estabeleceram na Europa, EUA e Brasil, entre outros, é escolarizada e começa a desvendar os caminhos traçados pelas gerações que os antecederam. Muito tem sido escrito sobre a questão da adaptação e do forjar de uma nova identidade para o imigrante. O movimento voluntário, de massas, de milhares de pessoas de um canto para o outro do mundo procurando melhoria de vida, quer na Europa — mãe de dezenas de países recém delimitados na África e do Oriente Médio — quer nas Américas, recipientes de milhares de trabalhadores braçais da Itália, Alemanha, Irlanda, Suiça, Espanha, Portugal, Rússia, Polônia, nunca havia sido tão persistente e grande através da história da humanidade. Seu clímax parece ter sido nos anos que seguiram imediatamente a Segunda Guerra Mundial, ainda que tenha havido fuga numerosa também, nas décadas seguintes, daqueles que não aceitavam a ditadura comunista nos países da antiga Cortina de Ferro.
Mas o caso japonês no Brasil, que hoje tem o maior grupo de pessoas de ascendência japonesa no mundo fora do Japão, é único. Único porque foi o resultado de uma ostensiva política de desafogamento populacional daquele país. Os primeiros contatos diplomáticos entre os governos do Brasil e do Japão sobre esse assunto datam de 1892, ou seja, do governo de Floriano Peixoto. Por causa da maneira como lhes foi mostrada, a emigração japonesa, para cá, trouxe cidadãos que se sentiam cumprindo um plano estratégico de seu Imperador e, por consequência, mais do que outros imigrantes sentiam que precisavam voltar com dinheiro, para benefício da própria Terra Mater. Desse modo, mesmo em se deixando de lado diferenças marcantes, e importantes como dignidade cultural e responsabilidade social, que a maioria sentia em relação à terra mãe, a situação psicológica dos imigrantes japoneses, diferia substancialmente das demais nacionalidades que por aqui aportaram, cujos membros, partiam por conta própria, aventurando-se sozinhos, como se ao léu, a caminho do desconhecido, na luta pela sobrevivência, na esperança de uma vida melhor, muitas vezes com fome, sofrendo perseguição política ou religiosa. Diferente dos japoneses, esses imigrantes não sentiam uma dívida de honra com o país de origem, ao contrário, estavam gratos por uma terra para trabalhar, uma oportunidade de criar raízes, constituir família sem perseguições políticas ou religiosas, num lugar de natureza abundante, gerador de maior dignidade de vida.
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Oscar Nakasato
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Nihonjin não é uma obra unicamente focada na vida dos colonos japoneses por aqui, ainda que precise ser contada. É verdade que na leitura desse romance aprendemos muito sobre o assunto. Mas o romance é mais do que isso. Nele testemunhamos a estética do ”menos é mais” aplicada a um texto literário de forma confiante. A linguagem precisa, repleta de vestígios poéticos, torna o texto fluido e a história corre como água de riacho, num murmurejar incessante. Seu tom é a meia voz e a narrativa, que é simples, despojada de rebuscadas figuras de linguagem, torna o texto relaxante e hipnótico. Como num Karesansui somos convidados a refletir, a ponderar sobre os vagares da mente, sobre o enigma das emoções. Mais tarde, somos levados a reconsiderar o tempo e a memória. Oscar Nakasato é um minimalista da linguagem. E com isso inova a estética literária brasileira. Não há personagens a mais ou a menos, assim como palavras, frases ou histórias. Não é jornalístico. Não é anedótico. Detém-se no essencial. Ninhojim não chega a ser um haikai da forma narrativa, mas está perto: sucinto, poético, reflexivo. Mínimo. Uma beleza!
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Natividade
Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)
óleo sobre tela
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Fernando Pessoa
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Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
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Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade !
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
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E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !
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Natal, 1969
Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976 )
óleo sobre tela
Coleção Particular
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O Natal em Curvelo era simples e não havia o hábito das pessoas se presentearem, não sei se porque todos eram pobres. Rezava-se a Missa do Galo na matriz, e o que marcava aquele dia como de festa, era o número de comunhões a mais.
Em compensação, o presépio era um costume tradicional. Ninguém que se prezasse deixava de armar o seu: havia-os nas igrejas, nas moradias particulares, os famosos que arrastavam visitantes de fora e os modestos, armados no interior das casas mais humildes.
Nas proximidades do dia, acorriam dos arredores da cidade mulheres, algumas de longe, que traziam para vender, enfeites os mais variados: tocos de pau com parasitas em flor, frutos silvestres, musgo, pedaços de limo verdinho, arrancados das margens de riachos ou de barrancos úmidos e pedrinhas. Quem podia, comprava, e quem não podia, ia ao mato procurar, o que já constituía um aparte da festa. Eram caminhadas sob o sol ardente e à tardinha o regresso, carregados de gravatás, frutos do mato, de cheiro penetrante e agradável, barba-de-pau e seixinhos polidos.
Para enfeitar o lago, imprescindível em qualquer presépio que se prezasse, muito antes da data, plantavam-se em latas de manteiga vazias, arroz, que crescia verdinho e viçoso. As serras eram feitas com o maior apuro: sobre folhas de papel pardo de embrulho, bem encorpadas, passava-se grude de polvilho, espalhando em cima carvão bem moído, reduzido a pó, cinza de borralho e vidro colorido, triturado em pedacinhos no almofariz de bronze, que faziam cintilante a serra. Quanto mais variadas as cores dos vidros empregados, mais mesas, de acordo com a imaginação de cada um: altas, mais baixas, formando grotas, despenhadeiros, grutas, e de espaço em espaço, barba-de-pau, que lhe dava um cunho de semelhança.
Depois vinha a colocação de vários figurantes: na gruta principal, a manjedoura onde descansava o Menino, N. Senhora e S. José ao lado, os animais tradicionais: o burro, o boi e os pastores. Pela serra e pelos caminhos polvilhados de areia branca, tudo aquilo que se tinha colecionado durante o ano e, muitas vezes, durante anos. Animais diversos, homens com cajados, pastores, ovelhas, peregrinos, monjolos, marrecos, leitõezinhos, lenhadores com seus machados, carros de bois, trens de ferro, tudo na mais pitoresca confusão. Era uma procissão de bichos os mais engraçados, camponeses, tocadores de sanfona, pássaros variados nos galhos das árvores das estradas e da serra, todos em demanda da manjedoura onde repousava o Menino sob a guarda de seus pais. Bem no alto, uma grande estrela de papel prateado cintilava, apontando o caminho para os reis magos, ainda em viagem, ao lado de casas coloridas espalhadas, algumas em verdadeiros despenhadeiros, completamente inacessíveis. Ao redor do espelho, que fingia o lago, latas de arroz mais verde e lindo e patinhos brancos nadando: de celulóide, de louça, ou barro da Cacimbinha, conforme as posses do dono do presépio. Misturado a tudo, sobre areia e folhas, mangas cheirosa, abacaxis maduros, gravatás e uvas pretas pendentes de belos cachos, que ainda conservavam frescas as suas folhas.
De 24 de dezembro a 6 de janeiro não se pensava senão na visita aos presépios da cidade.
Ia-se de casa em casa, à procura deles, desde os mais famosos, que tinham monjolos pequeninos movidos à água, oficina de carpintaria completa, com instrumentos se movendo, até os mais humildes como o nosso, que só possuía as figuras do estábulo, as serras que nós mesmos fazíamos, o lago rodeado de arroz plantado muito tempo antes, uns poucos bichinhos disformes, moldados por nossos dedos inábeis no barro cinza que trazíamos de Cacimbinha.
Para mim, porém, não havia nenhum mais belo, nenhum que o igualasse. Passava o dia colocando nele flores e frutos que conseguia arranjar com uns e outros. Tempo feliz.
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Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70.
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Maria Helena Cardoso, professora, escritora, ficcionista e memorialista. Nasceu em Diamantina, MG em 1903 e faleceu no Rio de Janeiro em 1994. Passou a infância em Curvelo, MG, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os em Belo Horizonte, onde se formou na Escola de Farmácia. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1923. [Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: 1711-2001, Nelly Novaes Coelho]
Obras:
Por onde andou meu coração, memórias, 1967
Vida,vida, romance, 1973
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Dormindo
Roman Zaslonov (Belarússia, 1962)
óleo sobre tela, 122 x 122 cm
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Ernest Hemingway
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São Nicolau e o Auto do Natal
Luiz Roberto da Rocha Maia (Brasil, 1947)
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Ubirajara Raffo Constant
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Dos reis magos no céu brilha
A estrela clara e viajeira;
De uma igrejita campeira
Soa ao longe a voz do sino;
Flete ao tranco sem destino,
Na solidão de um corredor,
Abre o canto um pajador
Saludando ao Deus Menino.
E todas as vozes do pago
Cantam salmos na planura
Irmanados na ternura
Do cantar do pajador;
Pedindo à Nosso Senhor,
Na humildade de seus versos,
Que só exista no universo
Fraternidade e amor.
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Ubirajara Raffo Constant nasceu no Rio Grande do Sul em 1938. Poeta de Uruguaiana.
Obras:
Retorno Bravo, poesia, 2003
Pampa em 23, prosa, 2004
Sepé Tiaraju, uma Farsa Em Nossa História, história, 2006
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Natividade, 1467-69
Fra Filippo Lippi ( Florença 1406-1469)
Afresco
Catedral de Santa Maria Assunta em Spoleto, Itália
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Menotti del Picchia
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Já o burrinho ruma para a manjedoura. A estrela – seria, este ano, aquele enigmático cometa com nome japonês? – fulge no céu. Bate um pastor na porta da choça do compadre: “Olá Esdras! Acorda, camarada! Vamos para Belém!” As ovelhas balam. Toda a terra é um advento. Até flores estranhas rebentam nos cálices e as corolas atônitas perscrutam na noite um milagre. Os lírios do vale já devassaram o mistério e murmuram com seus lábios imaculados:
— Vai nascer Deus!
Aí está. Vai nascer Deus. “Fenômeno de rotina” – dirá um político despistando um repórter. “Nada demais, senhor jornalista. Todos os anos nasce Deus”. O repórter, apressado e superficial, registra a declaração numa caderneta e telefona os seus apontamentos para o redator de plantão. “O doutor Chuvisco disse que não há novidade: o nascimento de Deus é fenômeno de rotina”. O redator aceita essa explicação bocejando e gosta da palavra “rotina” aplicada ao mistério do Natal, porque a palavra está na moda. E ninguém dá pela transcendência do prodígio. Meu vizinho, Felisbino de Freitas Trancoso, excelente pai de família, saiu cedo para a fila das castanhas. D. Ordália Lopes, que é sentimental e fidelíssima, mesmo porque pesa perto de seis arrobas, comprou uma gravata de seda italiana e uns suspensórios de matéria plástica para presentear o marido. Tenho uma sensível admiradora que me mandou um cromo – sempre fui louco por cromos! – representando o presepe. Ali tudo é lindo: Jesus, tenro e sorridente, de cabelo cacheadinho e grandes olhos azuis abertos, como se um pimpolho que nasce, geralmente tão cheio de rugas e tão feio, pudesse ter aquele tamanho e aquela cabeleira de ouro… São José é um carpinteiro alinhado de túnica e talvez tenha saído nesse instante de uma arca. Maria Santíssima é um amor.
— No Natal do ano passado – diz-me a D. Celestina – meu marido me deu uma geladeira. Fico pensando dentro da noite mágica: “No Natal do ano passado…” Há perfumes no ar que vêm dos cedrinhos do Jardim América e, por causa das árvores do Natal, a gente liga o cheiro da resina ao oriente místico, à chegada daquela divina mãe grávida, morta de canseira na sua marcha ao lado do velho e santo marido, até a cocheira que serviu de berço à salvação do mundo. A imaginação trabalha. Percebe que nos palácios distantes, acordadas pelo fulgor da estrela, os reis poderosos preparam suas caravanas de mirra, ouro e incenso, para ver a criança estranha que uma vaca aquece com seu hálito e um burrinho manso humaniza com a bondade que irradia dos seus olhos…
— “Jornal da noite!” “Jornal da noite!” – berra um garoto sobraçando os últimos vespertinos. Compro uma folha. Não preciso ler pois a manchete metralha os meus olhos: “Dez mil árabes e cinco mil judeus em luta mortal na Palestina. Milhares de mortos e feridos…”
Os sinos de Natal bimbalham. “Glória a Deus na altura e paz na terra aos homens de boa vontade.”
Nasceu um Deus! Este ano nasceu outra vez um Deus!
E me ocorre, fulmineia a interrogação trágica: — mas por que nasce um Deus todos anos? Um arrepio me percorre o corpo. O calendário salta-me à memória pontilhada de guerras, brigas, roubos, bombas atômicas, crises econômicas, manobras políticas ditadas pela cobiça e ambição. No meio dessas memórias os sinos bimbalham. “Paz!” “Paz!” – brada Cristo, o Cristo que nascendo todos os 25 de dezembro há mil novecentos e quarenta e sete anos!
Então, percebo a razão do Natal! Dada a cruel desmemória dos homens é preciso que todos os anos nasça um Deus!
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Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM Propaganda: 1978
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Trigal, 1989
Armando Romanelli (Brasil, 1945)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
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Coelho Neto
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Por todo o vasto Éden espalhou-se, maravilhado e risonho, o olhar do primeiro homem.
Viu as florestas frondosas, em cujas franças rendilhadas esgarçava-se o nevoeiro da manhã; viu as campinas alegres pelas quais numerosos rebanhos se apraziam; viu os montes de encostas de veludo; viu os rios claros, largos, retorcidos em meandros, discorrendo por entre as margens de ervaçais floridos e acenoso arvoredo; viu as fontes borbulhando em bosques aceitosos.
Animais de várias espécies cruzavam-se pelos caminhos – leões de juba altiva, elefantes monstruosos, antílopes e corsas, leopardos e gazelas e aves de plumagem branca ou de penas variegadas junto a ribeiras tranqüilas, vogando em ínsula de flores, pousadas em ramos ou atravessando os ares, alegrando com o seu concerto o silêncio grandioso.
Os frutos ofertavam-se nos galhos, as flores desfaziam-se das pétalas recamando a alfombra e esparzindo o aroma dos ares.
O home, ainda incerto, ia e vinha, ora parando à beira das águas que o refletiam, ora chegando à ourela dos bosques, saindo às várzeas, mudo, em êxtase contemplativo.
Deus, que de longe o assistia com o seu olhar, achava-o perfeito, airoso e forte, digno de ser o senhor do mundo e de todas as criaturas.
O sol ardia estivo e, de toda terra exuberante, exalava-se um hausto cálido, uma respiração abrasada que amolecia e adormentava.
As folhagens encolhiam-se, murchando; as flores pendiam lânguidas nos caules; os animais refugiavam-se nos bosques ou penetravam as furnas tenebrosas; as próprias águas desciam lentas, com preguiça, sob a irradiação cáustica da luz que refulgia tremulamente no azul diáfano.
Deus errou em passos lentos pelas silenciosas veredas e toda pedra que seus pés tocavam fazia-se luminosa, com rebrilhos faiscantes e cores admiráveis. Era aqui um seixo que se ensangüentava em rubi, ali um calhão esverdeando-se em esmeralda, outro tomava um colorido flavo ou roxo e, mirificamente, iam-se todos transformando e adquirindo cor, desde o tom lácteo da opala até o esplendor cerúleo da ametista, desde o límpido fulgir do diamante ao lampejo solar dos prazios amarelos. As areias faziam-se de ouro, rutilando, como haviam ficado mo leito do córrego em que o Senhor, depois de haver plasmado o homem com o barro sanguíneo, lavou e refrescou as mãos benéficas.
Foi-se o Criador encaminhando a um campo que ondulava e sussurrava às aragens e que era um trigal.
Nele entrando, sem que as pombas e as calhandras se assustassem, a frescura convidou-o ao repouso.
Deitou-se e os trigos fecharam-se suavemente formando um ninho aromal e sombrio onde o sono foi agradável.
Já as roxas nuvens anunciavam o crepúsculo quando, ao suave prelúdio dos rouxinóis, abriram-se os olhos divinos. Deus, que gozara a delícia do sono, ergueu-se. Então, mansamente, uma voz meiga elevou-se no campo louro.
— Senhor, que vos não pareça de vaidoso a minha requesta, não é por orgulho que vos falo, senão porque me sinto por demais miserando na grandeza de vossa criação. Fizestes a árvore sobranceira dando-lhe o tronco, dando-lhe os ramos, vestindo-as de folhas, cobrindo-a de flores e ainda a carregais de frutos; as suas frondes altas topetam com as nuvens. Aos que não destes grandeza e força, ornaste com a raça mimosa da flor; só eu, pobre de mim! Fui esquecido por vós. Quando vos vi chegar para mim tive vexame de receber-vos, tão pobre sou! Trigo mísero.
Era o trigo que assim falava.
Parou o Senhor a escutá-lo e, compadecido das suas palavras, estendeu a mão abençoando-o:
Agasalhaste o meu sono com a pobreza, trigo tenro e frágil, deste-me generoso abrigo e resguardaste-me do sol. Não fique memória na terra de uma ingratidão d’Aquele que mais a detesta e, para que o exemplo sirva e aproveite, abençôo-te e amerceio-te com a força e com a Graça.
Fraco, darás o alimento essencial; mísero, encerrarás em ti o mistério divino. Será o pão e serás a hóstia e assim, com a tua franqueza, suplantarás a árvore mais vigorosa e com a tua humildade serás maior que o sol.
No teu seio desabrocharão as papoulas e, dentro em pouco, a flor virá anunciar-te a espiga e a espiga dará a farinha branca, que será força nos homens e sacrário da minha essência. Assim Deus, engrandecendo-os, responde à esmola dos pequeninos.
Disse, e, contente, mais com o que fizera ao trigo do que com a criação de todo o universo maravilhoso, ao clarear da lua, quando os rouxinóis cantavam, remontou ao céu entre os anjos que foram, em coros, pelos ares claros, apregoando a sua onipotência e a sua misericórdia.
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Em: Coelho Neto e a ecologia no Brasil, 1898-1928, org. Eulálio de Oliveira Leandro, Imperatriz, MA, Editora Ética: 2002
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Caçadores no bosque, 1880
Antoni Piotrowski (Polônia, 1853-1924)
Óleo sobre tela, 127 x 170cm
Christie’s Auction House, junho 2009
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Um pequeno romance de grande impacto, As Brasas de Sándor Márai revolve em torno da amizade de dois homens, amizade de infância. A trama é simples: um confronto entre dois amigos após quarenta e um anos de separação. Um evento, que se esclarece ao longo da segunda metade do livro, foi o ponto de fricção entre eles. O encontro entre os dois, cuidadosamente encenado por Henrik, um militar aposentado do exército do antigo império austro-húngaro, leva ao clímax do romance, quando, num penoso e intenso solilóquio, ele descortina as nuances de emoções e comportamentos, que explicam e justificam o evento que levou ao término da amizade.
Nesse monólogo raramente interrompido por Konrad, o amigo que o visita, e que agora reside em Londres, Henrik explora suas reações ao longo dos anos, depois da separação dele, do amigo e de Krisztina, sua esposa. A trama traz ao proscênio o melhor que a literatura tem a dar: um estudo das emoções humanas. Como componentes da trama, fazendo parte do cenário, trazidos vez por outra para o foco de luz no palco, estão o amor, a inveja, a traição, a honra e o dever.
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No entanto há uma extensa metáfora nessa encenação, que se passa no ano de 1919, logo após a desintegração do império austro-húngaro. Ambos os amigos vêm de famílias com nobreza, mas Henrik pertence a uma família mais importante, mais chegada à realeza húngara, enquanto Konrad vem de uma família nobre empobrecida, cujos laços nobiliárquicos estavam enraizados na Polônia e que precisa vender terras para poder mantê-lo na escola militar. Há um desequilíbrio de classe social e financeiro entre os dois que faz um paralelo direto com a realidade daquele império formado em 1867, entre a casa dos Habsburgos e a família real da Hungria. Quando Sándor Márai caracteriza a amizade como um dever, na fala de Henrik, ele fala de amigos ou de nações? E Konrad lembra a Henrik, que tudo que juraram defender, já não existe, mas Henrik só admite que o modo de vida do qual fazia parte talvez não exista mais ao final da narrativa.
Konrad é retratado não só como passional como indigno de confiança, como quando toca piano, uma peça de Chopin, de quem era parente distante, e se transforma. Falsidade e deslealdade eram características atribuídas a povos não húngaros. Para Henrik, ou melhor, para o verdadeiro húngaro, Konrad prova ser dessa estirpe desleal, assim como por extensão sua própria mãe e Krisztina, sua esposa. Ainda que a presença de Konrad pareça quase acidental na trama, já que é o monólogo de Henrik que revela a complexidade de seus sentimentos e de suas ações, Konrad é essencial pois torna-se o avesso, a imagem espelhada, de Henrik. Assim vemos os dois lados do império austro-húngaro: a nobreza traída, e os que dela escaparam, mesmo que a grandes penas. Diferente do esperado esta é uma história escrita não por quem venceu a guerra, mas por quem a perdeu.
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Sándor Márai
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Eventualmente Henrik reconhece que há coisas piores do que o sofrimento e a morte, entre elas, a perda do amor-próprio. E isto também pode ser visto não só como sua descoberta pessoal depois de passar quarenta e um anos analisando os eventos que levaram ao final dessa amizade, como pode ser considerado o retrato daqueles que por orgulho, dívida, dever resistiram à dissolução do império.
Como eixo da trama está Krisztina, traída duas vezes: por Henrik e por Konrad. Uma mulher enigmática, estrangeira, pobre, que receia seus próprios pensamentos e mantém um estranho diário, documento íntimo, cuja importância Henrik cultiva através dos anos e que ao final se faz totalmente desnecessário. Ela também pode ser vista por dois ângulos: traída por dois homens e traidora dos dois. Que versão adotar?
As brasas é uma obra que nos leva a pensar em círculos. A considerar as desventuras do ser humano. É apropriado perguntar se precisamos de tanto sofrimento. De tanta angústia auto-imposta. E vale lembrar que as conotações de valores como dever, dívida, lealdade, mesmo que possam ser consideradas absolutas por uns, terão sempre uma dualidade, um reverso que pode não ser esperado.
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Ano Novo, s/d
Alexandre Gulyaev (Rússia, 1917-1995)
óleo sobre tela
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Lindolfo Gomes
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Nas noites de Natal, da minha infância,
Tinha brinquedos nos meus sapatinhos,
Que um Anjo transformava em doces ninhos,
Iludindo-me à ingênua vigilância.
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Do nosso lar na idolatrada estância,
A mesa posta, com iguaria, vinhos…
Minh’alma respirava a sã fragrância
Dessas flores silvestres dos caminhos.
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Agora no Natal desta velhice,
Seguindo a vacilar por ínvios trilhos,
Arrasto os sapatões, ao léu do fado…
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Mas me revejo em plena meninice,
Ao ver nos sapatinhos de meus filhos
Meus brinquedos, meus sonhos, meu passado…
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Lindolfo Eduardo Gomes (SP 1875 – RJ 1953) Poeta, Jornalista, contista, ensaísta, folclorista, professor e teatrólogo. Passou sua juventudo em Resende, no estado do RJ, mudando-se mais tarde para Juiz de Fora, MG, onde passou grande parte da sua vida profissional tendo redigido para os jornais O Pharol, Jornal do Commercio, Diário do Povo, Diário Mercantil, revista Marília,entre outros.
Obras:
Folclore e Tradições do Brasil, 1915
Contos Populares Brasileiros, 1918
Nihil novi, 1927