Os pessegueiros, de Guerra Junqueiro

14 03 2013

a-boy-with-peachesAleksander Gierymski (1850 – 1901, Polish)

Menino com pêssegos, 1892

Julian Falat (Polônia, 1853 – 1929)

aquarela sobre papel, 46 x 36 cm

Obra perdida durante a segunda guerra mundial, 1939-1945

The Lost Museum

Os pessegueiros

Guerra Junqueiro

Um lavrador tinha quatro filhos, trouxe-lhes um dia cinco pêssegos magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos, extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. À noite, o pai perguntou-lhes:

— Então, comeram os pêssegos?

— Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei de plantá-lo para mais tarde nascer uma árvore.

— Fizeste bem, respondeu o pai, é bom ser econômico e pensar no futuro.

— Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a mamã ainda me deu metade do que lhe toco a ela. Era doce como mel.

— Ah! Acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade não admira; espero que quando fores maior te hás de corrigir.

— Pois eu cá, disse o terceiro, apanhei o caroço que meu irmão deitou fora, quebrei-o e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu pêssego e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for à cidade.

O pai meneou a cabeça.

— Foi uma idéia engenhosa, mas preferia menos caçulo. E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?

— Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, ao Jorge, que está, coitadinho, com febre. Ele não queria, mas deixei-lhe em cima da cama, e vim-me embora.

— Ora bem,  pergunto o pai, qual de vós é que empregou melhor o pêssego que eu lhe dei?

E os três pequenos disseram à uma:

— Foi o mano Eduardo.

Este, no entanto, não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos arrasados de lágrimas.

Em: Contos para a Infância, edição do Porto, de 1953, sem editora.





HABEMUS PAPAM

13 03 2013

Antonio Maia São Francisco

São Francisco de Assis, 1985

Antônio Maia (Brasil, 1928)

acrílica sobre tela

Coleção Particular





Palavras para lembrar — Ezra Pound

11 03 2013

Leonid Osipovich Pasternak (1862-1945) inspiração, ost

Os tormentos do trabalho criativo

Leonid Osipovich Pasternak ( Rússia, 1862-1945)

óleo sobre tela, 63 x 81 cm

“Os homens não entendem os livros até que tenham vivido um pouco, ou melhor, nenhum homem entende um livro profundo, até que tenha visto ou vivido pelo menos parte de seu conteúdo”.


Ezra Pound





Mulheres pintoras séculos XVI e XVII — homenagem ao Dia Internacional da Mulher

8 03 2013

Hemessen-Selbstbildnis

Autoretrato, 1548

Catharina van Hemessen ( Bélgica, c,1527– c. 1560)

Têmpera sobre madeira, 32 x 35 cm

Museu de Arte de Basel, Suíça

b-m-147

Senhora com roupagem do século XVI, c. 1550-60

Catharina Van Hemessen (Bélgica, 1528-1581)

Óleo sobre madeira

Bowes Museum, Durham, England

lucia-anguissola-autorretrato

Autoretrato, 1557

Lucia Anguissola (Itália, c. 1536- c. 1565)

Óleo sobre tela 28 x 20 cm

Pinacoteca Castello Sforzesco, Milão

518px-Self-portrait_at_the_Easel_Painting_a_Devotional_Panel_by_Sofonisba_Anguissola

Autoretrato com cavalete, 1556

Sofonista Anguissola  (Itália, 1530-1625)

Óleo sobre tela,  66 x 57 cm

Palácio Lancut, Polônia

Levina_Teerlinc_Elizabeth_I_c_1565_b

Rainha Elizabeth I da Inglaterra, c. 1565

Levina Teerlinc (1510-1520–1576)

Retrato em miniatura

selftond

Autoretrato em tondo, 1579

Lavinia Fontana (Itália, 1552-1614)

Óleo sobre cobre, 16 cm de diâmetro

Galleria degli Uffizi, Florença

511px-Esther_Inglis_Mrs_Kello_1595

Autoretrato, ou Sra. Kello, 1595

Esther Inglis (França/Escócia, 1571-1624)

Adotou o nome Kello depois de casada.

Judith_with_the_head_of_Holofernes

Judith with the head of Holoferness

Fede Galizia (Itália, 1578–1630)

Óleo sobre tela,

Ringling Museum of Art, Sarasota, Fla

maria van oosterwijck vanité 1668

Vanitas, 1668

Maria Van Oosterijk ( Holanda, 1630-1693)

Óleo sobre tela

Marietta_Robusti_Muchacha_veneciana_Lienzo._77_x_65_cm._Museo_del_Prado._Madrid

Autoretrato

Marietta Robusti (Italia, 1554-1590)

Óleo sobre tela, 77 x 65 cm

Museu do Prado, Madri

Artemisia_Gentileschi_Selfportrait_Martyr.54140230_std

Autoretrato como mártir, 1615

Artemisia Gentileschi (1593–1653)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

Sirani, Madonna and child

Virgem com Menino Jesus, s/d

Elisabetta Sirani (Itália, 1638-1665)

Desenho sobre papel

Barbara Longhi

Virgem com Menino Jesus, 1580-85

Barbara Longhi (Itália, 1552-1638)

Óleo sobre tela, 44 x 29 cm

Museu de Arte de Indianápolis, EUA

JosefaObidos4

Natureza Morta com doces e barros, 1676

Josefa de Ayala  ou Josefa de Óbidos (Portugal, 1630-1684)

óleo sobre tela

Biblioteca Municipal Anselo Braamcamp Freire de Santarém

Judith_Leyster_-_Self-Portrait_-_Google_Art_Project

Autoretrato com cavalete, c. 1630

Judith Leyster ( Holanda, 1609–1660)

Óleo sobre tela, 74 x 65 cm

National Gallery of Art, Washington DC

800px-Moillon,_Louise_-_The_Fruit_and_Vegetable_Costermonger_-_1631

A vendedora de frutas e legumes, 1631

Louise Moillon ( França, 1610–1696)

Óleo sobre tela,  48 x 65 cm

Museu do Louvre, Paris

Clara Peeters 1594 - 1589- 1657 nature morte au verre vénitien et à la chandelle 1607

Natureza morta com taça veneziana e castiçal, 1607

Clara Peeters ( Holanda, 1589-1657)

óleo

Giovanna_Garzoni

Natureza Morta com limões, 1640

Giovanna Garzoni ( Itália, 1600–1670)

Tempera sobre papel

431px-RRuysch

Natureza morta com buquê de flores e ameixas, s/d

Rachel Ruysch (Bélgica, 1664-1750)

Óleo sobre tela, 92 x 70 cm

Museus Reais de Belas Artes da Bélgica

Mary_beale_self_portrait

Autoretrato, c. 1675-1680

Mary Beale (Inglaterra, 1632–1699)

Óleo sobre tecido, 89 × 73 cm

1638-1665-elisabetta-sirani-1660

Autoretrato, 1660

Elizabetta Sirani (1638-1665)

Óleo sobre tela





A cela do religioso, texto de Aluísio de Azevedo

5 03 2013

64newtes

Monge franciscano lendo, 1661

Rembrandt Harmenszoon van Rijn (Holanda, 1606- 1669)

Óleo sobre tela, 82 x 66 cm

Museu de Arte Sinebrychoff, Helsinque, Finlândia

“A porta abriu-se sem ruído. Ele entrou, e a porta fechou-se de novo, silenciosamente.

O lugar em que o venerando religioso acabava de penetrar, era uma triste cela, sombria e espaçosa, com uma janela gradeada e fechada, e apenas frouxamente esclarecida por uma clarabóia do teto. As paredes, nuas de alto a baixo, tinham uma cor sinistra de osso velho. Em uma delas havia um grande nicho com a imagem da Virgem da Conceição, quase de tamanho natural; a um dos cantos, uma negra estante toscamente feita, pejada de grossos alfarrábios amarelecidos pelo tempo; no centro, uma mesa de madeira escura com um breviário em cima, ao lado de uma candeia de azeite, um pedaço de pão duro e um cilício cru; junto à mesa, um banco de pau”. 

Em: A mortalha de Alzira, Aluísio de Azevedo, publicado pela 1ª vez em 1892, primeiro capítulo, em domínio público.





A arte referencial e onírica de Leo Brizola

3 03 2013

Barbara Leo Brizola

Bárbara, 2011

Leo Brizola  (Brasil, 1962)

acrílica sobre tela, 160 x 200 cm

Foi através do SOLO ART — link generosamente mandado por minha amiga Vera — que encontrei a arte do mineiro de Belo Horizonte, Leo Brizola.  E gostei.  Resolvi então colocá-lo aqui, dando continuidade ao “artista brasileiro do mês”.  Leo Brizola dialoga com a pintura que o precedeu e  mostra a sua realidade fantástica.

Diana e a velha, Leo BrizolaDiana e a velha, 2011

Leo Brizola (Brasil, 1962)

acrílica sobre tela, 200 x 170 cm

O trabalho de Leo Brizola é onírico.  Mas o diálogo permanente com artistas do passado ajuda a colocar sua visão em foco, tanto na alusão visual, quanto na alusão temática.

Olfato, sd

Olfato

Leo Brizola (Brasil, 1962)

acrílica sobre tela

Leo Brizola demonstra ter um bom senso de humor e grande irrevência quando trata dos assuntos, dos temas que retrata. Observar uma de suas enigmáticas pinturas é simultaneamente se expor a um sorriso e a uma lembrança de alguma outra pintura, mas ser específico. É como se visitássemos o nosso inconsciente coletivo.

– 

albAnunciata

Albanunciata, 2011

Leo Brizola (Brasil, 1962)

acrílica sobre tela

SONY DSCAudição, 2010

Leo Brizola (Brasil, 1962)

acríica sobre tela, 100 x 100 cm

Formado em Artes Plásticas pela Escola Guignard/ Universidade do Estado de Minas Gerais (1981-1987)  e Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (1983-1985) mostra grande segurança de técnica e tema:  refere-se não só ao passado, mas o utiliza para retratar seu lugar  no presente.





Conhecer o outro é o que a leitura me permite

2 03 2013

julia-beck-self-portrait-1882

Retrato da pintora Julia Beck, 1882

Richard Bergh Malningen (Suécia, 1858-1919 )

óleo sobre tela

Museu Nacional da Suécia, Estocolmo

No início de fevereiro fiz uma postagem sobre o novo livro de David Shields em que ele discursa sobre o valor da literatura [Qual é o valor da leitura literária?] e minha amiga Nanci, que muito me prestigia lendo com atenção este blog, lembrou que na minha postagem eu havia me esquivado de responder à pergunta título.  Pedi a ela um tempinho para responder.  Chegou a hora da verdade.  Não há uma única resposta.  São muitas, assim como muitas fui e sou. A cada fase da vida a leitura literária teve uma ou mais funções.

Livros sempre fizeram parte da minha vida.  Cresci numa família de leitores. Não só meus pais eram leitores, mas tios e avós também.  Desse modo posso dizer que fui programada para fazer da leitura um hábito para a vida toda.  Ponderei sobre a questão e acho que encontrei o meu fio da meada: a leitura literária me permite conhecer o outro, aquele diferente de mim.





Palavras para lembrar — Mark Haddon

28 02 2013

dimitris voyiazoglou, the horosope reader II

Leitora de horóscopo

Dimitris Voyiazoglou (Grécia/Holanda, contemporâneo)

“Ler é uma conversa.  Todos os livros falam.  Mas um bom livro também escuta”.

Mark Haddon





O gabinete do médico, texto de Aurélio Pinheiro

28 02 2013

Edwaert Collier Vanitas Still Life 17th century. Edwaert CollierVanitas, 1669

Edwaert Collier (Holanda, 1642-1710)

óleo sobre madeira, 32 x 27 cm

O gabinete do médico

Aurélio Pinheiro

O Dr. Elesbão recebeu-nos com um sorriso sereno, em sua fecunda biblioteca, de altas, solenes estantes de mogno. Era uma grande sala, branca, de espiritualizante claridade, com as janelas abertas para o nascente. Sobre a larga mesa de estudos havia livros esparsos, papéis, vários objetos e um tinteiro de prata com uma águia de asas distendidas na ânsia de um vôo fremente. Junto à mesa, num dunquerque de ébano, pousava uma caveira sobre um suporte niquelado. Pelos cantos, colunas de mármopore ostentavam estatuetas e jarrões, e atrás da cadeira do Mestre surgia o busto de Hipócrates, saliente e austero como o de um deus pensativo. Entre duas estantes um pêndulo alto e negro marcava as horas, antecedendo-as de um minuete do tempo do Rei-Sol. Nas paredes dois quadros a óleo: — uma cabeça de velha a sorrir com brandura e uma álacre marinha… Um sofá de molas envolvido em capa de linho branco e algumas cadeiras de jacarandá com espaldares em alto relevo, completavam o severo mobiliário.

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 23.

Aurélio Waldomiro Pinheiro (RN 1882 – RJ 1938) médico, jornalista, poeta, escritor.Formado em medicina , pela Faculdade de Medicina da Bahia, graduando-se em 1907.  Retorna ao Rio Grande do Norte (Macau), onde além de clinicar colabora com o jornal O Mossoroense.   Em 1910 muda-se para Parintins no Amazonas. Faleceu em Niterói, no Rio de Janeiro em 1932)

Obras:

Gleba tumultuária, prosa, 1927

O desterro de Umberto Saraiva, romance, 1928

Macau, romance, 1932-34

À margem do Amazonas, prosa, 1937

Em busca do ouro, prosa, 1938

Dicionário de sinônimos da língua nacional, s/d





O urubu-rei, texto de Padre Nicolao Badariotti

25 02 2013

Joacilei Lemos Cardoso urubu rei

Urubu rei, s/d

Joacilei Gomes Cardoso (Brasil, 1960)

óleo sobre linho, 140 X 100 cm.

Joacilei Gomes Cardoso

O urubu-rei

Padre Nicolao Badariotti *

Estava um dia um bando de urubus se banqueteando no nojento festim; de repente um deles dá um guincho rouco e todos se afastam e dispõem em círculo numa atitude de respeito. O ar vibra, silvando ao impulso de asas possantes, estremecem as folhas e um  magnífico urubu-rei pousa majestosamente sobre um galho seco; dá um olhar imperioso sobre aquela turba vil e, lançando-se pesadamente ao chão, acode ao banquete, desdenhando todo aquele círculo de rivais invejosos e impotentes…  Era um lindo animal, maior que um peru, escuro na parte superior do corpo e branco debaixo das asas e do peito. A cabeça coberta somente de uma penugem ostentava sete cores; o bico robusto, os olhos largos e expressivos sem a ferocidade de seus congêneres, o pescoço aveludado e adornado dum colar de alvas penas, fazem do urubu-rei um animal soberbo e de nenhum modo merecedor do nome vulgar tão humilhante para ele.

 

[Exemplo de descrição de animais]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 93.

————–

*Padre Nicolao Badariotti foi um religioso italiano que descreveu viagem ao Mato Grosso em 1898, sua viagem foi publicada  como Exploração no norte de Mato Grosso, região do Alto Paraguay e Planalto dos Parecis. São Paulo: Escola Typ. Salesiana, 1898.