Francisco Rebolo (Brasil, 1902-1980)
óleo sobre tela, 33 x 42 cm
Alois Heinrich Priechenfried (Áustria, 1867-1933)
óleo sobre tela, 35 x 58 cm
A inveja, pecado mortal, fonte segura dos sentimentos mais complexos no ser humano, é o tema central desse pequeno romance (seria melhor chamá-lo novela, no sentido literário da palavra, ou seja um conto longo que não chega a ser um romance) titulado A acompanhante de Nina Berberova (Rússia, 1901- EUA,1993). Para os amantes de literatura russa essa escolha é perfeita, em estilo, prática, tema e complexidade emocional a autora, só descoberta por aqueles que não leem em russo, nos anos 80 do século passado, quase 30 anos após emigrar para os Estados Unidos, tornando-se cidadã americana.
Publicado no Brasil em 1997 pela Imago, só agora, participando de um grupo de leitura cujas obras precisam ter menos de 150 páginas, cheguei a esse exímio retrato psicológico de Sonetchka uma pianista jovem, pobre, bastarda, competente e feia. Isso não sou eu quem diz, mas um personagem que, sem interesse secundário em suas habilidades na música, a leva para jantar e diz: “Você é gentil, muito gentil. Tão feia e tão gentil. Tão pequena e tão feia” [81]. Como se sente então essa jovem diante da cantora Maria Nikolaevna Travina, mulher atraente, enigmática, sedutora, portadora de uma bela voz, que lhe deu emprego, comida, roupas e uma vida fora da miséria em que nascera? Grata por ter sido reconhecida como competente? Feliz por ter um emprego que a tira da pobreza profunda? Fascinada com a oportunidade de sair da Rússia, ir a Paris? Não. A inveja a domina.
Sonetchka não consegue ser generosa e apreciar o que de bom acontece na vida de sua patroa. Muito pelo contrário gostaria de destruir esses bons eventos. E não se livra tampouco dos preconceitos da sociedade russa, nem mesmo depois de deixar o país para trás. Não consegue se desfazer do complexo de inferioridade alimentado por ser filha de mãe solteira; por sentir que repetirá a vida de subsistência de sua mãe. Julga aqueles que a salvaram de um futuro incerto e faminto pelos rígidos parâmetros da mesquinhez. E a bela cantora que a salvara de um futuro abismal é o fruto de um ódio murmurante, impiedoso, abrigado na alma de sua acompanhante.
“Mas eu não notei nada, nada exceto aquela espécie de doçura que ela tinha, e de vez em quando um olhar incerto. De novo, ela era gentil e atenciosa com Pavel Fedorovich, de novo trabalhava muito e com aplicação; por períodos ela se embelezava de modo impressionante, e continuava sua existência com segurança e total liberdade. E eu sentia que sumia cada vez mais do lado dela, enquanto ela crescia como cantora e, física e espiritualmente, se aproximava de uma espécie de ponto focal de sua vida, ponto que poderia fazer durar por muitos anos, com sua inteligência, sua beleza e seu talento. ” [85]
Não é suficiente alimentar o asco, torcer para que as coisas não se resolvam, não é suficiente imaginar o que faria para desmascará-la. O ódio que sente contra a bela e generosa cantora, precisa machucar. É preciso ferir Maria Nikolaevna Travina do mesmo modo que Amy, a mais jovem das irmãs em Mulherzinhas de Luísa May Alcott, precisa queimar o manuscrito de Jo, quando não pode ir a teatro. Não bastava sentir raiva, era necessário machucá-la, feri-la, naquilo que entendia ser sua fonte de poder. Com Sonetchka o mesmo acontece. Mas a vida lhe rouba até mesmo a oportunidade de ser central no evento que mudará a vida de sua patroa. Traída mais uma vez pelas circunstâncias a acompanhante mergulha em sua própria sopa de fel.
Uma poderosa narrativa, surpreendentemente detalhada para tão pequena obra. Vale a leitura.
Quentin Massys (Bélgica, 1466-1530)
Óleo sobre madeira, 69 x 53 cm
Städelsches Kunstinstitut, Frankfurt
Paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas, 1938
Manuel Eduardo Vidal Couce (Argentina, 1904)
óleo sobre madeira, 68 x 53 cm
Farnese de Andrade ( Brasil, 1926-1996)
óleo sobre tela sobre madeira, 50 x 70 cm
Aula do 1º ano de Garnett no Laboratório escolar, Univ. da Califórnia, 1936
Frances Strain (EUA, 1898-1962)
guache sobre papel, 54 x 69 cm
Salvador Rodrigues Jr. (Brasil, 1907-1995)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
” A data de fundação de Paraty é motivo para divergências entre historiadores. Alguns pendem para o ano de 1600, quando Paraty era apenas um povoamento de paulistas de São Vicente. Outros preferem a data de 1606, quando se deu a chegada a Paraty dos primeiros sesmeiros, beneficiados com doações feitas em nome do Conde da Ilha do Príncipe, donatário da Capitania de Itanhaém.
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“O primeiro núcleo de povoamento surgiu em um morro distante 25 braças para norte do Rio Perequeaçu, onde foi erecta uma capela em louvor a São Roque”(*). Depois, por volta de 1646, em local mais favorável, se erigiu outra capela em honra de Nossa Senhora dos Remédios, em terreno doado por Maria Jácome de Melo, para ampliação da vila, sob duas condições: a primeira, que a mesma fosse feita em devoção àquela santa, e a segunda, exigindo a segurança dos índios guaianazes moradores naquele local.
Como de hábito, o nome do santo orago foi acrescentado ao topônimo Paratii, vocábulo tupi, que significa “peixe da família das tainhas”, muito encontrado na região.
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(*) Citação no texto referindo-se ao livro do Monsenhor José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, titulado: Memórias históricas do Rio de Janeiro e das Províncias anexas à jurisdição do Vice-Rei do Estado do Brasil.
Em: Paraty, religião e folclore, Thereza Regina de Camargo Maia, Rio de Janeiro, Arte e Cultura (LTC Editora): 1976, pp. 20-21.
André Lhote (França, 1885-1962)
óleo sobre tela
Coleção Particular
Ralph Waldo Emerson