Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

31 01 2026
Metrô do Rio de Janeiro, Janeiro de 2026.

 

 

Procurei mas não achei o nome do livro.  Alguém sabe o que essa moça está lendo?  




5ª leitura do ano: Madame Bovary, Gustave Flaubert

29 01 2026

 

 

Finalmente li Madame Bovary, de Gustave Flaubert, (1857), um clássico, considerado uma das três obras mais influentes na história literária do mundo ocidental.  As outras são: Don Quixote, de Cervantes (1605) por ser considerado o primeiro romance moderno, e Ulisses de James Joyce (1922) por ter revolucionado a narrativa, incluindo o fluxo de consciência, entre outras novidades.  Nesse meio, Madame Bovary se salienta na literatura ao introduzir o realismo na narrativa literária; pela excelência na precisão das palavras; por trazer pela primeira vez uma anti-heroína, entre outros “primeiros” que esse romance introduz, incluindo a crítica social. Essa era uma falha na minha formação que me orgulho de tê-la superado. Confesso que estava um tanto intimidada ao abrir esse livro.  Tanto se fala dele.  Foi fonte de inspiração para Ana Karênina, de Tolstói publicado vinte anos mais tarde, e foi fonte de inspiração para um grande número de escritores.  Mas depois de ler O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, há uns poucos anos, que me encantou, percebi que precisava a qualquer custo me dedicar a Madame Bovary.  A conta havia chegado. Fui auxiliada também pelo grupo de leitura Papalivros que escolheu essa como primeira leitura de 2026.

Não consigo imaginar algo que eu possa dizer que já não tenha sido dito sobre essa obra. Surpreendente  foi a mágica da linguagem encontrada, momentos de pura poesia em prosa, descrições de ambientes, de cenários que conseguem acender a imaginação do leitor sem esforço.  Flaubert trabalhou nesse livro por cinco anos, e se sente.  Seus personagens são tridimensionais, inteiros, cheios das idiossincrasias naturais dos seres humanos.  São desprezíveis, vis, mesquinhos, indiferentes, cobiçosos, idiotas, gananciosos, tolos, parvos, simplórios, interesseiros.  Mas ninguém supera Ema Bovary. Fui instigada a detestá-la. Não suscitou em mim, qualquer simpatia. Viveu e  morreu como quis, numa volúpia de quereres sem fim, ousadia sem limites, sôfrega por satisfazer-se e só a si mesma. Mesmo assim vale a pena conhecê-la.  

Flaubert e sua casa editorial La Revue de Paris foram processados por essa publicação por ofender a moral e os bons costumes. O julgamento criou grande curiosidade no público e o romance se tornou um best-seller imediatamente após ganharam a causa.  Publicado em 1857, mas passado nos anos de 1830, durante o reinado de Napoleão III, Flaubert usa o contexto histórico para retratar aquilo que não aprovava naquele reinado.

É uma história completa.  Retrata os locais, a era, os hábitos e costumes, e seus personagens são ricos, completos, com anseios e desejos, faltas morais, ciúmes, indiferenças e cobiça, tal qual o mundo que nos rodeia.  A leitura é vagarosa para ser, de fato, saboreada. É preciso imersão.  Mas o resultado dessa experiência deve ser para sempre.  Fiquei com vontade de reler quase imediatamente.  Provavelmente o farei muitas vezes. 

 





Da minha mesa de trabalho…

15 01 2026

 

Reorganizar o escritório não é fácil.  E nem é só organizar livros.  Em geral organizamos de quebra,  papelada, gavetas da escrivaninha, dos armários, dos móveis à nossa volta. Minha cortina, ainda não chegou.  Espero há um mês.  Trabalhar com o computador virado para o janelão requer o uso de um boné, cuja aba quebra a luz entrando.  O caos ainda não foi domado.

Tenho três gavetas com fotos da família. Não só da minha geração.  Tenho fotos de meus bisavós, sei quem são, seus nomes, de onde eram.  Meus pais tiveram cuidado de nos informar sobre isso.  Acabei com as fotos, porque minha mãe morou comigo nos últimos anos de vida.  Herdei a documentação iconográfica da família.  E ontem consegui uma companhia que irá multiplicar as fotos, para que cada sobrinho tenha fotos de todos com seus rótulos, quem é quem, onde estavam, de onde vieram. Esse será parte do meu legado.

Esse tempo todo, selecionando fotos, organizando a família por lado de mãe e pai, trouxe reflexões que provavelmente aparecerão em escritos futuros, mesmo que de forma oblíqua. Com essa tradição familiar,  eu me lembrei do choque que ainda tenho, toda vez que vou a uma feira de coisas antigas, como na Praça Quinze de Novembro aqui no Rio de Janeiro, ou na Praça Santos Dumont e vejo dezenas de fotos, abandonadas por famílias que se desfizeram dos bens de algum familiar já falecido. Não ligar para fotos de antepassados que não conhecemos, é comum.  Não é  fenômeno brasileiro.  O mesmo acontece no exterior, no mercado das pulgas parisiense, na feira de usados da Praça das Armas em Madri, nas feiras americanas, nos leilões de espólios nos EUA. É comportamento mundial.  A minha régua é que não é a mesma. Talvez seja a historiadora em mim.

 

Esta família, pai, mãe e filhos, não conheci.  Mas o senhor é um antepassado.  Foto de 1912.  

 

Eu pouco sabia sobre essa foto. Hoje sei exatamente quem são, onde moraram, quando morreram. O senhor, eu sabia quem era. Mas a esposa dele, a informação que tinha era: “a irmã do Eusébio”.  Quem era Eusébio?  Como se chamava sua irmã? Fui atrás das respostas.  Hoje sei o nome de todos e sua saga. Preenchi alguns espaços em branco e com imaginação completei outros. Sei, por exemplo, que os três filhos, aí na foto, morreram jovens.  Todos três de gripe espanhola, em anos diferentes. Morreram em Liège, na Bélgica.  Esses dados, foram registrados num livro de preces, notas nas margens, numa caligrafia fininha, letrada.  Há a listagem da temperatura das febres de cada paciente, e a data de sua morte. Triste.  Devem ter sofrido muito. Os pais voltaram para o Brasil depois da tragédia, uma década após se mudarem para a Europa.  Ele, que havia sido imigrante português, morreu no Brasil em 1944. 

Ando perdida nesse passado que não conheci, mas que de alguma maneira é meu. Um momento ímpar, de pausa e reflexão.  Nada mal para um início de ano. 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2026.

 

 

 





Primeira leitura completa de 2026

1 01 2026

Tenho muitas leituras em meio de caminho, livros que estou lendo simultaneamente. Mas esse comecei hoje de manhã. Não é grande vantagem que um livro de 94 páginas tenha sido lido em um dia. Mas eu o recebi quando cheguei em casa de Rio das Ostras e hoje abri para ver exatamente o que era. Não resisti. Li inteirinho.

Gosto de Somerset Maugham, um autor que conheci lendo Servidão Humana, livro um pouco maduro para os meus primeiros anos na adolescência quando estava febril para ler os grandes autores. Era um volume emprestado da Biblioteca da Gávea, que eu frequentava assiduamente desde criança.

Os livros e você: clássicos da literatura que podem ampliar a sua visão de mundo, é um grupo de três ensaios que Maugham escreveu para a revista americana Saturday Evening Post. Eles foram coletados e publicado na Inglaterra em 1940. Essa tradução é a primeira no Brasil, feita por Pablo Guimarães, publicada em Piraquara, Editora Vimara: 2024.

Fim de ano, para quem lê, é sempre recheado de listas de livros que ainda não lemos, que queremos ler. E esse livro me pareceu perfeito para que eu selecionasse algo que escapasse dos batidos e lidos russos, e clássicos mais modernos. Sendo um escritor inglês a maioria dos livros mencionados como sugestão para leitura são ingleses. Mas há também russos, franceses e até alemães.

A parte mais charmosa do livro são os comentários que Maugham faz, alguns bastante cortantes, sobre obras constantemente citadas como imperdíveis. Mais que isso, no entanto, é sua postura que, para o leitor comum, livros devem ser sempre agradáveis de ler. Se não o forem, deixe de lado.

Consegui deliciosas citações sobre leituras, que eventualmente, aos poucos colocarei aqui no blog, como costumo fazer. Somerset Maugham faleceu em 1965. Suas sugestões não incluem os escritores mais recentes, nem mesmo muitos dos que já eram conhecidos na primeira metade do século XX. Listas sempre refletem o leitor que as fez. A leitura desse livro foi uma conversa com um dos mais interessantes autores ingleses da primeira metade do século passado.

PS: Sim, anotei alguns nomes. E estarei procurando por suas obras.





Feliz 2026!

1 01 2026

Japan House, São Paulo, SP.  Foto: Ladyce West

 

Estou de volta.  Não, não me mudei para São Paulo, apesar dela ser uma das minhas cidades favoritas no mundo!  Está atrás de Londres, é verdade, mas é muito boa! 

Dadas as frustrações com obras aqui em casa, ainda não acabadas, resolvi chutar o balde e fui para Rio das Ostras na costa fluminense, passar alguns dias, repensar a vida, o blog, a escrita, a poesia, tudo.  Tive tempo para pensar.  Fora a pele queimada, mesmo na sombra e com protetor solar, que não estava planejada, tudo foi excelente.  Depois de 17 anos completos de blog, este foi o primeiro longo período sem postagens.  Eu me devia. Pelo menos corpo e alma pensam assim.

É claro que desejo a todos vocês sábias decisões para o ano que se inicia.  Que seus sonhos e decisões sejam compatíveis com a realidade, para que no próximo dezembro a lista de realizações, ou conquistas, seja bem maior do que os projetos abandonados ao longo do ano.

Agradeço também aos inúmeros seguidores que me desejaram um Feliz Ano Novo, às centenas de pessoas que comentaram nesse dezembro sobre postagens antigas, e sobretudo aos milhares de assinantes e visitantes desse nosso cantinho de arte, literatura e outras coisas mais.

 

Feliz 2026!





Flash!

3 12 2025
O escritor Antônio Olinto, em criança.





Filhotes fofos: arara azul

6 11 2025

Um filhote de araras azuis nasceu no Zoológico de Curitiba há um ano.  Aos quatro meses a ararinha já estava quase do tamanho do pais.  Veja um retrato dela aqui embaixo.

 

 





Flash!

24 10 2025
Manuel Bandeira dedilha um violão. 





Filhotes fofos: Lobo guará

22 10 2025
Filhotes de lobo-guará são apresentados no zoológico de São Paulo. 

Filhos de Caju e Pitanga, dois exemplares de lobos-guará que vivem no zoo. Nasceram em 17 de maio deste ano, e ainda não têm nome. O lobo-guará é o animal símbolo do cerrado brasileiro. Não temos ainda número suficiente desses animais para tirá-los definitivamente da lista de ameaça de extinção. Os nomes serão determinados pelos visitantes do zoológico.





O verde do meu bairro: orquídeas

16 10 2025
Orquídeas, dezenas e dezenas delas nas árvores da Zona Sul do Rio de Janeiro.  Estas em Copacabana.

 

 

 

No início deste ano tive uma amiga visitando o Rio de Janeiro, vinda de Goiás. Nem preciso dizer que a cidade a encantou.  Faz parte da visita, o encantamento.  Mas uma das coisas que ela mencionou especificamente, fora os lugares tradicionais, foram as ruas substancialmente arborizadas.  E ainda posso lembrar de seu tom de voz ao dizer com espanto: E vocês ainda põem orquídeas nas árvores de rua!

Nem sempre foi assim. Não posso dizer quando esse hábito começou. Nem onde.  Cresci no Rio de Janeiro, na zona sul da cidade e garanto que quando era criança, não fazíamos isso. Já ouvi relatos que foi iniciativa de uma associação de comerciantes de Ipanema que, para embelezar a cidade, e chamar atenção para o bairro, começaram a amarrar orquídeas nas árvores que dão sombra às ruas, árvores plantadas pela prefeitura. Não estamos falando de árvores nos jardins de condomínios.  Aliás esses também têm. 

Por volta dos anos 90 do século passado era evidente que os próprios cariocas haviam abraçado a ideia de orquídeas penduradas nas árvores das calçadas.  Isso, também surpreendeu meu marido, americano, que como a goiana, percebeu a profusão de orquídeas nas ruas como um sinal de que estava num ambiente tropical, algo que soava a seus ouvidos, como um lugar perto do paraíso.  Coitado!  Anos depois veio morar no Rio de Janeiro e percebeu a realidade! Mas sempre se admirava com as orquídeas em ruas públicas. 

Não sei se essa moda causou os supermercados a venderem orquídeas ou se foi o contrário, eles começaram a vender as orquídeas e a moda seguiu a oferta das plantas. Velha questão essa, da galinha e do ovo. Hoje praticamente todos os mercados vendem orquídeas, as mais comuns, e o carioca leva orquídeas à casa de alguém que ele visita, ou presenteia em qualquer ocasião.   

Mas orquídeas não são das plantas, as mais fáceis de lidar.  Requerem certa quantidade de sombra e alguns fiapos de sol. Precisam de pouca água e gostam de ficar à beira de  algum lugar, mais ou menos em situação periclitante, como peitoris de janelas do décimo segundo andar.  Essas necessidades são amplamente providas pelas árvores.  Então o carioca recebe a orquídea de presente, se satisfaz com ela pelo período de floração e depois dependura numa árvore de rua. Tudo que se precisa é ter um porteiro, ou um empregado do prédio em que você mora, que se disponha a amarrar uma orquídea que já perdeu a sua beleza mas ainda está viva, na parte mais alta da árvore próxima à entrada do seu edifício, no lugar que ele alcançar de uma escada.  E voilà, na próxima estação, no próximo período de floração, a árvore estará embelezada por uma, duas, três orquídeas, quantas couberem em seu tronco, plantas que continuarão, felizes, a dar flores entra ano, sai ano. E vivemos, então, sob a distinta impressão de estarmos num paraíso tropical.