Leitura leve, gostosa, brasileira e “na moda”

23 02 2026
Grupo de leitura Papalivros no encontro de fevereiro, em Ipanema, RJ

 

 

A escritora cearense Socorro Acioli é autora do livro escolhido para leitura, no mês do Carnaval, pelo grupo Papalivros:  A Cabeça do Santo [Cia das Letras:2014].  Publicado há mais de uma década, tornou-se um fenômeno de popularidade nos últimos tempos. Influenciadores digitais e jornalistas mencionaram a obra com frequência e, aos poucos, o público endossou as recomendações tornando-o um best-seller.  Tenho afiliações com quatro grupos de leitura (cariocas e nacionais). Com essa escolha do Papalivros, vejo que todos quatro já leram a obra.  Socorro Acioli é uma escritora escolhida por Gabriel Garcia Marques para a oficina “Como contar um conto”, em 2006, em Cuba. Ela pode, então, se considerar não só herdeira do realismo mágico, à maneira de Gabo, mas também abençoada pelo feitiço de seu mentor. A cabeça do santo é resultado dessa experiência.

Um livro pequenino — 176 páginas — consegue encantar a gregos e troianos, ao descrever a saga de Samuel, um homem, que após a morte de sua mãe e a conselho dela, sai em busca do pai.  Nessa empreitada, precisando de abrigo depois de muito andar, ele encontra uma gruta, onde se esconde para passar a noite.  Qual não é sua surpresa ao descobrir, quando acorda, que o abrigo é a cabeça oca de um Santo Antônio, de proporções gigantescas, parte de uma escultura abandonada, um projeto sem sucesso da cidade vizinha, Candeia.  Sua surpresa é acentuada quando percebe que o local é lugar de peregrinação de mulheres à procura um companheiro, namorado, marido, enfim de um milagre do santo casamenteiro.  Escondido na cabeçona, Samuel ouve os causos relatados e as preces endereçadas ao santo.  Acaba interferindo à sua maneira no destino delas, graças a Francisco, um amigo que faz no local.

Fiel às tradições da literatura nordestina, situações de farsa e humor ecoam obras de Dias Gomes e Ariano Suassuna. Aqui, Socorro Acioli nos presenteia com uma mini fábula, enraizada nas tradições populares, na política dos lugares pequenos, nas crendices da vida cotidiana, na superstição. Osório, o prefeito de Candeia, cidade responsável pelo projeto desastroso da escultura monumental, é personagem que poderia ser encontrado em alguma obra de Dias Gomes, herdeiro, podemos dizer, de Odorico Paraguaçu, de O Bem-amado (1961). Dias Gomes também é sentido no humor cáustico com que Osório é representado. Candeia é uma cidade dividida entre misticismo e ganância, dualidade também encontrada nas obras do dramaturgo, conhecido por representar o conflito entre o sagrado e o profano.   

Samuel e Francisco por outro lado são ‘filhos’ de Ariano Suassuna, personagens que sobrevivem graças à  astúcia e  a algumas artimanhas. São sertanejos e bem representam o local em que a religião é cultura viva, em que milagres acontecem apesar de ou por causa de todas suas mazelas.  Isso é retratado num ritmo de cultura oral, em alguns lugares reminiscente da literatura de cordel, e pela fé mística e grandiosa, como acontece em O Auto da Compadecida (1955).

A cabeça do santo é obra ainda mais rica nas referências bíblico-religiosas de Samuel (do Velho Testamento), São Francisco e Santo Antônio, dois dos mais populares santos cultuados no Brasil, referências admitidas pela própria autora. Recomendo a leitura ainda que para meu gosto ela pudesse ter sido expandida, com mais causos, mais detalhes nas histórias contadas a Samuel. Achei o final, deus-ex-machina previsível e súbito, um tantinho à maneira Dias Gomes, um final dramático e retumbante, que resolve todos os problemas. Mas vale. É uma boa leitura para um fim de semana divertido. 





6ª leitura do ano: Sobre a ficção, de Ricardo Viel

7 02 2026

 

 

Não sei quem me recomendou esse livro de entrevistas de autores das línguas ibéricas.  Foi recomendado porque não estava no meu horizonte.  Agradeço a quem o fez.  Foi uma leitura gostosa.  Dos dez escritores entrevistados só não conheço a obra de um deles ainda que já soubesse de sua existência.  O livro abre e fecha com as entrevistas de que mais gostei, autoras cujas personalidades  conseguiram ultrapassar os diversos filtros de distanciamento existentes em qualquer entrevista; uma espanhola e uma portuguesa: Rosa Montero e Djaimilia Pereira de Almeida.  Um elogio precisa ser feito ao trabalho de Ricardo Viel, que em Sobre a ficção [Cia das Letras: 2025] regeu as conversas com cada um dos romancistas de maneira segura, mostrando conhecimento das obras de cada um, sem interferências irrelevantes, deixando cada escritor aparentemente à vontade — personalidades, aparecendo através dos diálogos. 

Ao final, cheguei a uma conclusão: escritores são gente igual a toda gente.  Há uns mais simpáticos, outros modestos, um ou outro mais cheio de si.  Quer se vejam como referências da ‘alta’ literatura, quer sua obra seja altamente pessoal, eles vêm de todos os cantos do mundo, de todas as classes sociais, de famílias que liam ou não, com ou sem livros em casa.  E a leitura pode ser descoberta em criança, na adolescência ou como jovens adultos.  E não há idade para se começar. Todos têm hábitos diversos. Não há padrão.  Não há comportamento igual.  Não há predestinação, nem caminho fácil para o sucesso. Notívagos ou não, organizados e desorganizados, com planos detalhados dos personagens já sabendo como será o ponto final do romance ou escrevendo de supetão, instintivamente, sem ideia prefixa de para onde vão, cada um deles se encontrou como escritor por diferentes meios.  Os dez romancistas entrevistados são contemporâneos, já foram aplaudidos por milhares de pessoas, têm sucesso além fronteiras da terra natal, veem o que fazem de maneiras diferentes. O único ponto em comum, mesmo, é a necessidade de escrever.  Essa supera grande parte de todas outras atividades de suas existências. E podem escrever diariamente ou passar anos sem colocar uma palavra no papel.

Na era em que tudo parece ter um livro ou um método para como escrever; como superar o bloqueio; com que tipo de primeiro parágrafo atrair o leitor; entender a ‘Jornada do Herói’, dividi-la ou não nas doze partes que Joseph Campbel a descreveu;  tudo isso parece, ao final dessas entrevistas, irrelevante. Cursos e mais cursos que se multiplicam na internet, sobre como ser ou tornar-se um escritor, provavelmente pouco poderão ensinar.  Ler.  Ler, ler. Ler muito e constantemente, parece ser a melhor pedida.  Fica a dica.  

No final o que resta é a obra. Ela é o que realmente conta. As atividades e circunstâncias da vida de cada autor, não são de grande relevância a não ser para quem gostaria de biografá-los. É a obra. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

31 01 2026
Metrô do Rio de Janeiro, Janeiro de 2026.

 

 

Procurei mas não achei o nome do livro.  Alguém sabe o que essa moça está lendo?  




5ª leitura do ano: Madame Bovary, Gustave Flaubert

29 01 2026

 

 

Finalmente li Madame Bovary, de Gustave Flaubert, (1857), um clássico, considerado uma das três obras mais influentes na história literária do mundo ocidental.  As outras são: Don Quixote, de Cervantes (1605) por ser considerado o primeiro romance moderno, e Ulisses de James Joyce (1922) por ter revolucionado a narrativa, incluindo o fluxo de consciência, entre outras novidades.  Nesse meio, Madame Bovary se salienta na literatura ao introduzir o realismo na narrativa literária; pela excelência na precisão das palavras; por trazer pela primeira vez uma anti-heroína, entre outros “primeiros” que esse romance introduz, incluindo a crítica social. Essa era uma falha na minha formação que me orgulho de tê-la superado. Confesso que estava um tanto intimidada ao abrir esse livro.  Tanto se fala dele.  Foi fonte de inspiração para Ana Karênina, de Tolstói publicado vinte anos mais tarde, e foi fonte de inspiração para um grande número de escritores.  Mas depois de ler O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, há uns poucos anos, que me encantou, percebi que precisava a qualquer custo me dedicar a Madame Bovary.  A conta havia chegado. Fui auxiliada também pelo grupo de leitura Papalivros que escolheu essa como primeira leitura de 2026.

Não consigo imaginar algo que eu possa dizer que já não tenha sido dito sobre essa obra. Surpreendente  foi a mágica da linguagem encontrada, momentos de pura poesia em prosa, descrições de ambientes, de cenários que conseguem acender a imaginação do leitor sem esforço.  Flaubert trabalhou nesse livro por cinco anos, e se sente.  Seus personagens são tridimensionais, inteiros, cheios das idiossincrasias naturais dos seres humanos.  São desprezíveis, vis, mesquinhos, indiferentes, cobiçosos, idiotas, gananciosos, tolos, parvos, simplórios, interesseiros.  Mas ninguém supera Ema Bovary. Fui instigada a detestá-la. Não suscitou em mim, qualquer simpatia. Viveu e  morreu como quis, numa volúpia de quereres sem fim, ousadia sem limites, sôfrega por satisfazer-se e só a si mesma. Mesmo assim vale a pena conhecê-la.  

Flaubert e sua casa editorial La Revue de Paris foram processados por essa publicação por ofender a moral e os bons costumes. O julgamento criou grande curiosidade no público e o romance se tornou um best-seller imediatamente após ganharam a causa.  Publicado em 1857, mas passado nos anos de 1830, durante o reinado de Napoleão III, Flaubert usa o contexto histórico para retratar aquilo que não aprovava naquele reinado.

É uma história completa.  Retrata os locais, a era, os hábitos e costumes, e seus personagens são ricos, completos, com anseios e desejos, faltas morais, ciúmes, indiferenças e cobiça, tal qual o mundo que nos rodeia.  A leitura é vagarosa para ser, de fato, saboreada. É preciso imersão.  Mas o resultado dessa experiência deve ser para sempre.  Fiquei com vontade de reler quase imediatamente.  Provavelmente o farei muitas vezes. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Da minha mesa de trabalho…

15 01 2026

 

Reorganizar o escritório não é fácil.  E nem é só organizar livros.  Em geral organizamos de quebra,  papelada, gavetas da escrivaninha, dos armários, dos móveis à nossa volta. Minha cortina, ainda não chegou.  Espero há um mês.  Trabalhar com o computador virado para o janelão requer o uso de um boné, cuja aba quebra a luz entrando.  O caos ainda não foi domado.

Tenho três gavetas com fotos da família. Não só da minha geração.  Tenho fotos de meus bisavós, sei quem são, seus nomes, de onde eram.  Meus pais tiveram cuidado de nos informar sobre isso.  Acabei com as fotos, porque minha mãe morou comigo nos últimos anos de vida.  Herdei a documentação iconográfica da família.  E ontem consegui uma companhia que irá multiplicar as fotos, para que cada sobrinho tenha fotos de todos com seus rótulos, quem é quem, onde estavam, de onde vieram. Esse será parte do meu legado.

Esse tempo todo, selecionando fotos, organizando a família por lado de mãe e pai, trouxe reflexões que provavelmente aparecerão em escritos futuros, mesmo que de forma oblíqua. Com essa tradição familiar,  eu me lembrei do choque que ainda tenho, toda vez que vou a uma feira de coisas antigas, como na Praça Quinze de Novembro aqui no Rio de Janeiro, ou na Praça Santos Dumont e vejo dezenas de fotos, abandonadas por famílias que se desfizeram dos bens de algum familiar já falecido. Não ligar para fotos de antepassados que não conhecemos, é comum.  Não é  fenômeno brasileiro.  O mesmo acontece no exterior, no mercado das pulgas parisiense, na feira de usados da Praça das Armas em Madri, nas feiras americanas, nos leilões de espólios nos EUA. É comportamento mundial.  A minha régua é que não é a mesma. Talvez seja a historiadora em mim.

 

Esta família, pai, mãe e filhos, não conheci.  Mas o senhor é um antepassado.  Foto de 1912.  

 

Eu pouco sabia sobre essa foto. Hoje sei exatamente quem são, onde moraram, quando morreram. O senhor, eu sabia quem era. Mas a esposa dele, a informação que tinha era: “a irmã do Eusébio”.  Quem era Eusébio?  Como se chamava sua irmã? Fui atrás das respostas.  Hoje sei o nome de todos e sua saga. Preenchi alguns espaços em branco e com imaginação completei outros. Sei, por exemplo, que os três filhos, aí na foto, morreram jovens.  Todos três de gripe espanhola, em anos diferentes. Morreram em Liège, na Bélgica.  Esses dados, foram registrados num livro de preces, notas nas margens, numa caligrafia fininha, letrada.  Há a listagem da temperatura das febres de cada paciente, e a data de sua morte. Triste.  Devem ter sofrido muito. Os pais voltaram para o Brasil depois da tragédia, uma década após se mudarem para a Europa.  Ele, que havia sido imigrante português, morreu no Brasil em 1944. 

Ando perdida nesse passado que não conheci, mas que de alguma maneira é meu. Um momento ímpar, de pausa e reflexão.  Nada mal para um início de ano. 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2026.

 

 

 





Primeira leitura completa de 2026

1 01 2026

Tenho muitas leituras em meio de caminho, livros que estou lendo simultaneamente. Mas esse comecei hoje de manhã. Não é grande vantagem que um livro de 94 páginas tenha sido lido em um dia. Mas eu o recebi quando cheguei em casa de Rio das Ostras e hoje abri para ver exatamente o que era. Não resisti. Li inteirinho.

Gosto de Somerset Maugham, um autor que conheci lendo Servidão Humana, livro um pouco maduro para os meus primeiros anos na adolescência quando estava febril para ler os grandes autores. Era um volume emprestado da Biblioteca da Gávea, que eu frequentava assiduamente desde criança.

Os livros e você: clássicos da literatura que podem ampliar a sua visão de mundo, é um grupo de três ensaios que Maugham escreveu para a revista americana Saturday Evening Post. Eles foram coletados e publicado na Inglaterra em 1940. Essa tradução é a primeira no Brasil, feita por Pablo Guimarães, publicada em Piraquara, Editora Vimara: 2024.

Fim de ano, para quem lê, é sempre recheado de listas de livros que ainda não lemos, que queremos ler. E esse livro me pareceu perfeito para que eu selecionasse algo que escapasse dos batidos e lidos russos, e clássicos mais modernos. Sendo um escritor inglês a maioria dos livros mencionados como sugestão para leitura são ingleses. Mas há também russos, franceses e até alemães.

A parte mais charmosa do livro são os comentários que Maugham faz, alguns bastante cortantes, sobre obras constantemente citadas como imperdíveis. Mais que isso, no entanto, é sua postura que, para o leitor comum, livros devem ser sempre agradáveis de ler. Se não o forem, deixe de lado.

Consegui deliciosas citações sobre leituras, que eventualmente, aos poucos colocarei aqui no blog, como costumo fazer. Somerset Maugham faleceu em 1965. Suas sugestões não incluem os escritores mais recentes, nem mesmo muitos dos que já eram conhecidos na primeira metade do século XX. Listas sempre refletem o leitor que as fez. A leitura desse livro foi uma conversa com um dos mais interessantes autores ingleses da primeira metade do século passado.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

PS: Sim, anotei alguns nomes. E estarei procurando por suas obras.





Feliz 2026!

1 01 2026

Japan House, São Paulo, SP.  Foto: Ladyce West

 

Estou de volta.  Não, não me mudei para São Paulo, apesar dela ser uma das minhas cidades favoritas no mundo!  Está atrás de Londres, é verdade, mas é muito boa! 

Dadas as frustrações com obras aqui em casa, ainda não acabadas, resolvi chutar o balde e fui para Rio das Ostras na costa fluminense, passar alguns dias, repensar a vida, o blog, a escrita, a poesia, tudo.  Tive tempo para pensar.  Fora a pele queimada, mesmo na sombra e com protetor solar, que não estava planejada, tudo foi excelente.  Depois de 17 anos completos de blog, este foi o primeiro longo período sem postagens.  Eu me devia. Pelo menos corpo e alma pensam assim.

É claro que desejo a todos vocês sábias decisões para o ano que se inicia.  Que seus sonhos e decisões sejam compatíveis com a realidade, para que no próximo dezembro a lista de realizações, ou conquistas, seja bem maior do que os projetos abandonados ao longo do ano.

Agradeço também aos inúmeros seguidores que me desejaram um Feliz Ano Novo, às centenas de pessoas que comentaram nesse dezembro sobre postagens antigas, e sobretudo aos milhares de assinantes e visitantes desse nosso cantinho de arte, literatura e outras coisas mais.

 

Feliz 2026!





Flash!

3 12 2025
O escritor Antônio Olinto, em criança.





Filhotes fofos: arara azul

6 11 2025

Um filhote de araras azuis nasceu no Zoológico de Curitiba há um ano.  Aos quatro meses a ararinha já estava quase do tamanho do pais.  Veja um retrato dela aqui embaixo.

 

 





Flash!

24 10 2025
Manuel Bandeira dedilha um violão.