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Alexandre lendo um livro, 1946
Zinaida Serebriacova ( Ucrânia, 1884- Paris, 1967)
óleo sobre tela
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“Um homem pode muito bem esperar ficar mais forte por sempre comer e mais sábio por sempre ler”.
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Jeremy Collier
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Alexandre lendo um livro, 1946
Zinaida Serebriacova ( Ucrânia, 1884- Paris, 1967)
óleo sobre tela
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Jeremy Collier
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Natureza Morta com livros
Judith Gibson ( Reino Unido, comtemporânea)
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Gualter Cruz
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Quando eu morrer te deixarei, irmão,
Os livros todos que eu em vida amei,
Livros que ao lê-los eu sorri, chorei,
Sentindo-me pulsar o coração!
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Queira guardar, irmão, este tesouro
Porque era tudo que na vida eu tinha,
O bem e o mal querer da minha vida,
A minha arca a transbordar de ouro!
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São folhas gastas, lidas e relidas,
Que sempre me falaram bem à alma
E me trouxeram, pouco a pouco, a calma,
Páginas belas, ricas, coloridas!
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Em cada autor eu tive um grande amigo,
Emoções belas, sentimentos novos.
Senti bater o coração dos povos
Como a este coração que está comigo!
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Quando eu morrer, irmão, tu nunca os venda,
Embora não os queira como eu quero,
Pois são no mundo aquilo que eu venero,
A mais formosa, a mais ditosa prenda!
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Tem pois, por eles, paternal cuidado,
E de uma mãe puríssima afeição;
Cuida bem deles, meu querido irmão,
Pois eles são o meu tesouro amado!
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Em cada livro ficará meu ser,
Com um suspiro eterno de saudade,
Que cortará sentido a eternidade
Quando eu deixar na terra de sofrer!
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E cada folha que rasgada for,
Qual um punhal o peito me ferindo,
Para minh’alma sofrimento infindo,
Reavivará no espaço a minha dor!
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Tem mui cuidado! Ó, não os rasgues, irmão!
E nem sequer os vendas , por favor!
Seria por demais a minha dor
Vê-los correr ao léu, de mão em mão!
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Quando leres, um dia, com carinho,
As mesmas linhas que eu em vida lia,
Grande no espaço, então, minha alegria,
E bem mais claro, pois, o meu caminho!
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Quero levar daqui mil esperanças!
Quero deixar nos livros que te dei,
Nas páginas que em vida tanto amei,
A mais rica, talvez, dentre as heranças!
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Em: Poesias completas, Gualter Cruz, Petrópolis, Editora do autor: 1983.
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Gualter Germano Chaves da Cruz (Petrópolis, RJ, 1921, Rio de Janeiro, RJ 1978)
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Duas amigas, c. 1930
Georgina de Albuquerque ( Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela, 108 x 98 cm
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Georgina Moura Andrade de Albuquerque nasceu em Taubaté, São Paulo em 1885. Ainda jovem estudou em Taubaté com o pintor italiano Rosalbino Santoro. Entrou para a Escola Nacional de Belas Artes em 1904, onde estudou com Henrique Bernardelli. Em 1906 casou-se com o pintor Lucílio de Albuquerque e viajou com ele, que ganhara o prêmio de viagem, à Europa. Passaram cinco anos na França e viajando através do continente. Aproveitou para estudar na Escola de Belas Artes de Paris e na Academia Julian. O casal retornou ao Brasil em 1911. Logo, Georgina começou a ensinar na Escola Nacional de Belas Artes de onde foi diretora a partir de 1950. Morreu no Rio de Janeiro em 1962.
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Cândido Portinari ( Brasil, 1903-1962)
óleo sobre tela
Coleção Particular, São Paulo
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Heitor Villa-Lobos
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Ilustração de uma outra fábula da coletânea de Perry.–
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A raposa viu que vinha vindo um cavalo carregado com cabaças cheias de mel de abelhas. Mais que depressa deitou-se no meio da estrada, fingindo-se de morta. O tangerino parou e achou o bicho muito bonito. Não tendo tempo de esfolar, para aproveitar o pelo, sacudiu a raposa no meio da carga e seguiu viagem. Vai a raposa e se farta de mel, pulando depois para o chão e ganhou o mato. O homem ficou furioso mas não viu mais nem a sombra da raposa.
Dias depois a raposa encontrou a onça que a achou gorda e lustrosa. Perguntou se ela descobrira algum galinheiro.
— Qual galinheiro, camarada onça, minha gordura é de mel de abelha que dá força e coragem.
— Onde você encontrou tanto mel?
— Ora, nas cargas dos camboeiros que passam pela estrada.
— Quer me levar, camarada raposa?
— Com todo gosto. Vamos indo…
Levou a onça para a estrada, depois de muita volta, e ensinou a conversa. A onça deitou-se e ficou estirada, dura, fazendo que estava morta. Quando o comboeiro avistou aquele bichão estendido na areia, ficou com os cabelos em pé e puxou logo pela sua garrucha. Não vendo a onça bulir, aproximou-se, cutucou-a com o cabo do chicote e gritou para os companheiros:
— Eh lá! Uma onça morta! Vamos tirar o couro.
Meteram a faca com vontade na onça que, meio esfolada, ganhou os matos, doida de raiva com a arteirice da raposa.
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Em: Contos tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967
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Como Câmara Cascudo lembra essa fábula é muito conhecida na Europa, tanto na península ibérica como no norte da Europa, como na Rússia. A versão mais popular no entanto é da raposa e do lobo. A raposa faz o mesmo, finge-se de morta e é jogada numa carroça de peixes. Farta-se com os peixes… Daí por diante segue exatamente igual só que no lugar da onça brasileira, temos o lobo, que imita as ações da raposa e se dá mal.
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Vladimir Dunjic (Sérvia, 1957)
óleo sobre tela
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Anatole France
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Rosas na caixa, cartão postal.–
Disfarça as falhas teimosas
fazendo o bem nos caminhos;
quando a roseira tem rosas
ninguém percebe os espinhos!
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(Pedro Ornellas)
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[retrato de seu irmão Bill]
Susan Dorothea White (Austrália, 1941)
óleo sobre madeira
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Susan Dorothea White nasceu em Adelaide, Australia em 1941. Cresceu como a menina entre dois irmãos, no seio de uma família dotada de habilidades artísticas, ainda que como hobbies: mãe pintava em aquarelas, pai era fotográfo de fim-de-semana, avô também era aquarelista. Sua inclinação para as artes visuais foi bem vinda, em 1959, começou seus estudos na South Australian School of Art (SASA) em Adelaide. Sua primeira exposição veio em 1962. Morou na Alemanha no final da década de 70 .
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J. Roybal (Brasil, contemp)
acrílica sobre tela, 20 x 120 cm
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Amanhã, dia 5 de março, comemora-se o Dia Nacional da Música Clássica. Esta data foi escolhida por ser a data de nascimento de Heitor Villa-Lobos. Selecionei aqui um poema-prosa, uma crônica de Murilo Mendes para comemorar. –
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Murilo Mendes
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Nasceu para a grandeza e variedade do trabalho-festa; para fazer explodir os ritmos do, segundo Oswald de Andrade, grandioso e desordeiro povo brasileiro .
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Mais de uma vez fui com ele e outros, homens maduros e mulheres moças, tascar balão lá para os lados de Vila Isabel. Recordas-te, Dantinho, recordas-te, Di? Ai Jaime Ovalle e Evandro, ai Germaninha, Elsie! De charuto aceso nosso amigo integrava-se no brinquedo, ria, veloce, recebendo nas mãos, ao cair, enormes flores juninas de papel de seda. Saltava-lhe logo na ponta dos dedos uma melodia criança, dançante. Pois não escreveu Suzanne K. Langer que toda música é pura dança? Correndo Villa para o piano, recriava mais uma página do nosso cancioneiro: bem ambientada, dizia ele. Era na rua Dídimo e dispúnhamos então do farniente. Gostaríamos de perder muito mais tempo ainda. Ai Lucília!
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Villa desponta do morro e da rua, de um corta-jaca de Chquinha Gonzaga, um tango de Ernesto Nazareth, uma polca de Anacleto Medeiros. Mas quantos outros o instruem: Artidouro da Costa, Calut, Eduardo das Neves, Catulo Cearense. E os anônimos, os bem-aventurados anônimos fazedores de música não oficial fluindo perene do populário: chorões, seresteiros, sambistas, marchistas que se ocultam na dobra dos tempos legendários da Tia Ciata.
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Uai gente! A flauta, o cavaquinho, o violão. A modinha, a embolada, a serenata. O carioca passava a vida musicando. A cada um seu ritmo particular. Domina tudo a larga faixa do povo, uma categoria! Pelo menos uma categoria musical. Viva o carnaval que nos compensava do resto do ano inútil. Naquele tempo inexistia a máxima desafinação: a bomba atômica. Pessoas pré-industriais, quase prolongávamos a Arcádia, mal comparando.
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Villa segundo Murici emprega todos estes instumentos: o camisão, a tartaruga, o tambu, o tambi, o pio, o agogó. Ritmo nova. Percute. Sincopa.
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O Rudepoema. Uirapuru. As Cirandas. Mandu-Sarará. A época dos Choros. Aparecem os Parecis: Nozaniná. Canide-Ioune. Ualalocê. Kamalalô. As Bachianas, com a participação de Bach e outros, assimilados ao modo brasileiro, “ambientados”. As Três Marias: Alnitah. Anilam. Mintika. O Guia-Prático de se conhecer o Brasil. Os jogos da nossa infância: Gude. Diabolô. Bilboquê. Peteca. Pião. Futebol. Soldadinhos de chumbo. Jogo de bolas. Capoeiragem. Uma duas angolinhas. Vai abóbora! O cravo brigou com a rosa. Carneirinho carneirão. A maré encheu. Na Bahia tem. Vamos atrás da serra calunga. Vamos ver a mula-sem-cabeça briga de galos briga de navalhas a lua dourada sua benção.
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Tudo o que nós nascemos, crescemos, cantamos, amamos, dançamos, respiramos, comemos, passa pelas ruas de Villa-Lobos. Pelas ruas de Villa-Lobos passa o passo do nosso desafinado, atormentado Brasil. Todo mundo passa. Quem dera que “bem ambientado” e sem Bomba.
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Em: Transistor: antologia de prosa, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980
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Murilo Rodrigues Mendes (1901 —1975) poeta, cronista, jornalista, professor. Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais. Mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro em 1920. Formou-se em medicina. Percorreu o mundo divulgando a cultura brasileira. Na década de 1950 estabeleceu-se na Itália onde ensinou literatura brasileira na Universidade de Pisa. Faleceu em Lisboa em 1975.
Obra:
Poemas, 1930
Bumba-meu-poeta, 1930
História do Brasil, 1933
Tempo e eternidade – com Jorge de Lima, 1935
A poesia em pânico, 1937
O Visionário, 1941
As metamorfoses, 1944
Mundo enigma, 1945
O discípulo de Emaús, 1945
Poesia liberdade, 1947
Janela do caos, [França] 1949
Contemplação de Ouro Preto, 1954
Office humain [França], 1954
Poesias [Obra completa até esta data], 1959
Tempo espanhol [Portugal], 1959
Siciliana [Itália], 1959
Poesie [Itália], 1961
Finestra del caos [Itália], 1961
Siete poemas inéditos [Espanha], 1961
Poemas [Espanha],1962
Antologia Poética [Portugal], 1964
Le Metamorfosi [Itália], 1964
Italianíssima (7 Murilogrami) [Itália],1965
Poemas inéditos de Murilo Mendes [Espanha], 1965
A idade do serrote, 1968
Convergência, 1970
Poesia libertá [Itália], 1971
Poliedro, 1972
Retratos-relâmpagos, 1ª série, 1973
Antologia Poética, 1976
Poesia Completa e Prosa, 1994
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Jean Pierre Cassigneul (França, 1935)
óleo sobre tela, 196x130cm
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William Styron