Palavras para lembrar — Jeremy Collier

6 03 2012

Alexandre lendo um livro, 1946

Zinaida Serebriacova ( Ucrânia, 1884- Paris, 1967)

óleo sobre tela

“Um homem pode muito bem esperar ficar mais forte por sempre comer e mais sábio por sempre ler”.

Jeremy Collier





Herança, poema de Gualter Cruz

6 03 2012

Natureza Morta com livros

Judith Gibson ( Reino Unido, comtemporânea)

Herança

Gualter Cruz

A Marcos Portugal

Quando eu morrer te deixarei, irmão,

Os livros todos que eu em vida amei,

Livros que ao lê-los eu sorri, chorei,

Sentindo-me pulsar o coração!

Queira guardar, irmão, este tesouro

Porque era tudo que na vida eu tinha,

O bem e o mal querer da minha vida,

A minha arca a transbordar de ouro!

São folhas gastas, lidas e relidas,

Que sempre me falaram bem à alma

E me trouxeram, pouco a pouco, a calma,

Páginas belas, ricas, coloridas!

Em cada autor eu tive um grande amigo,

Emoções belas, sentimentos novos.

Senti bater o coração dos povos

Como a este coração que está comigo!

Quando eu morrer, irmão, tu nunca os venda,

Embora não os queira como eu quero,

Pois são no mundo aquilo que eu venero,

A mais formosa, a mais ditosa prenda!

Tem pois, por eles, paternal cuidado,

E de uma mãe puríssima afeição;

Cuida bem deles, meu querido irmão,

Pois eles são o meu tesouro amado!

Em cada livro ficará meu ser,

Com um suspiro eterno de saudade,

Que cortará sentido a eternidade

Quando eu deixar na terra de sofrer!

E cada folha que rasgada for,

Qual um punhal o peito me ferindo,

Para minh’alma sofrimento infindo,

Reavivará no espaço a minha dor!

Tem mui cuidado! Ó, não os rasgues, irmão!

E nem sequer os vendas , por favor!

Seria por demais a minha dor

Vê-los correr ao léu, de mão em mão!

Quando leres, um dia, com carinho,

As mesmas linhas que eu em vida lia,

Grande no espaço, então, minha alegria,

E bem mais claro, pois, o meu caminho!

Quero levar daqui mil esperanças!

Quero deixar nos livros que te dei,

Nas páginas que em vida tanto amei,

A mais rica, talvez, dentre as heranças!

Em: Poesias completas, Gualter Cruz, Petrópolis, Editora do autor: 1983.

Gualter Germano Chaves da Cruz (Petrópolis, RJ, 1921, Rio de Janeiro, RJ 1978)





Imagem de leitura — Georgina de Albuquerque

5 03 2012

Duas amigas, c. 1930

Georgina de Albuquerque ( Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 108 x 98 cm

Georgina Moura Andrade de Albuquerque nasceu em Taubaté, São Paulo em 1885.  Ainda jovem estudou em Taubaté com o pintor italiano Rosalbino Santoro. Entrou para a Escola Nacional de Belas Artes em 1904, onde estudou com Henrique Bernardelli.  Em 1906 casou-se com o pintor Lucílio de Albuquerque e viajou com ele, que ganhara o prêmio de viagem, à Europa.  Passaram cinco anos na França e viajando através do continente.  Aproveitou para estudar na Escola de Belas Artes de Paris e na Academia Julian. O casal retornou ao Brasil em 1911.  Logo, Georgina começou a ensinar na Escola Nacional de Belas Artes de onde foi diretora a partir de 1950.  Morreu no Rio de Janeiro em 1962.





Auto-definição de Villa-Lobos no dia do seu 125º aniversário!

5 03 2012

Banda de música, 1956

Cândido Portinari ( Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela

Coleção Particular, São Paulo

“Sim sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que transporto instintivamente para tudo que escrevo”.

Heitor Villa-Lobos





A raposa furta e a onça paga, fábula brasileira, texto de Câmara Cascudo

5 03 2012

Ilustração de uma outra fábula da coletânea de Perry.

A raposa furta e a onça paga

A raposa viu que vinha vindo um cavalo carregado com cabaças cheias de mel de abelhas.  Mais que depressa deitou-se no meio da estrada, fingindo-se de morta.  O tangerino parou e achou o bicho muito bonito.  Não tendo tempo de esfolar, para aproveitar o pelo, sacudiu a raposa no meio da carga e seguiu viagem.  Vai a raposa e se farta de mel, pulando depois para o chão e ganhou o mato.  O homem ficou furioso mas não viu mais nem a sombra da raposa.

Dias depois a raposa encontrou a onça que a achou gorda e lustrosa.  Perguntou se ela descobrira algum galinheiro.

— Qual galinheiro, camarada onça, minha gordura é de mel de abelha que dá força e coragem.

— Onde você encontrou tanto mel?

— Ora, nas cargas dos camboeiros que passam pela estrada.

— Quer me levar, camarada raposa?

— Com todo gosto.  Vamos indo…

Levou a onça para a estrada, depois de muita volta, e ensinou a conversa.  A onça deitou-se e ficou estirada, dura, fazendo que estava morta.  Quando o comboeiro avistou aquele bichão estendido na areia, ficou com os cabelos em pé e puxou logo pela sua garrucha.  Não vendo a onça bulir, aproximou-se, cutucou-a com o cabo do chicote e gritou para os companheiros:

— Eh lá!  Uma onça morta!  Vamos tirar o couro.

Meteram a faca com vontade na onça que, meio esfolada, ganhou os matos, doida de raiva com a arteirice da raposa.

Em: Contos tradicionais do Brasil (folclore), Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967

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Como Câmara Cascudo lembra essa fábula é muito conhecida na Europa, tanto na península ibérica como no norte da Europa, como na Rússia.  A versão mais popular no entanto é da raposa e do lobo.  A raposa faz o mesmo, finge-se de morta e é jogada numa carroça de peixes.  Farta-se com os peixes…  Daí por diante segue exatamente igual só que no lugar da onça brasileira, temos o lobo, que imita as ações da raposa e se dá mal.





Palavras para lembrar — Anatole France

5 03 2012

A andorinha, s/d

Vladimir Dunjic (Sérvia, 1957)

óleo sobre tela

www.vladimirdunjic.com

“Nunca empreste livros, porque ninguém nunca os devolve; os únicos livros que tenho na minha biblioteca são os que outras pessoas me emprestaram”.

Anatole France





Quadrinha com a lição das rosas

5 03 2012

Rosas na caixa, cartão postal.

Disfarça as falhas teimosas

fazendo o bem nos caminhos;

quando a roseira tem rosas

ninguém percebe os espinhos!

(Pedro Ornellas)





Imagem de leitura — Susan Dorothea White

4 03 2012

Menino lendo, 1961

[retrato de seu irmão Bill]

Susan Dorothea White (Austrália, 1941)

óleo sobre madeira

www.susandwhite.com.au

Susan Dorothea White nasceu em Adelaide, Australia em 1941.  Cresceu como a menina entre dois irmãos, no seio de uma família dotada de habilidades artísticas, ainda que como hobbies: mãe pintava em aquarelas, pai era fotográfo de fim-de-semana, avô também era aquarelista.  Sua inclinação para as artes visuais foi bem vinda, em 1959, começou seus estudos na South Australian School of Art (SASA) em Adelaide.  Sua primeira exposição veio em 1962. Morou na Alemanha no final da década de 70 .





Villa-Lobos, texto de Murilo Mendes

4 03 2012

Banda, s/d

J. Roybal (Brasil, contemp)

acrílica sobre tela, 20 x 120 cm

Amanhã, dia 5 de março, comemora-se o Dia Nacional da Música Clássica.  Esta data foi escolhida por ser a data de nascimento de Heitor Villa-Lobos.  Selecionei aqui um poema-prosa, uma crônica de Murilo Mendes para comemorar.

Villa-Lobos

Murilo Mendes

Nasceu para a grandeza e variedade do trabalho-festa; para fazer explodir os ritmos do, segundo Oswald de Andrade, grandioso e desordeiro povo brasileiro .

*

Mais de uma vez fui com ele e outros, homens maduros e mulheres moças, tascar balão lá para os lados de Vila Isabel. Recordas-te, Dantinho, recordas-te, Di?  Ai Jaime Ovalle e Evandro, ai Germaninha, Elsie!   De charuto aceso nosso amigo integrava-se no brinquedo, ria, veloce, recebendo nas mãos, ao cair, enormes flores  juninas de papel  de seda.  Saltava-lhe logo na ponta dos dedos uma melodia criança, dançante.  Pois não escreveu Suzanne K. Langer que toda música é pura dança?  Correndo Villa para o piano, recriava mais uma página do nosso cancioneiro: bem ambientada, dizia ele.  Era na rua Dídimo e dispúnhamos então do farniente.  Gostaríamos de perder muito mais tempo ainda.  Ai Lucília!

*

Villa desponta do morro e da rua, de um corta-jaca de Chquinha Gonzaga, um tango de Ernesto Nazareth, uma polca de Anacleto Medeiros.  Mas quantos outros o instruem: Artidouro da Costa, Calut, Eduardo das Neves, Catulo Cearense.  E os anônimos, os bem-aventurados anônimos fazedores de música não oficial fluindo perene do populário: chorões, seresteiros, sambistas, marchistas que se ocultam na dobra dos tempos legendários da Tia Ciata.

*

Uai gente!  A flauta, o cavaquinho, o violão.  A modinha, a embolada, a serenata.  O carioca passava a vida musicando.  A cada um seu ritmo particular.  Domina tudo a larga faixa do povo, uma categoria!  Pelo menos uma categoria musical.  Viva o carnaval que nos compensava do resto do ano inútil.  Naquele tempo inexistia a máxima desafinação: a bomba atômica.  Pessoas pré-industriais, quase prolongávamos a Arcádia, mal comparando.

*

Villa segundo Murici emprega todos estes instumentos: o camisão, a tartaruga, o tambu, o tambi, o pio, o agogó.  Ritmo nova.  Percute.  Sincopa.

*

O Rudepoema.  Uirapuru. As Cirandas. Mandu-Sarará.  A época dos Choros.  Aparecem os Parecis: Nozaniná. Canide-Ioune. Ualalocê. Kamalalô. As Bachianas, com a participação de Bach e outros, assimilados ao modo brasileiro, “ambientados”. As Três Marias: Alnitah. Anilam. Mintika.  O Guia-Prático de se conhecer o Brasil.  Os jogos da nossa infância: Gude. Diabolô. Bilboquê. Peteca. Pião. Futebol. Soldadinhos de chumbo.  Jogo de bolas.  Capoeiragem. Uma duas angolinhas.  Vai abóbora! O cravo brigou com a rosa. Carneirinho carneirão. A maré encheu. Na Bahia tem. Vamos atrás da serra calunga.  Vamos ver a mula-sem-cabeça briga de galos briga de navalhas a lua dourada sua benção.

*

Tudo o que nós nascemos, crescemos, cantamos, amamos, dançamos, respiramos, comemos, passa pelas ruas de Villa-Lobos. Pelas ruas de Villa-Lobos passa o passo do nosso desafinado, atormentado Brasil.  Todo mundo passa. Quem dera que “bem ambientado” e sem Bomba.

Em:  Transistor: antologia de prosa, Murilo Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1980

Murilo Rodrigues Mendes (1901 —1975) poeta, cronista, jornalista, professor.  Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais.  Mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro em 1920.  Formou-se em medicina.   Percorreu o mundo divulgando a cultura brasileira.  Na década de 1950 estabeleceu-se na Itália onde ensinou literatura brasileira na Universidade de Pisa.  Faleceu em Lisboa em 1975.

Obra:

Poemas, 1930

Bumba-meu-poeta, 1930

História do Brasil, 1933

Tempo e eternidade – com Jorge de Lima, 1935

A poesia em pânico, 1937

O Visionário, 1941

As metamorfoses, 1944

Mundo enigma, 1945

O discípulo de Emaús, 1945

Poesia liberdade, 1947

Janela do caos, [França] 1949

Contemplação de Ouro Preto, 1954

Office humain [França], 1954

Poesias [Obra completa até esta data], 1959

Tempo espanhol [Portugal], 1959

Siciliana [Itália], 1959

Poesie [Itália], 1961

Finestra del caos [Itália], 1961

Siete poemas inéditos [Espanha], 1961

Poemas [Espanha],1962

Antologia Poética [Portugal], 1964

Le Metamorfosi [Itália], 1964

Italianíssima (7 Murilogrami) [Itália],1965

Poemas inéditos de Murilo Mendes [Espanha], 1965

A idade do serrote, 1968

Convergência, 1970

Poesia libertá [Itália], 1971

Poliedro, 1972

Retratos-relâmpagos, 1ª série, 1973

Antologia Poética, 1976

Poesia Completa e Prosa, 1994





Palavras para lembrar — William Styron

4 03 2012

Diane, s/d

Jean Pierre Cassigneul (França, 1935)

óleo sobre tela, 196x130cm

“Um bom livro deve deixá-lo … um pouco cansado ao final.  Você vive diversas vidas enquanto o lê.”

William Styron