Uma história, poesia de Menotti del Picchia

29 04 2015

 

 

melancholyMelancolia, 1894

Edward Munch (Noruega, 1863-1944)

óleo sobre tela, 81 x 100 cm

Rasmus Meyer Collection

The Bergen Art Museum

 

 

Uma história

 

Menotti del Picchia

 

História simples: ela rica e bela,

eu moço e pobre… Fados bem diversos!

Ela dona de dois olhos bem perversos

e eu namorado dos dois olhos dela.

 

Gostava tanto vê-la na janela

com seus dois olhos na tristeza imersos…

Tinha eu vinte anos, rabiscava versos,

era moço, era alegre e tagarela.

 

— Porque essa moça é assim tão merencórea?

(Num soneto eu chamara-a: D. Doente…)

Ai! amava outro e de outro era querida!

 

Casou-se e acabou a minha história,

E desde então, ela ficou contente,

e eu fiquei triste para toda vida…

 

 

Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 56.





Soneto de abril, Lêdo Ivo

22 04 2015

 

Konstantin Makovsky (Russian, 1839-1915) - Portrait of Julia Makovsky (The Artist's Wife), 1881Retrato de Julia Makovsky, 1881

(Esposa do pintor)

Konstantin Makovsky (Rússia, 1839-1915)

óleo sobre tela

 

 

Soneto de abril

 

Lêdo Ivo

 

 

Agora que é abril, e o mar se ausenta,

secando-se em si mesmo como um pranto,

vejo que o amor que te dedico aumenta

seguindo a trilha de meu próprio espanto.

 

Em mim, o teu espírito apresenta

todas as sugestões de um doce encanto

que em minha fonte não se dessedenta

por não ser fonte d’água, mas do canto.

 

Agora que é abril, e vão morrer

as formosas canções dos outros meses,

assim te quero, mesmo que te escondas:

 

amar-te uma só vez todas as vezes

em que sou carne e gesto, e fenecer

como uma voz chamada pelas ondas.

 

Em: Central poética, Lêdo Ivo,  Rio de Janeiro, Nova Aguillar: 1976, p. 47.





Trova da Inconfidência Mineira

18 04 2015

 

 

LUIZ DE ALMEIDA JÚNIOR (1894-1970)Casario e igrejas em Ouro Preto-MG,1963,ost, 50 X 60Casario e igrejas em Ouro Preto, MG, 1963

Luiz de Almeida Júnior (Brasil, 1894-1970)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

 

 

Delatando os insurgentes,
Joaquim Silvério, o vilão,
não traiu só Tiradentes,
traiu toda uma Nação.

 

(Campos Sales)





Ciranda de mariposas, poesia de Henriqueta Lisboa

14 04 2015

 

 

insetos se reunem, Hazel Frazee, Child Life 1927-03Insetos se reúnem, ilustração de Hazel Frazee, para a capa da Revista Child’s Life, março de 1927.

 

 

 

Ciranda de Mariposas

 

Henriqueta Lisboa

 

Vamos todos cirandar
ciranda de mariposas.
Mariposas na vidraça
são jóias, são brincos de ouro.

Ai! poeira de ouro translúcida
bailando em torno da lâmpada.
Ai! fulgurantes espelhos
refletindo asas que dançam.

Estrelas são mariposas
(faz tanto frio na rua!)
batem asas de esperança
contra as vidraças da lua.





Trova do passarinho

12 04 2015
passarinho na janela.Ilustração de Jimmy Liao.

Passarinho, o teu encanto
é teu canto de alegria;
ai de mim que quando canto,
canto só por nostalgia…

(Izo Goldman)





O Cântico da Terra , poesia de Cora Coralina

9 04 2015

 

 

antônio ferigno,Lide diária - arredores de São Paulo OST,27 x 42 Circa de 1895Lide diária, arredores de São Paulo, c. 1895

Antônio Ferrigno (Itália, 1863-1940)

óleo sobre tela, 27 x 42 cm

 

 

O Cântico da Terra

 

Cora Coralina

 

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

 

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

 

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

 

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

 

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

 

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

 





Quadrinha do andar na rua

8 04 2015

 

rua, Patópolis, calçada, homem lendo, crianças brincando,Rua de Patópolis, ilustração Walt Disney.

 

 

Quem atravessa a rua,

Lendo revista ou jornal,

Quando não encontra a morte,

Vai parar no hospital.

 

 

Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965





Trova do bebê dormindo

25 03 2015

 

bebe dormindo, Maria Pia Franzoni (1902 – , Italian)Bebê dormindo, ilustração de Maria Pia Franzoni.

 

Não há música mais bela

do que a canção de ninar:

a mãe canta em voz singela,

e o bebê põe-se a sonhar!

 

(Alba Helena Corrêa)





O enamorado das rosas, poesia de Olegário Mariano

23 03 2015

 

 

66f8f6f784f6376200145e95a190d4baDesconheço a autoria dessa ilustração.

 

O enamorado das rosas

Olegário Mariano

 

 

Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,

Ouvindo a água da fonte que murmura,

Rego as minhas roseiras com ternura

Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.

 

Cada uma tem um suave movimento

Quando a chamar minha atenção procura.

E mal desabrochada na espessura,

Mandam-me um gesto de agradecimento.

 

Se cultivei amores às mancheias,

Culpa não cabe às minhas mãos piedosas

Que ele passassem para mãos alheias.

 

Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,

Alimento a ilusão de que essas rosas,

Ao menos essas rosas, sejam minhas.

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 2 (1932-1955), p. 597.





Soneto à lua, Augusto Frederico Schmidt

20 03 2015

 

 

luar, moonlight-and-you, Gene Pressler (1893 – unknown)Ilustração de Gene Presler (EUA, 1893-?)

 

 

 

Soneto à lua

 

Augusto Frederico Schmidt

 

 

Vens chegando de longe, tão cansada,

Tão frágil e tão pálida vens vindo,

Que pareces, ó doce Lua amiga,

Vir impelida pelo vento leve.

 

Pelo vento gentil que está soprando

Tu pareces tangida, como um barco

Com as suas louras velas enfunadas,

E vens a navegar nos altos mares…

 

Atravessando campos e cidades,

Quantas artes e sortes não fizeste,

Ó triste Lua dos enamorados!

 

Quantas flores e virgens distraídas

Não seduziste para a estranha viagem

Por esse mar de amor, cheio de abismos!

 

 

Em: Eu te direi as grandes palavras – seleção poética, Augusto Frederico Schmidt, Rio de Janeiro, José Aguilar:1975, p. 76