Ipolit Strâmbu (Romênia, 1871-1934)
óleo sobre cartão
“A ilusão que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.”
Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em O andaime, 1931.
Ipolit Strâmbu (Romênia, 1871-1934)
óleo sobre cartão
Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em O andaime, 1931.
Desconheço a autoria da ilustração.
É força que vem comigo
e no tempo não se esvai:
– Sempre que eu falo de amigo
eu me lembro de meu pai!
(Rodolpho Abbud)
David Azuz (Israel, 1942)
Serigrafia
Armindo Rodrigues
Aqui, no café, sabe-se tudo
e junta-se gente vinda
de todos os cantos do mundo.
Aqui, no café, esquece-se o tempo
e nascem ideias extraordinárias
até dos gestos irrefletidos.
Aqui, no café, sonho mais à vontade
que sou tudo o que sonho
e não tenho medo de nada.
Aqui, no café, todos sabem que sou
um homem como outro qualquer
que vem aqui todas as tardes.
Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 53
Cassiano Ricardo
E foi
tão grande o seu desespero
na encruzilhada
e a noite era tão escura
na floresta e nos campos,
que o próprio Currupira
ficou com pena
e lhe arranjou uma lanterna
de pirilampos.
“Pouco importa
que a noite seja escura,
porque foi apanhar água
no ribeirão
e quebrou seu pote branco
numa pedra do barranco
fazendo essa escuridão.
Vá por aqui, direitinho,
com esta lanterna
na mão, alumiando o caminho…
e você encontrará o que procura!”
E ele saiu pelo sertão,
procurando o sol da Terra
com uma lanterna de pirilampos
na mão.
Em: Martim Cererê, Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974, 13ª edição, p. 76.
Ilustração Liska Piloto.
Nesses teus braços aperta
aquele que queiras mais
a morte é tortura certa
a vida é gozo fugaz…
(Gilka Machado)
Stella Leonardos
Foi vime que nasce à toa
Debruçado na lagoa,
Colhido de manhã cedo.
Já viu garça azul que voa,
Já viu rastro de canoa,
Já escutou vento e arvoredo.
Por isso a fragrância boa,
Esse cheiro de segredo.
Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.11
Otto van Rees (Alemanha, 1884-1957)
óleo sobre tela
“Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
o dia.
Escuto, e passou…
Parece que foi só porque escutei
Que parou.”
Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em Leve, breve, suave.
José Maria Ribeiro (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 50 x 40 cm
Maria Thereza de Andrade Cunha
Desce,
sonora
como uma prece,
que canta e chora,
a voz do sino…
Seis horas. Voa
uma ave, a toa,
sem destino!…
Na serra em frente,
languidamente,
o sol desmaia.
A brisa bole
na folha mole
da samambaia,
que se despenca
da jarra.
Uma cigarra
chia, estridente.
Virente,
um pé de avenca,
num canto escuro
do muro,
dorme tranquilo.
Cricrila um grilo.
Rosas vermelhas,
despetaladas,
tombam cansadas.
Abelhas
voam ainda,
na tarde linda.
Das trepadeiras
pendem flores
de muitas cores.
Nuvens douradas
vão apressadas,
ligeiras…
Aonde irão?
— O vento as leva;
logo, na treva,
morrerão.
Nesse momento
o firmamento
é ouro e azul.
Taful,
a ramaria,
verde, se agita.
É o fim do dia.
Que luz bendita
nos alumia!
Depois, violeta
se há de tornar
a tarde
que arde.
— Pintor
pega a palheta,
por favor,
e vá copiar
na tela
a tarde bela!
…Tão colorida
que é a vida.
Em: É primavera… escuta., Maria Thereza de Andrade Cunha, Rio de Janeiro, 1949, p.65-67.
Madame Min joga um feitiço, ilustração Walt Disney.
Roseanna Murray
Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com sol,
a outra escreve com a lua.
Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.
Uma é séria, a outra sorri;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo,
a outra sonha acordada.
Em: Pera, Uva ou Maçã, Roseanna Murray, ed. Scipione: 2005
Guilherme Matter (Brasil, 1904-1978)
óleo sobre tela
Machado de Assis *
Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flores
Os cálices vermelhos.
Contemplando os pinheiros da montanha,
As flores tresloucadas
Zombam deles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.
Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneando ao vento
Os galhos pensativos.
Volvi o olhar ao sítio onde escutara
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flores.
*Este poema é a tradução de Machado de Assis do poema publicado em francês do poeta chinês Tin-Tun-Sing.
Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, selecionado por Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro:1961,p. 173.