Oceano, poema de Manuel Bandeira

2 04 2018

 

 

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Oceano

 

Manuel Bandeira

 

Olho a praia. A treva é densa.

Ulula o mar, que não vejo,

Naquela voz sem consolo,

Naquela tristeza imensa

Que há na voz do meu desejo.

 

E nesse tom sem consolo

Ouço a voz do meu destino:

Má sina que desconheço,

Vem vindo desde eu menino,

Cresce quanto em anos cresço.

 

– Voz de oceano que não vejo

Da praia do meu desejo…

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 30.





Trova da fotografia

18 02 2018

 

 

 

fotografop-iaa3_Mort_EngelIlustração de Mort Engel.

 

 

 

Teu retrato, enraivecida,

eu rasguei, sem embaraços…

mas a saudade, atrevida,

juntou de novo os pedaços!…

 

(Marilúcia Rezende)





Trova do acordar

6 02 2018

 

 

acordar John_Gannam, junho 1948, St Narys blankletsIlustração de John Gannam, 1948.

 

 

Entra o sol pela vidraça

e em teu leito empalidece,

deslumbrado pela graça

que teu corpo lhe oferece.

 

 

(Durval Mendonça)

 

 

 

 





“Lembrança do mundo antigo”, poema de Carlos Drummond de Andrade

5 02 2018

 

 

domingo claudio dantasDomingo

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela

 

 

Lembrança do mundo antigo

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Clara passeava no jardim com as crianças.

O céu era verde sobre o gramado,

a água era dourada sob as pontes,

outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,

o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,

a menina pisou na relva para pegar um pássaro.

O mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo ao redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu… Não era proibido!

A boca, o nariz, os olhos estavam abertos…

Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.

Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,

esperava cartas que custavam a chegar,

nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim pela manhã!!!

Havia jardins, havia manhãs, naquele tempo!!!

 

 

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 26-7





Trova do conselho do espelho

22 01 2018

 

 

espelho furball-once-upon-a-time Margaret Evans PriceIlustração Margaret Evans Price

 

 

Do espelho da tua sala,
procura o exemplo seguir:
ele reflete e não fala,
tu falas sem refletir…

 

(Carlos Guimarães)





Quadrinha da pesca

13 01 2018

 

pescaria de todos, John Newton Howitt (1885 – 1958)Pescaria, John Newton Howitt (1885 – 1958)

Para não faltar o peixe,

Na mesa do nosso lar,

O pescador bem cedinho,

Sua rede atira no mar.

 

 

Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965





Trova da boa mentira

7 01 2018

 

 

 

Genieten (1929)Ouça, cartão postal holandês, 1929.

 

 

 

Você mente quando diz

que me tem um grande amor;

mas isto me faz feliz:

— Minta sempre, por favor…

 

 

(Agmar Murgel Dutra)





Trova do Ano Novo

2 01 2018

 

 

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“Ano Novo, vida nova”

– reza o dito popular.

Tal fato só se comprova

se você mesmo mudar.

 

 

(Sonia Regina Rocha Rodrigues )





“As prendas de Natal” poesia de José Jorge Letria

8 12 2017

 

 

BRINQUEDOS TRENZINHO, CUBOS, MENINO, ARVORE

 

 

As prendas de Natal

 

José Jorge Letria

 

 

Vêm dos tios, dos avós

em embrulhos coloridos:

são livros e são brinquedos

já há muito prometidos

 

E nunca mais chega a hora

de serem desembrulhados;

enquanto o momento tarda

há meninos acordados.

 

Ao Natal do presépio

deram os reis os presentes

magos, vindos de tão longe

com túnicas reluzentes.

 

O menino, mal os viu,

logo se pôs a pensar:

“Talvez o melhor presente

seja o amor que vou dar.”

 

Chega embrulhado no sono

o presente mais gostoso:

é o colinho dos pais

abrindo a porta ao repouso.

 

E paira no ar a pergunta

que faz o maior sentido:

para se ter um presente,

há que tê-lo merecido?

 

Seja Jesus ou Pai Natal,

nisto hão de concordar:

o que conta nesta vida

é sabermos partilhar.

 

Em: O livro do Natal, José Jorge Letria, ilustrações de Afonso Cruz, editora Oficina do Livro: 2008

 

 





“Chove. É Dia de Natal”, poema de Fernando Pessoa

4 12 2017

 

 

 

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Chove. É Dia de Natal

 

Fernando Pessoa

 

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

 

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

 

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

 

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

 

Em: Cancioneiro, Fernando Pessoa, Cyberfil: 2002 –  página 34