Poema dos insetos, de Lucas Durand

23 03 2020

 

 

987624596Ilustração de Catherine Barnes.

 

 

Poema dos Insetos

 

Lucas Durand

 

Zum, zum, zum, zum

Sou pequenininha

Eu me acho lindinha

E sou tão miudinha

Eu faço cosquinha

Eu gosto de pelo

Detesto o gelo

Estou no camelo

No cão do teu zelo

Até no seu cabelo

Ando saltitante

Dou pulinho constante

Sou quase invisível

É quase impossível

Ver esta coisinha

Tão engraçadinha

Meio nojentinha

Na sua caminha

Cheirosa e limpinha

Ali escondidinha

Esta fofa pulguinha!

 

 

Lucas Durand é o pseudônimo de José Geraldo dos Santos, de Belo Horizonte, MG, escritor e poeta.





Trova do cão

9 03 2020

 

 

 

cachorro latindo, Ilustração de Maurício de SousaBidu latindo, ilustração Maurício de Souza.

 

 

“O cão que ladra não morde”.

Permitam que nesta quadra

eu do provérbio discorde:

sim, não morde… enquanto ladra.

 

(Bastos Tigre)





“Histórias ao vento”, poesia infantil de Adalgisa Nery

2 03 2020

 

 

 

vento no outonoIlustração inglesa, 1950s.

 

 

Histórias ao vento

 

Adalgisa Nery

 

O vento veio correndo

Assoviando, gritando

Que vira a lua nascendo,

Que vira a estrela brilhando,

Que o beija-flor vira voando,

Que o rio vira cantando

E o fruto amarelando.

Que vira o orvalho caindo

Sobre a relva e sobre a flor,

Que vira a abelha zumbindo

Dentro das pétalas em cor,

Que vira a semente no chão,

Nas águas, o peixe mudo,

O pastor tangendo as ovelhas

Cantando por nada e por tudo.

O vento veio correndo,

Assoviando, cantando

Que vira o mais belo mundo:

Uma criança nascendo,

Uma criança brincando,

Uma criança sorrindo, vivendo,

Uma criança cantando.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 185.

 





Trova da fotografia

28 02 2020

 

 

fotografia, máquina, bolinha, retratoBolinha estreia nova máquina fotográfica.

 

 

 

Foto, lembrança marcada

que invade meu coração:

minha infância perpetuada,

num pedaço de cartão.

 

(Dorothy Jansson Moretti)

 





Brincar de trabalhar, poesia de Renato Sêneca Fleury

30 01 2020

 

 

 

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Brincar de trabalhar

 

Renato Sêneca Fleury

 

Um brinquedo de que eu gosto

é brincar de trabalhar.

Pensam vocês, eu aposto,

que isso não é brincar.

 

Sem a gente perceber,

vai brincando e aprendendo.

Com brinquedos a fazer,

coisas úteis vou fazendo.

 

Eu já fiz a minha estante,

um limpa-pés também fiz.

Tenho brincado bastante,

mas trabalhando… quem diz?





Trova da espera

23 01 2020

 

 

 

espera, Henriette Willebeek Le MairIlustração Henriette Willebeek Le Mair

 

 

O tempo passa voando …

Mentira, posso jurar.

Se estou meu bem esperando,

como ele custa a passar!

 

(Lilinha Fernandes)

 

 





A fonte da mata, poesia de Hermes Fontes

14 01 2020

 

 

9c67715aa8448f5a02a8198b928fa1f2--watercolour-techniques-watercolour-tutorialsAutoria desconhecida.

 

 

A fonte da mata

 

Hermes Fontes

 

Depois de longa ausência e penosa distância,

vi a fonte da mata,

de cuja água bebi, na minha infância.

 

E que melancolia

nessa emoção tão grata!

 

Ver — constância das coisas, na inconstância…

ver que a Poesia é uma segunda infância,

e que toda Poesia…

 

Vem da fonte da mata…

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 157.

 

 





O xale da avozinha, poesia de Stella Leonardos

11 01 2020

 

 

 

MARIA VASCO (1879-1965). Contemplando a Paisagem, aquarela, 35 X 25.Contemplando a Paisagem

Maria Vasco  (Brasil, 1879-1965)

aquarela, 35 X 25 cm

 

 

O xale da avozinha

 

Stella Leonardos

 

Ela foi. Não volta mais.

Entre as relíquias saudosas

Seu xale.  Dos orientais.

Mil e uma noites sedosas.

Xale cheio de gazais,

De rouxinóis e de rosas.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ela que não sofre mais

O peso de horas penosas,

Ela que amava os gazais

E as noite maravilhosas

— Quem sabe descansa em paz

Entre os rouxinóis e as rosas.

 

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 65

 

 

 





Soneto XXXVIII de Guilherme de Almeida

6 01 2020

 

 

 

Pierre Brissaud (1885-1964 - FrenchIlustração de Pierre Brissaud (França, 1885- 1964)

 

Soneto XXXVIII

 

Guilherme de Almeida

 

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia, de papel, toda uma armada,
e estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino.
ao longo das sarjetas, na enxurrada…

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são de papel, são como aqueles,

perfeitamente, exatamente iguais…
_Que meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!





Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de Luiz Vaz de Camões

30 12 2019

 

 

 

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Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

 

Luiz Vaz de Camões

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

 

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.