Vendo num retrato antigo
meu rosto arteiro e bem liso,
concluo: rugas, amigo,
é quanto custa o juízo.
(Maurício Cardoso Faria)
Vendo num retrato antigo
meu rosto arteiro e bem liso,
concluo: rugas, amigo,
é quanto custa o juízo.
(Maurício Cardoso Faria)
Visitas, meu camarada,
sempre dão prazer à vida:
não sendo quando à chegada,
será, por certo, à saída…
(Pedro Uzzo)
Perdoa se fui ousado…
Não estou arrependido!
Quem ama, não tem pecado,
pecado… é o tempo perdido!
(Alba Helena Corrêa)
Mui decentes eu não acho
teus vestidos minha prima:
são altos demais em baixo,
são baixos demais em cima!
(Belmiro Braga)
Passarinho, o teu encanto
é teu canto de alegria;
ai de mim que quando canto,
canto só por nostalgia…
(Izo Goldman)

Olavo Bilac
Ano-Bom. De madrugada,
Bebê desperta, e, assustada,
Avista um vulto na cama.
Que será? Que medo! E, tonta,
Eis que Bebê se amedronta,
Chora, grita, chama, chama…
Mas, quando se abre a cortina,
Quando o quarto se ilumina,
Bebê, de pasmo ferida
Vê que o medo não é justo:
Pois a causa de seu susto
É uma boneca vestida.
Que linda! é gorda e corada,
Tem cabeleira dourada
E olhos cor do firmamento…
Põe-na no colo a criança,
E de olhá-la não se cansa,
Beijando-a a todo o momento.
Nisto a mamãe aparece.
Como Bebê lhe agradece,
Com beijos, risos e abraços!
— Porém, logo, de repente,
Diz à mamãe, tristemente,
Prendendo-a muito nos braços:
“Mamãe! como sou ingrata!
“Com tantos mimos me trata,
“Tão boa, tão dedicada!
“Dá-me vestidos e fitas,
“Dá-me bonecas bonitas,
“E eu, mamãe, não lhe dou nada!…
“Tolinha! (a mãe diz, num beijo)
“As festas que eu mais desejo,
“Ó minha filha, são estas:
“A tua meiga bondade
“E a tua felicidade…
“Não quero melhores festas!”
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 98-100
Não te desvies da estrada,
buscando atalhos bisonhos;
a vida não vale nada
se sufocares teus sonhos…
(Ercy Maria Marques de Faria)
Partir é quase morrer.
É deixar na despedida
um pouco do próprio ser
e muito da própria vida…
(Izo Goldman)
O casamento, [A boda], 1792
Francisco de Goya (Espanha, 1746 -1828)
óleo sobre tela, 269 x 396 cm
Museu do Prado
Reynaldo Valinho Alvarez
Diante de Goya, no Museu do Prado,
vejo sombras que as sombras circundantes
parecem reencarnar. Voltando à rua,
vou para o centro velho. Nestes rostos
que me fitam ou não, há retrarados
do mesmo Goya. Sombras tão goyescas
quanto as sombras que vi entre outras sombras.
Assombra-me o prodígio ao sol ardente
de uma Espanha estival. Que liame estreita
os vínculos dos tempos num só tempo?
Que força une as cadeias com que Cronos
ligou as mãos de tantos entre os séculos?
Agora encaro a praça e vou contando,
como os níqueis do bolso, tantos Goyas.
Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.59
NOTA: esta postagem é uma homenagem a Reynaldo Valinho Alvarez que faleceu esta semana, aos noventa anos. Um dos poetas contemporâneos de que mais gosto, com provam as diversas poesias de alguns de seus livros que possuo.