Trova do furto

26 04 2023
Ilustração, Marcel Garbi (Argentina, radicado em Londres, contemporâneo)

 

Ao beijar a tua mão,

que o destino não me deu,   

tenho a estranha sensação

de estar roubando o que é meu…

 

(Durval Mendonça)





Trova da liberdade

18 04 2023
Cascão lendo, ilustração  Maurício de Sousa.

 

 

 

Disseram que Tiradentes

fora apenas sonhador,

mas o sonho deu sementes:

e as sementes deram flor!

 

(Durval Mendonça)





Outono: uma trova

3 04 2023
Ilustração, Elsa Beskow.
 
 
 
 
 
Folhas multicoloridas
 
lembram peças de artesão,
 
pois no outono, desprendidas,
 
formam tapetes no chão
 
 
(Alba Helena Corrêa)




Canto do regresso à Pátria, Oswald de Andrade

30 03 2023

Viaduto Santa Ifigênia

José Maria dos Reis Junior (Brasil, 1903-1985)

óleo sobre madeira, 20 x 18 cm

.

Canto do regresso à pátria

.

Oswald de Andrade

.

Minha terra tem palmares

Onde gorjeia o mar

Os passarinhos aqui

Não cantam como os de lá

 

Minha terra tem mais rosas

E quase que mais amores

Minha terra tem mais ouro

Minha terra tem mais terra

 

Ouro terra amor e rosas

Eu quero tudo de lá

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá

 

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para São Paulo

Sem que veja a rua 15

E o progresso de São Paulo.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p.18.





Trova da produção

24 03 2023
Ilustração,Walt Disney Studio.

Como o sino que não soa,

como a lâmpada sem luz,

de que vale uma pessoa

que nada de útil produz?

(J. B. Mello e Souza)





A um moribundo, poesia de Florbela Espanca

22 03 2023

Outono na Bavária, 1908

Wassily Kandinsky (Rússia-França, 1866-1944)

óleo sobre papelão, 33 x 45 cm

Centro Georges Pompidou, Paris

A um moribundo

 

Florbela Espanca

 

Não tenhas medo, não! Tranqüilamente,

Como adormece a noite pelo Outono,

Fecha os teus olhos, simples, docemente,

Como, à tarde, uma pomba que tem sono…

A cabeça reclina levemente

E os braços deixa-os ir ao abandono,

Como tombam, arfando, ao sol poente,

As asas de uma pomba que tem sono…

O que há depois? Depois?… O azul dos céus?

Um outro mundo? O eterno nada? Deus?

Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, ó moribundo?

– Seja o que for, será melhor que o mundo!

Tudo será melhor do que esta vida!…





Um encontro delicioso…

21 03 2023

Chá da tarde, 1935

Louise Visconti (França-Brasil, 1882-1954)

aquarela sobre papel

 

 

ENCONTRO DELICIOSO
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Ontem, dia 20 de março, início do outono eu me encontrei com o Grupo de Leitura Preciosa, para um bate-papo. Eles me deram a honra de ter meu livro de poesias como leitura do mês de março. E foi um encontro muito bom. Cada integrante do grupo selecionou uma poesia de que tivesse gostado e leu para o grupo. Mais tarde repetiram a façanha. E novas observações foram feitas.
 
Fiquei encantada. Sendo este meu primeiro livro, de poesias, há tempos marco o nome de quem gostou, do que, no meu próprio volume. Essa tem sido uma experiência incrível, porque pessoas marcam coisas muito diferentes, e até ontem, ninguém havia considerado aquelas poesias, que considero as que mais me movem, as que mais me tocam. Mas no Grupo de Leitura Preciosa, encontrei essas pessoas.
 
De qualquer jeito, é uma honra inigualável ver tantas pessoas fazendo uma leitura próxima do texto e tantas observações pertinentes serem levantadas.
 
Foi uma honra, Rose Nobre. Muito obrigada.
 
 
 




Trova dos sonhos

15 03 2023
Capa da revista Saturday Evening Post para o Domingo de Páscoa, 1905, por J. C. Leyendecker.

 

A morte não é tristeza,

é fim… É destinação…

Tristeza é ficar na vida

depois que os sonhos se vão…

 

(Adelmar Tavares)





A borboleta azul, poesia infantil de Cleonice Rainho

27 02 2023

 

 

A borboleta azul

 

Cleonice Rainho

 

Nosso jardim é uma festa

de borboletas:

pequenas e grandes,

listradas,

amarelas e pretas

e uma pintadinha

que é uma graça.

 

Mas a azul, azulzinha,

a preferida,

é como se fosse

minha filhinha:

vi-a nascer da lagarta,

virou crisálida,

depois borboleta.

 

Quando voou

pela primeira vez

bati palmas: Vivô!!!

 

Voa e volta leve,

azul, azulzinha

e pousa num cacho

de rosas brancas

sua casinha.

 

Às vezes se ajeita,

mansinha,

tomando a forma

de um coração.

 

Seu corpo sedoso,

macio,

parece vestido

com pano do céu.





Passa uma borboleta, poesia de Alberto Caeiro

23 02 2023
Ilustração Hilda T. Miller

 

Passa uma Borboleta

 

 

Alberto Caeiro

 

 

 

Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm cor nem movimento,

Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

 

 

 

 

Em: O Guardador de Rebanhos, Fernando Pessoa, [Poemas de Alberto Caeiro], 10ª edição, Lisboa, Ática:1993, p. 64