Ó rosa, nobre e bonita,
que encantamento trazeis!
Em vossa beleza, habita
a majestade dos reis!
—
(Eno Teodoro Wanke)
Ó rosa, nobre e bonita,
que encantamento trazeis!
Em vossa beleza, habita
a majestade dos reis!
—
(Eno Teodoro Wanke)
Daniel Penna ( Brasil, 1951)
óleo sobre tela/ sobre madeira
18 cm x 24 cm
A .D. Olga
Ricardo Gonçalves
Arrepanhando o vestido
De chita azul, nhá Carola,
Põe feijão na caçarola
Para o almoço do marido.
Dorme um cachorro estendido
À porta da casinhola;
Gritam galinhas de Angola
No terreiro bem varrido.
Enquanto chia a panela,
A moça vai à janela,
A ver se o marido vem.
Mas entra logo zangada
Porque na volta da estrada
Não aparece ninguém.
—
Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968
—
—
Ricardo Mendes Gonçalves (SP, SP 1893 – SP, SP 1916) pseudônimos: Ricardo Gonçalves, Bruno de Cadiz, D. Ricardito. Poeta, tradutor, jornalista, diplomado em Direito (1908), político, membro grupo Minarete. Trabalhou para diversos jornais entre eles o Comércio de São Paulo e Estadinho. Foi também repórter do jornal O Correio Paulistano.
Obras:
Ipês, 1922
Bambu ao vento, aquarela chinesa.
Resiste ao vento o pinheiro,
e a ramaria espedaça;
mas o bambu, mesureiro,
dobra o dorso, e o vento passa.
(Archimino Lapagesse)
Cartão Postal de Ano Novo, década de 1930, França.
A lua faceira e bela,
vestindo um manto de prata,
debruçou-se numa nuvem
para ouvir a serenata.
( Joanna D’Arc Pereira)
Cheng Minsheng ( QinDu, China, 1943)
Aquarela, tinta, sobre papel.
25 cm x 25 cm
Coleção particular.
Alegria de menina que gosta de leite de cabra
Afonso Schmidt
Quando acorda a corruíra do pessegueiro,
eu acordo também;
é a hora dourada em que passa o cabreiro
com suas cabrinhas tão bonitinhas…
São cerca de quarenta mas, contando bem,
talvez não passem de trinta…
A pintada, aquela que vai correndo na frente
e que não tem medo de gente
é a que leva o guizo alegre que tilinta.
As outras vão correndo atrás,
vão pulando,
vão chifrando,
vão berrando
bé, bé, bé…
Eu pego no copo e vou para o portão
chamar o cabreiro:
— Seu cabreiro, me tire este copo de leite,
mas quero daquela cabrinha malhada
que leva na boca uma folha dourada.
E o cabreiro chama a cabrinha:
bit, bit, bit…
Põe-se a tirar o leite:
puxa que puxa,
espicha que espicha,
escorrupicha…
Mamãe , que me espia sob o pé de brincos-de-princesa,
me fala:
— Menina que gosta de leite de cabra vira cabrita!
(mas isso é bobagem, ninguém acredita).
Depois o cabreiro e suas cabrinhas vão
pelas ruas do bairro, encharcadas de sol.
Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Maria da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968.
Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista. Como jornalista trabalhou para A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro. Para Folha da Noite, Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo. Neste último trabalhou de 1924 até 1963. Recebeu o prêmio da revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe. A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963. Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Obras:
A Árvore das lágrimas – 1942
A Datilógrafa
A Marcha -1941
A Nova conflagração -1931
A Primeira viagem – 1947
A Revolução brasileira – 1930
A Sombra de Júlio Frank – 1936
A Vida de Paulo Eiró – 1940
Ao relento -1922
As Levianas
Aventuras de Indalécio
Bom tempo -1956
Brutalidade – 1922
Carantonhas – 1952
Carne para canhão – 1934
Colônia Cecília – 1942
Curiango – 1935
Evangelho dos livres -1919
Garoa – 1931
Janelas abertas – 1911
Lembrança
Lírios roxos – 1904
Lua nova
Lusitânia – 1918
Menino Felipe -1950
Miniaturas – 1905
Mirita e o ladrão – 1960
Mistérios de São Paulo – 1955
Mocidade – 1921
O Assalto – 1945
O Canudo – 1963
O Desconhecido
O Dragão e as virgens – 1926
O Enigma de João Ramalho – 1963
O Passarinho verde
O Que era proibido dizer – 1932
O Reino do céu – 1942
O Tesouro de Cananéia – 1942
Os Boêmios
Os Impunes – 1923
Os Impunes – 1924
Os Melhores contos de Afonso Schmidt – 1946
Pirapora -1934
Poesia – 1945
Poesias -1933
Retrato de Valentina – 1948
Saltimbancos – 1950
São Paulo dos meus amores -1954
Somos todos irmãos – 1949
Tempos das águas – 1962
Zamir
Zanzalás – 1938
Dilan Camargo
Senhora Dona Vassoura
Elegante Dama Loura
ao vê-la assim tão linda
minha tristeza se finda.
Vamos dançar uma valsa?
Pra poder acompanhá-la
este jovem se descalça
com medo de pisá-la.
Deixe enlaçar, dançarina
a sua cintura fina.
Deixe tomar, bem sensíveis
os seus braços invisíveis.
Ao soar a melodia
surpresa todos verão:
rodopia, rodopia
um belo par no salão.
Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007
—
Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — ( Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.
Obra:
Em mãos, poesia, 1976
Na mesma Voz, poesia, 1981
Sopro nos Poros, poesia, 1985
O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989
Rebanho de Pedras, poesia, 1990
O Vampiro Argemiro, poesia
Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997
Poesia e Cidade, poesia, 1997
Bamboletras, poesia, 1998
O tempo começa no coração, poesia, 1999
A Fala de Adão, poesia, 2000
Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001
Ilustração Maurício de Sousa.
Dilan Camargo
Mamãe me empresta tua bolsa
teu colar e teus sapatos
depois me passa batom
que vou tirar um retrato.
Deixa eu me olhar no espelho
deixa só por um instante.
Quero batom mais vermelho
quero um colar mais brilhante.
A sala é uma passarela
requebro e faço proeza
sou artista de novela
a rainha da beleza.
Será que o sonho termina
quando desço dos sapatos?
Será que baixa a cortina
quando chega o fim do ato?
Em: Poesia fora da estante, coord. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Editora Projeto:2007
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Dilan Deibal D’ Ornellas Camargo — (Itaqui, RS, 1948) advogado, professor, escritor, poeta, teatrólogo e letrista.
Obra:
Em mãos, poesia, 1976
Na mesma Voz, poesia, 1981
Sopro nos Poros, poesia, 1985
O Embrulho do Getúlio, poesia infantil, 1989
Rebanho de Pedras, poesia, 1990
O Vampiro Argemiro, poesia
Eu pessoa, pessoa eu, poesia, 1997
Poesia e Cidade, poesia, 1997
Bamboletras, poesia, 1998
O tempo começa no coração, poesia, 1999
A Fala de Adão, poesia, 2000
Antologia do Sul – Poetas Contemporâneos do RS, poesia, 2001
Borboleta multicor
tu me lembras, ao passar,
um bilhetinho de amor
dobrado em dois, a voar…
(J. G. de Araújo Jorge)
Águia em vôo
Aquarela chinesa
A postagem de um poema de Vicente Guimarães neste blogue, João Bolinha virou gente, lembrou à leitora Vânia um poema que ela precisou decorar para a escola, chamava-se A morte da águia. E ela me pediu que se eu o conhecesse que lhe mandasse esse poema, pois não se lembrava de todas as estrofes.
De fato, o poema que conheço com este título é um antigo e belíssimo poema, bastante longo, de Luís Guimarães. E aqui está para nós todos nos deliciarmos.
A morte da águia
Luís Guimarães
A bordo vinha uma águia. Era um presente
Que um potentado, — um certo rei do Oriente,
Mandava a outro: — um mimo soberano.
Era uma águia real. Entre a sombria
Grade da jaula o seu olhar luzia,
Profundo e triste como o olhar humano.
Aos balanços do barco ela curvava
Ao níveo colo a fronte que cismava…
E enquanto as ondas túrbidas gemiam,
Ao som do vento – em fúnebres lamentos
Ela pensava nos longínquos ventos
Que do Himalaia os píncaros varriam.
Fora uma infame e traiçoeira bala,
Que, do régio fuzil negra vassala,
Invisível – uma asa lhe partira:
Cheia de luz, tranqüila, majestosa,
Dobrando a fronde branca e poderosa,
Aos pés de um rei a águia real caíra.
Os bonzos vis, proféticos doutores,
Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,
Que um venenoso bálsamo tentava
Apaziguar em vão, — diziam rindo:
“Não há no mundo exemplar mais lindo:
Vale um império!” – E a águia agonizava.
Um dia, enfim, o animal valente
Resistindo aos martírios, — largamente
Respirou a amplidão. A asa possante
Abrir tentou de novo. Aberta estava
A jaula colossal que o esperava:
Forçoso era partir. Desde este instante,
A águia sombria e muda e pensativa,
Solene mártir, vítima cativa,
Terror dos vis e símbolo dos bravos,
Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa
Longe, porém, da corte vergonhosa
Desse covarde e baixo rei de escravos.
Pediu a morte a Deus, o cataclismo,
As convulsões elétricas do abismo,
As batalhas finais! Morrer num grito
Vibrante, imenso, heróico, soberano,
E fremente rolar no azul do Oceano,
Como um titã caído do infinito.
Morrer livre, cercada de vitórias,
Com suas asas – pavilhão de glórias –
Inundadas da luz que o Sol espalha:
Ter o fundo do mar por catacumba,
As orações do vento que retumba,
E as cambraias da espuma por mortalha.
Entanto, melancólica, tristonha,
Como um gigante mórbido que sonha,
Fitava, às vezes, o revolto oceano,
Com esse olhar nublado e delirante,
Com que saudava a César triunfante
O moribundo gladiador romano.
O comandante – urso do mar bondoso —
Disse um dia ao escravo rancoroso,
Ao carcereiro estúpido e inclemente:
“Leve-a ao convés. Verá que esse desmaio
Basta para apagá-lo um brando raio
Do largo Sol no rúbido oriente.”
Subiu então a jaula ao tombadilho:
Do nato dia ao purpurino brilho
Salpicava de luz o céu nevado…
E a águia elevando a pálpebra dormente
Abriu as asas ao clarão nascente
Como as hastes de leque iluminado.
O mar gemia, lôbrego e espumante,
Açoitando o navio; — além – distante,
Nas vaporosas bordas do horizonte,
As matutinas névoas que ondulavam,
Em suas várias curvas figuravam
Os largos flancos triunfais de um monte.
“Abre-lhe a porta da prisão,” ( ridente
O comandante disse ) “Esta corrente
Para conter-lhe o vôo é mais que forte!
Voar! pobre infeliz! causa piedade!
Dê-lhe um momento de ar e liberdade!
Único meio de a salvar da morte.”
Quando a porta se abriu, — como uma tromba,
Como o invencível furacão que arromba
Da tempestade as negras barricadas,
A águia lançou por terra o escravo pasmo,
E desprendendo um grito de sarcasmo,
Moveu as longas asas espalmadas.
Pairou sobre o navio — imensa e bela –
Como uma branca, uma isolada vela
A demandar um livre e novo mundo;
Crescia o Sol nas nuvens refulgentes,
E como um turbilhão de águias frementes,
Zunia o vento na amplidão, – profundo.
Ela lutou, ansiosa! Atra agonia
Sufocava-a. O escravo lhe estendia
Os miseráveis e covardes braços;
Nu o oceano ao longe cintilava
E a rainha do ar, em vão, buscava
Onde pousar os grandes membros lassos.
Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,
Alçando mais os vôos, e afogando
Na luz do Sol a fronte alvinitente,
Ébria de espaço, ébria de liberdade,
Como um astro que cai da imensidade,
Afundou-se nas ondas de repente.
—
Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (RJ 1847 – Lisboa 1898), advogado, jornalista, ministro, diplomata, poeta, romancista, teatrólogo. Estudou no Colégio Calógeras em Petrópolis e cursou as faculdades de Direito de São Paulo e do Recife. Colaborador dos periódicos A reforma, A república, O correio paulistano, Imprensa Acadêmica de São Paulo, Gazeta de Notícias. Membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia de Belas Artes do Chile, membro da Academia do Quiriti em Roma, membro da Arcádia Romana, membro da Sociedade de Geografia Italiana, oficial da Ordem da Rosa, oficial da Ordem de Cristo e da Ordem de São Tiago, cavaleiro da Ordem Romana do Sepulcro e da Ordem de São Gregório Magno.
Obra:
A Alma do outro mundo, 1913
A Carlos Gomes, 1870
A entrada no céu, 1882
A família Agulha, 1870
A morte, 1882
André Vidal, séc. XIX
As Jóias indiscretas, séc. XIX
As Quedas fatais, séc. XIX
Ave Estela, 1865
Contos sem pretensão, 1872
Corimbos, 1866
Ernesto Couto, 1872
Filigranas, 1872
Lírica, 1880
Lírio Branco, 1862
Mater dolorosa, 1880
Monte Alverne, séc. XIX
Noturnos, 1872
O Caminho mais curto, séc. XIX
Os Amores que passam, séc. XIX
Pedro Américo, 1871
Um Pequeno demônio, séc. XIX
Uma Cena contemporânea, 1862
Valentina, séc. XIX
Ilustração, Maurício de Sousa.
No dia Quinze de Outubro,
Eu quero de coração,
Abraçar a minha Mestra
Em sinal de gratidão.